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sexta-feira, outubro 21, 2011

viagens (ii).

gosto de pensar que quando voltamos, voltamos diferentes. é assim nas grandes viagens. e até nas pequeninas. naquelas em que embarcamos todos os dias.


(mas também gosto de esperar que a diferença não resida em nós-sem-tantos-bichinhos e nós-com-bichinhos-a-mais.)










segunda-feira, abril 04, 2011

anti-epicurismo


'The world needs anger. The world often continues to allow evil because it isn't angry enough.'*



(*Bede Jarrett)


segunda-feira, dezembro 13, 2010

mudar de vida

I
"já sei lidar com máquinas, agora quero aprender a lidar com pessoas." (g.n.)

II
"olhe, estou farto de pessoas! agora interesso-me é pelos animais." (i.d. II)




(dê lá por onde der, o mal é talvez passarmos demasiado tempo na mesma coisa.)


sexta-feira, fevereiro 26, 2010

O princípio da incerteza



peguei na janela do tempo e espreitei o futuro. vi-me lá, junta e com filhos no colo. pensei nisto.
voltei a espreitar. agora era eu apenas. e tinha um rebento lindo. pensei nisto.
vi outra vez. viajava, até ao fim dos meus dias. voltei a pensar.
outra. estava bem. o resto, tudo incerto.


(quando tomamos consciência das coisas acabamos por mudá-las.)


domingo, fevereiro 07, 2010

crescer


Estou sentada à mesa do café. Passam na vitrina, para quem vê de dentro, 3 homens e uma mulher. Observo um dos homens e a mulher. Não consigo deixar de pensar se serão um casal. Entra toda a família no café. Há crianças, afinal, também. Sentam-se mesmo ao meu lado, com duas velhas senhoras e um casal amigo. Juntam-se mesas, trocam-se as novas. As meninas sentam-se ao lado da mulher. Ela fala delas com cuidados desvelados. Ela não gosta de usar óculos, mas o médico diz que tem um olho preguiçoso. A menina ri e balbucia qualquer coisa. Reparo na mulher. É bonita. Tem o cabelo esticado e a maquilhagem cuidada. Noto nas olheiras das noites brancas. Pergunto-me se já foi egoísta. Se foi uma jovem embirrenta e cheia de manias. Se mudou quando se tornou mãe. Pergunto-me quantas vezes mudou de vida. Quantas meninas, adolescentes e mulheres já foi? Quantas vontades, quantas incertezas. Pergunto-me se já se encontrou, ou quantas vezes vai ainda mudar.

(quantas vezes podemos mudar, se o tempo corre. pergunto-me se nos encontraremos um dia, tu e eu, cá dentro. quanto tempo até lá, quantos erros. pergunto-me quando será, ou se virá, o dia em que já não desejo mudar.)


quarta-feira, dezembro 16, 2009

life is a state of mind


















beware of the territory in which you choose to live.



domingo, setembro 27, 2009

sei lá


Coimbra está à beira de ter um metro Mondego. Por esse motivo, a linha da Lousã está à beira de ser encerrada durante dois anos. A população esteve, deixou de estar, à ‘beira de um ataque de nervos’. Porquê? Simples: perceberam que há coisas que as mãos do povo não alcançam, e resignaram-se (ou talvez não. só estão um pouquito mais sossegaditos).

Mas afinal, porquê tanto alarido? Basta olhar para perceber que tudo o que implica mudança dá azo a resistência. Porquê? As pessoas têm medo do que lá vem e que não sabem bem o que é, mesmo que depois se verifique ser melhor. Tratam de olhar para o momento, ver tudo o que vão perder no agora. Há um grande receio em arriscar. Ficam-se pelo seguro, pelo razoável, pelo suficiente que até serve bem.

Mas nenhum país – e quem diz país, diz empresa, e quem diz empresa diz projecto, e quem diz projecto diz vida – nada anda para a frente se não se arriscar, se não se arriscar na mudança. Mas não falo de arriscar levianamente, e tentar ter o que os outros têm só porque-sim. Só porque também temos que ter. Há aquela questão das 'pernas para andar'. Da ambição comedida e ponderada. Mas... quão comedidos e ponderados deveremos ser? Fazer até onde temos rédea, ou devemos dar um passo maior, e ver se o resto acompanha?

Há aquela questão que a meu ver está sem resposta fácil. Nem sei que partido poderia avançar melhor caminho, como aliás, nunca sei. Penso, Vêm aí 4 anos, o que é que nos espera? O que é que devemos esperar? E o que é que, nós também, podemos e/ou devemos fazer? O povo hoje estendeu as mãos, alcançou o papelito, e votou. Em consciência? Semanas e semanas de campanha, ou anos e anos de opções políticas, deram hoje nisto. A mudança, seja ela qual for, mais leve ou mais abrupta, é inevitável. Mas não me canso de lembrar uma frase que uma vez ouvi ao José Saramago: “O cidadão tem braço curto. Chega à urna. Mas o poder está mais acima, não lhe pode tocar”.

Não? Hm. Não pode. Mas, pergunto-me, E se o cidadão lhe pudesse tocar? O que é que ele faria?

sexta-feira, março 20, 2009

Hábitos


Tenho uma amiga que não gosta de pobres. E diz-mo assim, chapado, Que não gosta de pobres, Que são ingratos.

(admiro-lhe a sinceridade. somos exageradamente embutidos de desiderabilidade social)

Penso nisto. Andamos tantos dias entretidos connosco próprios, que se torna inevitável não conseguir fugir à rotina. Então, cansados de tanta auto-contemplação, rebelamo-nos e decidimos fazer algo-verdadeiramente-diferente: olha, hoje vou dar existência ao outro! E, zás, deixamo-nos abalroar pelo altruísmo. É verdade! Inunda-nos então essa onda de bem, esse estado que nos faz querer melhor para o outro, para o próximo, do que para nós mesmos. Afinal, é tão-bonito dar. Dar o que nos sobra, o que temos a mais em casa. Dar até o que o nosso dinheiro pode comprar. Dar. Ao outro que não tem, ao outro que não pode.

Vestimos então, plenamente motivados, o hábito de monge bom-samaritano. E, de facto, damos. Damos de sorriso na face, emocionados com esse gesto de dar. Percorremos as ruas, ou as saídas das missas, e acabamos a saltitar nos bicos dos pés, tal bailarinas apaixonadas. Porque demos! E recebemos até um conjunto de graciosidades para galardoar o gesto! E tivemos até benefícios fiscais!
Então, reforçados, prosseguimos no dar. Entregamos benevolamente o pão, e o sorriso, esperando implicitamente o “obrigado”. Mas, subita e inesperadamente, ui!, eis que temos um outlier! E, em vez do galardão, sai-nos o rugido.

Penso. De onde nos vem a ideia de que os pobres têm-que-ser “gratos” (que os cegos têm que ser “bons”?). Penso, e acabo a desconfiar que deve vir do mesmo sítio que nos enfia a ideia que os-que-dão são sempre humildes, e que não vestem o hábito.


(três coisinhas: (a) aprendemos a esperar o reforço, ou está-nos “no sangue” essa esperança? (b) somos, de facto, criaturas de hábitos. e até dá jeitinho sê-lo. compomos o gesto, enfiamo-lo no calendário, e pronto. temos o céu guardado. (c) mas as rotinas também são lixados. porque, por meio de automatismos, as coisas acabam por perder o significado.
fácil é habituarmo-nos a dar, a dar o que temos, e o que temos possibilidade de ter. mas desconfio que o difícil vai mais além: deixar de dar o resto para se dar a si mesmo.)