"The range of what we think and do is limited by what we fail to notice. And because we fail to notice that we fail to notice there is little we can do to change until we notice how failing to notice shapes our thoughts and deeds." (Ronald D. Laing)
segunda-feira, janeiro 13, 2014
domingo, novembro 03, 2013
The Odds of Finding Life and Love*
gillian: Thought you never wanted to fall in love.
sally: That's the point. The guy I dreamed of doesn't exist. And if he doesn't exist, I'll never die of a broken heart.
quinta-feira, janeiro 05, 2012
usar o pé, ir a pedantes, esticar o pernil para o dobrar de seguida, exercitar a pernoca vírgula o pé vírgula e o resto.
- queres boleia?
eu
- não, obrigada, prefiro ir a pé.
ele
- mas eu dou-te boleia!
eu
- está bem, mas eu prefiro ir a pé.
ele
- mas eu estou de carro e posso dar-te boleia.
eu
- está bem, agradeço, mas eu gosto de andar e prefiro ir a pé.
ele
- fogo, tu és chata!
...
(das duas uma: ou as pessoas não nos ouvem, o que não parece ser o caso, ou as pessoas não nos compreendem mesmo quando nos ouvem. a minha parca experiência de vida inclina-me pesadamente sobre esta última hipótese. e tenho pena. mais valia que não nos ouvissem e treinássemos somente o acto de audição. já treinar o de compreensão parece ser bem mais tramado.)
terça-feira, junho 07, 2011
o medo,
por paulo moura. texto da Pública, este domingo, para quem não leu. o resto pode sempre ser visto aqui.
Encontrei-me com ele, André e Gabriel no terminal 2 do aeroporto do Cairo, à noite. Tínhamos estado juntos na Líbia, e saído de lá quando se tornou óbvio que as tropas de Khadafi iam entrar em Bengazi. Eu fiquei no Cairo, André e Gabriel foram para Itália.Iuri, esse, aproveitou para fazer umas fotografias no Bahrein.
Alugámos um carro e partimos imediatamente. Bengazi estivera sob ataque, mas havia sinais de que tinha acalmado, diziam algumas fontes, por terem ouvido dizer. Lá não havia telefones, nem jornalistas. Aliás, era por isso que tínhamos de ir.
Durante a noite, percorremos os 700 quilómetros que separam o Cairo de Sallun, perto da fronteira. De manhã cedo entrámos na Líbia, para outros tantos quilómetros até Bengazi. Juntaram-se-nos mais jornalistas. Alugámos um autocarro, porque nos pareceu mais seguro irmos juntos.
Pelo caminho, cada um tentava estabelecer contactos, para obter informações sobre a segurança das várias cidades e da estrada. Até Al Beida não havia problemas, ouvira um. Na estrada do deserto, jornalistas tinham sido capturados pelas forças de Khadafi, dizia outro. Em Bengazi os combates recomeçaram. Há snipers em todos os edifícios. Há caça aos jornalistas estrangeiros. Assaltam os carros nos bairros periféricos. Há tiros. Há incêncios. Não se passa nada. A cidade está calma. A cidade está em guerra.
Reuníamos as informações, contraditórias, e íamos formando na cabeça uma imagem delirante da cidade de onde tínhamos partido há poucos dias. E avançávamos. Cheios de hesitações e de cuidados. Cheios de medo.
Tudo nos parecia suspeito. Quando parámos em Tubruk, Iuri estava agitado. Quis falar connosco, longe do motorista, para dizer: “Ele fala russo perfeitamente. E eu sei que só as famílias próximas de Khadafi mandavam os filhos estudar na Rússia”. Despedimo-lo e contratámos cinco carros para nos levarem em pequenos grupos.
Ao longo da estrada fomos parando em cada povoação, para saber notícias. Iuri, o mais experiente entre nós, era sempre quem construía os cenários mais perigosos. Discutíamos, ponderávamos, decidíamos ora avançar, ora recuar. Tentávamos ser racionais.
Havia o medo e havia o fascínio. Todos conhecíamos bem a cidade de Bengazi, mas não era difícil imaginá-la transfigurada. Nunca é. Se nos disserem que alguém muito familiar enlouqueceu, começamos logo a pensar que a pessoa, vendo bem, nunca foi muito sã. E não nos admiramos que ela se comporte de forma monstruosa, nem nos intimidamos com isso.
Tal como um amigo que se torna assassino, aceitamos-lhe a perversidade como se fosse nossa. Assim manifestado em território conhecido, este é o Mal que também temos em nós, que podemos dominar e que, por isso, nos atrai. Difícil é conter a imaginação.
Anoitecia e nós, trémulos e mudos, aproximávamo-nos de Bengazi. Passámos por tanques incendiados, pelas casas disformes e tristes dos bairros pobres, mas nem sinais de tiros, chamas ou sangue. A cidade estava igual ao que sempre fora. Atravessámo-la com o coração a martelar o peito até ferir. Chegámos ao hotel sem qualquer incidente. Apeámo-nos, fizemos o check-in, como turistas. “Acontece sempre isto. Imaginamos as coisas muito piores do que elas realmente são”, disse Iuri.
(esperemos que sim.)
segunda-feira, abril 11, 2011
Solidão (III)
as coisas existem enquanto nos lembrármos delas.
(pergunto-me,
se há tantas guerras que se fazem em teu nome,
se há tantos homens que acham conforto no teu silêncio,
porque te julgam ouvir, porque te querem ouvir,
o que acontecerá se um dia as pessoas te esquecerem?
seremos nós mais felizes, ou
mais perdidos,
e sós?)
terça-feira, março 29, 2011
Adão e Eva
De há uns anos para cá que reparo neste facto. A resistência das pessoas em mudar de estado. Óbvio, dir-me-ão alguns: poupança de energia. De facto, e num exemplo muito concreto, tendemos a manter os guarda-chuvas abertos quando pára de chover. E isto é uma poupança de energia, certo? Pois. Fechar o guarda-chuva implica inovação, mantê-lo aberto só implica rotina. E um braço erguido com músculos contraídos na continuidade de um tempo. Poupança de energia? (Bah…).
Parece-me que este facto reúne não só fragmentos de inércia, ou de preguiça, mas também outro tipo de evidência: de facto, muitas vezes só damos conta que parou de chover quando olhamos para o sujeito ligeirinho que nos ultrapassa. E o que tem este sujeitinho de especial? É que este sujeitinho passeia-se já de guarda-chuva a balançar no braço (i.e. fechado). Nesse momento, e nesse exacto momento, damos conta que:
- Oh, parou de chover! Oh, ele já fechou o chapéu! Oh, e eu não!
(dito por outras palavras, a consciência do próprio através da consciência do outro. Ou seja, o que acontece é uma actualização da revelação do jardim do Éden: - Oh, estás nu! Ah! E eu também! – simplesmente, agora, numa situação de desigualdade: Ah, e eu não!)
E o que acontece a partir daqui? Isso é outra questão. É que a comparação com o outro tem muito que se lhe diga. De facto, quando vemos um sujeitinho a passear de chapéu a balançar, fechado, percebemos que (a) o outro tem o chapéu fechado, e (b) nós temo-lo aberto, que (c) ou ele é parvo, (d) ou nós estamos desactualizados. Cedo nos apercebemos que, afinal, (e) parou mesmo de chover e que (f) o outro está já melhor adaptado à situação. Logo, inevitavelmente, (g) sentimo-nos ridículos.
E o que fazemos quando nos sentimos assim, (g) ridículos e (d) desactualizados? O outro dia, num cenário de chuva-molha-parvos, vi passar por mim pessoal-do-chapéu-já-fechado. Confronto traz consciência, consciência traz decisão – fechei o chapéu. Num ápice, passa por mim um inerte-ainda-com-o-chapéu-aberto. Olhou-me, catrapiscou-me o chapéu-já-fechado, e prosseguiu. Sem fechar o chapéu.
Pasmei. Não pode ser, isto vai contra a hipótese! E até poderia não ser, e poderá não ser assim mas, então, sorrateiro, depois de passar por mim e de passar a dar as suas costas às minhas, eis que o senhor fecha o chapéu [tive que espreitar... ...]. Hmmmm!
(parece-me a mim que há todo um enigma em torno desta questão de fechar ou manter-aberto o chapéu. e a olhar para as coisas, a tentar vê-las, isto é acaba por ser uma revisão de vida: uns andam toda a vida de chapéu aberto, debaixo dele, cegos por ele, sem notar que estão desactualizados. Outros insistem em fechar o chapéu, Chova não chova, é sempre ridículo e eu aguento nevões. E molham-se. Outros, fecham, abrem, tornam a fechar, e não necessariamente em consonância com a queda da chuva. Outros ainda abrem-porque-o-outro-abriu – fazem porque o outro fez, avançam porque o outro avançou - mas, cegos pelo orgulho, insistem em manter-se na sua, em não remediar o feito, em não fechar o chapéu, embutidos numa vergonha – essa sim, ridícula - só para não terem que admitir que outro, afinal, está agora melhor adaptado – leia-se, um pouco mais correcto - que nós. E é esta parte da natureza humana que me angustia: quando não nos permitimos o arrependimento só porque não queremos vergar o orgulho. Porque não é o conhecimento de que estamos nus que nos afasta do Éden, pelo contrário, é a recusa em admitirmos que o estamos.)
[Agosto, 2008]
segunda-feira, março 28, 2011
mirabolante
às vezes, enquanto leio artigos em que os autores, cientistas, interpretam os resultados obtidos a partir de análises estatísticas confusas baseados em técnicas que se baseiam em sistemas que têm ainda tanto de desconhecido, em análises em que é sempre possível dar-lhe a volta, às vezes penso que É engraçado como a mente humana é capaz de tirar tantas ilações. Engraçado engraçado é que tudo isto não significasse nada, e que nós passássemos as nossas vidinhas em torno de coisas que não são nada. ou que, pelo menos, não são nada do que nós pensamos que são, acabando nós a calcular a vida por cima disto tudo que não é senão vago, escasso, incerto, múltiplo e hipotético. como a ciência.
(tantas horas passo de cabeça enfiada num ecrã plano, a perder dias intermináveis de sol e chuva e vento na face, e um mar enorme e a areia nos pés, a relva fresquinha e pontiaguda a fazer cócegas, os músculos a correr atrás de uma bola, os músculos a estirar enquanto correm, o sabor das coisas no topo de uma montanha, os banhos gelados no mar de inverno, o sol a cair por entre as árvores e as sombras a crescer nos campos de perder a vista. tanta coisa que se perde que às vezes penso...
valerão a pena todas as horas aqui?)
sexta-feira, novembro 19, 2010
acertar ao lado
“Fazes círculos perfeitos, mas
perdes sempre.”
(pena que nem tudo aquilo em que investimos tudo o que temos, seja aquilo que os outros esperam de nós.)
sexta-feira, abril 09, 2010
oculto
pum. páro e oiço. que raio... olho em volta, nada. continuo, dois passos. pim. estaco. a rua está escura, mal-alumiada. só o vento sopra - então de onde este barulho? debaixo da camisola o coração acelera. pam pum, pam-pum, pampum. hesito nos passos. olho para trás. para cima. triiiM. arregalo os olhos, fito as janelas - quem é?. QUEM É?! nada. dorme-se naquela rua, parece. PAM. o coração salta. não se aguenta nos cavalos, quer fugir-me do peito! arfo já. circulo sobre mim mesma. as mãos à cabeça. um barulho aqui e outro ali, pum pim! arrepia-se-me a pele. pim pum! eriçam-se-me os pêlos. triiim! suam-se-me as mãos! tenho um aperto sobre um aperto na mente! quero correr, fugir, mas para onde? vou, não vou. solto um gemido. avanço, não avanço. grito, quero fugiiiiiiiiiiiir. pulo! e, depois, desapareço.
(acho que existem gigantes que nos gozam: vêem-nos cá embaixo na gaiola, batem de repente nas portadas e riem-se à brava com o susto pregado. mas nós, ceguetas, não os conseguimos ver - são demasiado grandes para que os possamos ver...)
(experimentei isto com o gato das traseiras quando o vi passear descansadinho sobre o telhado. devo dizer que, se ele não estava cagadinho de medo, parecia.)
segunda-feira, outubro 26, 2009
corrigendum
A menina de porcelana pede desculpa pelo que a i., sua representante real, disse um destes dias ao almoço acerca dos intermináveis minutos de mimo-muito-mimo-e-embalo-muito-embalo no Baby Channel enquanto se olha para um peixinho paciente e se ouve uma musiquinha tra la la.
De facto, enterrou-se a si mesma e ao post do mesmo dia. porque as coisas para serem descobertas, têm que ser observadas. mas, mais que isso, tem que se ir com disponibilidade para a contemplação.
E o que acontece é que eu e o Baby Channel ainda não nos enfrentámos nesses preparos.
quinta-feira, abril 23, 2009
O indivíduo à escala ecológica
(Mace, 1977)
(foto: National Geographic [Portugal], Agosto 2008, tema: "China")
