a pill to make you numb / a pill to make you dumb...toma-se a paroxetina e passados umas 8 semaninhas estamos
outros, diz um
estudo recente. que esta droguinha nos pode mudar traços de personalidade a um nível superior do que o que pode ser obtido com terapias cognitivas. que diminuímos o neuroticismo (t
endência para sentir emoções negativas e instabilidade emocional) e aumentamos a extroversão (
escuso de definir). e seria por meio da alteração destes rabiscos da personalidade que se aliviariam as depressões. para não falar de outros mal-estares.
(o que é isto que somos que é tão passível de ser mudado assim,
quase de um mês para o outro,
quase com uma caneca de chá? que é isto de
se ser, que apesar do cerne rígido, parece ser tão maleável?)
no fundo, não me surpreende. a depressão tem sido associada a baixos níveis de serotonina. e pensa-se que esse pequeno neurotransmissor muda (mas não sejamos simplistas) a visão do mundo, o modo de estar, a capacidade para experienciar prazer. muda uma
pessoa. ou o que achamos que ela é. está tudo aqui encima, num punhado (gigante) de células que comunicam silenciosamente entre si e que nos deixam apenas resultados breves dessas conversas. no fundo, não passamos de padrões electroquímicos.
a
alma é passível de mudança. e se as drogas nos podem mudar, passemos a tomá-las então. certo? para sermos menos tímidos, para não pensarmos tanto, para arriscarmos mais, para termos menos medos, para sermos mais corajosos. enfim, para sermos mais felizes, nem que só por um pequeno instante. tomemos injecções
consoante o objectivo. ficamos tontos, anestesiados das sensações dolorosas do dia-a-dia. e gostamos. sentimo-nos bem. parece fácil por aqui. não temos que mudar nada. porque
alguma coisa muda as coisas por nós. todos os dias.
(se as coisas fossem certas e duráveis. mas o estudo dos substratos neuronais da mente e das suas psicopatologias está nos primórdios da sua existência.)
um menino monta a bicicleta. o pai agarra-a. leva o menino a correr o vento. o menino diz, Pai larga. o pai não larga, o menino acha que ele largou. Estou a andar sozinho, o pai não desmente. a pergunta: o menino seria capaz de andar sozinho se o pai largasse? porque o menino
tem que saber andar sozinho
se o pai largar. se nós somos um padrão electroquímico, até que ponto não podemos nós próprios [aprender a] operar o padrão? o pai pode ajudar, pode. mas não pode estar lá
para sempre. e se puder estar, será bom que ele esteja?
…a pill to make you anybody else. / but all the drugs in this world / won't save her from herself.