quinta-feira, abril 07, 2011

bitter sweet a bit sweeter


sorrio. e canso-me. vai-te embora, não antes abraça-me, deixa-me, gosto tanto de ti, irritas-me, eu estou bem, mas tenho medo, perco a paciência, e sinto-me envergonhada, quase que te odeio, arrelio-me

e sobe pela espinha a raiva enquanto fazemos a escalada. e ninguém precisa de ouvir, nem
ninguém precisa de falar, fazemos sozinhos o diálogo, a conversa, falamos connosco e, connosco apenas, perdemos a paciência,
choramos, fazemos a fita, batemo-nos pelo chão fora, magoamo-nos

para depois cessar tudo. emudecemos,

desce pela espinha o cansaço do desespero, não queremos chatear ninguém, não queremos ser chateados,
nem sequer queremos escalar caramba!
queremos paz, só isso, paz. sem dúvidas, preocupações, discussões.
sem perder as estribeiras, sem perder a paciência. sem acidular a voz com o que é tão somente teoria, nem isso, hipótese, incerteza, aquilo que deixamos correr no pensamento, pelo corpo fora. é um filme
com mirabolantes argumentos que a nossa cabecinha tece e nem sequer tem que ser baseado em factos reais, o que são os factos, não quero saber dos factos, não há factos, apenas interpretações.
por isso não quero, quero paz, isso, só isso.

cansámo-nos. hoje, estamos fartos. queremos ver, ouvir, sentir a realidade - nem sequer sabê-la, queremos apenas o suficiente para
viver isto e isto mesmo. tac - tac.

hoje.

amanhã quererei algo no meio. ou a 2/6. depois? não sei. mas
é um ciclo.


(somos tão múltiplos, tão incertos, tão frágeis e improvavelmente mas tão verdadeiramente fortes que se não tivéssemos a mesma face todos os dias não sei como seria. como nos reconheceríamos uns aos outros quando mudamos o padrão. porque somos constantemente surpreendidos. por nós, e pelos outros. mas
que padrão? do que somos em cada contexto? do que somos com cada pessoa? do que somos connosco?
se eu mudar, deixo de ser eu? e até onde posso mudar continuando a ser eu?

afinal, se em nós pode ser tudo, como conseguir definir pessoas?)

segunda-feira, abril 04, 2011

anti-epicurismo


'The world needs anger. The world often continues to allow evil because it isn't angry enough.'*



(*Bede Jarrett)


the thin [but deep] red line


" (...) e ocorreu-me que não há diferença entre os homens, de raça ou de inteligência, tão marcada e profunda como a que separa os enfermos dos saudáveis. (...)" *


mas enquanto passamos a barreira, é tudo tão inaudível e indefinido.





*(F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby, New York: Scribner, 1925)


terça-feira, março 29, 2011

«No man's error becomes his own Law, nor obliges him to persist in it. »

         

Morreu Susan Atkins, uma das "raparigas de Charles Manson" ... Depois da sua morte, o marido escreveu no site que mantém sobre ela que "ninguém na Terra trabalhou tão duramente como Susan para corrigir um erro incorrigível".

(até onde podemos errar?)

        

Adão e Eva


De há uns anos para cá que reparo neste facto. A resistência das pessoas em mudar de estado. Óbvio, dir-me-ão alguns: poupança de energia. De facto, e num exemplo muito concreto, tendemos a manter os guarda-chuvas abertos quando pára de chover. E isto é uma poupança de energia, certo? Pois. Fechar o guarda-chuva implica inovação, mantê-lo aberto só implica rotina. E um braço erguido com músculos contraídos na continuidade de um tempo. Poupança de energia? (Bah…).

Parece-me que este facto reúne não só fragmentos de inércia, ou de preguiça, mas também outro tipo de evidência: de facto, muitas vezes só damos conta que parou de chover quando olhamos para o sujeito ligeirinho que nos ultrapassa. E o que tem este sujeitinho de especial? É que este sujeitinho passeia-se já de guarda-chuva a balançar no braço (i.e. fechado). Nesse momento, e nesse exacto momento, damos conta que:

- Oh, parou de chover! Oh, ele já fechou o chapéu! Oh, e eu não!

(dito por outras palavras, a consciência do próprio através da consciência do outro. Ou seja, o que acontece é uma actualização da revelação do jardim do Éden: - Oh, estás nu! Ah! E eu também! – simplesmente, agora, numa situação de desigualdade: Ah, e eu não!)

E o que acontece a partir daqui? Isso é outra questão. É que a comparação com o outro tem muito que se lhe diga. De facto, quando vemos um sujeitinho a passear de chapéu a balançar, fechado, percebemos que (a) o outro tem o chapéu fechado, e (b) nós temo-lo aberto, que (c) ou ele é parvo, (d) ou nós estamos desactualizados. Cedo nos apercebemos que, afinal, (e) parou mesmo de chover e que (f) o outro está já melhor adaptado à situação. Logo, inevitavelmente, (g) sentimo-nos ridículos.

E o que fazemos quando nos sentimos assim, (g) ridículos e (d) desactualizados? O outro dia, num cenário de chuva-molha-parvos, vi passar por mim pessoal-do-chapéu-já-fechado. Confronto traz consciência, consciência traz decisão – fechei o chapéu. Num ápice, passa por mim um inerte-ainda-com-o-chapéu-aberto. Olhou-me, catrapiscou-me o chapéu-já-fechado, e prosseguiu. Sem fechar o chapéu.

Pasmei. Não pode ser, isto vai contra a hipótese! E até poderia não ser, e poderá não ser assim mas, então, sorrateiro, depois de passar por mim e de passar a dar as suas costas às minhas, eis que o senhor fecha o chapéu [tive que espreitar... ...]. Hmmmm!


(parece-me a mim que há todo um enigma em torno desta questão de fechar ou manter-aberto o chapéu. e a olhar para as coisas, a tentar vê-las, isto é acaba por ser uma revisão de vida: uns andam toda a vida de chapéu aberto, debaixo dele, cegos por ele, sem notar que estão desactualizados. Outros insistem em fechar o chapéu, Chova não chova, é sempre ridículo e eu aguento nevões. E molham-se. Outros, fecham, abrem, tornam a fechar, e não necessariamente em consonância com a queda da chuva. Outros ainda abrem-porque-o-outro-abriu – fazem porque o outro fez, avançam porque o outro avançou - mas, cegos pelo orgulho, insistem em manter-se na sua, em não remediar o feito, em não fechar o chapéu, embutidos numa vergonha – essa sim, ridícula - só para não terem que admitir que outro, afinal, está agora melhor adaptado – leia-se, um pouco mais correcto - que nós. E é esta parte da natureza humana que me angustia: quando não nos permitimos o arrependimento só porque não queremos vergar o orgulho. Porque não é o conhecimento de que estamos nus que nos afasta do Éden, pelo contrário, é a recusa em admitirmos que o estamos.)


[Agosto, 2008]


segunda-feira, março 28, 2011

mirabolante


às vezes, enquanto leio artigos em que os autores, cientistas, interpretam os resultados obtidos a partir de análises estatísticas confusas baseados em técnicas que se baseiam em sistemas que têm ainda tanto de desconhecido, em análises em que é sempre possível dar-lhe a volta, às vezes penso que É engraçado como a mente humana é capaz de tirar tantas ilações. Engraçado engraçado é que tudo isto não significasse nada, e que nós passássemos as nossas vidinhas em torno de coisas que não são nada. ou que, pelo menos, não são nada do que nós pensamos que são, acabando nós a calcular a vida por cima disto tudo que não é senão vago, escasso, incerto, múltiplo e hipotético. como a ciência.

(tantas horas passo de cabeça enfiada num ecrã plano, a perder dias intermináveis de sol e chuva e vento na face, e um mar enorme e a areia nos pés, a relva fresquinha e pontiaguda a fazer cócegas, os músculos a correr atrás de uma bola, os músculos a estirar enquanto correm, o sabor das coisas no topo de uma montanha, os banhos gelados no mar de inverno, o sol a cair por entre as árvores e as sombras a crescer nos campos de perder a vista. tanta coisa que se perde que às vezes penso...

valerão a pena todas as horas aqui?)

segunda-feira, março 21, 2011

impressões a cor




com o devido respeito pela espécie e um pedido de desculpas aos anormais [leia-se, fora da norma], dá-me a impressão que, ainda que iluminados pela benesse da inteligência, aqui na terra não passamos de uns GRANDESSÍSSIMOS animais, tamanhas são as atrocidades.
aliás, tenho a dizer que aquilo a que se chama de inteligência, se de facto se aplica aos espécimes, só tende a piorar a coisa.

(inquieta-me. inquieta-me que a luz do sol por entre as nuvens, como se duma benção se tratasse, ilumine nada mais nada menos que estas cabeças. e ninguém me tira da minha que há uma conspiração à escala universal para exterminar a praga em que nos tornámos.)


sexta-feira, março 18, 2011

Penafiel - Porto, serviço urbano


sentei-me. tirei o caderno. abri o caderno. pousei o caderno. (nunca apetece ler nas viagens relativamente curtas de comboio). olhei para fora. olhei para dentro. olhei em volta. vi.

ela, larga e de braços rechonchudamente cruzados sobre si, atravanca o banco. tem os cabelos cinza escuro brilhantemente puxados para trás num pequenino rabo de cavalo. ao lado, ele, o presumível filho, senta-se descaído no banco. puto dos seus trinta, tem nas mãos um leitor de música e na cabeça um boné de pala. ela mostra impaciência, inquieta-se, rumina pensamentos, lançando-lhe olhares furtivos como quem verifica acções. ele, de fones nos ouvidos, rígido que nem pedra, ignora.

ela olha para ele, desanima, remexe os pensamentos e escolhe o que mais a incomoda. ele não ouve, ela repete, queixa-se do som daqueles malditos fones. desespera. ele dá enfim sinais de vida. mexe no mp3 (ou coisa que o valha), deve baixar o som. ela repete. fala da prenda do primo. de quando lhe a deveriam dar. ele, ainda sem sinais de vida inteligente, não responde. mas lança, alguns segundos depois, a sua opinião de adulto a caminho da adolescência: 'oh! então quando foi os meus anos eu também abri antes!'. ela ouve. risposta. desanima. não se entendem. depois,

silêncio.

de rompante, com brados carregados de pronúncia-do-norte,

ele, grave, explodindo gafanhotos, mas sem mexer um cabelo:
- faltam 8!
ela, estrebuchando e num misto de 'surpresa' e 'lá-vem-mais-do-mesmo':
- 8? 8 quê?
ele, como que constatando o óbvio:
- paragens!
ela, no tom mais desesperado que lhe conheci:
- ai balha-me deus! então mas tu estás agora a contar paragens?!
ele, gafanhotando de orgulho (mas ainda sem mexer um cabelo):
- de vez em quando conto!

(devia ser, não sou. adepta de todo e qualquer transporte público. frequento por necessidade, por desespero de causa. prefiro o pé. prefereria também o carro próprio, símbolo de independência. pronto, de comodismo. não tenho. não uso. uso o comboio. gosto do comboio. simpatizo com o comboio. só não suporto autocarros. frequento por pressa, por preguiça. e, repetidamente, arrependo-me. sempre. mas então, dentro, encharcada nos bafos quentes da manhã, no cheiro ao ácido dos dentes, nos suores das corridas breves, na água dos guarda-chuvas; depois de longos períodos de espera na paragem, de longos períodos de espera na estação; depois das impaciências, dos apertos para entrar, dos empurrões para sair, aperece-me sempre um marmanjo que me rende a viagem. e pergunto-me - respasto-me até a pensar que! - se andasse sempre pelo meu pé em viagens solitárias, ou enfiada dentro de um carro, como seria possível contemplar tão longa e ricamente estes presentes do quotidiano?)


[Julho, 2009]

quarta-feira, março 16, 2011

Fernando José



"... estas palavras, ditas da forma serena mas firme..."

eles tinham a solução. eles eram a solução. o início. mas foram só um instante. quem quis ficou e, deixando, corrompeu-se. quem quis, partiu. deu o mote e prosseguiu. porque depois da conquista os abutres retalham o corpo, sedentos.

(deve ser triste de ver.)

continuo a achar que não há solução para isto. porque não há solução para a natureza humana. digam o que disserem. o que acontece a homens como este? eu digo: porque são íntegros, fazem o que têm a fazer e, depois, retiram-se. acho que sabem que não podem ficar lá, acomodados, durante muito tempo. que o envenenamento do Poder vem matreiro, aos poucos. que depois lhes sobe o estado febril. que depois mudam, mudam os princípios, deixando intactas as opiniões. pena, porque se os princípios são bons, deviam ser mantidos. serem princípios, meios e fins.

não lhe encontrei outra entrevista. para quê outro exemplo? ele já o deu. há os homens que se enrodilham no pensamento e os homens que o usam para a acção. este homem, se teve medo, não lhe deu espaço de manobra. nem deu espaço à dúvida. "Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!"

(eu fiquei. não sei bem é onde.)


N* = N - {0}



foto e arte: s.

o problema não é ser-se mau em algumas coisas.
o problema é nao se ser bom em coisa nenhuma.


(é que bastava só uma coisinha para nos entreter a auto-estima. menos que isso, por favor, não. não há mais-ou-menos nestas coisas, ou casas decimais, ou aproximações: o que quer que sejamos, queremos sê-lo [por] inteiro.)


terça-feira, março 15, 2011

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imagine-se uma conversa entre duas pessoas:

- então preciso saber isso...
- ok, pronto. deixa se me lembro.
- é importante...
- está bem, espera... ah!
- diz
- já me lembro! foi o

súbito!, uma vala imensa abre-se perante os seus pés, fazendo com que a pessoa com quem estamos a conversar desapareça num piscar de olhos.
hm...
uma vala? sim.
imensa? exacto.
mas isso é:
pouco provável? certo...
estúpido? um pouquinho.
pois. mas é exactamente a isso que me soa quando uma conversa electrónica fica a meio sempre que a internet cai.

segunda-feira, março 14, 2011

e que se tenha uma atitude diferente, que não encaixe?! que se batam por ela, e não se deixem simplesmente levar pelas massas.


isto abaixo, daqui.

"Um 'e-mail'

Uma leitora, Ana Caraballo, enviou-me um e-mail que cito com autorização.

"Trabalho a recibos verdes, e não vou protestar pelo direito a um contrato de trabalho, nem pelo fim dos recibos. Não quero nada disso. Quero continuar a trabalhar a recibos verdes, pasme-se. Quero ser freelancer, que loucura! Quero ser dona da minha reforma, do meu tempo, do meu nariz, quero ser dona daquilo que ganho com o meu trabalho e não andar a sustentar este Estado gordo e despesista. É que ninguém se lembra que a precariedade pode ser o facto de nos extorquirem aquilo que ganhamos sem qualquer ajuda do Estado. Não quero um lugar cativo de onde não posso ser despedida, faz-me bem ser competente e dar o meu melhor, mantém-me actualizada, mantém-me viva! Não quero subsídios de férias. Quero gerir aquilo que ganho de modo a fazer as minhas férias com os meus próprios recursos. O drama é que com esta carga fiscal não consigo gerir aquilo que ganho. Como é que se explica que quem tem menos direitos tem mais deveres? E aqui escreve-lhe uma pessoa que não quer essas porcarias desses direitos. Quero uma redução dos deveres. Quero o Estado o menos possível na minha vida. Não quero nada deles e quero que precisem o menos possível de mim. Nunca votei em nenhum deles."

Ao que sei, a Ana é "jovem". Ao que sei, a Ana participou na manifestação dos ditos "à rasca". Ao que sei, a posição da Ana é desalmadamente minoritária num desfile dominado pelo mito reaccionário da "estabilidade", apropriado pela extrema-esquerda e enfeitado, com certa naturalidade, por skinheads. De qualquer modo, a lucidez da Ana previne contra generalizações abusivas das pessoas que, desgraçadamente, se deixam definir enquanto "geração". Para lá das lamúrias dos "jovens" oficiosos, para lá dos resignados hinos de Homens da Luta e Deolindas, ainda há quem privilegie a liberdade. Ainda há vida, portanto, mesmo que o seu carácter residual, quase excêntrico, já não permita o luxo de haver esperança."


(e se a atitude nos arremessar às massas? força. mas se não for por aí, porque é que tem que ser por aí?)


sábado, março 12, 2011

Silogismo hipotético condicional


Se Sócrates é homem, então é mortal.

(Todos os ciclos têm um fim. O problema é se o Sócrates não é homem...)


quinta-feira, março 03, 2011

toca no ponto, e torces a peça.


comprei um frigorífico. vocês ainda não sabem a história do frigorífico? eu vou-lhes contar.
comprei um frigorífico num outlet. o que equivale a dizer que já vinha com defeito. e que eu o aceitei assim, com defeito. e que paguei por ele, com defeito. pois, amolgadela aqui, amolgadela ali, enfim, aceitável para o preço. o que eu não contava é que ao pagar um serviço de entregas, e ao ser executado o serviço de entregas, a lista de defeitos aumentasse. portanto, o produto saiu da loja com umas amolgadelas, e chegou cá a casa com um pé torcido e partido. claro que uma pessoa nunca vê o essencial no acto da recepção caseira, nunca vê os defeitos escondidos quando se apaixona e consegue enfim ter o objecto amado entre os bracinhos esperançosos e desesperados. com a convivência, a saudação, o abrir de portas, a conversa, é que uma pessoa vai também abrindo os olhos e lá percebe: ora bolas, afinal é coxo.

15 dias não passados, ainda há espaço para a reclamação. ou muda agora ou curvinha com ele! e começa a odisseia da reclamação. telefono aos pais, descartam, não têm culpa do pé, foi pelos caminhos da vida que o torceu decerto. quero lá saber! vocês são a origem, e ele já vinha com defeitos da origem. não me venham com coisas, paguei-vos a peça, comprei-vo-la com alguns defeitos. agora, pelo caminho chegar com outros, oh meus amigos, isso é que não pode ser: tem que mudar, haja paciência mas não lhe quero o pé assim.

o ideal seria mesmo desatarraxar o pé partido e colocar um novinho. ora que beleza. e reivindico, reivindico um pé novo! mas... se o encaixe já vem torto, que peça direita lhe encaixará?... baixo os braços a metade. estou a ver que, perante as dificuldades, os responsáveis pela peça se escaparão. de fininho, piarão que aceitei a peça, que me amanhe com ela. estão os braços encolhidos, mas os cabelos em pé! telefono, quero saber como é, responsabilizações, estou piursa. adivinho já, antecipo, sofro o desfecho trágico. e construo sobre a hipótese do desfecho trágico. engrandece-se-me a raiva, o coração a palpitar, o sangue a crepitar. telefono e desfio que aquele pézinho está tão aleijadão que nem muito amor e boa intenção o poderão reparar. que quero uma solução. "obrigada pelo seu contacto, pode aguardar?". aguardar? o quê?, a solução? que remédio! duas, três vezes, aguardar. enquanto pago eu ao impulso. estou com os nervos na ponta, já quase a saltar da franja. a temer o pior, estou mesmo para lhes saltar encima e pedir o livro de reclamações e exigir o dinheiro de volta do serviço de entrega e gritar-lhes e enchê-los de mim

quando,

muito lentamente, uma emocionalidade me começa a percorrer os bracitos trémulos, os cabelos eriçados, e a preencher os poros. algo positivo e bonito e afável. e condescendente! que se passa?! não!, por favor não, estou a amolecer??! não pode. quero estar enraivecida para andar ao soquete se for preciso. e se-andar-ao-soquete-se-for-preciso quero estar com os punhos duros para ganhar. quero ser implacável, não quero amolecer caramba!

estou em espera, ainda. e enfim apercebo-me: de fundo, enquanto eu imergia ingenuamente nos meus pensamentos ruminativos profundos, ficara a tocar, como que por acaso a preencher o silêncio, uma musiquinha profundamente lamechas e romântica e doce, e incitadora de condescendências!: "you were once, twice, three times a lady...".

(caramba para a Psicologia de Marketing Aplicada.)

sábado, fevereiro 26, 2011

deep inside


"Ondanks alles, geloof ik dat de mensen een goed hart hebben."
("Apesar de tudo, acredito que as pessoas têm bom coração"; Anne Frank, 15 Julho, 1944)


me too. but damn if you don't have to dig.


quarta-feira, fevereiro 23, 2011

deadlines

I

no primeiro dia do mês ela escreveu uma linha e fez tudo o resto.
no último dia do mês ela escreveu tudo o resto e fez apenas uma linha
da vida dela.

(há algo de interessante acerca dos prazos-limite.)


II

primeiro, considerou todos os pormenores a ter em atenção na obra-de-arte, todas as partes, todos os materiais, todos os jeitos particulares, tudo. es-mi-u-ça-di-nho.

passou um mês. data limite. ahhh! o quê, já??! cagou nos pormenores e incluiu apenas o essencial.

(viver passa muito por definir critérios. mas definir o que é essencial também passa muito por definir prazos-limite).


o gajo tinha tudo pá


tinha um MG, tinha uma casa na Quinta do Rombaial, era engenheiro, filho de médicos, neto de alfaiates, tinha casa em Albufeira, outra em Cascais, e outra na Figueira para os fins-de-semana da preguiça. tinha boas notas, era bom aluno, tinha mimo, dinheiro, status. enfim pá, tudo.

(se calhar não.)


segunda-feira, fevereiro 21, 2011

porque há uma figura de estilo que se chama ironia.


muito se fala dos parvinhos da geração [à] rasca que para aí anda. de facto, a letra dos Deolinda deu e muito que falar. as opiniões divergem, uns acham que insentiva ao desânimo, que não motiva ao estudo, que se foca no parvo, parva, parvinho e não sai daí. que é uma maneira de uma pessoa se queixar e não fazer mais nada.
'a minha opinião, posso posso dar, posso, a minha opinião'? é esta: uma salva de palmas, basta uma mas bem dada, a quem põe o dedo na ferida. e quem põe o dedo na ferida são os Deolinda quando escrevem o que escrevem. mas o que eles escrevem nem sempre é o que os revolucionários da causa revolucionária querem ouvir. os Deolinda, ou quem deles escreve a letra das música,s tem uma particularidade: não se ficam pelo queixar, viram o dedo para o próprio, e chamam a atenção para os defeitos que também nós temos e não só o outro (e.g. veja-se a letra fenomenal do "Movimento Perpétuo Associativo" ). mas quando os revolucionários da causa revolucionária não querem ler o que se escreve, lêem o que querem que se escreva. desde que encaixe na causa revolucionária.

da Parva que sou, gosto particularmente de um pormenor. o coliseu do Porto foi ao rubro quando ouviu pela primeira vez o verso "Porque isto está mal e vai continuar,/ já é uma sorte eu poder estagiar (...) que mundo tão parvo/ onde para ser escravo é preciso estudar". foi o bater de palmas em uníssono, porque fácil é culpar o mundo da nossa desgraça. mas, seguindo na letra, quando eles cantam "Sou da geração ‘casinha dos pais’,/ se já tenho tudo, pra quê querer mais?", ouvem-se umas palminhas com cessar rápido (minuto 1'18'' daqui).

tenho é pena que não se saiba ler nas entrelinhas. da ironia ser lida à letra. propósitos há muitos, e quem quer ver queixume vê queixume, quem quer ver luta, vê luta. " a culpa é do Governo", dizemos todos. e é. mas não só. não vejo a música dos Deolinda como um hino para ser cantado em tom de amargura ou queixume, para ser entoado pelas ruas em manifestações compridas, enquanto se espera um D.Sebastião que é pau para toda a obra, enquanto se espera que o Governo nos dê condições a todos, que o Governo mude os Poderes Locais e as pessoas que existem nos Poderes Locais. que o Governo mude o meu vizinho porque ele me incomoda. (e eu, incomodo quem?)
a luta maior procede em silêncio, nos nossos dias-a-dias, nos pormenores. as coisas não mudam se nós não as mudarmos aos poucos. se apenas cada um de nós e, por conseguinte, todos, pudéssemos dar o exemplo em vez de esperar vê-lo no outro.

arrisco-me a dizer que as pessoas não querem que os políticos deixem de ser corruptos, não, não querem. estão-se mesmo a cagar para isso, desde que lhes garantam um lugarzinho numa Câmara à beira-mar, com um salário bem simpático e onde não tenham que fazer muito. caramba, que mais poderíamos querer?

parva? sou parva quando me queixo queixo mas não faço mais nada. só exijo. não estou a falar de ser boazinha ou de passar a ser ingénua. nem deixar que nos pisem. mas também não é ir gritar para a rua, como quem reza na Igreja e critica a crucificação de Cristo inconsciente que somos todos o Pedrito que o negaria 3 ou mais vezes, quantas fossem. o que digo aqui é precisamente o contrário, e é a parte mais difícil: é não nos agarrarmos a hinos, é não nos fazermos de vítimas - é, precisamente, não nos fazermos de parvos. porque não o somos de facto.



(mas pronto, é só a minha, a minha opinião, a minha interpretação. só mais uma.)

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

a particularidade p do instante i e da questão q


Ama o próximo como a ti mesmo.



calculo à partida que, se assim fosse, o mundo poderia ser um lugar bem melhor. mas depois, repenso: Ui!, com a quantidade de gente que anda para aí com problemas de auto-estima, isto seria a desgraça!

(o problema das leis universais, é que raramente abarcam a flexibilidade acrobática do quotidiano.)


falência multiorgânica


dizem que vem por acaso, que escolhe sem dedo.
que pode ser qualquer um.

gera-se o PÂNICO. eu? eu? eu?

uma ova.

ela vem para atacar os fracos.
são sempre esses que sofrem os males.


(cuidemos das nossas fragilidades. são elas que nos lixam.)

terça-feira, fevereiro 15, 2011

belongings





«You know what's wrong with you, Miss Whoever-You-Are? You're chicken, you've got no guts. You're afraid to stick out your chin and say, "Okay, life's a fact, people do fall in love, people do belong to each other, because that's the only chance anybody's got for real happiness." You call yourself a free spirit, a wild thing, and you're terrified somebody's going to stick you in a cage. Well, baby, you're already in that cage. You built it yourself. And it's not bounded in the west by Tulip, Texas, or in the east by Somaliland. It's wherever you go. Because no matter where you run, you just end up running into yourself.»

(quando nos habituamos ao que temos, ao que carregamos connosco toda uma vida, quando temos as coisas tão coladas ao corpo e à mente que passam a ser carne nossa, a ser nós mesmos, is there a way out?)

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

'the grass is always greener on the other side' ou, em português de Portugal, 'a galinha do vizinho é bem melhor que a minha'.


a realidade dá-me um beijo. sinto-lhe os lábios suaves, ternos, molhados pela saliva e... eh pah, há aqui uma migalhita do pequeno-almoço. e, caramba, o eterno hálito do amanhecer! se fosse no sonho, o beijo seria perfeito. mas minha menina, hold your horses que estamos na realidade. o que no sonho é romance, na realidade é o punzinho que irrompe pelo meio. ah pois, que isto na realidade há sempre o pormenor-zito não necessariamente aprazível. o trelipatéu que não entra na imaginação da menina. e porque haveria de entrar?! é o sonho então pois!?, e o sonho quer-se como a peça comprada: sem defeitos.

por isso, quando a realidade enfastia, compra-se o sonho. ui!, o sonho é muito melhor, o sonho é sempre melhor. há pois o terrível defeito, proveniente talvez de uma dissonância cognitiva deficiente, de achar que nada do que temos é bom, porque nada é tão bom quanto o que queríamos ter.

e por isso sonhamos. e preferimos sonhar. e achamos que podemos viver o sonho, e que o sonho será obviamente como o sonhámos. claro, é sempre melhor viver na ilusão do que - PÁS! - chocá-la contra a realidade, e - PÁS! - ver que o sonho não existe, simplesmente porque é impraticável. porque
a ilusão não alimenta, pelo contrário, mantém a fome. porque a ilusão é o escape que não queremos deixar de ter. é a esperança de que podemos não ter o queremos (ou não querer o que temos...), mas que o que queremos existe, sim existe! e existe I-MA-CU-LA-DO.

é a nossa fuga para quando as coisas não são exactamente como queremos, ou achamos que deveriam ser. porque o nosso "deveriam ser" é demasiado saudávelzinho, e não admite falhas. o nosso sonho não quer aprender com a realidade, não quer aprender com os erros e os defeitos que parecem só manchar as coisas. porque o outro, o outro, seja ele quem for, é sempre maior e melhor, e percebe-nos melhor e seríamos muito mais felizes com ele. no sonho é assim! no sonho funciona! nem que, se virmos bem as coisas, na realidade ele nem seja como o sonhámos, na realidade ele nem tenha nada a ver connosco, na realidade ele nem seja o que precisamos, na realidade ele nem nos ofereça um futuro. Não interessa!, no sonho ele está lá! e eu quero ser feliz agora, que se lixe o futuro! que se lixe a realidade.


quando não aprendemos a amar o que temos. porque cansa. porque é real, e na realidade vemos as mesquinhices todas que no sonho não vemos, pois claro!, então se é o nosso sonho, porque o haveríamos de sonhar com defeitos?
oh tristes princesas entregues ao sonho de algo que não é. que soa bonito e perfeito nos cadernos e nas estórias, mas que nunca conta o dia-a-dia numa casa, com distâncias pelo meio, o dia-a-dia com um WC com algumas impurezas, a lavar a loiça, a ver o futebol, a cozinhar, o cansaço do trabalho, o dia que corre mal, a dor de cabeça, a impaciência, as pernas altas da vizinha, a tampa da sanita aberta, os pêlos púbicos pelo chão, nos lençóis, a falta de pão, as compras, as batidelas do carro, os problemas de última hora, o jantar da tua amiga que não me apetece ir, os cafés com os amigos, as noites na disco, eu quero dançar e tu estás cansado, tu queres beber mais um copo e eu quero ir dormir;
o hálito verde não fresco numa manhã tremida por um despertador e por uma vida real da qual também-mas-não-só faz parte o sofrimento, a dúvida e a insatisfação.

por isso, quando a realidade não acomoda o sonho, deixa-se a realidade e compra-se o sonho. e paga-se caro.
não há, de facto, nada de mal em sonhar. o problema é quando nos apegamos ao sonho e deixamos de viver a realidade. o problema é quando desistimos da realidade por um sonho que mantemos sonhado, o problema é quando desistimos de encontrar na realidade - no meio dos hálitos, dos punzinhos, das incompreensões do dia-a-dia - os lábios ternos que nos aconchegam e que, com uma imprecisãozinha ou outra, afinal até encaixam nos nossos.


terça-feira, fevereiro 08, 2011

'Do Gut Bugs Practice Mind Control?'


e se a ansiedade, a preocupação ruminativa e os comportamentos de evitamento pudessem ser propiciados por bactérias no nosso sistema digestivo?
se calhar não é só o que fazes, não é só o que comes, não é só o que vives. se calhar é também aquilo com que vens, aquilo que carregas aí dentro. e o que carregas aí dentro, num fio genético imenso, é mesmo muita coisa.


(somos provavelmente mais influenciados pela biologia dos processos do que pensamos. e
somos também, talvez, demasiado cépticos. até que venha alguém e mostre o contrário.)


segunda-feira, janeiro 31, 2011

forever




flanquear de alto


domingo à tarde no parque atolado de gentes, um menino chora chora chora, vá-se lá perceber o porquê. pode ser do sol que brilha demais, ou da areia molhada e engraçada para calcar, pode ser do frio que mal se sente, ou ainda da brincadeira interrompida. pode nem ser nada, mas ele chora e fá-lo desalmadamente, enquanto estende um a um os pézinhos minúsculos num equilíbrio sofredor.

diz-lhe a avó com um tom pachorrento:
- anda cá bébé, anda cá, vem chorar para o carro que está mais quentinho.


(ele que chore, aquilo a mim calou-me.)


quarta-feira, janeiro 26, 2011

out in side r


you don't fit this world.



yes you do!
as long as you have a talent that can be explored.



if you
don't have a talent if
it can't be explored or if

you don't want to explore it



OUT!,
you don't belong here.

you don't fit the requests.


Mʋham̑ad alBúoazízí


quando o copo está cheio, basta uma gota.


(fala-se nos suícidios, nos homens que saltam das pontes, nas mulheres que adormecem afogadas em alcóol e comprimidos, das crianças que saltam aos rios. e eu penso, Como, como têm eles coragem para tanto? não têm medo da dor?, do arrependimento posterior?, não se lembram dos pais ou de uma qualquer figura de vinculação?, não vislumbram eles a luz, para um dia, por mais suja que seja? esquecem eles que querem viver? Que estado de alienação é esse em que se perde o receio?, que desespero é esse que nos cega e nos deixa apenas um caminho?
atemorizam-me os suicídios. desde sempre. não porque os acho ilógicos, irracionais e desmedidos. mas porque a mente é uma e todos vamos enchendo o copo. porque o corpo com a mente que sai todo o santo dia para a rua vender as frutas e os legumes é o mesmo que um dia chega ao posto da gasolina, e se imola. porque somos todos normais. até ao dia em que não o somos. e é essa possibilidade de metamorfose comum que me incomoda.)


segunda-feira, janeiro 24, 2011

como pode um só homem representar uma nação?


a minha tia é um amor. tem braços de ferro e força suficiente para mover montanhas. passa os dias de mãos na terra, a plantar os alhos e a ver dos kiwis e das alfaces, e a levantar-se cedo para ir levar a colheita ao mercado. e ri, muito, tanto que é um regalo vê-la a rir.
este domingo contáva-nos ela, a mim e ao meu amigo j., a sua lida da terra:

pois, andava lá eu com um cherrebeco a empapar a terra. sabe?
(o j. franze os olhos como quem tenta ver.)
é com uma foice de bizar, sabe?
(o j. faz um esgar de dor por não conseguir saber.)
é a como uma pedoa!
(não, não sabe. nem ele nem eu.)


(uma pessoa anda na escola, aprende a ler os textos do saber, e depois os livros da economia, aprende a escrever correcto e direito, com as palavras certas, sem enganar nos termos, aprende a falar e a comunicar com os dirigentes do mundo. fala direito e bonito, e faz boa figura na televisão.
mas passados tantos anos afastado das gentes das terras, que pode ele entender do que eles dizem e do que eles realmente querem saber?)


sexta-feira, janeiro 21, 2011

'à mulher de César não lhe basta ser séria, tem de parecê-lo.'


a poucas horas da eleição presidencial, procuram-se os últimos podres que poderão ainda abalar opiniões. quem já tem a opinião formada, é perfeitamente capaz de tapar os olhos ao que não quer ver. mas para quem ainda não a tem e anda à procura de alternativas [e.g. de um d. Sebastião salvador debaixo das vestes dos candidatos] estes pequenas manchas de comportamento são bem capazes de criar desilusão.

candidatar-se a um cargo político é quase o mesmo que abrir a porta da casa e deixar que vasculhem sem fio de piedade os nossos pertences. e a nossa vida. e por certo que encontrarão: a embalagem do leite no balde azul para reciclar papel, o slip leopardo para homem em vez dos boxers, a meia branca no fundo da gaveta e, ai meu deus, os restos de bolacha tipo americana nos confins do sofá.

'quem nunca pecou que atire a primeira pedra'. uma ova, quem pecou que esconda bem, fora dos focos da vasculhice, e procure o pecado do outro, bem feio e imperdoável para o publicar ao mundo e incentivar a morte à pedrada.

se os políticos são sérios ou não, isso não interessa. porque conhecendo a natureza humana dificilmente o serão. mas que pelo menos o pareçam, caramba! que não tendo a qualidade da perfeição e a capacidade de dar o bom exemplo, que tenham outras. por exemplo, a capacidade de ocultar bem a fraude, a capacidade de fazer amigos que dão alibi, e por aí em diante. é que, quer dizer, cria uma pessoa uma imagem de pureza celestial e depois, pumba!, deixam uma fralda de fora e, zás!, deixam-nos incrédulos, desamparados, desiludidos, e com o beicinho a tremer.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

menstruação


vou ao homeopata. [sim, fuuuui.] senta-me num aparelhómetro complicado aos meus olhos. espreita-me a irís adentro. a rezar que vê nela tanto quanto eu vejo com ela, deve encontrar universos imensos. tantos que por fim arrisca:
"está menstruada?"
"não."
"então deve estar a vir-lhe."
"penso que não. acabou há coisa de uma semana e tal."
"pois." [leia-se, "pois, ou isso."]

(o ciclo são 28 dias. estar a duas semana de ter acabado, ou a duas semanas de começar vai dar praticamente no mesmo. ora pois.)


vou à ginecologista. espreita-me o útero com o olho cinzento. está entumescido. muito.
"a menstruação deves estar vir-lhe."
"hm... deve ainda faltar uma semana, talvez."
"mas está próxima. da forma como está, já passou a 2a fase."
"hm..."

(o útero rasga-se no dia seguinte.)


(o que é que eu quero tirar disto? sei lá. talvez que há muitas formas de ver o mundo. e que, depois, há os reforços - positivos ou em falta, os que vemos e os que deixamos escapar, os que nos aparecem evidentes e aqueles que vemos porque queremos ver. e são talvez esses reforços, que vindo como consequência, nos encorajam um caminho a seguir. ocasionais e casuais, vão desbastando um caminho e, inevitavelmente, esbatendo outros que não nos deram motivos para voltar a passar por lá.)


sexta-feira, janeiro 14, 2011

fazer do negro humor


confesso que sempre achei mórbida a tendência imediata de fazer piadas sobre pessoas estraçalhadas e afins. que não haveria maior insensibilidade do que rirmos da desgraça dos outros. mas mudei de ideias. pior é sofrermos com essas desgraças que preenchem a TV, que mancham de sangue os jornais, que passam de boca em boca à nossa porta. pior é afundarmo-nos nelas, nas desgraças alheias com medo que nos toquem a nós um dia, pior é desiludirmo-nos com o ser humano e, depois, como consequência, com o mundo e a vida em geral.
rir das desgraças é até muito bom sinal. sinal que apesar de tudo o que acontece de horrível à volta, nós lhe damos a volta, rimo-nos um bom bocado, e continuamos. não temos outro remédio.


quinta-feira, janeiro 13, 2011

3:45






não sei se as relações humanas têm alguma coisa de lógico. mas deverão ter, talvez,
pelo menos muito de prático.

...


afinal



- são rosas, meu senhor, são rosas...
- rosas em Janeiro?!

(pronto, está bem, são camélias.)



terça-feira, janeiro 04, 2011

boas formas de começar o ano





(entrar numa loja de produtos hortículas, ou espreitá-la apenas pela janela, é dar asas à exploração - dos alhos, das cabras, das abelhas, dos coelhos, das beterrabas para gado, das flores, do caracol. enfim, é ter a certeza que do novo ano lhe havemos de ver os frutos, caso o tempo sacana não estrague a colheita.)


segunda-feira, janeiro 03, 2011

'o que a gente é e o que a gente chega a ser'.


primeiro habituou-nos a ela. à destreza, ao quanto-queres desdobrável em mãe irmã tia avó bisavó e devota de nosso senhor jesus cristo. habituou-nos às mãos grossas e calejadas que secaram o queijo, estiraram as filhozes, bateram o pão-de-ló sequinho e dourado, as mesmas que durante anos lavaram paninhos, alimentaram 8 bocas saídas do ventre, estriparam a terra, esfolaram animais, e desfiaram candidamente as contas do terço, aninhando-se depois sobre o colo numa quietude de alma.

(aquelas mãos que te vi brancas)

habituou-nos à ligeireza, aos caminhos ao terço por amor a cristo, aos caminhos à Terra e à outra terra e onde fosse que tivesse que ser - o que veio da vida foi para aceitar e amanhar.

(aquele corpinho que te vi mirrado)

depois a vida pregou a rasteira e abrandou-lhe o passo. continuaram as mãozinhas ágeis e a carinha risonha enquadrada na trança de cabelo enrodilhado e longo, mas não tão longo quanto a estrada percorrida e os 96 invernos.

(aquelas madeixas que te vi de cinza)

depois cortou a trança, e foi como se cortasse o passado. continuaram os olhos pequeninos felizes de pouco, a notinha pelo natal, pelos anos e mais quando fosse e o coração achasse. continuaram as palavras e o hábito das histórias com que encheu os serões e as nossas cabecitas de mimória muita mimória de outros tempos e costumes.

depois foram as histórias. uma a uma foram sendo apagadas, perdida as páginas, esquecidas, no percorrer das coisas, enquanto as perninhas outrora altas se entorpeciam com o anoitecer.

depois foi-se a mimória toda, e deixou de nos conhecer. e foi-se quem ela era também. foi-se o sorriso e o olhar, num vácuo interrompido apenas por beijinhos de graça vá-se lá compreender os desígnios do criador e o porquê das coisas. ficou-lhe o mundo lá dentro, e nós cá fora sem lhe chegar.

(se eu pudesse ver o que tu vias, aí e quando encerraste os olhos)

depois foi-se a presença. tinha sono, muito sono. isso, dormir só e sonhar quem sabe. pois pois é. foi-se a força e a vontade. e, por fim, num último sopro, a vida.




(julgo que as pessoas, se chegarem a percorrer a velhice, se vão afastando devagarinho. deixando isto, deixando aquilo, uma coisa de cada vez. talvez para não custar tanto, a nós e a eles. o ser humano habitua-se, que remédio tem senão habituar-se, vê-los descer os degraus um a um, com vagar e paciência. e,
se assim fosse sempre, o mundo seria tão mais justo e a vida também: um degrau de cada vez, até chegar ao último. mas o último, por rápido ou mais devagar que chegue, é sempre demasiado grande.)


quarta-feira, dezembro 29, 2010

para sempre





passamos todos

fica só a música e
quem ainda se lembra dela.


(para a minha vó.)

segunda-feira, dezembro 20, 2010

hemianopsia





andamos à procura da harmonia no meio das coisas. mas
esquecemo-nos que uma parte da realidade é-nos desconhecida.



imagem daqui

sexta-feira, dezembro 17, 2010

handle with care (II).


mas não com tanto cuidado que se mime uma pele incólume
que não crie calo.


quinta-feira, dezembro 16, 2010

ontem o j. perguntou-me como é que se desenhava um 'k' minúsculo. - sei lá!, - não te lembras?! mas tu uma vez desenhaste-o.


sabem porque é que o saber não ocupa lugar? porque nos despojamos dele.

:|

(odeio saber que as vezes que os meus pais já Bateram Com A Testa Na Parede Para Finalmente Conseguirem Perceber Alguma Lógica do Dia-A-Dia não se transmitem à descendência pelo milagre bonito da biologia reprodutiva. porque por mais que nos contem as coisas, que nos digam as coisas, que nos impinjam as coisas, somos nós - nós! - que temos que Caminhar Os Caminhos Para Aprender A Cair E Não Ficar Muito Tempo No Chão A Pedir Falta. porque as aprendizagens são individuais e subjectivas [bolas!]. pronto, está bem, aceito [que remédio!]. sei que Vou Ter Que Voltar A Escorregar Onde Outros Já Escorregaram Para Conseguir Aprender Algo Acerca De Como Caminhar Para A Sobrevivência. mas,
após aceitar esse facto codificado na caixa preta a que não temos acesso, odeio saber que depois de todas as quedas, de todos os estalos, de todas os espetáculos infelizes, de toda a ingenuidade mal-passada, de todo o tempo que se passa a aprender Como Não Escorregar nas Folhas Dos Passeios Após Assentar Valentemente O Rabinho No Chão, essas aprendizagems não duram para sempre. [bah.])

segunda-feira, dezembro 13, 2010

mudar de vida

I
"já sei lidar com máquinas, agora quero aprender a lidar com pessoas." (g.n.)

II
"olhe, estou farto de pessoas! agora interesso-me é pelos animais." (i.d. II)




(dê lá por onde der, o mal é talvez passarmos demasiado tempo na mesma coisa.)


quinta-feira, dezembro 09, 2010

handle with care.




i myself would also like to have Carefully in the name.
'coz i think people tend to forget.


quinta-feira, dezembro 02, 2010

a quente


«Quando se ganha jogos importantes podemos chorar de alegria. Quando perdemos por 4 ou 5 não se pode sair a chorar, mas com vontade de jogar a próxima partida. É pena jogarmos sábado. Gostava que fosse amanhã já, porque depois de um jogo tão mau e de resultado tão negativo só há que voltar a jogar e a ganhar».


(é exactamente o que eu penso após uma péssima exibição. gostava que fosse já amanhã a próxima vez. enquanto a insatisfação ainda nos está quente nas veias e grita por desforra. enquanto ainda ferve a revolta de sermos tão limitados. enquanto ainda raspa na ferida e dói a crença de que poderíamos ter sido melhores, mas não fomos.)



chiu (II)




caminham na rua, olhos nos olhos, nas mãos, nos gestos. falam entre si numa língua que não entendo. quero ouvir, ouvir o que dizem, e não sei. conversas assim entre duas pessoas: das coisas mais bonitas que já vi. linguagem gestual, digo: no meio de todo o ruído, são eles que me cativam.

são os olhares, os gestos e as expressões. tudo fala sem falar. tudo se expressa, mesmo quando queremos conter.

porque, se virmos bem, o silêncio não existe.


sexta-feira, novembro 26, 2010

greve (III)


a luta é a força maior.

mas
qual, a externa ou a interna?




(minuto 8:27) a luta de um pai pelo sonho de um filho.

(como é que se mede a grandeza das lutas?)


greve (II)


strike, é a palavra inglesa para greve. e para luta.

na passada quarta-feira os trabalhadores (não) saíram para a rua. homens e mulheres apostaram na ausência para se manifestarem. e de que vale isto, pergunto?

tenho uma bolsa de estudo, não tenho futuro garantido, não acredito naqueles que me governam, não sei governar um país. quero um emprego, quero um futuro como o sonhei, quero acreditar nos soberanos. só não quero governar o país.
tenho dinheiro para comer, para comprar roupa, para viajar. tenho uma casa. mas depois há os outros, os que não sabem se haverá dinheiro ao fim do mês; os que têm os filhos e não sabem se lhes poderão continuar a pagar os estudos. quem sabe a comida. e o quente da casa.
pedem-me dinheiro na rua, é para ajudar, senhora. ajudar os outros. ajudemo-nos uns aos outros, nós o Governo, o Governo a nós. mas olho as pessoas nos olhos e não sei se me querem o dinheiro porque têm fome, se me dizem a verdade, se o querem para sonhar acordados nos 5 minutos em que a veia ferve. ou se é para andarem de um lado para o outro em classe exclusiva a apertar a mão a negócios opacos. quer o Governo ajuda? não sei se quer. e o povo, quer o quê?
eu estudo-trbalho. só não sei é o que sou. nem para onde vou. mas, hoje, também não sei se alguém sabe.
é para investir na Educação? quer-se o povo letrado? para quê, para pensar? pensar que os brindes que lhe dão têm um preço?, que o que nos dão nos será tirado de outra forma?, que o que nós não damos também não retorna?, que os impostos são para ser pagos? eu não pago impostos. mas também não tenho futuro. e tu que pagas impostos, tens? Não sei se querem investir na Educação.

não investem na Educação. e a torneira fica aberta, a luz fica acesa, mas(!) vem o plasma cá para casa. só não há é comida na mesa.
há dinheiro para o TGV, há dinheiro para as classes conforto, só não há para o Metro da Lousã. há dinheiro pra as empresas que estudam o Metro da Lousã, para tirar as linhas féreas e colocar autocarros. há dinheiro para os satélites humanos que gravitam em torno do Metro-Sol. só não há é para acabar o raio do Metro.
há dinheiro para pagar a quem opina, só não há é quem entre num autocarro e gravite nas curvas da serra, com o estômago a gravitar também. não há quem nos calce os sapatos. os meus até eram capazes de servir, mas há quem os tenha apertados para a magreza que tem.
e há dinheiro para os blindados dos senhores importantes. só não há para os salários dos trabalhadores. não há futuro. certo, se calhar nem incerto. não há.

mas quando é que a vida foi certa? ou fácil? quando é que tivemos o futuro garantido?
quando é que estivemos nós satisfeitos?!

luta, luta, todos os dias caramba. basta
tudo isto, basta.

(sei lá como lutar.)


'estás no caminho para te tornares uma má pessoa.'


a arrogância, crepita na língua, na pose, e desarma. (quem?)
talvez os genes sejam a desculpa. talvez. talvez até venha nos genes, agora que há um gene para tudo, mas no fundo no fundo apenas nos cansámos.

quando a arrogância ameaça a rotina, de estar sempre vergado, e (zás!) sobe pela espinha acima, e é o arrepio contínuo e pesado que a endireita, impedindo-a que vergue. outra vez.

e leva dá luta chuta pá tira arremessa. mas depois cessa. repentinamente. e caímos nós, pás, desamparados. mas se ela nunca nos deixaria vergar, tinha-se acabado o outra vez.

(acabamos tão-somente vergados por ela) e caímos. somos arrastados pelo vento longos metros, suficientes para esfolar a pele e o amor-próprio. depois, trémulos ainda, erguemo-nos. e ergue-se ela connosco. sujos feridos desgrenhados, berramos como se mais pulmões tivessemos. como quem perdeu a guerra mas não as múltiplas batalhas. (ou então perdeu as batalhas mas a guerra não acaba nunca.)

e então raspam na garganta com gosto acre as palavras 'Geou que não geasse, eu cá estou debaixo da minha vidraça'. e ficamos nós, eu e ela, a tiritar.

(por estes dias, cala-me só o vento quando me estala forte na face. e tu, quando me estalas os ouvidos com palavras injustas.
(zás!) que interessa, gosto das estaladas, sabem-me a beijos.)


sexta-feira, novembro 19, 2010

terça-feira, novembro 16, 2010

segunda-feira, novembro 15, 2010

vinculação


o ninho. enroscar-se nos recantos, no calor da carne, nas pregas da pele.
andar sobre o outro, outro corpo, achar-lhe os espaços, encontrar o espaço.


(tenho 26 anos, que sei eu da vida, do casamento, das rotinas, das dificuldades, enfim, dessa vinculação a que se chama afecto ao fim de 30, 35, 50 anos? - ou dessa vinculação-que-se-chama-hábito? - que sei eu da diferença das coisas, do que é amor, do que não é. do que é rotina, trabalho, do que é paixão. do que é coisa-sem-nome por mais que lhe queiramos dar um. estou ainda na confusão das coisas, envolta no nevoeiro infindo de uma cabeça desassossegada. mas

e a vontade? e a vontade? visceral. no âmago das coisas. não interessa onde se está: o que interessa é onde se quer estar. que interessa o nome se o espaço onde passamos a querer estar é o corpo do outro. sob o abraço, no aconchego.

pensar que se perdemos isso, perdemo-nos também. que - ai jesus! - falta-se-nos o chão. que sem ele, passamos a estar definitivamente além, sem estar bem em lado nenhum. porque o outro é o ninho. e é um ninho daqueles que por mais que cresçamos não nos queremos despojar.)


há-as para dançar, para fazer rir, chorar, enraivecer, enternecer, arrepiar. até para se apaixonar. e para dar mote ao depois.

sexta-feira, novembro 12, 2010

não é à toa que se diz que há uma idade para as coisas. depois disso, sabe a ranço sem ter fritado grande coisa.


há as fases da vida, e depois há as fases da não-vida.
uma delas é a da mosquinha morta.


(lembro-me daquela professora e do que nos disse, que mais valia uma criança rebelde do que uma criança indiferente às coisas. porque a rebelde ao menos esperneava.)


o problema é se não é só uma fase. mas uma face.


terça-feira, novembro 09, 2010

onde é que começa o mundo?


ganham na mtv as stars da pop. critica-se que na mtv ganhem as stars da pop. porque ganham na mtv as stars da pop, o povo ama as stars da pop. o povo ama as stars da pop que aparecem na mtv. porque o povo ama as stars da pop que aparecem na mtv, as stars da pop ganham. na mtv.
e se aparecessem na mtv as non-stars da indie? ganhavam na mtv as non-stars da indie?
e o povo? o povo amava indie non pretentious music?

(quem raio precisa da mtv,
o povo continua a ser uma criança.)


segunda-feira, novembro 08, 2010

novas velhas estratégias





"Será que ele veio para salvar... ou destruir o mundo?".

hem? andamos com as perguntas ao lado.
qual quê!, ele veio foi para dar o privilégio a alguns de não pagarem o IVA.


terça-feira, novembro 02, 2010

who am I



mirror, mirror on the wall...
what do you see?


(somos o que os outros vêem que somos? ou o que nós vemos também? ou talvez... algo no meio? ou nada disso afinal? difícil definir a identidade quando se anda à procura dela. ou talvez, quando já se encontrou mas não se quer ver.)


i think i know the answer.



sexta-feira, outubro 22, 2010

acordes da vida

       
"sometimes they do.
sometimes they don't."


(acerca do que nos propomos a compôr na vida. do que chegamos a compôr. e, depois, da forma como vemos o nosso desempenho.) 

             
            

quarta-feira, outubro 20, 2010

gosto mesmo desta sentença




porque me faz sentir mesmo mal.

(e o desconforto, em última instância, acaba por levar à acção.)


domingo, outubro 10, 2010

mini som ou mesmo népia


          

a MiniSom, especialista em aparelhos auditivos, está com uma campanha:
faça já o rastreio auditivo e receba gratuitamente o CD do Marco Paulo!

se por mero acaso for surdo,
devem ter para lá uma fita de cinema mudo.


como queres o teu café?




con-tigo.




sexta-feira, outubro 08, 2010

because life is a ever ending story.


- All right, Xayide. I will make my last wish. I wish...
for you to have a heart
!
*


(sabia muito bem ele a importância de ter um.)





(*Bastian Bux; George Miller, The Neverending Story II: The Next Chapter, 1990)