domingo, outubro 10, 2010

mini som ou mesmo népia


          

a MiniSom, especialista em aparelhos auditivos, está com uma campanha:
faça já o rastreio auditivo e receba gratuitamente o CD do Marco Paulo!

se por mero acaso for surdo,
devem ter para lá uma fita de cinema mudo.


como queres o teu café?




con-tigo.




sexta-feira, outubro 08, 2010

because life is a ever ending story.


- All right, Xayide. I will make my last wish. I wish...
for you to have a heart
!
*


(sabia muito bem ele a importância de ter um.)





(*Bastian Bux; George Miller, The Neverending Story II: The Next Chapter, 1990)

quarta-feira, outubro 06, 2010

viva.
















































"Existe no entanto, outro busto que foi adotado como o rosto da República, da autoria de José Simões de Almeida e criado em 1908. (...) A modelo para este busto foi Ilda Pulga, uma jovem trabalhadora do comércio do Chiado."



(algo está mal quando o rosto de uma nação não é o seu povo.)



terça-feira, outubro 05, 2010

coloquialidades


anda para aí um cartaz com a pergunta: o que diria a Deus se O encontrasse? eu andei a pensar nisto, e confesso que fiquei indecisa. acabei com 3 opções de resposta.

1) antes que ele tivesse grande tempo, e porque é porreiro e tal, espetava-lhe de enfiada com o
Então,-tudo-bem?-Tudo.

2) na mesma linha, mas numa versão mais formal, arregaçava a manga e puxava do
Passou-bem?-Muito-obrigada.

3) mas acertado mesmo era meter a minha melhor cara de pasmo, e exclamar:
então, Meu, por onde é que tens andado?!

   


sábado, outubro 02, 2010

'o amor é o amor e depois?', o que adianta saber isso, do amor, eu amo-te, ou não se diz, é mais

fácil não dizer, dar só o beijo que cala as palavras, e as discussões, dar-se a mãozinha na rua, ou deixar-se a mãozinha ao relento, trocar só o olhar, eu dou-te o meu tu dás-me o teu, o beijinho no pescoço 'enrolado pelo chão', e depois depois passa o tempo e Zás, instala-se a rotina e achamos eh pah eu acho que não é isto E nos cansamos Até que desponta novamente um tremelique, um engasgar, um sonho iludido sem quotidiano. e Zás lá vamos nós outra vez, Enganados.


nos meus 14 anos revoltados, de resposta na ponta da língua, aguçada e seca, a minha mãe dizia-me, ao ver-me entre lágrimas, a chorar fininho por um amor que nem chegara a ser, que ficara por conquistar e que doía na ilusão,

tu ainda não sabes o que é o amor.


(tinha tanta razão. ainda não sabia. mas, pergunto, e quando é que eu vou saber?)

(entre-tantos)

.
o j., sugestionado pelo site menos boring do século, diz que a melhor forma de tomar decisões é mandar a moeda ao ar.
.
eu, enquanto ela subia e dava cambalhotas inimagináveis no ar, enquanto ela rodopiava lá encima,
.
lembrei-me de ti.
.
.

sexta-feira, outubro 01, 2010

'right to be wrong'

assim lá a meio disse-me que tenho o direito de ser ridícula. sério? de ser ridícula? de ser parva, parvinha, parvalhona? de fazer figura de insignificante? tenho o direito de ser? de ser o que eu sou?

OBA!
muito agradecida, meu estimado querido psicólogo. muito agradecida. e caramba se não vou exercê-lo. ah vou pois!

e só para começar vou já gritar aqui disparates sem sentido frei3qiwrjsdngfsrj gurksmfjioq3ºksdkça kokldºçl xhajjkf jesf jsjkjdf jnsjdlks dfbnfkedka dçw98r9damskf hkjd-isjlkclm njdlkoxkf JHJDJSIJDSJK JKKXFILSJKDKMSMKLDFJSIJ JCHSLAPO0+EO0WJ jshfjiowus9idopskl huhdusjkl oooOOOOOOhhhhhhhHHHHHHHHH yyYYyYYYYYEEEEEEEEEEEEEEEEAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAhhhhhhhhHHHHHHHHHHHHHH!

quarta-feira, setembro 29, 2010

desaire


matou-me o menino. ontem,
no meio da calçada. matou-me o menino da pistola em punho. ergueu a mira e posicionou. depois, com o olhar franzido e o sorriso maroto, puxou do gatilho e fez

Pum!

imagino a pistola carregada. a bala mortífera. não teria tempo de pensar, por certo. mas
era só cola, por sorte. era apenas uma pistola de cola.

(passam os filmes na TV. os heróis de arma em punho, os cowboys. não, os assassinos natos, os terroristas; vivem os vilões no jogo. a tarefa é matar e vencer. há o prazer expresso no herói. há os pontos amealhados. o próximo nível.há também o terror dos que são mortos. há o medo, o sofrimento. nas faces estende-se o esgar infeliz da sensação que percorre o corpo. o sangue esvai-se. há gritos. e os meninos, vêem? porque não haviam de ver?

juro que não percebo, será inato? porque é que preferimos o gozo do poder à compaixão pelo sofrimento.)


segunda-feira, setembro 27, 2010

a guerra das rosas*




não sei se todas as letras são vidas. mas muitas vidas, amores, há
que são esta letra.


(* Camané, Do amor e dos dias, 2010)


quinta-feira, setembro 23, 2010

you're asking me how far will my love go. i don't know, i don't know.






"... You're asking me will my love grow,
I don't know, I don't know."


mas
"... Stick around, and it may show. "



quarta-feira, setembro 22, 2010

negligência


porque vale a pena dar a conhecer repetir divulgar espalhar gritar. até que a garganta doa. até que os olhos chorem. até que alguma coisa mude.


sexta-feira, setembro 17, 2010

instintos (restruturados)

ela entrou, balanceou entre as varas de suporte, como macaco de galho em galho, e deixou-se a rodopiar no meio do autocarro. tinha a pele morena e os beiços inchados. calças justas de ganga com t-shirt de cor incerta. tinha também o cabelo enrolado, longo, a terminar num caracol escuro. mas o que nela cativou foram os rugidos, os balbúcios tenebrosos com que falava ao telemóvel. vinha numa conversa crua que alongava em silêncio e quebrava logo de seguida com violência, chuviscando as pingas da fala e mostrando os dentes roídos decerto pelos açúcares da gula.

era um cenário de suster a respiração. era vê-la mandar bufos de impaciência, levando as mãos à testa pequenina, ao crânio minúsculo. era vê-la mover amplamente os cotovelos como se pudesse afastar os demónios que a atormentariam. era vê-la. e logo se nos estarrecia a visão.

depois, já certo consumida de maldizer a vida e quem lhe falava do outro lado, deixou-se cair no banco. entrevi-lhe o desespero. mas ignorei.
toca para parar o autocarro. pára. sai uma mãe com a filha pequena pela mão. sai ela também.

observo ainda. os olhos prendem-se-lhe no quadro que mãe e filha pintam ao andar. na mãe e na filha. na filha. então, curiosa, sem desfitar, noto-lhe o olhar. deixo-me ficar nele. os olhos pestanudos contemplam enternecidos a cachopa. e alonga-se nos beiços inchados um dos sorrisos mais benevolentes que já vi.

eu? fujo depressa. enfio-me num buraco cá dentro. e vejo-me a diminuir a diminuir a diminuir. até ficar mirrada que nem uma criatura oca.


(tenho este terrível hábito de observar demoradamente as pessoas. mas, ainda assim, a contínua insatisfação de não lhes conseguir descobrir os fundos.)

finito infinito

         
passo na Baixa. na esquina da Câmara, um velho olha o futuro, apoiando na bengala gasta a mão encarquilhada. tem o olhar preso. a postura imóvel. olho para ele enquanto avanço. penso: apetecia-me perguntar-lhe o que vê. para o que dirige o olhar tão atentamente. se vale uma vida. queria tanto saber.

mas depois desiludia-me, com toda a certeza.

(prefiro tecer o sonho, colar-lhe as pontas. construí-lo em castelo e subir nele, percorrendo-o encantada. ficar lá. do que depois ter que o partir contra a realidade.)
       
       
    

quarta-feira, setembro 15, 2010

Causas para a desgraça dos povos (IV)

os meninos na praia à noite. uma tenda montada. as dunas minúsculas, ondulantes, fazendo desenhos sombrios. os caracóis loiros, as perninhas lançadas no chão, a mão rechonchuda e rosa que se estende ao alto. lança a areia num fiozinho que escoooorre. e cai cai cai, como mil estrelinhas doiradas transformadas em prata pela luz da lua. tudo isto encoberto, sob o olhar vigilante de um pai que, de dentro da tenda, observa. deitado sobre a bossa estomacal, afasta os olhos da criança à medida que se aproximam os vultos curvilíneos. nas covas oculares, revolvem-se-lhe os olhos sempre que passam as moças. e um olhar negro, voraz, lança-lhes no caminho a baba que se desprende dos lassos beiços. "queres companhia?", ataca.
remexe ainda na areia, o menino, lança-a ao alto, enquanto deita o olho à cena. enquanto, sem se aperceber, a vai guardando na memória.

(tanta inocência que se estreita, e que desaparece, sufocada pelas mentes instintivas e insatisfeitas destes pais.)

segunda-feira, setembro 13, 2010

'we used to wait'




















humor negro






















(Sabugal, Portugal, Agosto 2010)


(sempre me soube melhor trinchar a carne no prato depois de saber
que era daquela vaquinha super fofa da vizinha.)


quinta-feira, setembro 09, 2010

malmequer

um bom dia
um mau dia
um bom dia
um mau dia
um bom dia
um mau dia
um bom dia
um mau dia
um bom dia
um mau dia
um bom dia
um mau dia
...
n+1.


(nunca acaba. acaba?
e porque é que não se chama bemmequer?)

segunda-feira, setembro 06, 2010

who are you

       
ca'los c'ús. era assim que, na idade tenra, a minha irmã chamava o apresentador do 123. era o seu predilecto. estava na inocência de achar, ou de nem pensar, que um homem só deseja uma mulher para lhe dar beijinhos e ser mãe de filhos. que um homem só deseja uma criança como pai, ou como irmão mais velho, para a amar candidamente. nunca para encontrar na sua pele doce o que não encontra no companheira/o. nunca para encontrar nas suas entranhas algum prazer.

saiu esta 6aF no Público uma reportagem sobre o Parque Eduardo VII. falava-se dos cenários que se criam. da prostituição por prazer, por dinheiro. das fugas às rotinas. das rotinas alternativas. e das personagens. o sérgio é casado e a mulher "nem sonha que ele faz aquilo". ele vai buscá-la ao emprego, jantam, conversam e fazem amor. só depois, pela calada da noite, enquanto ela dorme, vai satisfazer os outros. ela não lhe conhece as faltas. as necessidades. desconhece-lhe a incompletude que o preenche e que, noite após noite, procura numa vida pouco bem vista aos olhos da sociedade convencional. estes familiares são outsiders. são gentes que vivem na incredulidade que estas coisas acontecem perto. o que ouvem são estórias que se contam, estórias de gentes doentes. mas, acima de tudo, de gentes distantes.

quando os noticiários anunciaram o escandâlo dos meninos da casa pia e dos seus intervenientes, descaiu-nos o queixo. caiu perante o povo, e caiu perante as famílias dos acusados. como se lida com isto? com um lado lunar que desconhecemos e que faz parte de quem amamos? é passível de ser amado? prefere-se acreditar e perdoar, ou é preferível negar e acreditar no que o parceiro nos assegura? de qualquer das formas, é preciso muito amor. ou muita "logística".

depois das sentenças lidas, passou-me pela cabeça a possibilidade de eles serem 'inocentes'. dessa ínfima possibilidade que tantas vezes escapa às mãos da justiça. da possibilidade de haver essa possibilidade. e ficou a dúvida. a germinar. mas absolvidos ou não um dia, o povo julgou o que ouviu. e foi inflexível. após a confiança traída, não há veredicto que lhes volte a caiar as vidas.

depois das sentenças lidas, ficam as mulheres dos réus. as famílias. pois ainda que declarada persistentemente a inocência, fica a pairar, como abutre incansável, a possibilidade de eles serem mesmo culpados.


(não há nada mais corrosivo do que a dúvida. quando a confiança é abalada, é ela que lhe destrói as bases.)
       

 

quarta-feira, setembro 01, 2010

stupidity


"... suppose i never ever met you
suppose we never fell in love
suppose i never ever let you kiss me so sweet and so soft
suppose i never ever saw you
suppose you'd never ever called
suppose i kept on singing love songs just to break my own fall..."*


teria sido melhor?


(*Regina Spektor, Fidelity from Begin to Hope, 2006)


quinta-feira, agosto 19, 2010

antes de dormir, fecho os olhos. e raramente penso nisto.



(Prašná brána, Praha, Agosto 2010)



penso noutras. gosto de me perder no pensamento circular.

(há um certo sentido masoquista em ignorar o que realmente interessa.)



terça-feira, julho 27, 2010

expressões caseiras (i)


o meu pai:
- fulano era um papagaio, era um papagaio!
eu, curiosa com o sentido das coisas:
- hem? um papagaio?! mas o que é que isso quer dizer?
o meu pai, seguro que estava já tudo dito:
- olha, porque falava... falava aereamente!



(pois.)


terça-feira, julho 20, 2010

montras



servimo-nos aos outros enfeitados.


















                
mas ninguém sabe o que temos cá dentro.


            

terça-feira, julho 13, 2010

As relações, em versão Sobre Rodas.


1. as amarras da solidão


















2. contra a parede


















3. o jogo das escondidas


















4. as quedas


















5. ménage à trois


















6. os amores impossíveis


















7. os amores possíveis


















8. a versão familiar



















(como em tudo na vida, o difícil é manter o equilíbrio.)



domingo, junho 27, 2010

quando x tende para o infinito, y vai-se reduzindo a nada.


havia um rei.
sonhar uma coisa é querê-la.
nas pontas dos dedos. tocá-la.
querer tocá-la.

querer uma coisa é consumi-la. no sonho,
com o pensamento.
desejá-la.

eu-que-ro-te. quero
-te. como te imagino.

estendo os dedos e alcanço-te.

és-tu-a-qui.

és ouro. ouro. [mas...] ouro para quê?
tornas-te não comestível,
não consumível.

tu aqui deixas de ser alcançável -
passas a ser alcançado.

não aprazível.


tu-can-sas-me.


o que eu quis não é o que eu devia ter querido. o que é que eu
quero
? o que é que eu
vou querer?

sonho. quero
outra coisa qualquer. de preferência

não-al-can-çá-vel.


(quando o sonho tende para o infinito, a vida vai-se reduzindo a nada.)


terça-feira, junho 22, 2010

josé



















         
O cidadão tem braço curto. Chega à urna. Mas
o poder está mais acima, não lhe pode tocar
.”



(José Saramago, palestra na Faculdade de Economia UC, Coimbra, 1-4-2004)

 

segunda-feira, junho 21, 2010

quarta-feira, maio 26, 2010

domingo, maio 23, 2010

debaixo do silêncio




(a todos os que desesperam quando se perdem no caminho.)



*Jacques Brel, 1966, Les désespérés


sábado, maio 22, 2010

Se (2)

  
há o motorista de autocarro com os olhos escorridos atrás dos óculos escuros. há o pendura que entra no autocarro, que conhece o motorista e por isso lhe leva a viagem de borla. já viu o que era eu agora ir a pé até lá abaixo sob este calor, era uma crueldade!. há o rabo de cavalo loiro-a-caminhar-para-o-grisalho, sujo e desleixadamente preso. há a magreza extrema. há os dentes, um ou outro, a enfeitar a caverna que se abre num sorriso. há a conversa que, com muita pena minha, tive que deixar a meio.

motorista:
- olhe, eu, comecei o dia primeiro que você!
pendura:
- então, pois claro que sim. levantou-se primeiro que eu! agora, já viu, se eu me tenho levantado antes de você, tinha eu começado o dia primeiro!

   
          

sexta-feira, maio 21, 2010

prime number

    
quando achas que não tens lógica nenhuma.
e, afinal, até te acham uma.
           
             


domingo, maio 09, 2010

sábado, maio 08, 2010

homónimos perfeitos (I)



passa o pai com o filho na idade de perguntar.
ouve-se o pai:
- o que é o grelo...? hh... o grelo é uma fita...

o miúdo escuta, quer saber. eu também: DE ONDE RAIO vem a pergunta! ah... afinal é a Queima. e o seu profundo sentido das coisas.




















domingo, maio 02, 2010

se a minha mente fosse um saco de papel
























(ainda bem que aquele que ganha "o campeonato" nem sempre é o mais óbvio. é aquele que eu alimento mais. aparte isso, talvez isto explique porque é que eu ando com umas tremendas e canhotas dores de peito.)


sexta-feira, abril 23, 2010

ansiedade por antecipação



no autocarro, duas senhoras:

- estou atrasadíssima. nem quero olhar para o relógio! já sei!
- olhe, são 9.10.
- 9.10? ah, afinal não é assim tão tarde...



(como dizia o outro: fazer duas vezes antes de pensar. poupava-nos muito desgaste.)


quarta-feira, abril 21, 2010

a vida é como um jogo de futebol (1)



podes ter mais - muito mais! - de 50% de posse de bola, e aumentar grandemente a probabilidade de ganhares o jogo. mas, ainda assim, podes não ser eficaz. e ganhar o outro.

(na tentativa de justificar que, o facto de eu ser parvinha em mais - muito mais! - de 50% das vezes, não quer dizer nada. nadinha!)



(suspiro)



quinta-feira, abril 15, 2010

Betão pré-esforçado


abrem-lhe a porta. o rapaz prepara-se, respira, conta ritmadamente. e, vum, salta do avião. deixa-se cair umas centenas de metros e depois, só depois, puxa o fio. instantaneamente, o pára-quedas abre. na concavidade, arrecada o ar que o sustêm. o rapaz desaba, suavemente, e é tranquilo que pisa o solo. 'a mente é como um pára-quedas, só faz efeito quando aberta'. sejamos fléxiveis, que os rigídos não sobrevivem à mudança. tenhamos flexibilidade, flexibilidade ao rubro!, e acomodaremos a adversidade. sobreviveremos a ela.

o rapaz salta. tem um pára-quedas fléxivel, fléxivel ao rubro!, adapta-se às circuntâncias, molda-se. é o último grito! o rapaz puxa o fio e - surpresa! - logo se estende uma superfície plana, sem côncavos nem convexos. pleanamente fléxivel. o vento dá-lhe na face, veloz. dá-lhe na superfície também. e - surpresa! - inverte o ângulo. cai o rapaz que nem pedra.

(mas quão aberto deve ser o nosso pára-quedas?)


sexta-feira, abril 09, 2010

oculto


pum. páro e oiço. que raio... olho em volta, nada. continuo, dois passos. pim. estaco. a rua está escura, mal-alumiada. só o vento sopra - então de onde este barulho? debaixo da camisola o coração acelera. pam pum, pam-pum, pampum. hesito nos passos. olho para trás. para cima. triiiM. arregalo os olhos, fito as janelas - quem é?. QUEM É?! nada. dorme-se naquela rua, parece. PAM. o coração salta. não se aguenta nos cavalos, quer fugir-me do peito! arfo já. circulo sobre mim mesma. as mãos à cabeça. um barulho aqui e outro ali, pum pim! arrepia-se-me a pele. pim pum! eriçam-se-me os pêlos. triiim! suam-se-me as mãos! tenho um aperto sobre um aperto na mente! quero correr, fugir, mas para onde? vou, não vou. solto um gemido. avanço, não avanço. grito, quero fugiiiiiiiiiiiir. pulo! e, depois, desapareço.


(acho que existem gigantes que nos gozam: vêem-nos cá embaixo na gaiola, batem de repente nas portadas e riem-se à brava com o susto pregado. mas nós, ceguetas, não os conseguimos ver - são demasiado grandes para que os possamos ver...)

(experimentei isto com o gato das traseiras quando o vi passear descansadinho sobre o telhado. devo dizer que, se ele não estava cagadinho de medo, parecia.)


quarta-feira, março 31, 2010

vislumbre



eram três da tarde quando o senhor marcelino a viu. eram três e um quando o sr. marcelino tombou.

ele. era um homem calvo, de meia idade, e bochechas pingadas. morava numa das ruas da baixa e desde a viuvez que se metia sozinho pelos cantos, cambaleando ao som do vinho. por estes dias ia circundando pelo parque, entregue às vozes soltas dos seus pensamentos.

ela. tinha a pele morena, lisa, e os olhos verdes de verdes vários. a luz batia-lhe de chapa, e descascava-lhe a beleza. tinha as formas cheinhas e arredondadas - pois quando o sr. marcelino, restabelecido da queda, correu desenfreadamente no seu encalço e se abraçou estampadamente nela, não se lhe tocavam as mãos.

ergueu-se, e ali ficou. e ali esteve ele. nos restantes dias, nas restantes noites. de olhos a sonhar, embalado sobre o fresco peito dela. as pessoas passavam e olhavam-nos. ele seguia-as com o olhar, rodopiava em torno dela e, fechando os olhos descansado, sorria. ele, nos braços fortes dela. ela, aconchegada no abraço dele. ele apertava-lhe o corpo contra o seu e dançavam. ela estendia os braços ao céu, e dançavam. os dois. ao vento. dançavam suavemente sob o luar de Janeiro, sob as chuvas de Abril, e o voo das folhas secas de Outubro. e, ao som do chilrear dos pássaros, dançavam os dois até adormecer.

(eram três da tarde, três, quando o sr. marcelino se apaixonou pela menina árvore.)


domingo, março 28, 2010

as normas dos (a)normais



m.: acho que ela é estranha.
eu: ela? estranha?! mas estranha como?
m.: oh pá, estranha. sei lá!
eu: mas estranha, estranha porquê?!
m.: sei lá... acho-a banal.



(adoro as tuas 'pancas')

segunda-feira, março 22, 2010

novos ricos


no bairro em que morei, todas as casas tinham jardim ou terraço. dava trabalho mas também permitia outras liberdades. ter um cão e dar-lhe um espaço, por exemplo. o meu vizinho tinha um dálmata. lembro-me de passar na rua e de o ver trancado na sua casota, a qual consistia numa "psicina" de tijolo com paredes de rede. ia ladrando a quem passava, e era uma tristeza vê-lo ali confinado à solidão. talvez por isso, ou por um certo receio obscuro dos donos, de vez em quando soltavam-no e deixavam-no à vontade. nestas alturas, eu sentava-me sobre a calçada da nossa casa e ficava a observá-lo. vum, vum, vum. uma volta e passava por mim. e outra, e outra. eu ficava a vê-lo, e a tentar percebê-lo. ali às voltas à casa, a correr desenfreadamente. como os ciclos da lua acelerados. como se não houvesse amanhã. ou apenas como se receasse que amanhã já não fosse livre.

(às vezes ficamos tanto tempo presos, que a liberdade nos dá para a loucura. é ver-nos correr correr e correr, cegos. a bater contra paredes, também. depois cansamo-nos. um dia. fica o que passou e aquilo em que nos tornámos. e se valeu a pena ou não.)


quarta-feira, março 17, 2010

as coisas num contexto.


primeiro foi o olhar. só depois veio o verbo.

cresce no regaço da mãe. cresce, cresce. mais e mais. a cada dia. sentem-se os dois, ao princípio, no silêncio. descobrem-se. percorrem as sensações, mesmo sem as saber. falam também. os dois durante meses. anos! aninham-se um no outro procurando conforto. o cheiro da mãe, o cheiro do filho. o toque. o contacto, corpo no corpo. o quente da pele. o filho cresce. o corpo da mãe. o corpo do filho. amam-se, mas há todo um mundo que os separa. e aos corpos também. cria-se a distância, o ver de fora. ao longe.

se tivessem sido só os dois, olhos colados, não veriam mais nada. não diriam mais nada. nem haveria mais nada. seria o sonho.

(o que custa é a falta da pele, do cheiro da pele. de tocar na pele, e de a percorrer. mas há a vida como pano de fundo.)


segunda-feira, março 08, 2010

busca do prazer

    
vi passar o tempo no meio dos dois sem que nenhum pestanejasse. sentados à mesa, aguardavam o momento do dia. ela deitava um olho discreto à televisão, ele fixava o vazio. ou a pele dela quando era jovem. ou quando ainda se amavam e tinham assunto à mesa. agora, escolhem o restaurante mais caro da cidade, pedem o prato mais gourmet da casa, e saboreiam-no. Está bom, não está? Óptimo. depois, nada. as coisas arrefecem. ela deita um olho discreto à janela, espreita lá fora. ou as memórias de quando se amavam e se olhavam nos olhos. ou quando ele pegava na mão dela e a saboreava fixamente. agora, ele vigia-a sem a olhar. mais nada. há ainda um bacalhau despedaçado para acompanhamento, mas os corações já vêm frios.
     
       

quinta-feira, março 04, 2010

nada, não é nada.
















adoro como as pessoas se contradizem. deve ser do nervosismo de dizerem coisas bonitas.


sexta-feira, fevereiro 26, 2010

O princípio da incerteza



peguei na janela do tempo e espreitei o futuro. vi-me lá, junta e com filhos no colo. pensei nisto.
voltei a espreitar. agora era eu apenas. e tinha um rebento lindo. pensei nisto.
vi outra vez. viajava, até ao fim dos meus dias. voltei a pensar.
outra. estava bem. o resto, tudo incerto.


(quando tomamos consciência das coisas acabamos por mudá-las.)


quinta-feira, fevereiro 25, 2010

(as)simetria


olho-os nos olhos. são velhos. passam por mim arrastando-se pelas ruas. olham-me também. vêem-me através da lente baça, e triste. olham-me por fora, cá para dentro. e rebuscam. é um olhar pesado, enorme, que me abraça o corpo. e aperta.

confundem-me, os velhos. aqueles velhos. pergunto-me o que é que eles (me) vêem. como é que eles (me) vêem. lançam olhares calados ao vento, e eu oiço-lhes os sussurros. pedem-me que os espreite por baixo das peles, que lhes veja os verdes anos. ainda. que lhes rasgues as vestes coçadas e os veja homens. (de quando?) mas eu sou menina. e vejo-os velhos. apenas. quero guardar a sabedoria de ver-para-além-das-aparências para os anos vindouros. para quando for velha. de olhar nos olhos e abrir a porta.

mas agora não.

eles olham-me, ainda. perfuram-me. querem-me a juventude. (qual?) amedontram-me, os velhos. aqueles velhos. sentem os últimos grãos na ampulheta e olham-me desesperadamente como se me sugassem a vida. tenho medo de ser como eles. de me tornar como eles.

e a pouco e pouco, nesse medo, sinto-me definhar também. mantenho a cara da menina, e o corpo jovem. mas e o resto? arrasto-me com eles pelas ruas, enquanto me pergunto

quando eles olham para mim, afinal vêem quem?


terça-feira, fevereiro 16, 2010

Actividade experimental




















a Vida pega em nós, mete-nos em frasquinhos, e depois vai fazendo misturas. só para ver no que é que dá.

(pior é que sem saber os objectivos da sr.ª d. experimentadora, como é que pode alguém manipular os resultados?)


domingo, fevereiro 07, 2010

crescer


Estou sentada à mesa do café. Passam na vitrina, para quem vê de dentro, 3 homens e uma mulher. Observo um dos homens e a mulher. Não consigo deixar de pensar se serão um casal. Entra toda a família no café. Há crianças, afinal, também. Sentam-se mesmo ao meu lado, com duas velhas senhoras e um casal amigo. Juntam-se mesas, trocam-se as novas. As meninas sentam-se ao lado da mulher. Ela fala delas com cuidados desvelados. Ela não gosta de usar óculos, mas o médico diz que tem um olho preguiçoso. A menina ri e balbucia qualquer coisa. Reparo na mulher. É bonita. Tem o cabelo esticado e a maquilhagem cuidada. Noto nas olheiras das noites brancas. Pergunto-me se já foi egoísta. Se foi uma jovem embirrenta e cheia de manias. Se mudou quando se tornou mãe. Pergunto-me quantas vezes mudou de vida. Quantas meninas, adolescentes e mulheres já foi? Quantas vontades, quantas incertezas. Pergunto-me se já se encontrou, ou quantas vezes vai ainda mudar.

(quantas vezes podemos mudar, se o tempo corre. pergunto-me se nos encontraremos um dia, tu e eu, cá dentro. quanto tempo até lá, quantos erros. pergunto-me quando será, ou se virá, o dia em que já não desejo mudar.)


domingo, janeiro 31, 2010

histeria





































* Paula Rego, Swallows The Poison Apple, Snow White Playing with her Father's Trophies, 1995. ** Darwin, C. (1872). The expression of the emotions in man and animals. London: John Murray.

terça-feira, janeiro 26, 2010

quinta-feira, janeiro 21, 2010

coma white



a pill to make you numb / a pill to make you dumb...


toma-se a paroxetina e passados umas 8 semaninhas estamos outros, diz um estudo recente. que esta droguinha nos pode mudar traços de personalidade a um nível superior do que o que pode ser obtido com terapias cognitivas. que diminuímos o neuroticismo (tendência para sentir emoções negativas e instabilidade emocional) e aumentamos a extroversão (escuso de definir). e seria por meio da alteração destes rabiscos da personalidade que se aliviariam as depressões. para não falar de outros mal-estares.

(o que é isto que somos que é tão passível de ser mudado assim, quase de um mês para o outro, quase com uma caneca de chá? que é isto de se ser, que apesar do cerne rígido, parece ser tão maleável?)

no fundo, não me surpreende. a depressão tem sido associada a baixos níveis de serotonina. e pensa-se que esse pequeno neurotransmissor muda (mas não sejamos simplistas) a visão do mundo, o modo de estar, a capacidade para experienciar prazer. muda uma pessoa. ou o que achamos que ela é. está tudo aqui encima, num punhado (gigante) de células que comunicam silenciosamente entre si e que nos deixam apenas resultados breves dessas conversas. no fundo, não passamos de padrões electroquímicos.

a alma é passível de mudança. e se as drogas nos podem mudar, passemos a tomá-las então. certo? para sermos menos tímidos, para não pensarmos tanto, para arriscarmos mais, para termos menos medos, para sermos mais corajosos. enfim, para sermos mais felizes, nem que só por um pequeno instante. tomemos injecções consoante o objectivo. ficamos tontos, anestesiados das sensações dolorosas do dia-a-dia. e gostamos. sentimo-nos bem. parece fácil por aqui. não temos que mudar nada. porque alguma coisa muda as coisas por nós. todos os dias.

(se as coisas fossem certas e duráveis. mas o estudo dos substratos neuronais da mente e das suas psicopatologias está nos primórdios da sua existência.)

um menino monta a bicicleta. o pai agarra-a. leva o menino a correr o vento. o menino diz, Pai larga. o pai não larga, o menino acha que ele largou. Estou a andar sozinho, o pai não desmente. a pergunta: o menino seria capaz de andar sozinho se o pai largasse? porque o menino tem que saber andar sozinho se o pai largar. se nós somos um padrão electroquímico, até que ponto não podemos nós próprios [aprender a] operar o padrão? o pai pode ajudar, pode. mas não pode estar lá para sempre. e se puder estar, será bom que ele esteja?


a pill to make you anybody else. / but all the drugs in this world / won't save her from herself.



domingo, janeiro 17, 2010

http://www.imdb.com/title/tt0810784/


as histórias de amor valem a pena [acompanhar] para quem as vive. para quem está de fora - e não está disposto a vivê-las como se estivesse lá dentro - são um pretexto para dormir.

(ainda bem que existem as sinopses. mas, melhor que isso, são os filmes que vamos ver por acaso.)



terça-feira, janeiro 12, 2010

#1, fugir à conversa, por exemplo



















(Darwin, C. (1872). The expression of the emotions in man and animals. London: John Murray. VER Exposição "Exuberâncias da Caixa Preta", Museu Soares dos Reis, Porto, Portugal. Mais informações aqui.)


"the advantage of having a bad memory..."



ontem, ao fim de 25 anos de existência, vi nevar.

é bom saber que há coisas simples que ainda posso fazer
pela primeira vez.



segunda-feira, janeiro 11, 2010

altruísmo


o problema de deixar de cuidar dos outros
é que nos centramos demasiado em nós.

e esquecemo-nos que para cuidar de nós
precisamos [de cuidar] dos outros.


quarta-feira, janeiro 06, 2010

sábado, janeiro 02, 2010

cabeça à roda






(às vezes é preciso parar. para se recomeçar outra vez.

BOM ANO. façam por isso.)