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sexta-feira, julho 22, 2011

alvo




(...)
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa, a cigarreira,
Ele é que já não serve.

Doutra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
(...)"


terça-feira, julho 08, 2008

24

Se pensar de dentro, de dentro das coisas, das coisas como eu Parece-me que a minha vida se passou num dia.

Não sei, mas da infância tenho algumas lembranças semelhantes ao raiar de uma luz, ao nascer dos sonhos.

Da adolescência um sol a pique de se ficar encandeado e pensar que se vê tudo E afinal não se vê é nada.

Da adultez nem tenho memórias, que isto o tempo corre e exige E acabamos por, nas mudanças, perder pedaços que não voltamos a recuperar.

De agora (será velhice?) é um cansaço das coisas, Querer o tempo e saber que se extingue e que não volta.

A noite vai escura e parece-me que não há a luz no fundo do túnel, que ainda faltam umas 7 horas para o novo dia, e eu nem sei se depois de dormir volto a acordar.

Couraças


Na descida, andei a pisar ouro. Não sabia que havia ouro na Couraça. Erro meu, porque todos os dias ao final da tarde, quando o sol se vai deitando de mansinho, as pedras cinzentas encerram-se e metem as couraças de ouro para dormir.

(é incrível como as coisas mais pequeninas da vida nos despertam, por vezes, o maior sorriso do dia.)

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Columba dançava.

Sobre as pedras negras e sujas da calçada, a luta não havia sido ainda consumida. Eram as asas estendidas a bater contra o chão, numa dança mole e desatinada – os últimos suspiros do vento no teu peito, quem sabe…
(Mole o teu corpo. Mole a tarde dourada, e o sol que escorria no horizonte. Moles as minhas entranhas a pensarem nas tuas, por certo atropeladas. Amolecidas.)

Não vi sangue nem tripas. Só o teu corpo amachucado num último arrastar. Num rodopio decrescente e finito. Pensei – Crua a luta em que sabemos já o fim, mas batemo-nos ainda desenfreadamente para morrer a tentar. Feroz o término não anunciado que espera nas esquinas mais douradas e nos voos mais livres. Bruta a mão alheia que manda mais que tu na tua própria vida. Como facas ao pescoço ou comida para servir quente, fria. Como as noites em branco das mães, e as manhãs pretas quando os filhos morrem primeiro. Quando a morte antecipa o tempo e apaga os voos.

Cruéis os finais sem Razão.

Mas devaneiam ainda as pombas sobre a calçada escura. Inconscientes da dança, correm o risco afinal. E quando caiem, cinzentas e esfaceladas, dançam até que a exaustão as consuma e as torne em pedras, negras e duras.
26Set07, 11Dez07