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quinta-feira, agosto 25, 2011

contexto (i)

      
hoje, o gajo-de-quem-toda-a-gente-foge fez um trocadilho. e, garanto, foi um trocadilho com piada. mas ninguém se riu. eu não me ri. limitei-me a esboçar um sorriso discreto, baixei os olhos para o prato e engoli. será que acabou por não ter piada mesmo que, no absoluto, tivesse piada? não sei, mas o meu cérebro detectou ali um bom trocadilho.
pensei, se fosse o gajo-que-toda-a-gente-curte a fazer este trocadilho ia ser risada a tarde toda. mas não foi. e, olha, vamos ter que trabalhar.

(acho que há uma aplicação qualquer que a sociedade nos instala no cérebro para identificar contextos. e com direito a actualizações! a partir daqui, e depois de dada a etiqueta correcta, permite-nos ter o bom senso - ou o senso comum? - de não rir de piadas de pessoas que à partida não têm piada. para compensar, vá, podemos rir-nos delas.)

                        

quarta-feira, abril 20, 2011

etiquetas na pele


"na 5a feira vai almoçar com o filho epiléptico."

ouvido isto, tratei de tecer o resto da história:

na 6a feira janta com o primo bipolar em fase maníaca. e depois há festa!
no sábado vai às compras com a tia diabética e, de seguida,
janta com a amiga deprimida que se divorciou recentemente do marido celíaco. não há festa.
não ousando escapar, toma ela própria o comprimido, é uma drogada.

no domingo almoça em família, com o outro filho, hiperactivo, a miúda obesa, e o marido desempregado (que é o mesmo que dizer, futuro alcoólico identificado ou futuro deprimido). o filho epiléptico não almoça aqui.

na 2a, depois de sair do trabalho, faz o jantar para os filhos e vai ver a mãe demente. por coincidência, na mesma casa, está também o pai normal. quê, normal?! não tem sequer uma patologiazinha com que o possamos definir? uma amigdalite recidivante, uma renite alérgica, uma hipertrofiazinha prostática incipiente? sei lá, qualquer coisa muito única, nada repetível e comum, que possa ser incluída na etiqueta descritiva? uma carecazinha à vista, uma fugazinha aos impostos, uma batidelazita no carro da frente? prooonto, está bem. o pai normal. mas um tremendo anormal, caramba.

quinta-feira, abril 07, 2011

bitter sweet a bit sweeter


sorrio. e canso-me. vai-te embora, não antes abraça-me, deixa-me, gosto tanto de ti, irritas-me, eu estou bem, mas tenho medo, perco a paciência, e sinto-me envergonhada, quase que te odeio, arrelio-me

e sobe pela espinha a raiva enquanto fazemos a escalada. e ninguém precisa de ouvir, nem
ninguém precisa de falar, fazemos sozinhos o diálogo, a conversa, falamos connosco e, connosco apenas, perdemos a paciência,
choramos, fazemos a fita, batemo-nos pelo chão fora, magoamo-nos

para depois cessar tudo. emudecemos,

desce pela espinha o cansaço do desespero, não queremos chatear ninguém, não queremos ser chateados,
nem sequer queremos escalar caramba!
queremos paz, só isso, paz. sem dúvidas, preocupações, discussões.
sem perder as estribeiras, sem perder a paciência. sem acidular a voz com o que é tão somente teoria, nem isso, hipótese, incerteza, aquilo que deixamos correr no pensamento, pelo corpo fora. é um filme
com mirabolantes argumentos que a nossa cabecinha tece e nem sequer tem que ser baseado em factos reais, o que são os factos, não quero saber dos factos, não há factos, apenas interpretações.
por isso não quero, quero paz, isso, só isso.

cansámo-nos. hoje, estamos fartos. queremos ver, ouvir, sentir a realidade - nem sequer sabê-la, queremos apenas o suficiente para
viver isto e isto mesmo. tac - tac.

hoje.

amanhã quererei algo no meio. ou a 2/6. depois? não sei. mas
é um ciclo.


(somos tão múltiplos, tão incertos, tão frágeis e improvavelmente mas tão verdadeiramente fortes que se não tivéssemos a mesma face todos os dias não sei como seria. como nos reconheceríamos uns aos outros quando mudamos o padrão. porque somos constantemente surpreendidos. por nós, e pelos outros. mas
que padrão? do que somos em cada contexto? do que somos com cada pessoa? do que somos connosco?
se eu mudar, deixo de ser eu? e até onde posso mudar continuando a ser eu?

afinal, se em nós pode ser tudo, como conseguir definir pessoas?)

sábado, fevereiro 26, 2011

deep inside


"Ondanks alles, geloof ik dat de mensen een goed hart hebben."
("Apesar de tudo, acredito que as pessoas têm bom coração"; Anne Frank, 15 Julho, 1944)


me too. but damn if you don't have to dig.


quinta-feira, dezembro 09, 2010

handle with care.




i myself would also like to have Carefully in the name.
'coz i think people tend to forget.


quinta-feira, dezembro 02, 2010

chiu (II)




caminham na rua, olhos nos olhos, nas mãos, nos gestos. falam entre si numa língua que não entendo. quero ouvir, ouvir o que dizem, e não sei. conversas assim entre duas pessoas: das coisas mais bonitas que já vi. linguagem gestual, digo: no meio de todo o ruído, são eles que me cativam.

são os olhares, os gestos e as expressões. tudo fala sem falar. tudo se expressa, mesmo quando queremos conter.

porque, se virmos bem, o silêncio não existe.


domingo, novembro 22, 2009

se venceres o instante


Quando te sentas à noite na beirinha da cama e
olhas o mundo curtinho em redor, tão curtinho
quanto o teu campo de visão e
a linha do horizonte que te escapa.

quando vês as luzes do teu quarto as luzes no teu quarto

e sabes tanta vida lá fora.
quando pensas em ti ali, só,
e o silêncio,
só.

(ou então um mundo a abarrotar de emoções)

e então o coração bate
- tu escutas demasiado o coração -

ou o coração bate antes e depois sentas-te na beirinha da cama
e pensas.
e então ouves, mais e mais
e o coração bate mais forte, mais e mais.

quando tu pensas sentes e pensas e sentes
quando tudo é um ciclo.

quando perdes a noção da realidade
e só pensas o corpo, a sentir a sentir a sentir.

quando os pulmões arfam
e tu arfas
e o mundo é tão pequenino quanto a tua mente contraída,
sufocada
pelo peso dos instantes.

quando o mundo é tão grande quanto os teus medos.
pesado

quando tu inspiras
expiras inspiras expiras
cada vez mais rápido, e rápido, mais e mais

e tu pensas

e sentes o pânico a correr-te pelas veias, como agulhas finas, como
formigas atrevidas que te beliscam a carne, quando

sentes a cabeça à roda, e as luzes te encadeiam, e achas que vais enlouquecer,
que a lucidez acaba ali para ti.

e o pânico preenche-te os poros,
e o medo abarrota-te o peito.

e tu pensas.

quando o desespero te atola
e te preenche,
inunda

quando pensas que não interessa quantas vezes sobrevives, que
há-de sempre voltar esse instante
em que tudo bate mais depressa do que aquilo que tu consegues acompanhar,

quando o desespero te enfarta
o peito e a consciência e

já nada importa quando
tudo pesa

Eu sento-me contigo à beirinha dessa tua cama,
imagina-me a sentar-me contigo à beirinha dessa tua cama,
e digo-te ao ouvido

Não te atrevas a desistir.

(e depois abraço-te, muito. e agarro-te a esta vida.)


terça-feira, novembro 03, 2009

viver passa muito por definir critérios (VII)


preenches um dois três e quatro critérios. lamento,
falta-te um. és uma perturbada sem especificação.


quinta-feira, outubro 22, 2009

Coisas belas, belíssimas, ou bonitas apenas (I)





(You wanna see the most beautiful thing I ever found? It was one of those days when it's a minute away from snowing and there's this electricity in the air, you can almost hear it. And this bag was just dancing with me. Like a little kid begging me to play with it. For fifteen minutes. And that's the day I realize there was this entire life behind things... this incredibly benevolent force, that wanted me to know there was no reason to be afraid, ever. Video's a poor excuse, I know. But it helps me remember... I need to remember... Sometimes there's so much beauty in the world [I feel like I can't take it, like my heart's going to cave in]. É o que ele* diz.)


(* Ricky Fitts, the weird boy, em American beauty, Sam Mendes, 1999)

sexta-feira, março 27, 2009

Ciclos


«Dan: Everybody wants to be happy.
Larry: Depressives don't. They want to be unhappy to confirm they're depressed. If they were happy they couldn't be depressed anymore. They'd have to go out into the world and live. Which can be depressing.»

[Mike Nichols, Closer, 2004]


(vícios, hábitos, fugas. o que lhe quiserem chamar. a verdade é que se põe a vida a passar por um filtro mel-oh-dramático. e tudo ganha um sentido: a culpa é nossa, merecemos sofrer. Ou então: a vida é injusta, e é, e nós não merecemos sofrer. mas sofremos. somos então mártires. e merecemos um céu.)

(a depressão intriga-me. é também uma questão de força de vontade, ou não podemos mesmo lutar contra a biologia? Ou ainda, apesar de tudo o que perdemos, o que é que nos faz manter a depressão?)

sexta-feira, novembro 21, 2008

Nota do rodapé


a partir de hoje assinarei com outro nome.

para além de andar a pensar que the painter é realmente um "foleirismo" quase à moda do para inglês ler,
aparece-me assim a letras bem carregadas na fronte que, mais do que para pinturas, jeito jeito

é a minha propensão natural para quebras.

terça-feira, novembro 18, 2008

Rewind after seeing.


[conteúdo potencialmente capaz de dar perspectivas de interpretação. Ou, Ignore before seeing the movie.]

Existe um pequeno ponto na linha do tempo em que, defrontados com duas opções, temos que escolher uma. Podemos adiar a decisão, mas esse ponto na linha mantém-se, e aguarda-nos até ao instante em que fazemos a escolha. Depois, as peças caiem, uma após a outra, numa sucessão contínua de acontecimentos. E não há retorno.

Pensar que tudo começa nas funções cerebrais de um homem que subitamente se torna inútil, e decide escrever as memoirs. E que, depois das voltas, não pode acabar com a supressão daquelas funções. Que há todo um processo que se inicia quando fazemos a borboleta bater as asas. E que não há volta depois do sopro.

Pensar que não somos maus nem bons. Que às vezes somos apenas cegos. Que ruminamos Mas tu não vês? És Linda! Mas, de facto, não vemos. Porque por dentro somos um caco.

Pensar que os inocentes morrem, não porque são inocentes e se descuidam, mas porque a vida é cheia de coincidências e de acasos sobre os quais, uma vez começado o jogo, perdemos o controlo. Que a morte está só à espera que queiramos viver. Que está só à espera que vivamos, só à espera que aconteçamos.

Que somos bichos de rotinas. Pensamos que temos o controlo e depois, zás. Caímos estatelados, trucidados pela traição. Porque somos cegos, sim cegos, e vemos o que queremos ver. Hiper-vemos até!, menos o que está mesmo à nossa frente.

Que pensamos que nos baseamos na racionalidade para tomar decisões e fazer escolhas, mas, não, afinal escolhemos somente ao sabor da necessidade. Do impulso para.

Que, no fundo, não somos homens, somos apenas idiotas.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Nuas


O que interessa não é como parecem vestidas.
O que interessa é o que são despidas.

(as políticas e as palavras, quero dizer. mas o resto também.)

(a algumas horas das eleições nos EUA, penso sobre isto. que o que eu gostava mesmo, depois dos votos serem manipulados, colocados, contados e divulgados, que o que eu gostava mesmo mesmo mesmo era de ver o novo presidente [a] nu.)

sexta-feira, outubro 17, 2008

He’ll figure?



I hope that one day Hilfiger out that with that hair and with that size of legs this was not the best picture to promote his expensive essentials things.


sexta-feira, outubro 10, 2008

O outro lado do espelho

.
Exterior, obra vista da parte inferior.
























Exterior, obra vista da parte superior.
























Espreitar por dentro...
























Espera. Será?
























Sim, é.





















Espelho meu, espelho meu,
haverá mundo mais belo que o meu?


(cimento, baldes, blocos, ferro. um espelho cor-de-rosa.
fico a pensar no porquê.

tenho pena que, por mais bonita e colorida que seja a moldura, o mundo do outro lado do espelho seja apenas um reflexo da realidade.)


quarta-feira, junho 25, 2008

“Achas que sou maluquinha por gostar do cheiro dos teus pés?”


acho. mas ser-se louco é tão bonito.

(tenho tal admiração por esta mulher, que calculo quer ela me acharia ridícula se soubesse que o chego a confessar.)

sexta-feira, maio 30, 2008

Louca

Não sei se é pelo olhar comprometido que as pessoas me deitam, ou se por algum resquício de sentido estético em mim, mas sinto que ando na fase de me vestir descombinada. Acredito que seja algo crónico recidivante, consoante o equilíbrio que tenho entre a roupa no roupeiro e na máquina de lavar. Mas também tenho a esperança que seja mais que isso. De facto, julgo começar a gostar.

(imaginar os roxos e os amarelos, os tecidos felpudos com os lisos, as riscas com o floreado, faz-me pensar que o mundo tem uma carrada de possibilidades para além das mais normais.)

E desponta em mim algum prazer em ver esses olhares atravessados. Faz-me sentir louca. Faz-me sentir na pele o que sempre senti nas entranhas.

quarta-feira, maio 28, 2008

menina de porcelana

frágeis

as meninas que se quebram
quando oscilam
bruscamente

entre o quente e o frio.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Era uma vez...

Vou contar a história de uma mosquinha. Aliás, da parva de uma mosquinha! Era uma mosquinha muito parola, sejamos sinceros, que as histórias são contadas como as queremos contar.
Parola então. Esta mosquinha era muito tímida e tinha medo de muita coisa. Acima de tudo, tinha medo que os outros não gostassem dela assim. Porque todas as outras mosquinhas eram umas verdadeiras chatas – como é suposto serem visto que esse é o seu papel – e andavam sempre a voar e a poisar em coisas nojentas. Mas esta mosquinha era muito pipi e muito medrosa, e não fazia nada disso. Nem voava porque tinha medo de cair.
Ora acontece que, como esta mosquinha era muito parada, e até parecia que nem tinha personalidade própria, tal era o seu medo de dizer o que achava – calava tudo e remoía para dentro (Até ao dia em que deixou de saber o que queria...) – começaram a chamar-lhe de Mosquinha Morta.
Assim, como não vivia, tinha muito tempo para pensar. E então, sem nada mais interessante para fazer – como por exemplo, poisar na merda e outros afins – punha-se a antecipar as situações e a ver crescer o seu medo. Ah! E gostava também de se oferecer para as piores tarefas – tipo ir buscar coisas deliciosas e podres a tapetinhos colantes, ou a gaiolas gigantes com umas luzes azuis giras! talvez os outros gostassem mais dela se ela lhes fizesse as coisas que não lhes apetecia fazer... Talvez notassem mais na sua existência, nem que fosse apenas quando precisassem. Ela supostamente não se importava. Sentia-se útil! Então, para que os outros não se chateassem, pisava-se a si própria com as muitas patinhas que tinha.
Mas, como pensava tanto, começou a perceber, que afinal as coisas até lhe faziam diferença. Só que, como era uma parola e uma medrosa, não tinha coragem de dizer as coisas, não fossem as outras Moscas Vivas estranhar o facto de ela não se limitar aos papéis chatos! Então calava-se e não discutia nas horas de maior calor, nem exigia o seu pedacinho de merda. Afinal, dizia ela consigo, fazer as coisas chatas também é uma boa merda...
E a parola da mosquinha ía cedendo, porque a coitadinha (ai tão coitadinha!...) não tinha coragem suficiente para arranjar problemas. Bah... E então não complicava.
Claro que um dia, quando as outras mosquinhas todas chateavam o pessoal, se divertiam à brava e tinham o melhor da vida, a parvinha começou a remoer tudo: porque é que ela havia de ser diferente? Ninguém a tinha subjugado! Porque é que ela, parva, se oferecia para as piores coisas?
E o saquinho que trazia lá dentro há muito tempo foi enchendo, e – adivinhe-se – rebentou! Exactamente no meio do festim, quando ninguém esperava que rebentasse. E então aí soou muito muito mal. Porque já ninguém estava à espera que aquela mosquinha – que decidiu adoptar o papel de mosquinha-morta – mexesse a pata e a asa, e voasse!

Pois é, que raio de história. O melhor é ficar por aqui. É que, não sei se compreendem mas, já tresanda...