terça-feira, julho 08, 2008

Way out or way in?







































































(o conhecimento das pessoas também é uma progressão.
primeiro é-se o que se parece
depois passa a parecer-se o que se é.)





24

Se pensar de dentro, de dentro das coisas, das coisas como eu Parece-me que a minha vida se passou num dia.

Não sei, mas da infância tenho algumas lembranças semelhantes ao raiar de uma luz, ao nascer dos sonhos.

Da adolescência um sol a pique de se ficar encandeado e pensar que se vê tudo E afinal não se vê é nada.

Da adultez nem tenho memórias, que isto o tempo corre e exige E acabamos por, nas mudanças, perder pedaços que não voltamos a recuperar.

De agora (será velhice?) é um cansaço das coisas, Querer o tempo e saber que se extingue e que não volta.

A noite vai escura e parece-me que não há a luz no fundo do túnel, que ainda faltam umas 7 horas para o novo dia, e eu nem sei se depois de dormir volto a acordar.

Couraças


Na descida, andei a pisar ouro. Não sabia que havia ouro na Couraça. Erro meu, porque todos os dias ao final da tarde, quando o sol se vai deitando de mansinho, as pedras cinzentas encerram-se e metem as couraças de ouro para dormir.

(é incrível como as coisas mais pequeninas da vida nos despertam, por vezes, o maior sorriso do dia.)

quinta-feira, julho 03, 2008

Berço






















(Bairro da Graça, Lisboa, Natal 2006)


Lisboa dos lisboetas
Lisboa dos deslocados

Lisboa dos portugueses
Lisboa dos emigrantes

Lisboa dos residentes
Lisboa dos turistas

Lisboa dos bairristas
Lisboa dos betinhos

Lisboa dos fadistas
Lisboa dos rappers

Lisboa dos pastéis
Lisboa da fast food

Lisboa das ruas estreitas
Lisboa das ruas largas

Lisboa dos olhares curiosos
Lisboa dos indiferentes

Lisboa dos que vêm de fora
Lisboa dos que vão de dentro.

(pergunto-me como podemos sentir falta de algo
que não chegámos a conhecer?)

terça-feira, julho 01, 2008

Escape


Decorei-te a frase de intervenção, a aparição súbita. Decorei-te o cabelo ligeiramente encaracolado, os fios brancos de quando a quando, os dentes finos e os olhos arregalados. Decorei-te os gritos e a voz arrancada de um fundo sem fundo. Decorei-te esse desespero de querer ser o que não está em nós. De fugir daquilo que nos está no sangue. Encontrámo-nos no meio de uma sucessão desordenada de instantes, e falámos como se nos conhecêssemos desde sempre. Trocámos ideias, ultrapassámos os limites. E depois, saciados da quebra da rotina, seguimos com a nossa vida.
Talvez todos queiramos encontrar um louco. Alguém que nos arranque do que vivemos todos os dias. Que nos acorde. Por instantes. Para quando formos para o café termos uma história para contar. O que não queremos depois é ter que viver com ele. É um brinquedo de meia-hora que só queremos se, quando começar a chatear, o pudermos pôr de lado.
(aparte de ser rebelde, acho que uma parte de mim – a que não se preocupa com as aparências, a que compensa essa parte – uma parte de mim sempre quis ser louca. mas essas coisas não se forçam. já vêm nos genes. e se tentarmos ser loucos, acabamos por nos tornar ridículos.)

sexta-feira, junho 27, 2008

Serviço Público.

 
Marco o número.
 
Para tal e tal marque isto. 
Para tal e outro marque aquilo. 
Marco isto. 
Se quer tal e coiso marque x. 
Se quer tal e aqueloutro marque y. 
Marco y. Para condições marque bu. 
Para confirmar marque pu. 
Marco pu. 
De certeza que quer tal e aqueloutro?
Marque s para confirmar. 
Marque t para cancelar. 
Marco s. 
Lamentamos. Só pode mudar no dia que não é hoje.
   
  
      

quarta-feira, junho 25, 2008

“Achas que sou maluquinha por gostar do cheiro dos teus pés?”


acho. mas ser-se louco é tão bonito.

(tenho tal admiração por esta mulher, que calculo quer ela me acharia ridícula se soubesse que o chego a confessar.)

Acerca dos Episódios Depressivos (Ou um telegrama aqui para dentro)


"Eu disse que ia ao fundo buscar-te. Não disse que ficava lá a fazer-te companhia.”

(Inferno, Joaquim Leitão, 1999)

Das Mulheres

I – Achegas

“Deviam vestir-se de branco, como os outros electrodomésticos.”

(Bernie Ecclestone, patrão da Fórmula 1, acerca das mulheres e da sua potencial participação como pilotas de automóvel.)

II – Truque

“Eu quando me excito ao ver uma mulher, basta-me imaginar o interior do corpo dela.”

(ilustre desconhecido)

Bexiguinha e o Point-less da existência das coisas.

Pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra.

Saiem-me as tripas pelos olhos. Morro que não aguento. Que arda e sofra, Odeio-o Espero que morra.

(Levar as coisas ao extremo é como repetir a mesma palavra vezes sem conta até que soe estranha e nova e desconhecida. As coisas assim tornam-se patéticas e vãs, inúteis. É por isso que as devíamos pegar pela mão, ou mesmo agarrá-las pelo braço, e levá-las até esse ponto longínquo – consumá-las num grito despropositado. Nem que seja apenas para percebermos depois que onde queremos ficar é lá atrás. Ou se calhar até um pouco mais à frente…)

segunda-feira, junho 23, 2008

Sem volta.


















That's not the beginning of the end
That's the return to yourself
The return to innocence
(The Return to Innocence, Enigma)

(Eu também gostava de voltar a mim mesma
e a essa inocência
de ser só eu, sem o resto.
Sem tudo o que se vai acoplando, E a estripa.
          
Mas os inocentes são mortos cedo. Porque são imaculados.
É o preço de não sofrerem a consciência do mundo. É assim a inocência – tem um tempo
e, depois,
morre. De uma forma, ou de outra.)


      

quinta-feira, junho 19, 2008

Promessas

Quanto mais oiço falar deste mundo
Quanto mais oiço falar as pessoas deste mundo

Menos vontade tenho de viver nele
Mais vontade tenho de ir para outro lugar.

Para onde? Não sei.
Para o meu mundo talvez. (Para lado nenhum?)

“But I have promises to keep And miles to go before I can sleep.” (Robert Frost)

(Bolas!)

Pur(o) acaso [ler Por acaso].

Sou tremendamente defensora que o mundo é transformável, que as situações são alteráveis, que a nossa percepção das coisas é moldável. Daí, que tudo seja modificável! Por essa razão, não há lugar para determinismos, nem para contas feitas a priori com resultados direitinhos e bonitinhos. Não. Tudo na natureza nos surpreende. Mas estamos tão enviesados pelo larga-cai, que falamos de milagres quando não conseguimos compreender o que correu mal.

Se olharmos melhor, vemos que tudo é transformável, tudo é alterável, tudo é moldável. Tudo é incerto e modificável! Tudo é modificável!

(fui à casa-de-banho num instante, fazer o que tinha que ser feito. meti a mão à roldana do papel e… ups! acabou.)

Ok, algumas coisas não são modificáveis.

Pirâmide das necessidades.

Sou um homem de negócios. Faço negócios. Sempre fiz negócios. Sempre fui um homem de negócios. Desde o tempo em que trocava laranjas por rebuçados, apontamentos por ténis novos, bolas de futebol por nomes de raparigas. Hoje troco serviços por lucros. Por segurança. Por conforto. Para no final do dia chegar a casa e dizer “Querida, cheguei a casa”. E receber nos lábios o beijo enternecido e nas pernas os abraços fortes dos bracitos exaustos de um dia de brincadeiras.

Cheguei ao topo da montanha. Quando saí do trabalho, cansado e exaurido de tentar convencer o mundo, de lhe mostrar que os meus serviços são os melhores, que sem eles não vale a pena progredir neste negócio, Quando cheguei a casa, ansioso pelo beijo e pelos abraços, Quando abri a porta, quando entrei… encontrei o silêncio. Querida, cheguei! Silêncio. Meninos! Calado o espaço.

Não sei se é de mim, mas quando se está no topo da montanha, não se vêem as pedrinhas pequenas cá em baixo, esquecem-se as tortuosidades do caminho. O momento é aquele. O resto não existe. A minha mulher estava deitada. Caída pelo chão. Afastados, os pequenitos, e os seus bracitos frouxos e ensanguentados. Sempre achei que percebia tudo acerca de trocas. Até hoje. Troco a minha vida, agora, por um pedaço de paz. Bang.

sexta-feira, junho 13, 2008

Jogos

Penso que me ando a tornar muito cocó. A minha última mania (pelo menos, está mais evidenciada) é criticar tudo e todos, ser pouco tolerante e achar que consigo ver por detrás das coisas. Que a mim já não me enganam! Que é preciso estar sempre atento e desconfiado, porque se não espreita o diabo espreita o vizinho do lado que é um oportunista.

Mudando radicalmente de assunto. O meu lado emotivo diz-me para vibrar com os golos, o lado racional (o mesmo que não me deixou gritar e saltar quando consegui a bolsa, o mesmo que me estancou a reacção efusiva quando entrei no curso que queria e no sítio onde queria, o mesmo que não me deixa dar gargalhadas sonoras em filmes básicos, o mesmo que me faz ponderar sobre alguma aparente graça do destino, o mesmo que me faz parecer adulta quando o nome que eu dou a isso é velhice precoce.), este lado racional diz-me que é tudo uma cangalhada e que o que vale a pena é desesperarmos com este país (e com este mundo!) que nos devora sorrateiramente.

(Devo dizer que estou um bocadinho farta desta luta entre titãs. Sinto-me cada vez mais esfrangalhada.)

Deixar que os golos me preencham. Pensar que é tudo um engodo. Eu até acho que agora consigo ver por detrás das coisas! Devo dizer que, geralmente, o meu lado racional controla o jogo. E acaba por ganhar. Quem perde sou eu.


quinta-feira, junho 12, 2008

Viagens.


“ (…) e o meu desejo de ir embora pelo mundo…
… a vida é tão pouca
e o mundo é tão grande
que terra aonde eu passe não posso voltar. (…)”



(«Serenata» em «Poemas Completos», de Manuel da Fonseca)

Blue Holes And Revelations

















 



Very a(Muse)ing!

       

Lesmas

Ainda me lembro quando a minha tia me veio com a história dos cães abandonados à sorte naqueles caminhos sós, dos cães que abocanhavam as pessoas, das pessoas que tiveram que enfrentar os bichos. Lembro-me de ouvir que eram caminhos perigosos, que havia homens à espreita, que eram incertos para uma menina sozinha os fazer. Os caminhos tornaram-se então longos e inquietantes. E as petalazinhas brancas dentes arregalados.

Ainda me lembro quando as ruas de Coimbra eram as ruas de uma cidade pequena, livre de perigos e sobressaltos. Os caminhos da noite eram desertos, e não havia grande receio que o não fossem. Depois, o chinfrim no ouvido que assaltavam aqui e ali, que violavam acolá. Que as meninas sozinhas eram um chamariz para as tentações dos homens. As ruas de Coimbra passaram a fazer-se à pressa. Sem o prazer da luz dourada a bater no pensamento.

É este o poder da sugestão: minhocas na cabeça. E é isto que nos lentifica a vida.

(a minha mãe também encontrava lesmas nas couves. metia-lhes sal encima e lá as deixava a contorcerem-se até se lhes desaparecer a existência. e era assim que devia ser com estas minhocas.)

terça-feira, junho 03, 2008

Eternal sunshine of the spotless mind



Este filme tem tanto de fantasia como de realidade.
E é isso que o torna tão bonito.

(quando tudo-o-que-temos-cá-dentro é mais forte.
porque não se apagam amores: aprende-se é a viver sem eles. e mais díficil que isso, só aprender a viver com eles.)

(música: The Polyphonic Spree, Light and day;
filme: Eternal sunshine of the spotless mind, Michel Gondry, 2004)

sexta-feira, maio 30, 2008

Louca

Não sei se é pelo olhar comprometido que as pessoas me deitam, ou se por algum resquício de sentido estético em mim, mas sinto que ando na fase de me vestir descombinada. Acredito que seja algo crónico recidivante, consoante o equilíbrio que tenho entre a roupa no roupeiro e na máquina de lavar. Mas também tenho a esperança que seja mais que isso. De facto, julgo começar a gostar.

(imaginar os roxos e os amarelos, os tecidos felpudos com os lisos, as riscas com o floreado, faz-me pensar que o mundo tem uma carrada de possibilidades para além das mais normais.)

E desponta em mim algum prazer em ver esses olhares atravessados. Faz-me sentir louca. Faz-me sentir na pele o que sempre senti nas entranhas.

quarta-feira, maio 28, 2008

menina de porcelana

frágeis

as meninas que se quebram
quando oscilam
bruscamente

entre o quente e o frio.

segunda-feira, maio 19, 2008

(Bexiguinha e ) O legado do Dr. Mabuse

Quando ando sozinha pela Baixa
e o caminho se estende mais longo do que a minha coragem

Quando subo pelo caminho mais curto
e percorro as ruas estreitas e escuras

Quando me aproximo da esquina
E não sei o que me espera

Quando vejo pessoas
E não sei quem são

O que me assusta
O que me faz tremer
O que faz bater o meu coração
Arfar os meus pulmões
Sentir o sangue engasgado no cérebro
E o torpor na mente

Não é que me tirem os valores
Os anéis
E levem a carteira
Não é que me queiram o dinheiro
O leitor de músicas
O casaco
Os brincos
Ou o relógio.

O que me arrepia e faz recear essas viagens
É que me queiram a mim.


(não é o dinheiro, nem o poder político, nem as férias nas Filipinas. Não são as malas Louis Vitton, nem os ténis da Nike, nem as calças da Levi’s. O que me assusta, e que este filme captou tão bem, é o prazer na destruição do homem, qualquer homem. Na destruição da vida, seja ela qual for. O gosto em ver uma existência contorcer-se em dor, na súplica, para então se esvair numa poça onde se perde.)

A blueberry called world. Another one called life.


Não tenho muito por onde pegar, nesta vida de todos os dias.
Por isso, às vezes, quando percorro o caminho para casa,
quando vejo novamente o que vi ontem e antes de ontem
quando já ando sem olhar
quando já olho sem ver,

também a mim me apetece dar a volta pelo caminho mais comprido,
pelo caminho diferente.

Faz-me falta o desconhecido
faz-me falta tudo o que não sei nem imagino
faz-me falta saber que tudo é estranho e diverso,
e que outros olham e vêem distinto o que eu olho também.

Mas acima de tudo
sinto falta de olhar eu também e ver estranho e distinto
E, depois de o ver,
sentir e querer e gostar de estar em casa.

(mas este medo que me prende.
esta preguiça que me arrasta.
esta rotina que me atraiçoa.)

Quero sair. Quero fazer o caminho, percorrer os caminhos, perder os caminhos.
Quero embrenhar-me no mundo

Chorar, perder, rir. Quero lutar, exigir, sonhar e desanimar. Quero ver, sentir, palpitar, enfrentar.

Quero ir,
e só então, cansada e descansada,
Voltar.

Quero ir, para então, enfim, bradar sedenta a esta terra:
-Casa, o quanto eu te ansiei.


(às vezes, muitas vezes, devíamos pegar no medo da mudança, içá-lo com jeito e cuidado, e arrumá-lo numa caixinha perfumada onde ele não se cansasse de estar.)

Silêncio


















É esta a corda que vos amarra as gargantas?

(De fundo
ouve-se o silêncio.

Ou é tão somente a angústia
de no fundo não se querer gritar?...)

segunda-feira, maio 12, 2008

O Quadrado da Lógica.


Tenho uma teoria.
O ambiente é mutável, e muda frequentemente.
Pessoas instáveis mudam quando o ambiente muda.
Eu sou instável.
Logo, mudo frequentemente.
Solução: parar a mudança do ambiente! (:P)
       
(é por isso que nos devíamos tornar todos ambientalistas.)
     
     
   

Meninos coitadinhos.

    
os meninos coitadinhos
queixam-se a torto e a direito
a direito e a torto
para cima e para baixo
para a direita e para a esquerda
para a esquerda e para lado nenhum
que chega a cansar
vê-los queixarem-se tanto.
os meninos coitadinhos precisam de se desculpar
que o mundo é uma merda
(isso) já todos sabemos
mas os coitadinhos gostam de repetir.
os coitadinhos lastimam
as suas pernas pesadas
que não os deixam voar.
os coitadinhos enojam
os que lutam
todos os dias
apesar de tudo o que vem contra
e não se queixam
meninos coitadinhos
fraquinhos
galos-zinhos
arrepiam
em pele de galinha
os que conseguem
sem a queixa na ponta da língua.
meninos coitadinhos
apregoam o dito
mas
morrem
sem viverem
morrem
sem perceberem
que é em nós que é tudo.
   
(p.s.1: faz-me pensar porque te compreendo tão bem…)
(p.s.2: mas ainda que compreenda o que faças, cisma-me na mente a razão porque o chegas a fazer…)  
        
      

Caranguejos.

Aos que têm um destino
que não era deveras o seu.

Tenho caranguejos pelo corpo
Que me beliscam as vísceras e a vontade.

Tenho caranguejos sobre a alma
Que me roubam a luz
E a idade.

Tenho caranguejos.

Assassinos,
Sacudo-os eu.
Carrascos frígidos.

Sorrateiros e silenciosos,
Chegaram mudos ao meu destino.

Assassinos.

Larguem-me a vontade
(ao menos deixem-me a vontade…)

Tenho caranguejos pelo corpo
Caranguejos.
Chegam calados ao que somos
e vão trilhando o que éramos.

Será este o meu destino?
Pergunto-me se era este o meu destino.

(bruta sina
que me escreve um signo que não é o meu.

Dize que não é...)

Quando os caranguejos são mais fortes
que a vontade,
mais fortes
que os grilhões a esta vida.

Quando a vida não tem fado,
Nem sequer um sentido.

sexta-feira, maio 09, 2008

A spot.


A vida devia ser (lá estou eu a dar palpites) um momento no tempo (e não é?). Digo, sem memórias. Sem medo das consequências. Era o agora e pronto.

Sem direcções ou sentidos.
Sem antes nem depois, pedaços negros da vida.

Like a spot. A round, white, shining spot.

quarta-feira, abril 23, 2008

Reflexos

foto: mifares


eternamente à procura
do meu reflexo em algo.



Retrato de Família

   
A minha mãe já não me telefona há três dias. Acho que finalmente se está a tornar independente.
(eu já lhe tinha dito que há uma idade para tudo. eu é que pelo contrário parece que estou a regredir. - mãe? que se passa? porque não me telefonas?... :x)
       
  
      

quarta-feira, abril 16, 2008

em-nos-eh-tudo.blogspot.com

Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser.
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.

Fernando Pessoa

(assim nasceu a morada do meu blog: porque sou entranhadamente existencialista.

ressalve-se que não tiro o mérito ao acaso, mas acredito piamente que, de uma forma ou de outra, é sempre possível dar-lhe a volta.)

quarta-feira, março 26, 2008

«Feminismo é a ideia radical de que as mulheres são gente.»

       
Anda para aí um dito a arranhar-se pelas paredes que até escandaliza o Homem. Dizem que as mulheres são gente. Gente? Que ideia radical é essa?! Gente de gentinha? Radical é se fossem pessoas!

(:x)
       
  

Ainda bem que há o outro.

        
Tenho andado a pensar na vida. Nas coisinhas da vida. Nas coisinhas minúsculas. Nas coisas do nosso tamanho. Neste mundo. Nas pessoas. No mundo que as pessoas construíram. Nas mesquinharias. Nos nadas. Nos nadas e nas tardes de chuva. Na luz cinzenta por entre a janela de uma casa vazia. Na velha dessa casa vazia. Nos filhos dessa velha que viveram numa casa cheia que agora é vazia. No abandono dessa velha. Nos anos que passam. Em tudo o que se deixa para trás. Nos sonhos que tínhamos. Nos sonhos que já não temos. Nos sonhos que decidimos apagar, à medida que a nossa sombra cresce. No que víamos e já não vemos. No que não víamos e passamos a ver. Na ilusão. Na desilusão. No sentido da vida. No sentido desta vida. No tempo. Nos velhos. Nos velhos doidos. Nos velhos que nos olham. No que os velhos vêem. Nos novos que já foram. Nos novos que foram como nós. No que nós ainda não vemos. Nas rugas e na celulite. No que vemos dos outros. No que vemos nos outros. Nas relações. No que nos liga aos outros. No que queremos dos outros. No que eles querem de nós. Nos medos. No sentido desta vida. No que vale a pena. No que não vale. No dinheiro. Na Política. No Pinóquio. Nas políticas. Na batalha naval dos crescidos. No poder. Nas pressões. Nas verdades que se escondem. Nas verdades que nunca saberemos. Nas verdades que não existem. Nas mentiras que nos vendem. Nas mentiras em que escolhemos acreditar. No fardo desta vida. Na morte. Na fé. Nas crianças. Nas crianças degoladas com os olhos postos no sonho. Nos adultos engravatados, e razoavelmente vivos. Nas crianças adultas. Nos adultos embirrentos e chatos. Nos adultos cruéis. Nas mãozitas endurecidas pelo peso de uma arma. No olhar das crianças. Nas crianças sem olhar. Na fragilidade da vida. No azar. No destino. No imprevisto. Na injustiça. Na ironia da vida. Nas coincidências. No acaso. No que insistimos em querer dar nome. No que não tem nome, nem sequer existência. No que queremos explicar. No que não tem explicação. No homem e na sua natureza. Na essência do homem. Neste jogo em que entramos nem sei bem quando. Neste jogo de aparências. Neste jogo nojento. Em pulsos cortados. Em medos. No resto. No que vale a pena. Nos laços que nos amarram aqui. Nos laços que temos e que, nem assim, nos permitem ficar. Na eterna ironia da vida. Em faces no chão e o vento na face. No fim. Enfim, na vida. Triste, mesquinha, pesada e injusta. O que vale é que é curta, muito curta.

(A minha mãe diz: ainda bem que há o outro, senão – credo! – isto seria uma injustiça. Fico a pensar que para suportarmos esta vida apenas precisamos de uma boa, muito boa mentira.)

          

terça-feira, março 18, 2008

Visão periférica.

Ontem ia esbarrando com o Diogo Infante à entrada da Farmácia. O Diogo Infante? Aqui? De braços cruzados, olhou para mim com um sorriso tal que se me rosaram as faces. Mas depois segui em frente. E nem parei para olhar a senhora da porta ao lado, não fosse também ela ser de cartão.

segunda-feira, março 10, 2008

Predilecta


Fiquei a pensar se predilecta
seria uma das minhas palavras predilectas.

Não.

sexta-feira, março 07, 2008

Psicodrama

     
Vaca
Puta
Cabra
Odeio-te
Eu também
Ainda bem
Pronto
Ponto
(suspiro)

Então xau
amanhã o mesmo!

(todos devíamos ter um palco para expressar tudo
o que nos está nas entranhas a remoer nos intestinos
e a criar gases.
pode ser que depois andasse por aí menos espalhafato.)
     
    
       

A tribute to Fridays


(The Cure – Friday I’m in Love
uma das minhas canções predilectas,
nem a propósito com o que nos espera este fds.
Um tributo aos The Cure, também.)

quarta-feira, março 05, 2008

(apetece-me dar um murro, pode ser no antónio.)

        
Rebelde. Ser rebelde. Acho que o desejo me veio da irmã que sempre foi contra tudo e todos. Então quis ser também. Passei por cima do cordeirinho – apesar de continuar a sê-lo para sempre – e enfaixei os cabelos em dois totós que percorri com elásticos de diferentes cores; cortei o cabelo curtinho e deixei a madeixa comprida que entrancei. Comprei o casaco de cabedal e as botas pretas e pesadas – que me magoavam imenso os tornozelos, mas Quero lá saber, não há alma que não se vença, também não há-de haver botas inflexíveis nem tornozelos incontornáveis!
Quis ir contra tudo, contra deus até. Então mudei-me para a malfadada terra, que os corvos deixaram ao abandono, e vesti-me de preto para fazer o luto de tudo o que ficou para trás. Vesti luvas esburacadas, saias por cima de calças e fiquei enfim a Saia-calça, com muito orgulho meu. No meio – e bem emaranhado, como quem quer ser tudo e não é senão uma amálgama de identidades – pintei as unhas, uma de cada cor, deixei-as crescer, e fiz recortes nelas. Meti as meias debaixo do joelho e os dois totós. Fiquei a Pipi, Pipi das Meias Altas. A menina instável, como me descreveu ele, aquela fachada de gente. Pois era, pois fui (pois sou). Desde esse tempo. Até ao dia em que me cansei de tudo. As cores esbateram, as calças prevaleceram. E eu continuei em frente. Até ao dia em que me cansar de tudo. Acho que nunca consegui. Ser rebelde. Entrei numa certa harmonia com as coisas, e não há como escapar-lhe.
Mas não gosto. Nunca gostei.

(reparo agora que tenho os punhos ensanguentados…)
   
   
        

segunda-feira, março 03, 2008

Mea Culpa


I
Eu gosto dele. É estranho. Gosto. Ainda que seja estranho. Por ser estranho. Ele ser estranho. Não o resto (até porque tive sempre a tendência para me identificar com os rejeitados,

e sei porquê.)

I-I
I like him. He’s weird. Weeeeird. Weird weird weird. Weirdo.
(gosto de alongar o uso das palavras até que se tornem estranhas. Será que se abusarmos do uso das pessoas elas também acabam por se tornar estranhas?)

II
Ele é estranho.
Mas não gosto dele. Não por ser estranho, mas por ser de um estranho estranho, de um estranho que não gosto.
Por isso, não gosto. Dele. Não do estranho.
Do estranho gosto.
Não gosto é dele. E do seu Estranho.

Ponto.

(Tornou-se estranho?)

As muitas faces do Tau.

Nas muitas voltas da vida, apercebi-me que anda para aí a circular com alguma frequência a articular palavra formada com as letrinhas T A U, nesta ordem precisa. Daí, pensei que deveria talvez fazer um resumo das utilizações (não extensivo talvez, mas suficiente).
E, tau!, saiu-me isto:

(1) (não necessariamente com maior grau de importância…) o tau-tau que se dá no rabinho dos meninos, e das meninas, seja porque razão for…
(2) o Tau empregue como remate descodificador e extremamente esclarecedor para uma frase anterior suficientemente agressiva mas que poderia ter ficado na penumbra, e numa ambiguidade incerta, se não fosse articulada de rompante a tal palavrinha multifacetada e nada ambígua, pois claro…
(3) (a parte mais séria…) a proteína tau, implicada na doença de Alzheimer (investiguem…)
(4) um coeficiente qualquer que os engenheiros usam para ter desculpa para terem que fazer muitos cálculos e medirem temperaturas na casa de pessoas nas quais nunca entrariam caso não fosse esse coeficiente.

(confesso que quando originalmente me apeteceu fazer isto… pareceu ter mais piada…
mas, agora, depois de o escrever, confesso que me apercebi… que ainda não ganhei o tal juízo… Tau?)

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Can you read my mind?


  
por razão nenhuma
eu deixaria
de poder dançar isto.

por razão nenhuma
eu deixaria de poder saltar
alienada
dentro do escuro do meu quarto
com um candeeiro de rua a entrar-me pelo espaço adentro
ou só um esguicho de luz do candeeiro
e um chapéu de chuva aberto por cima da cabeça
ou que fosse um resto de chapéu com abelhinhas penduradas.

por razão nenhuma,
é que por razão nenhuma.

deixem-me
ainda que por momentos
ser meia louca

ou só (e) louca por inteiro.

(já bastam os dias
em que ninguém nos lê a mente
e todos somos somente o que parecemos.)
     
     
   

terça-feira, fevereiro 19, 2008

(Quase) Tudo sobre a minha mãe



















         


(só para 'pega-monstros' experientes.)

       

Muros (I)




(A Wall
Outside my window
Inside my soul.)

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Ser afim de ti

'Cause I don't shine if you don't shine. (The Killers)

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

O que é que estão aí a fazer parados

a olhar? perguntou ela ingénua dos seus lábiozinhos rosados como quem não percebe homens a olhar para paredes e janelas e jornais do outro lado do passeio com as mãos nos bolsos.

- À espera. (Ou terão dito 'Nada'?)

(À espera? Da vida talvez. Erro comum.)

terça-feira, fevereiro 12, 2008

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Reminiscências


 













foto: mifares

 

Quando Ela Passa (Fernando Pessoa, Maio 1902)

Quando eu me sento à janela
P'los vidros qu'a neve embaça
Vejo a doce imagem d'ela
Quando passa... passa.... passa...

N'esta escuridão tristonha
Duma travessa sombria
Quando aparece risonha
Brilha mais qu'a luz do dia.

Quando está noite ceifada
E contemplo imagem sua
Que rompe a treva fechada
Como um reflexo da lua,

Penso ver o seu semblante
Com funda melancolia
Qu'o lábio embriagante
Não conheceu a alegria

E vejo curvado à dor
Todo o seu primeiro encanto
Comunica-mo o palor
As faces, aos olhos pranto.

Todos os dias passava
Por aquela estreita rua
E o palor que m'aterrava
Cada vez mais s'acentua

Um dia já não passou
O outro também já não
A sua ausência cavou
Ferida no meu coração

Na manhã do outro dia
Com o olhar amortecido
Fúnebre cortejo via
E o coração dolorido

Lançou-me em pesar profundo
Lançou-me a mágoa seu véu:
Menos um ser n'este mundo
E mais um anjo no céu.

Depois o carro funério
Esse carro d'amargura
Entrou lá no cemitério
Eis ali a sepultura:

Epitáfio.

Cristãos! Aqui jaz no pó da sepultura
Uma jovem filha da melancolia
O seu viver foi repleto d'amargura
Seu rir foi pranto, dor sua alegria.

Quando eu me sento à janela
P'los vidros qu'a neve embaça
Julgo ver imagem dela
Que já não passa... não passa.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Francisco Anselmo de Barros


Putrefactos.
Todos os homens que não sabem o que é morrer por uma causa.

Sólidos de Catalan


Tinha 14 anos quando me perdi. O pensamento concreto de até então deu o salto e tornou-se (i)lógico, com todos os caminhos em aberto. E fiquei eu no meio das escolhas
e dos escolhos
de tudo o resto que ficou, simplíssimo, para trás.
Catorze anos de um mundo certo, pensando que havia uma idade para tudo. Depois, caí, e percebi
Que a idade não interessa,
que somos bichos eternos
em luta com as escolhas.

Que as escolhas podem ser mal feitas?
Podem, mas que só aprendemos assim – julgamos as próximas, com as anteriores.
E se aprendemos mal, julgaremos mal (óbvio…).

Que o homem não é naturalmente bom sr. Rosseau, nem sequer naturalmente. Que é uma mistela de tanta coisa que anda por aí, e que tentar compreendê-lo e aplicar-lhe uma equação certa que o desvende é estourar a cabeça em mil pedacinhos loucos e estridentes.

Que é tudo uma incerteza
um conjunto de escolhas disparatado
aleatório,
irresoluto,
como quem joga num euromilhões sem sorteio.
Como quem ganha sem saber
E depois morre.

(tanta coisa que fica por saber…)

Que a velhice virá um dia,
E a sabedoria com ela.

Que não sei se a sabedoria chegará com ela, sem ela, se chegará seja com quem for.

Que não há sabedoria –
Há uma e excessivas formas de ver a vida
(e depois há os conformistas e os inconformistas
e todos os outros nos intervalos infinitesimais
que as aceitam ou não.
Ou que decidem ficar no meio e nos meios, porque não há um mas vários
porque nunca há nada que seja uno e simples!)

Que a matemática é um sonho e não bate certo com nada.

(que quanto mais penso
mais esfolo o sossego, mais estripo o equilíbrio.)

Que só a Ceifeira é feliz quando canta.
Mas que os 14 anos dela não a devem ter atirado ao chão...
       
     
 

terça-feira, janeiro 29, 2008

Lost in translation

A sala encheu para te ver morrer. Preto no branco.
Só na tua cabeça nada era assim tão simples.
Faz-me pensar o que nos faz dar o salto final.

O mundo é definitivamente um lugar estranho. E o amor.
Mas como pode alguém desistir aos 23?

Um passo de gigante para os outros, um pequeno para ti.

Recomeça…Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.*

Mas tu não podes. Ponto.
Pena.
Porque eras só um rapaz, um rapaz chamado Ian.

(*Sísifo, Miguel Torga)


        

segunda-feira, janeiro 28, 2008

We should all be hard candies


I - Quando os frutos caiem.

Se amadurecer significa deixar de ver o mundo de forma bonita e iluminada
e sentir na pele o estalo rude da terra dura,
então devo estar no bom caminho
para um dia poder dizer que, enfim,
apodreci…

II - Loja das Grosserias.

Da próxima vez que te vir entrar na loja de guloseimas com o teu vestido de cetim azul e com esses teus sapatinhos de verniz vermelho, e te vir mostrar esse sorriso cândido de menina
- dessa próxima vez que te vir sonhar –
vou-te agarrar na face suave e nos cabelos doirados
e dizer-te aos ouvidos num rasgão:
que esse Senhor simpático que te mostra os doces como se te os oferecesse apenas,
que esse Senhor que te pede as horas e a quem tu as dás, agradecida,
que esse Senhor maduro e pai de meninas como tu,
é vendedor.
E que esses doces que te estende,
na sua sabedoria refinada,
são doces ressequidos, amargurados e degustados;
E que, afinal, o que esse senhor oferece não são os doces
mas os murros no estômago que ficam no final.

III - Porcos

Enojam-me os senhores que
levam na algibeira descontraída a cartilha do saber muito
e tudo,
e que,
depois,
confundem meninas com Meninas.
        
    
    

Permissão para ser normal

    
Uma das partes irónicas e desanimantes do mundo
é que chegamos ao ponto de ter que justificar
- como quem desespera se não mostrar o contrário -
o facto de vermos o mundo bonito.

E termos que bater o pé e dizer
Não, Não, Juro! O mundo não é nada bonito, Eu não o vejo assim!
Eu sou como todos os outros
Que o vêem feio e decepcionante.
         
           

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Permission to Speak Freely (II)


Não vejo muros cor-de-rosa. São muito cinzentos, juro.

Mas meti os óculos coloridos em pequena, e
ficaram-me tão cravados na carne… que
quando os vou para tirar,
dói-me arrancar esse pedaço de mim.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Receita para 2008

(escrevi este texto há uns aninhos, mas achei que era uma boa mensagem de Ano Novo, em jeito de mensagem de Natal do Primeiro-Ministro, ainda que sem Armani nem nariz de Pinóquio…).

Numa época que chamamos de crise, muitas vezes deparamo-nos com a facilidade de apontar o dedo e dizer Não fizeste isto, Não fizeste aquilo. Sempre o que o outro não fez e devia ter feito. E encontramos nessa expiação da culpa alguma libertação do próprio peso (in)consciente que carregamos também. [aqui está o clichêzinho sempre actual… e agora o complemento:]. Porque isso de andarmos mal não É (só) culpa do Governo! – cada um deve governar-se também [o “bom” do trocadilho…]. E já que (des)culpas há muitas, preocupemo-nos também em achar soluções… cada um de nós.
Foi nesta procura que me deparei com indícios de soluções do dia-a-dia nas palavras de um “médico” de que urge Portugal [mas este não é um médico qualquer… é um médico sábio!] – um que receita sopinha quente em vez do medicamento mata-bicho. Conta-nos então Cândido Ferreira (25 Agosto 2005, Campeão das Províncias) um episódio acerca de uma família que a ele recorreu. E como me parece que essa família somos todos nós [Portugueses sobretudo…], atentemos no que nos diz a receita:
“Foi então que fui cravado para uma nova consulta: ‘O Sr. Dr. que é político é que nos podia aconselhar [sem comentários…]
, o que é que a nossa família pode fazer para melhor resistir à crise?’ (…) Manifestando o casal sábia intenção em educar a prole e garantir património, recordo os três remédios que, improvisado ‘médico de família’, entendi prescrever a esses meus doentes:
1º: produzam mais e melhor que os outros;
2º: não guardem para amanhã o que podem fazer hoje; e
3º: não gastem hoje o que não sabem se ganham amanhã.
É que a Europa não é tão burra quanto parece e, qualquer dia, anda por aí a pedir os juros de tanto disparate.”


(Bons conselhos não? Então mãos à obra! ;) )

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Cinzenta

        
Andam por aí umas criaturinhas que se intitulam pomposamente de Descrentes. Fazem questão de marcar que não acreditam em nada que tenha no nome Sociedade, Justiça, Saúde, ou Governo. Ou simplesmente, qualquer coisa que ultrapasse o centímetro em volta da pelezinha amarelada e retesada que já não sorri de inocência há muito tempo. Então deprimem, descrentes do futuro, e enfrascam-se em ajuntamentos de álcool e medicação. Ou então não deprimem, mas enfrascam-se na mesma em ajuntamentos de álcool e medicação. E então deprimem. Enfim. A sociedade ocidentalizada como fonte de descrença e como meio de falecimento precoce.

Andam por aí esses descrentes. Descrentes do mundo, descrentes da sociedade, descrentes dos outros. Por isso, contam consigo mesmos, com a sua vontade própria, e com os troquitos que desviam aos sistemas comuns e ocidentalizados. Pois estes descrentes vão-se safando, porque contam com o seu individualismo e amor-próprio, e isto basta-lhes para seguir em frente. Mas depois há os outros. E os outros têm que se lhe diga. Não crêem no mundo, mas também o mundo que se lixe, é injusto e blá blá buah…. Não crêem na sociedade, que por si própria cria a injustiça. Não crêem no governo nem nas políticas, porque sabem que continua a ser parte da mesma merda. Não crêem nos outros, porque são uns egoístas e apenas vêem o que lhes interessa. Mas – e agora-algo-verdadeiramente-diferente – também não acreditam em si próprios.

E é assim que estes seres, a que chamamos de intimamente descrentes, vêem o mundo como o espaço e palco para escorregar, ouvindo de fundo a gargalhada afiada. Têm a audição apurada para qualquer crítica, e as mãos prontas para pegar na inchada e cavar bem fundo em presença de qualquer elogio. Ou então para ficar de mãos a abanar, porque o elogio decerto não era para eles, e também há sempre a sorte pelo meio. Estes seres sofrem por antecipação o que nunca era para chegar, mas que fazem por ir buscar e arrastar até onde se encontram. Estes seres não se cansam de se destruir e enganar a si próprios, até que seja demasiado tarde para um resgate possível. Estes seres escondem-se dentro de si próprios e tentam esquecer que o mundo lá fora também é palco para as suas vitórias. Porque estes seres não vêem as vitórias – tudo é e continuará a ser imperfeito. Estes seres não têm salvação, porque se recusam a salvar-se a si mesmos.

E é por isso que nós, os permanentemente insatisfeitos, estamos condenados ao fracasso. E à solidão.

 
(13.12.2007 21:59)

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Bragança


“Quando decidimos a estrutura, decidimos a luz. Nos edifícios antigos as colunas eram uma expressão de luz, sem luz, luz, sem luz, luz, sem luz, percebe?” (Louis Kahn, 1901-1974)

Columba dançava.

Sobre as pedras negras e sujas da calçada, a luta não havia sido ainda consumida. Eram as asas estendidas a bater contra o chão, numa dança mole e desatinada – os últimos suspiros do vento no teu peito, quem sabe…
(Mole o teu corpo. Mole a tarde dourada, e o sol que escorria no horizonte. Moles as minhas entranhas a pensarem nas tuas, por certo atropeladas. Amolecidas.)

Não vi sangue nem tripas. Só o teu corpo amachucado num último arrastar. Num rodopio decrescente e finito. Pensei – Crua a luta em que sabemos já o fim, mas batemo-nos ainda desenfreadamente para morrer a tentar. Feroz o término não anunciado que espera nas esquinas mais douradas e nos voos mais livres. Bruta a mão alheia que manda mais que tu na tua própria vida. Como facas ao pescoço ou comida para servir quente, fria. Como as noites em branco das mães, e as manhãs pretas quando os filhos morrem primeiro. Quando a morte antecipa o tempo e apaga os voos.

Cruéis os finais sem Razão.

Mas devaneiam ainda as pombas sobre a calçada escura. Inconscientes da dança, correm o risco afinal. E quando caiem, cinzentas e esfaceladas, dançam até que a exaustão as consuma e as torne em pedras, negras e duras.
26Set07, 11Dez07

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Diz-me

Diz-me que tudo vai ficar bem. Que o mundo é como o imaginámos e tudo será certo quanto a chuva no Inverno e o sol no Verão.

Diz-me que o dia é para viver e a noite para sonhar, e que quando morremos a vida foi vivida e a noite sonhada.

Diz-me que é só da minha cabeça, e que estes bichos que me aparecem são pesadelos de menina assustada. Pesadelos sem tempo nem lugar – porque a noite é para sonhar e a vida para viver.

Diz-me que as coisas são simples, e que não há que pensar. E que quando escolhemos, escolhemos certo.

Diz-me que a paz chega quando somos livres, e que as angústias desaparecem quando fazemos o que sentimos. Quando sentimos o que fazemos.

Diz-me que o céu é azul e que apenas se encarniça ao final da tarde. Diz-me que morrerei de velha e que os filhos virão quando eu os quiser ter.

Diz-me que as coisas são como as queremos, e que aquilo que queremos é claro como um dia de sol, transparente como a água de um ribeiro.

Diz-me que quando crescemos, ainda vemos o mundo através dos olhos de um menino. E que mesmo que mintamos aos outros, nunca mentimos a nós próprios.

Diz-me que as dúvidas não existem – que são apenas bichos que inventamos. Porque a vida é simples e o caminho é só um.

Diz-me que não sou eu que escolho o caminho. Que temos um destino e não o pudemos mudar.

Diz-me que esse destino que me foi dado estava quebrado à partida. E que eu não o posso consertar.

Diz-me que a culpa é de Deus que nos espera na esquina. Ou do Diabo que se esconde por entre campos de Açucenas. Diz que não é nossa nem minha. Ou apenas que não é minha…

Diz-me que sou eu que tenho medo de tudo e de nada. Que sou eu que penso e invento. Que sou eu que complico, mas que afinal não é nada.

Diz-me o que quer que seja, mas sossega-me o espírito.

Pois se nada é certo neste mundo, como viver feliz sem ter a certeza de nada?

19.07.07; 30.09.07; 04.12.07

sexta-feira, novembro 30, 2007

Ordinários

Soube o outro dia que o Vasco Pulido Valente e o Miguel Sousa Tavares [não sei porque não lhes hei-de chamar pelos nomes] andavam a esbofetear-se em praça pública (com a devida classe e fundamentação, claro!, não esperava outra coisa...). Foi uma tremenda desilusão.
Mas erro meu, está visto. Porque, na minha desadaptada ingenuidade, pensei que estas pessoas – que têm o privilégio de poder influenciar as massas – conseguissem escapar às malhas da vulgaridade.

terça-feira, novembro 27, 2007

Caixas e cordéis.

Não sei exactamente o dia em que me enchi de compromissos e obrigações para com os outros, Não sei exactamente o dia em que me pisei e disse Cala a boca e faz o que te dizem, Não sei exactamente o dia em que deixei que a minha opinião fosse engolida pela dos outros no espaço público, Não sei exactamente quando me encerrei dentro de mim e atei cordelinhos aos braços e os dei ao Destino – aquele que os outros podem decidir.

Não sei. Não me lembro. Talvez esteja desde sempre a lutar contra mim.

Mas eu sei o ciclo. É fácil e acessível. Apenas não é modificável. Começa por eu saber o que me faz feliz. Ok, é difícil e arriscado. Hipótese B: o que é que eu devo fazer? Aparecem as Boas Oportunidades. Não me enchem o peito de vontade-e-algo-mais-forte-que-esta-vida, mas são boas oportunidades e eu não as posso perder. Pressão pressão. Decidir. Ui! Arriscar Vs. Derrubar os pinos do caminho. Decidir decidir… ai… Nestas ocasiões é sempre mais fácil Fazer O Que Devo [as missivas aparecem em letra maiúscula na minha mente], que por acaso é igual à Hipótese B: “derrubar os pinos” – o que é bem mais fácil e não implica grande esforço. De mais a mais, A vontade não é mais importante que o dever (Até porque é a contrariar o Dever que eu ganho os remordimientos!). Derrubar os pinos então. Daqui a uns anitos estou despachada e posso já seguir a vontade. Certo?...

Que raça de momento aquele em que deixamos que o medo de perder supere o receio de arriscar… O teu amigo largou tudo e partiu à conquista do Mundo. E eu penso Quando terei eu coragem de ser livre?

Não sei. Sei que a Susana me deu uma caixinha para meter os sonhos, e por enquanto é por lá que eles vão ficar…

24Maio07, 27Nov07

Esclarecimento.

Gostava que a Maria Figueira (vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental) esclarecesse exactamente o que quer dizer quando diz que “há poucos psicólogos clínicos no País” (entrevista ao Destak, xx de Novembro de 2007).

segunda-feira, novembro 19, 2007

Manifesto.

As mulheres que gostam de olhar escancaradamente para as vidas dos outros, gosto de olhar escancaradamente para as figuras que fazem.

15 Nov 07

Ocasos

À hora a que vejo descer este sol iluminado, tenho por certo que quando se voltar a erguer alguém irá perder o autocarro para o trabalho, a carteira de cheques, ou a vida. Que alguém será atropelado num acaso, vitimado na estrada depois de uma manhã terna, desfigurado num acidente de trabalho.
Tenho por certo que uma criança perderá os pais, e que uns pais verão o seu filho morrer. Que muitas vidas se apagarão.
E tenho também certa a angústia de saber que, no entanto, nada posso fazer para que o sol não cruze o horizonte.

16 e 18 Nov 07

Momentos (II)

Agora substituíram o velho e literal caixote do lixo por um verdadeiro balde para lixo, com forma de cilindro branco e perfeito, e uma tampa que diz “papel aquí”. Papel aquí uma ova! E a saqueta de chá?! Mania de disfarçarem as coisas…

21 Nov 2007

Momentos (I)

Adoro o momento em que a saqueta de chá cai vertiginosamente no seio do lixo enorme, e esmaga alguma das porcarias que por lá se encontram.

15 Nov 07

A questão por detrás.

¿Por que insistes en decir esas verdades?

terça-feira, novembro 13, 2007

Psiquiatria Mulheres.

        
Elas gritam
Choram
Correm desgrenhadas,
E arranham a terra com as unhas compridas dos pés.

Elas sentam-se calmamente
Enquanto a loucura as consome.

Elas puxam os cabelos,
Arrastam o corpo pelo soalho dorido
E espezinham esse chão que se cansa de as ver passar.

Elas ferem por vaidade
E matam por orgulho ferido.

Elas agarram os filhos ao peito
E os homens ao corpo.

Elas amam desesperadamente
E morrem sem serem verdadeiramente
Amadas.

Elas queixam-se por viverem únicas.
Choram por viverem sós.
E bradam essa vida perdida.

They are women. They are crazy.

Does that make them sick?

                 

segunda-feira, outubro 29, 2007

Onde Judas deixou as botas.

Mas afinal… não encontraram as botas ou não encontraram Judas?

(já me veio à cabeça mais que uma vez esta questão, à qual é fulcral dar resposta para depois não ficarmos na dúvida cada vez que vemos a não-referida publicidade)

Vender maçãs

Eu: Tem maçã reineta?
Ela: Não… Mas olhe que se é por causa dos diabetes qualquer maçã dá!
(note-se a forma simples como ela contornou a questão de não ter reinetas... Eu tentei notar nessa forma simples, mas também não consegui. Fiquei logo esmagada por aquela desconcertante capacidade de adivinhação...)
Eu: Mas eu prefiro maçã reineta…
Ela: Mas também tenho bravo esmolfe, não quer?
(note-se o perfeito ignorar dos termos "Eu prefiro".)
Eu: Não, obrigado. É que para assar é melhor a reineta.
Ela: Ah, então…
(note-se como a minha sugestão culinária a deixou então sem argumentos...)

(Porque é que não podemos simplesmente comprar maçãs?)

segunda-feira, outubro 15, 2007

Punhos cerrados

Não sou perfeita não. Ou pelo menos não faço sempre como gostaria de fazer. Se damos um passo em falso, um passo a mais, erramos. E depois? Somos humanos, #$§&@#! O problema surge quando esse passo é dado diante de um abismo…

Há coisas no passado que nos perseguem… coisas que fizemos e que não poderemos nunca mudar. Coisas que nos acorrentam e angustiam… e consomem… Porque as fizemos. Porque não as deixámos de fazer.

Por isso controlem-se, expludam para dentro, morram de contenção, enlouqueçam. Mas não exteriorizem. Afinal, porque deixar os outros ver-nos na merda, a perder o balanço, desvairados?

“Sou rei das palavras que guardo comigo, e escravo daquelas que deixo escapar”. Acima de tudo, encerrem nos vossos punhos os murros enlouquecidos. Decerto viverão muito melhor e parecerão aos outros muito mais felizes. Perfeitos, talvez.

:/

(Pois não é nesta aparente aparência que se baseia a mórbida inveja alheia... de quem não se dá ao trabalho de conhecer o que ficou encerrado?)

segunda-feira, outubro 01, 2007

Instruções para curar uma Depressão.

Ler um livro de Julio Cortázar.

Instruções para ler um Livro de Julio Cortázar.

Entrar num café repleto de gente, num desses Largos da Baixa de qualquer Cidade. Sentar-se numa mesa estrategicamente colocada onde possamos estar no centro das vias de comunicação. Deixar-se impregnar profundamente de todos os pedidos e de todo o barulho que nos cerca. Depois de alguns instantes sem destrinçar frases perfeitas, ouvir atenciosamente cada nota do barulho ou cada anotar do empregado.
Abrir o Livro e pousá-lo no rebordo da mesa mais perto de nós. Segurar com uma mão ambas as páginas que, por forças desconhecidas da Natureza, tentam encerrar só consigo as palavras mágicas. Prestar atenção a todo o barulho em volta e no quão difícil seria fazer uma leitura descansada, se porventura nos apetecesse ler um livro no meio de um café da Baixa.
Então, desligar de tudo o resto, pois a História falará por si: “Há anos que trabalho na Unesco (…) e ainda conservo (…) uma notável capacidade de abstracção.”

VER & LER Júlio Cortázar (1973). Histórias de famas e de cronópios. Editorial Estampa.

O Ciclo Mediático (I)

Santana Lopes abandona entrevista em primeira-mão. Sobejam já os vídeos na Internet, os comentários nos jornais, as fotos na primeira página. As palavras de Santana Lopes recusaram-se a serem interrompidas pela Notícia-Especial-e-em-Directo de que um treinador de futebol acabara de chegar ao aeroporto de Lisboa.
Pensei eu que realmente é preciso ter tomates para decidir reclamar em directo. Sim senhor, Pedro Santana Lopes. Continue assim. Já toda a gente o conhece. Pode ser que agora passem a admirá-lo por simplesmente decidir não ser hipócrita.

A manchete correu o país. Ainda não sei de opiniões mas calculo que nos próximos dias tenhamos notícias dos partidários e os vejamos defender a sua ideia num apaixonado Prós e Contras. Mais, tenho por certo que, após o primeiro choque atarantado dos nossos agentes informativos, uma outra entrevista terá sido imediatamente interrompida para noticiar Em-Directo-Especialíssimo que o Sr. Santana decidiu interromper a entrevista.

O Ciclo Mediático (II) ou A Outra Entrevista Voluntária e Inesperadamente Interrompida

Notícia-Especial-e-em-Directo:
José Mourinho recusa-se a continuar entrevista à porta de sua casa após a inesperada interrupção para noticiar Em-Directo-Especialíssimo que o Sr. Pedro Santana Lopes decidiu interromper a entrevista.

Alpha beta Dog's death

Eu sonhei que o meu irmão amigo me abria a porta e que, como tudo o que de rompante dá voltas à nossa vida, eu era raptado pelos amigos dele. Tinha 15 anos – o corpo nos plenos sentidos. Foram os melhores dias da minha vida. Vivi tudo intensamente. Conheci miúdas, fumei erva, bebi a goles.
Experimentei tudo o que há para ver, fazer e sentir. Só não me lembro de ter acordado.

P.s.: Fiesta!, até morrer.
06.09.2007


A verdadeira decadência humana

Não sei se hei-de começar pelas provas que nunca são exactas, se pelas lágrimas dos arguidos ou pelas crenças do povinho.

Não sei se hei-de invocar uma Joana sorridente e estraçalhada, se uma Maddie desaparecida por culpados a decapitar…

Nem sei se a minha intuição vale de algo, ou se é apenas uma esperança de que este mundo não seja a merda que tenho medo que seja.
Não sei se me assuste com o que as pessoas fazem, se com o que elas julgam ser possível fazer.
Não sei se ainda há escrúpulos neste mundo, ou se decisões mais simples a tomar.
Não sei se há muitos Johnnies Truelove por aí, ou se eu sou apenas o puto de 15 anos que nem fugiu dos carrascos e acreditou que as mordaças eram postas por quem não lhe faria “nunca nunca nunca” mal algum…

Talvez o destino um dia me leve para um beco e me rasgue como papel cor-de rosa.
Talvez eu pense que as manchas encarniçadas são apenas beijinhos estonteantes, já que a minha cabeça está tonta…
…e o carrasco impiedoso. - Talvez me aperceba tarde de mais. Mas pergunto-me se o destino demoraria mais tempo a chegar se eu começasse a acreditar que este mundo não tem salvação?

Setembro 2007

quarta-feira, setembro 19, 2007

Recomeço após as férias.

Palpita-me nos dedos o coração das teclas.
Sinto falta das letras em formato informático, pensamentos pixelizados. Olhos do Mundo.

Talvez a minha vontade esteja para regressar, com o tempo que me escapa pelos dedos palpitantes.

Talvez. Talvez o desânimo com a vida também esteja pronto para ser escrito.

terça-feira, maio 22, 2007

Café e ginjas

Não sei se o café é uma droga mas deve ser pois sempre que o tomo o mundo parece mais eléctrico e rápido. Mas também deve ser de mim, que o vejo mais eléctrico e rápido.

Não sei se a minha vida é um café que vejo numa chávena lá o fundo e parece bem negra, mas não deve ser porque esse oiro negro sabe a ginjas amargas e sabe bem. Se calhar é isso, eu é que gosto das coisas amargas – como o chocolate preto – e se não são amargas eu torno-as amargas só para ter esse sabor, amargo. Quem sabe se já não me habituei ao sabor – amargo – das coisas e agora quando o sol brilha e as tuas palavras são doces até já custa. Como os elogios que recebo e dos quais me desvio, só porque não sei como recebê-los sem caírem mal encima de mim.
E é tão bom recebermos um elogio. Até o sangue corre mais rápido e brinca nas veias e artérias, e quer vir ao de cima ver essa pessoa, aquela que disse o que disse e que nos fez cambalear e pôs o sangue a saltar. E como tudo quer ver, ficamos rosadinhos de tanto sangue que quer espreitar.

Não sei se estas palavras são mesmo a minha vida ou o que sinto, ou o que não sinto. Não sei. Mas devem aparecer aqui encima porque o café estava bem negro e amargo, e caiu-me que nem ginjas no estômago - como um elogio que cambaleia na minha cabeça - e pôs o sangue a brincar.

15:03 22.05.2007

sexta-feira, maio 04, 2007

Contra-corrente

Eu sei que temos a escolha entre largar o rabinho no meio do chão... ou erguermo-nos de peito contra o destino.

Mas...
E se às vezes precisarmos mesmo de nos deixar cair no fundo do poço... para nos fartarmos de tanta escuridão?
E se às vezes precisarmos mesmo de fazer da vida uma catástrofe... para ver o quanto tudo é relativo, e nada o que parece?

Às vezes (muitas vezes...), apetece-me ficar só só comigo. E cansar-me dessa solidão.

16:19 04.05.2007

terça-feira, abril 10, 2007

Oh Glória, O que é que tu achas do Céu?


O outro dia a minha mãe disse-me Eu gosto muito de vocês, mas quando a morte estiver perto sei que me vou sentir muito indecisa… – por um lado estarão vocês, mas do outro está o meu pai e os meus tios, de quem tenho tantas saudades...

Que Fé é essa que levas contigo e que não te deixa desesperar mesmo nos tempos mais carrascos? Que esperança é essa que carregas no Peito e que não te deixa recear o Fim de tudo?
Às vezes penso que a Esperança de que um Pai-maior-que-tudo existe é simplesmente perfeita para o nosso medo primitivo de solidão. Este Pai acompanha-nos mesmo nas horas mais escuras, nas dores mais pesadas, nas lágrimas mais fundas. Este Pai promete-nos um Céu para as nossas boas acções, faz com que a nossa vida tenha um sentido, e que a nossa existência não acabe num simples último suspiro. Este Pai promete-nos a Eternidade. E uma recompensa para os sofrimentos que aqui, neste mundo real, passamos.

Às vezes penso quão perfeito é acreditar Nele durante a vida e que apenas a carne se extingue no momento da Morte. Pois, se quando morrermos a Terra for só terra e o nosso Corpo e Alma somente pó, que memória consumida estará lá para nos revelar que o resto não existe?

          

quinta-feira, abril 05, 2007

São homens, meu Senhor, são homens...


     

(...) Hoje para eles sou Rei. Amanhã o que serei?

Aquele que Ressuscitou na Mente daqueles que nele acreditaram.