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segunda-feira, abril 18, 2011

uma coisa (im)possível antes do pequeno almoço


- alguém perdeu o passe, estende a senhora o bracito flácido para o motorista enquanto o entrega. ele recolhe e responde:
- oh minha senhora, há quem só não perca a cabeça porque está agarrada!
- pois eu digo-lhe que há muita gente que perde a cabeça mesmo tendo-a agarrada.


quinta-feira, abril 07, 2011

bitter sweet a bit sweeter


sorrio. e canso-me. vai-te embora, não antes abraça-me, deixa-me, gosto tanto de ti, irritas-me, eu estou bem, mas tenho medo, perco a paciência, e sinto-me envergonhada, quase que te odeio, arrelio-me

e sobe pela espinha a raiva enquanto fazemos a escalada. e ninguém precisa de ouvir, nem
ninguém precisa de falar, fazemos sozinhos o diálogo, a conversa, falamos connosco e, connosco apenas, perdemos a paciência,
choramos, fazemos a fita, batemo-nos pelo chão fora, magoamo-nos

para depois cessar tudo. emudecemos,

desce pela espinha o cansaço do desespero, não queremos chatear ninguém, não queremos ser chateados,
nem sequer queremos escalar caramba!
queremos paz, só isso, paz. sem dúvidas, preocupações, discussões.
sem perder as estribeiras, sem perder a paciência. sem acidular a voz com o que é tão somente teoria, nem isso, hipótese, incerteza, aquilo que deixamos correr no pensamento, pelo corpo fora. é um filme
com mirabolantes argumentos que a nossa cabecinha tece e nem sequer tem que ser baseado em factos reais, o que são os factos, não quero saber dos factos, não há factos, apenas interpretações.
por isso não quero, quero paz, isso, só isso.

cansámo-nos. hoje, estamos fartos. queremos ver, ouvir, sentir a realidade - nem sequer sabê-la, queremos apenas o suficiente para
viver isto e isto mesmo. tac - tac.

hoje.

amanhã quererei algo no meio. ou a 2/6. depois? não sei. mas
é um ciclo.


(somos tão múltiplos, tão incertos, tão frágeis e improvavelmente mas tão verdadeiramente fortes que se não tivéssemos a mesma face todos os dias não sei como seria. como nos reconheceríamos uns aos outros quando mudamos o padrão. porque somos constantemente surpreendidos. por nós, e pelos outros. mas
que padrão? do que somos em cada contexto? do que somos com cada pessoa? do que somos connosco?
se eu mudar, deixo de ser eu? e até onde posso mudar continuando a ser eu?

afinal, se em nós pode ser tudo, como conseguir definir pessoas?)

sexta-feira, outubro 22, 2010

acordes da vida

       
"sometimes they do.
sometimes they don't."


(acerca do que nos propomos a compôr na vida. do que chegamos a compôr. e, depois, da forma como vemos o nosso desempenho.) 

             
            

quinta-feira, setembro 09, 2010

malmequer

um bom dia
um mau dia
um bom dia
um mau dia
um bom dia
um mau dia
um bom dia
um mau dia
um bom dia
um mau dia
um bom dia
um mau dia
...
n+1.


(nunca acaba. acaba?
e porque é que não se chama bemmequer?)

quarta-feira, março 05, 2008

(apetece-me dar um murro, pode ser no antónio.)

        
Rebelde. Ser rebelde. Acho que o desejo me veio da irmã que sempre foi contra tudo e todos. Então quis ser também. Passei por cima do cordeirinho – apesar de continuar a sê-lo para sempre – e enfaixei os cabelos em dois totós que percorri com elásticos de diferentes cores; cortei o cabelo curtinho e deixei a madeixa comprida que entrancei. Comprei o casaco de cabedal e as botas pretas e pesadas – que me magoavam imenso os tornozelos, mas Quero lá saber, não há alma que não se vença, também não há-de haver botas inflexíveis nem tornozelos incontornáveis!
Quis ir contra tudo, contra deus até. Então mudei-me para a malfadada terra, que os corvos deixaram ao abandono, e vesti-me de preto para fazer o luto de tudo o que ficou para trás. Vesti luvas esburacadas, saias por cima de calças e fiquei enfim a Saia-calça, com muito orgulho meu. No meio – e bem emaranhado, como quem quer ser tudo e não é senão uma amálgama de identidades – pintei as unhas, uma de cada cor, deixei-as crescer, e fiz recortes nelas. Meti as meias debaixo do joelho e os dois totós. Fiquei a Pipi, Pipi das Meias Altas. A menina instável, como me descreveu ele, aquela fachada de gente. Pois era, pois fui (pois sou). Desde esse tempo. Até ao dia em que me cansei de tudo. As cores esbateram, as calças prevaleceram. E eu continuei em frente. Até ao dia em que me cansar de tudo. Acho que nunca consegui. Ser rebelde. Entrei numa certa harmonia com as coisas, e não há como escapar-lhe.
Mas não gosto. Nunca gostei.

(reparo agora que tenho os punhos ensanguentados…)