sexta-feira, agosto 28, 2009

safa?


mas as coisas não surgem do nada. é a torneirinha a pingar milésimas todo o santo dia, é o fiozinho de água do autoclismo a escorrer lentamente pela sanita abaixo, é o cano roto à nanoescala, é a subida gradual de 0.0000001 litros de água nos nossos rios e mares, é o aumento silencioso de 0.001 graus Celcius no termómetro terrestre; é até o grãozinho de pó a pairar, dia após dia, sobre o biblô intocável. e ao fim de um ano, dois, dez ou trinta e sete, a conta a pagar ascende aos milhares; a barragem cansa-se e cede à pressão; o planeta torra; e, sobre o manto branco empoeirado, os objectos - tal como as pessoas - deixam de se reconhecer. basta aquele grão de areia deixado, inconscientemente, instante após instante, à beirinha do caminho para que uma relação derrape e se despiste na curva mais segura da estrada.

ou então surgem, e pronto. despeje-se logo o balde de areia na curva imaculada, e não há passado de confianças inquebráveis, mimos constantes, bilus-bilus, ou camisinha permanentemente alva que, mediante um imprevisto, salvem o parzinho de se atolar.

ou então não. e salva-se.


(é assim o amor. profundamente incompreensível.)

quinta-feira, agosto 27, 2009

Sapho



Alice:
- I don't love you anymore.

Dan:
- Since when?

Alice:
- Now, just now.*


(creio eu que haja pouca coisa tão forte e, ao mesmo tempo, tão frágil
quanto o amor.)



*diálogo do filme Closer, 2004, de Mike Nichols.

quarta-feira, agosto 26, 2009

O Engodo (II)


O Luís Figo, homem que subiria facilmente a Presidente bastando-lhe tocar na bola..., dá a entender que apoia este governo nas próximas eleições. [Auguro consequências]. Diz ele que é necessário "garantir estabilidade", para que se possam ver os efeitos das políticas. Estabilidade. Deve ser por isso que o Ben Ali está há já 22 anos na presidência da Tunísia. Quem sabe são mesmo precisos 22 anos para se mudarem coisas essenciais, como os direitos das mulheres, por simples exemplo. E a contar com a 'estabilidade' das 'suas' fotos nas paredes das casas e das lojas e dos hotéis, a contar com a 'solidão' dos seus cartazes para as Eleições 2009, não parece ser ainda desta que vá de lá sair. Estabilidade é uma palavra bonita. Quem não a deseja? O Salazar também se manteve 'estável' no seu cargo político durante 35 anos, e com ele manteve igualmente 'estável' uma nação inteira. Já o outro, o Marcellinho Caetano não teve a sorte de ter tanta 'estabilidade', e esgotou-se-lhe o tempo para introduzir as mudanças que precisam de tempo, e de estabilidade.
Mas..., e [falar de] coisas simples, não? Claro que sim! [de] coisas simplex-íssimas até. Por exemplo, como chegar a Primeiro-Ministro. Ou, dado o momento, a Presidente da Câmara. Estabilidade quem?, aqui a palavra-chave é a Instantaneidade: invista-se no sorrisinho (resplan)decente, no porte atlético desnutrido de alimentação constante, no contacto manual ternurento ao som de um belo 'Eu prometo que sim!'. E chega. Nem é preciso ser-se psicologicamente 'estável'. Basta mesmo mesmo parecer-se bom rapaz.

terça-feira, agosto 25, 2009

quarta-feira, julho 29, 2009

my father's dreaming with golden cars.

















Damn!, daddy, I've told you not to dream so much!


quarta-feira, julho 22, 2009

matriz

    
que tenho um útero bonito, disse ele, perfeito. que dificilmente irei ter problemas com um útero assim. ainda ele não acabou de dizer e comecei já eu, completamente embevecida, a imaginar os filhos a crescerem-me neste útero, primeiro um depois outro, depois outro e outro. os dedinhos perfeitinhos, minuciosos, os labiozinhos de rosa, as dobrinhas das carnes tenras. as crianças a desenvolverem-se, a crescerem, a preencherem-me o útero. depois a saírem, a percorrerem as coisas, os objectos, as pessoas. a crescerem mais e mais. a preencherem-me a vida. imagino essas crianças, minhas, células das minhas células, carne da minha carne, crescidas aqui, neste útero, essas crianças, esses adolescentes, esses adultos. e, depois logo, eu, já velhinha, definhada mas realizada da vida, pronta para adormecer e retornar ao outro útero, ao da mãe primeira, húmida e escura.

(as mulheres. dá-se-lhes uma palavra, uma frase, seja o que for, e dá-se-lhes, ao mesmo tempo, pano para costurarem divagações.)
     
     
         
      

terça-feira, julho 21, 2009

instantâneo










(Porto, Portugal, 2009)


Enquanto estendo o pé em cada passo,
enquanto vislumbro a estação,
enquanto subo o degrau do comboio,
enquanto me sento e acomodo,
enquanto espreito pela janela,
enquanto vejo a cidade a mover,
enquanto páro na estação seguinte e depois na outra e na outra depois,
enquanto contemplo o homem sentado,
enquanto o vejo afastar-se, momento atrás de momento, sem rasto palpável, ou que possa aconchegar no colo, enquanto lhe tento reter a face, a expressão, pensando que talvez não o volte a ver jamais, e se me derretem na boca, como algodão doce, esses pensamentos fortuitos,
enquanto se dissipa também ela, a face, na marcha do comboio,

e se me passa, também, este dia pelas mãos, pelos olhos, em sons e gostos que só saberei depois,
aí, nesse(s) entretanto(s) prolongado(s), pergunto-me

para onde vão eles, esses instantes em que pedalamos à velocidade da luz?


(assim, visto de passagem, parece-me que gastamos a vida ou no passado ou no futuro. fazia-me falta às vezes abrir a janela do comboio e deitar borda fora Tudo o que não seja aquele instante. Mas.)

quarta-feira, julho 15, 2009

«E esta, hem?»


Experiência (II)

Nunca fui travessa na escola. Fui sim travessa com a(s) minha(s) avó(s). Com menos de uma década de vida já lhe tentávamos, eu e a minha irmã, passar a perna, convencidas que a esperteza infantil vai mais longe que a sabedoria centenária. Lembro-me que uma vez pegámos em pedaços de pastilha elástica, fizemos bolinhas pequenininas, e colámo-las em raminhos de Mimosa. Depois, com caras de inocência matreira, fomos vender com unhas e dentes aquele achado à minha avó i.. 'Olhe vó, olhe o que descobrimos!' ' Oh, então isso é Mimosa!' 'Não é não vó!, olhe lá, esta tem bolinhas brancas, e a Mimosa não tem!'. Pois sim, riu-se ela. E ficámos nós, com a matreirice a derreter-nos nas mãos.

(enfim, não é à toa que as mães nos mandam investir na sopa. mas acho engraçado, e muito!, que tantas vezes se olhe para os velhos como quem olha para crianças: demasiado crédulos. mas onde raio achamos nós que eles enfiaram os anos de vida?)

«My momma always said...»


Experiência (I)

não sei como o fazem, se o fazem, se não o fazem, se lhes sai simplesmente, como uma criança nos cresce na barriga sem termos que querer assim forçosamente. não sei. não sei como o sabem, se o chegam a saber, se nem pensam nisso. não sei de onde lhes vem essa experiência que parece só (ou principalmente) funcionar no que toca à vida dos filhos. não sei, mesmo. e até pode passar tempo, podem passar tempestades, podem vir turbilhões, bonanças, e acabarmos a pensar que nós, afinal, é que sabemos. mas depois, amassadas as coisas, choradas, requentadas, depois, no fim de tudo, apercebemo-nos que as mães tinham, têm (e terão?) sempre sempre... razão.

(que raiva, pá.)

quinta-feira, julho 09, 2009

convenções


no verão do meu 10º ano, estreou um filme no cinema que toda a gente foi ver, menos eu. armageddon. tinha uma banda sonora pomposa, que acabei por pedir emprestada a uma colega de turma. uma vez que queria ficar com uma versão em K7, decidi pedir-lhe, primeiro. então, com o embaraço da questão atravessado, perguntei-lhe se ela importava que eu usasse o CD dela.
ela olhou para mim, sacudiu-se como um cão molhado, abriu e fechou os olhos em série e, depois, com um esgar de estranheza disse-me qualquer coisa do tipo: 'claaaro...'.
mas, não satisfeita, apanhou-me com a minha melhor amiga e, trumba!, contou-lhe a história, descrevendo-lhe cuidadosamente os pormenores sórdidos da minha ingenuidade. 'pediste-lhe autorização? oh i.! isso não se usa!'.
já não se usa já não se usa já não se usa, ecoou a frase na minha cabeça, já não se usa, já nao se usa, já nao se usa... não? não mesmo? e.............., deixando de lado as questões do quem-onde-como-e-porquê, desde quando é que não se usa?

(se faz favor, alguém deixe disponível o livro dos usos e desusos das coisas. com datas de entrada em vigor bem especificadas. e com datas de perda de validade também. é que desconfio que me vá ser útil nas imensas manhas da interacção social.)

quinta-feira, julho 02, 2009

You





you' ve got to clean up this mess.*



(*lyrics por completo aqui.
na figueira da foz, em famalicão, em lisboa, em faro. na net.)




quarta-feira, junho 24, 2009

estava escrito.































(imagem daqui)

pois claro que sim. então? já a Bíblia, esse livro avançadíssimo para a sua época, há uns bons aninhos previa isto: «Deixai vir a mim as criancinhas (...) » (Mt 19,13-15; Lc 18, 16).

(esperemos é que não acerte no Apocalipse.)


terça-feira, junho 16, 2009

O Quadrado da Lógica (II)


se não escorregarem na banana. reduz-se: a probabilidade de darem um tombo. reduz-se: a probabilidade de ameaçarem a integridade óssea. então reduz-se: a recorrência a serviços de radiologia. então reduz-se: o número de radiografias feitas. então reduz-se. o número de radiografias em casa. então reduz-se: a quantidade de radiografias oferecidas para reciclagem. então reduz-se: a quantidade de prata extraída. então reduz-se: a quantidade de prata à venda nos mercados internacionais. então reduzem-se: os fundos para projectos de desenvolvimento humano.

(quando virem uma casca, coragem: prego a fundo, escorreguem na banana.)

sexta-feira, junho 05, 2009

Paradoxo
















foto original: mifares


digo isto. hm, penso. rodo 180º. e aquilo? ah, aquilo! pronto, digo aquilo. hm. 90º. penso a medo: aquilo...? penso convicta: e outro?? mais 180º. ui: ...e aqueloutro? digo antes. digo depois. penso. tudo mudou. aaaaaaaaah. isto e aquilo. outro e isto. aquilo e aqueloutro. não combinam, não encaixam. aaaaaaaaah. fui eu que o disse? isto, aquilo, outro e aqueloutro? fui?, sou?, 'eu' ainda? o depois mudou o antes (e o antes mudou o depois?). o isto torna-se aquilo. o outro aqueloutro. o isto morre, sucumbe. e eu? digo aquilo. penso isto. digo isto, penso aqueloutro. não!, aaaaaaaah, nada é já o mesmo! eu aqui,

'estou além'. eu?

eu sou, só posso ser, o inverso de mim mesma.


segunda-feira, junho 01, 2009

O melhor cego.






Just sitting here and trying to decipher / What's written in Braille upon my skin / On this skin. (Regina Spektor, Braille, 11:11)

(se te for difícil ver, encerra os olhos. depois, certo que a luz cega e que as cores iludem, escuta no tacto, nos gostos, nos cheiros. escuta, cá dentro, nas vísceras, as sensações.

porque o melhor cego é aquele que não quer ver - não, não quer. e, assim, desiludido já das coisas, este cego quer apenas e afinal
sentir.)

sexta-feira, maio 22, 2009

Eleições (ganha o mote mais fatalista)


os mms, movimento mérito e sociedade, afirmam veementemente que "se nada fizermos nada acontece". parei. arregalei os olhos e pensei: serei eu capaz de parar este mundo? depois, surpreendida pelas buzinadelas, desci novamente à terra e acabei de atravessar a passadeira. balelas é o que é. e passo a desconstruir:
(a) primeiro, 'se' 'nada fizermos': difícil de definir 'nada'. mas ainda mais difícil é definir 'fazer nada'. se eu me sentar numa mesa de café e ficar a olhar para o 'nada', a pensar que estou a 'fazer nada', ainda assim estou sentado à mesa do café. e o mesmo acontece se ficar eternamente trancado na casa de banho, ou de molho na cama. feliz ou infelizmente, o simples facto de existir implica fazer algo, nem que seja atravancar.
(c) depois, 'nada acontece': hm. nada acontece?!?! mas em que mundo vive esta gente? se os acontecimentos espacio-temporais estivessem à minha espera para acontecerem, estaria já eu velha e caquética, para não dizer completamente chupada, e plenamente aborrecida por ter de andar a acompanhar o mundo há biliões de anos. não, oh senhores, quer façamos ou não, as coisas 'acontecem'. se eu me sentar no café e 'nada fizer', daí a algumas horinhas terei a senhora a dizer-me que está na hora de fechar, a desejar-me a boa noite e a tentar, contida e educadamente, pôr-me dali para fora. se eu 'nada continuar a fazer', logo logo darei azo à perda da paciência e serei a chatice da noite, o porquê de se chamar a polícia, e a estória do dia seguinte que, por certo, mudará a vida de imensa gente. e ficar na cama, por portas e travessas, vai dar ao mesmo. porquê? porque 'nada acontecer' não é uma perspectiva viável num mundo em que o relógio não pára. nem muito menos espera por aqueles que decidem parar.

(as pessoas, na procura desesperada de motes para encher a alma e a motivação às gentes, acabam por soltar frases vazias, plenas de 'nada'. como assim 'nada acontece'??? se 'nada fizermos' o que é provável é que as coisas 'não aconteçam' da forma como queríamos que acontecessem. mas, e se fizermos??? a política, e nao só, está cheia de exemplos de gente que decide, em vez de 'fazer nada', 'fazer asneira'. e de facto, infelizmente, 'algo' acontece.)

quinta-feira, maio 21, 2009

Portas


II

caminhamos. montamos a tenda. progredimos. construímos a casa. deixamos entrar. organizamos o espaço. aborrecemo-nos. saímos. voltamos a entrar. expulsamos. reorganizamos o espaço. uma, outra e outra vez. de tempos a tempos. todos os dias. que raio? olhamos para trás. sentimos a rajada na face. percebemos enfim.

(unfinished business são como portas abertas por onde entra o vento. e não há maneira de arrumar a casa. portanto, das duas uma: ou calamos o vento, ou fechamos a porta.)

 

quarta-feira, maio 20, 2009

Portas


I





















ando a bater à porta dos sonhos, e a pedir num desassossego que me deixem entrar.
- está aberta, entra!
hm.
agora que posso, agora que tenho a permissão para,
será que quero?

(irrita-me, sim irrita-me. confesso que me irrita, e Pro-Fun-Da-Men-Te!, o facto de ter-que questionar tudo. quem me vir assim, abananada pela vida, até diz que o meu problema é não saber o que quero. hm. pois.)

         
    

quarta-feira, maio 13, 2009

Desculpas


I
Tempo. 24 horas. 1440 minutos. 86400 segundos, fora as imprecisões. Tanto tempo, se formos a pensar que podemos demorar apenas uns quantos milisegundos a formar um pensamento. Não me perguntem porquê mas de facto não consigo arranjar tempo, no meio de tanto tempo, para escrever um post. Porquê?

(pronto. desculpa [esfarrapada] número 1 para não actualizar o blogue [quase] há séculos.)

II
Limites cognitivos, i.e. Burrice pura. Os posts escrevem-se quando pensamos em algo razoável (ou não) que queremos partilhar com os outros. Ora eu, sinceramente, nos últimos tempos sinto-me limitada cognitivamente para pensar, decentemente, no que quer que seja. E daí que ande a resistir à partilha de opiniões desconexas com os outros.

(desculpa número 2 para não actualizar o blogue há séculos. e também aquela que espero que explique este post…)

III
Ser livre para partilhar o vazio que habita a minha cabeça, e as ideias disconexas. E, a propósito do 25 de Abril, Liberdade é querer escrever um post e mandar tudo para o ar e escrever o post. Mas: Eu sou, supostamente, uma menina adulta e responsável (sou? hm). Não posso, sem-mais-nem-menos, deitar tudo para o ar e escrever o post (não?). Não. Raios. Pelo que me parece, a liberdade é uma função exclusiva. Isto é, ou temos a liberdade, ou temos o resto. Não podemos é ter ambos. E, visto que este mundo nos exige, a partir de uma certa idadezinha (não me perguntem é qual), umas quantas responsabilidades – que serão, infelizmente, quase a totalidade do resto – o que acontece à liberdade é triste: empurrada borda fora. Que raio de liberdade é esta que quer tudo e não nos deixa ser livres para ter o resto também? Nestes termos, a liberdade torna-se inconsistente e, por isso, uma tanga. Logo, não tenho liberdade, principalmente para escrever acerca do vazio que habita a minha cabeça, e das ideias disconexas que o tentam - impossivelmente - conectar.

(desculpa número 3, e a mais [des]idealista, para não actualizar o blogue há séculos.)


p.s.: Estou com medo, confesso. Aconteceu-me o mesmo com o Diário: de um momento para o outro pensei Já não tenho paciência para isto. E encerrei o caderno. Ou isso, ou estou numa Fase (uuuuuui!): a porcelana está a precisar de uns reparos, de uns reforçozinhos aqui e ali (fragilzinha, hem?… ui ui!). A precisar de tempo. E voltamos ao ciclo das desculpas.

quinta-feira, abril 23, 2009

O indivíduo à escala ecológica



















       
           
Ask not what's inside your head, but what your head's inside of.
(Mace, 1977)



(foto: National Geographic [Portugal], Agosto 2008, tema: "China")

quarta-feira, abril 22, 2009

O pior cego

 
Ela apoia o queixo no pulso enquanto leva aos lábios a pequena chávena de café. Depois, numa rotina de 90 minutos, pousa-a e, inevitavelmente, desfia o vazio em pensamentos.

Na TV passa o futebol. Ele, impreterivelmente, entra no jogo. Leva, de tempos a tempos, a cerveja ao goto e solta, de tempos a tempos, palavras imperceptíveis. Ela olha, imagina que sejam para ela, não são. Ele agarra o copo, sustém-se, estrebucha e, súbito!, prescinde temporariamente das imagens. Ela olha. Ele vira-se e rosna algo ao empregado – quer outra cerveja afinal. Depois, pulando o olhar dela, torna a dissipar-se dentro do ecrã.

São os 90 minutos, fora os descontos, o jogo termina. Ele levanta-se, vai pagar. Ela, enfadada, ergue os olhos e arrisca num tom amorfo: Vamos? Ele acena que sim, consente. Ela, de pernas dormentes mas habituada a ficar no banco, levanta-se com vagar, pega na mala, e sai.


(enfim. num mundo em que o tempo não sobra, pergunto-me onde vamos encontrar ‘coragem’ para aguentar estes fretes.)
       

 

segunda-feira, abril 13, 2009

São massas, meu senhor, são massas.


descobri que as hóstias, aquele pedaço de pão imaculado e entregue por uma das muitas mãos de Deus, são feitas às carradas - em massa - por meio de objectos metálicos standardizados.








































(Centro Galego de Arte Contemporânea, Agosto 2008,
Santiago de Compostela)


e confesso que me melindrou um bocadinho.

nem tem que ser lógico. não, nem tem. mas
dá-nos o homem a carne, e que fazemos nós? reproduzimo-la em formato standard para responder às exigências da procura.

pior que isto, só inseri-la no circuito da comercialização.


terça-feira, abril 07, 2009

Estrelas


A judite (de sousa) sorri. Escorre-lhe a franja pela testa sobre os olhos pestanudos. Então, numa felicidade de poder colocar em palavras suas as dúvidas da humanidade, arremessa:
- Mas o senhor professor antónio damásio, ãaa..., julga que, apesar de tudo isso que disse e de tudo o que já se conseguiu até hoje... o que é que nós nunca iremos saber?
O senhor professor antónio (damásio) abisma-se. Mas depois, certo que o mundo inteiro bebe do que irá dizer, controla-se e solta com naturalidade:
- Impossível saber o que nunca se vai saber.

(pois. acontece-me também. antes de começar qualquer coisa nova, antes de entrar, antes de ver, antes de saber como as coisas são por dentro - imperfeitinhas, incertas, e em permanente (des)construção -, acontece-me esperar que o não sejam. calculo que a ciência, quando vista de fora, também seja assim: uma espécie de certeza inabalável com métodos afinados que dão respostas precisas a todas as questões travessas.
então, quando a imprecisão dos tarôts, o enevoamento dos oráculos de bellines, a atribulação das linhas da mão - e a poluição luminosa! - nos impedem de ver as constelações estelares - e o futuro! -, o mundo redescobre a pólvora: vira-se para os neurocientistas. quer saber da "pílula da memória", da felicidade eterna, da vida com muitos dias e mordomias, se puder ser também. enfim, de mimos.
os neurocientistas é que ainda não aprenderam a lidar com tamanhas responsabilidades. por isso, desabituados que estão de 'perguntas às três pancadas', quando lhes fazem questões destas, poêm-nos com a cabeça à roda. e, inevitavelmente, a ver estrelas.)

segunda-feira, abril 06, 2009

Franqueza




















A função de muita gente na vida passa por empatar e obstruir a vida dos outros. Mas, e é coisa com piada, alguns nem tentam disfarçar.

quarta-feira, abril 01, 2009

«As palavras são pedras.»*
















(Chita. Rans, Junho 2008)


(dizem que os olhares não mentem. olhassemo-nos todos assim, para o fundo dos nossos fundos, para os fundos dos outros, e talvez nos entendêssemos muito melhor.

talvez.)


* Ferreira, V., 1994, Aparição.

terça-feira, março 31, 2009

Birras















(Guimarães, Julho 2008)


(ando a deixar o blog de parte. deixo-o sossegadito no seu canto, a girar sobre si próprio. ele chora e eu ignoro. ele grita e eu ignoro. ele faz birra, pede atenção, e eu, impassível, viro a face. mas custa. só que, dizem os mais experientes, os meninos para crescerem fortes têm que ser volta-e-meia ignorados. isto, ou coisa que o valha.
enfim, ignorar. até pode ser desculpa. mas eu, de qualquer forma, também nunca consegui fazer grande coisa ao mesmo tempo. por isso, tenho-me desviado para as outras fixações. digo-o até sem grande vergonha: eu, ultimamente, deixo o menino num canto, e ando às voltas com a vida.)

sexta-feira, março 27, 2009

Ciclos


«Dan: Everybody wants to be happy.
Larry: Depressives don't. They want to be unhappy to confirm they're depressed. If they were happy they couldn't be depressed anymore. They'd have to go out into the world and live. Which can be depressing.»

[Mike Nichols, Closer, 2004]


(vícios, hábitos, fugas. o que lhe quiserem chamar. a verdade é que se põe a vida a passar por um filtro mel-oh-dramático. e tudo ganha um sentido: a culpa é nossa, merecemos sofrer. Ou então: a vida é injusta, e é, e nós não merecemos sofrer. mas sofremos. somos então mártires. e merecemos um céu.)

(a depressão intriga-me. é também uma questão de força de vontade, ou não podemos mesmo lutar contra a biologia? Ou ainda, apesar de tudo o que perdemos, o que é que nos faz manter a depressão?)

terça-feira, março 24, 2009

Shining
















 (os meus sapatinhos)



Eu olho. Vejo aquele casaco colorido sarapintado peludo e moderno. E penso Que raio? Torno a olhar. Ups. Abruptamente, desvio os olhos para o tecto. Espreito. Mas porque raio veste ela aquilo (para além do facto de ter uma ‘etiqueta’ com trademark)? Será que gosta? Não pode. Gosta?, Mesmo? Hm. Viro, e reviro os olhos. Desfaleço.

(o mundo visto de fora, de facto, não tem nada a ver. só mesmo quando calçamos-os-sapatos-dos outros percebemos que, depois de nos habituarmos, diferenciar as coisas passa a não ser assim tão fácil.
fora isto, a take-home message é que: usar coisas fundamentalmente ‘foleiras’ até dá um certo gozo. quanto mais não seja pela reacção que provoca nos outros.)

sexta-feira, março 20, 2009

Hábitos


Tenho uma amiga que não gosta de pobres. E diz-mo assim, chapado, Que não gosta de pobres, Que são ingratos.

(admiro-lhe a sinceridade. somos exageradamente embutidos de desiderabilidade social)

Penso nisto. Andamos tantos dias entretidos connosco próprios, que se torna inevitável não conseguir fugir à rotina. Então, cansados de tanta auto-contemplação, rebelamo-nos e decidimos fazer algo-verdadeiramente-diferente: olha, hoje vou dar existência ao outro! E, zás, deixamo-nos abalroar pelo altruísmo. É verdade! Inunda-nos então essa onda de bem, esse estado que nos faz querer melhor para o outro, para o próximo, do que para nós mesmos. Afinal, é tão-bonito dar. Dar o que nos sobra, o que temos a mais em casa. Dar até o que o nosso dinheiro pode comprar. Dar. Ao outro que não tem, ao outro que não pode.

Vestimos então, plenamente motivados, o hábito de monge bom-samaritano. E, de facto, damos. Damos de sorriso na face, emocionados com esse gesto de dar. Percorremos as ruas, ou as saídas das missas, e acabamos a saltitar nos bicos dos pés, tal bailarinas apaixonadas. Porque demos! E recebemos até um conjunto de graciosidades para galardoar o gesto! E tivemos até benefícios fiscais!
Então, reforçados, prosseguimos no dar. Entregamos benevolamente o pão, e o sorriso, esperando implicitamente o “obrigado”. Mas, subita e inesperadamente, ui!, eis que temos um outlier! E, em vez do galardão, sai-nos o rugido.

Penso. De onde nos vem a ideia de que os pobres têm-que-ser “gratos” (que os cegos têm que ser “bons”?). Penso, e acabo a desconfiar que deve vir do mesmo sítio que nos enfia a ideia que os-que-dão são sempre humildes, e que não vestem o hábito.


(três coisinhas: (a) aprendemos a esperar o reforço, ou está-nos “no sangue” essa esperança? (b) somos, de facto, criaturas de hábitos. e até dá jeitinho sê-lo. compomos o gesto, enfiamo-lo no calendário, e pronto. temos o céu guardado. (c) mas as rotinas também são lixados. porque, por meio de automatismos, as coisas acabam por perder o significado.
fácil é habituarmo-nos a dar, a dar o que temos, e o que temos possibilidade de ter. mas desconfio que o difícil vai mais além: deixar de dar o resto para se dar a si mesmo.)

quinta-feira, março 19, 2009

The knack
















(Antigo lagar do azeite, aldeia de Espinho, Miranda do Corvo, Março 2009)         



temos que pensar pensar pensar. se pensarmos nas coisas somos capazes de fazer.nunca devemos considerar que não somos capazes de fazer porque é um erro somos sempre competentes e é assim que temos que pensar.


(um tributo ao meu pai: menino, homem, marido, companheiro, educador, sapateiro, electricista, agricultor, mecânico, and so-on-so-on-so-on. enfim, um verdadeiro engenhocas.)

quarta-feira, março 18, 2009

«Hoje [já] é o dia.»





So fathers be good to your daughters
Daughters will love like you do (...)

On behalf of every man
Looking out for every girl
You are the god and the weight of her world

So fathers be good to your daughters
Daughters will love like you do
Girls become lovers who turn into mothers
So mothers be good to your daughters, too


(porque isto de se ser pai começa-se do início, desde o ventre. desde o ventre em que cresce o filho, desde o ventre em que cresceu o pai. desde o ventre primeiro, até. ser pai começou ontem, na preparação. e, como diz o ditado, falhar na preparação é preparar-se para falhar.)



música: Cat Stevens, Father and Son, from Tea for the Tillerman, 1970;
letra: John Mayer, Daughters, from Heavier Things, 2003

quinta-feira, março 12, 2009

Dar o rabo à seringa
















(Lisboa, Fevereiro 2009)


Parece-me a mim que, mais que um dom inato para nos conseguirmos suster acima das dificuldades da vida, e destas crises que nos assolam o juízo pá!, essa leveza-de-espírito a que aspiramos se faz por-meio-de
muita coisa boa, mas também de muitos arranhões, de muitos bocados mal passados, de muitas quedas, de muitos trambolhões, de muitas desilusões, desaires e afins. De muita experiência, digamo-lo assim. Ou seja, meus senhores e minhas senhoras, meus meninos e minhas meninas, de muito calo no rabinho.

segunda-feira, março 09, 2009

Dias a mais.




não é que haja muita gente a morrer de velhice. não é haja que uma forma de se morrer de velhice. nem é que seja mais fácil, ou que custe menos. nem que haja uma idade para se dizer adeus. uma idade certa para se deixar tudo. não. não é, não há.

mas que bom se pudesse ser. viveríamos tudo o que queríamos viver, sonhávamos todas as coisas, fazíamos todos os planos e vivíamos tudo, até ao limite do que traçámos. e se mais sonhos aparecessem, viveríamos todos, tudo, até se esgotar.

depois, já cansados de tanto viver, escolheríamos o último lugar, e fecharíamos os olhos. não ia custar, estávamos preparados. satisfeitos com a vida, esboçaríamos um último sorriso. apaziguados nós, apaziguados eles, aqueles que amamos e que nos amam, cessaríamos o pêndulo. e daríamos então o último suspiro.

e seria o certo. o justo até. porque tínhamos vivido tudo.

(acredito que quando a vida leva de rajada alguém, ou até quando leva devagarinho, o que dói mais é a injustiça do golpe. que o que angustia são esses sonhos que ficam por viver, as vidas que ficam por completar. os vazios que ficam por preencher. no fundo, o que ainda podia ter sido, e não foi.)



(música: Joe Hisaichi, Summer,
do filme de Takeshi Kitano, Kikujirô no natsu, 1999;

*letra: Os dias sem ti, Sitiados)

quarta-feira, março 04, 2009

Guardar chocolates para dias de frio, vento e chuva















(foto: mifares; Barragem de Alqueva, Portugal, Dezembro 2008)


Chove.
Cai chuva. Voa até.
Corre o vento,
leva-a por baixo do guarda-chuva,
esvoaçam-nos os cabelos,
esvoaça-nos o cachecol,
tapa-se-nos a vista,
molham-se-nos as faces
as mãos,
e tudo o resto que nos pertence.

Chove,
continua a chover.
Lá fora, cá dentro.
Escorre-nos a chuva pela espinha abaixo
encharca-nos as vestes,
ensopa-nos os pés.
Enregela-nos.

Enfim, um desaire.

(ainda bem que temos memória.
para lembrarmos os beijinhos do sol de outros dias.)

terça-feira, março 03, 2009

«Mudasti?»


O mundo mudou, diz o Público. E o público assiste, tem a palavra, sabe: vê de fora, vê melhor.

E eu, mudei? Descobri que o us era usado pelos monarcas em old english para se referirem ao próprio, ao me.

(descobri mas digamos que as minhas descobertas são sempre reinvenções. lembro-me que uma vez descobri por fonte alheia que as rosas do deserto, aqueles aglomerados que se assemelham a rosas em pedra, eram xixi de camelo cristalizado. xixi? que giro! esse meu eu, mais tarde, foi informado que aquilo eram, apenas e afinal, rochas. e esse meu eu transformou-se, deu lugar a outro. rochas? hm. suspicious.)

Penso nisto. Que eu também sou muitas, e muitos. Que somos nós, aqui dentro, a lutar cada um pela sua existência. Numa luta desenfreada para sobreviver. Que este nós existe paralelamente, mas que também vai existindo, serialmente, numa linha de tempo.

(ultimamente, ando a descobrir muita gente cá dentro. volta e meia fazemos festas. outras, andamos à porrada. outras ainda, lá andamos sossegaditos, a viver aos goles enquanto os outros dormem. não sei se no final ficaremos todos, não devemos ficar. não ficamos não. há até alguns eu’s que já não vejo à muito. que não voltarei a ver talvez. que não verei mais. penso nisso, e sinto saudades.)

O r. diz que eu mudei, que não sou a mesma. E di-lo com uma tristeza que me chega a doer. Ecoa em mim essa desilusão. Mudei?, mesmo?? Talvez. O Darwin dizia que os menos aptos num determinado contexto não sobrevivem para deixar herança. E num mundo em que vários coexistimos e queremos sobreviver, os mais ingénuos são sempre menos aptos.

(evitável isto? ou é somente a evolução natural das coisas?)

O mundo mudou, inevitavelmente. Mas visto de fora, ao longe, na abstracção dos pormenores, em média, continua tudo igual – uma lástima. Eu é que desisti de o mudar. Sim, é verdade, mudei.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

A importância de ser Verónica


A avó do r. já foi Verónica. Uma das melhores!, palavras dela na boca dele. A avó da j. também já foi Verónica, e a mãe dela também. Todos os anos, no dia de Passos, junta-se a multidão para ver a Paixão. Chegou a vez da j., ela própria, ser Verónica. E foi. Mas desafinou. Ui!, bichanaram as antigas Verónicas. 1000 e quantas pessoas, centenas de ex-Verónicas a assistirem, e ela desafina-me pá!

Imagino a cena. Cristo a morrer com a cruz às costas, as mulheres choram, gritam, berram – tudo corre como planeado. Cristo a cair esparramado no chão, ferido e cansado. O suor, o sangue, gotejam-lhe pela face. Do meio desta massa de lamentos irrompe a Verónica, que acorre com o lencinho branco entre as mãos. A multidão continua em delírio, aos berros. A Verónica prostra-se perante o Homem, limpa-lhe o rosto e, depois, muito esperadamente, canta. A multidão, até então completamente alucinada, detém-se. Ui! quem é esta? ai! desafinou. e bem! que vergonha. no meu tempo isto não era assim, ai não era não. e quando eu fui Verónica? ui!

Cristo ergueu-se já. Prossegue com a cruz às costas. Deixa um rasto de sangue, sobre o arrastar pesado da cruz, até ao Calvário. Mas tem o rosto mais limpo.

(há coisas que me transcendem. a importância de se ser-Verónica não é uma delas: transpuséssemos todos o pranto e limpássemos o rosto a quem carrega uma cruz. mas, já a importância de não-se-desafinar quando desesperamos e vemos morrer aos poucos e injustamente alguém que amamos, ultrapassa-me, ui!, e bem.)

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Status


menina de porcelana. [signed in] (away)

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

7 vidas (ou, pelo menos, 82.6* carnavais)


Às vezes apetecia-me começar este blog(ue) todo outra vez. Compô-lo mais resoluto, mais colorido, mais bonitinho. Ou, pelo menos, simples. Isso, muito simples.

(e, depois, tudo o resto também. tipo a vida. recomeçá-la uma e outra e outra vez. até ter esgotado todas as possibilidades sonhadas. calculo é que os 82, nem sequer os 82.6, carnavais chegassem para o efeito.)



*esperança média de vida à nascença esperada para as mulheres portugueses no ano de 2009.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

«Porque eu quero tudo...»*


Tudo. Tenho de tudo um pouco. Desde a espiga na ponta dos cabelos até ao síndrome-de-acho-que-parti-o-dedo-grande-do-pé-mas-sei-que-não-parti-mas-dói-como-o-raio-de-vez-em-quando-e-o-pior-é-que-não-se-sei-porquê-e-isto-pressupõe-algo-desconhecido-e-por-isso-grave. E se não é quebra, nem espiga, nem algo-que-o-valha, é algo decerto muito semelhante. E grave, acima de tudo grave. No entanto, apesar de todas estas hipóteses de doença incontroláveis, nada é pior que as maleitas que inventamos. Por exemplo, e entre outras coisas, o meu vício-de-escangalhar-os-dedos-incontornável: é que mesmo quando sei que não o devo fazer, porque traz e trará problemas, eu continuo a fazê-lo.

De facto, sempre me achei um desastre a tomar decisões: saem sempre-sempre frustradas. Ainda que eu saiba que o caminho não é por ali, vá-se lá saber por intermédio de que bruxarias mentais, é esse, e exactamente esse, o caminho que escolho. E isto simplificando a dois caminhos, porque a realidade está repleta em cada esquina, e até nas linhas rectas, de uma infinidade de caminhos para escolher. Ou seja, um terror.

Vagueava eu por aí, quando vislumbrei uma possível causa (ah! tem que ter uma causa! ora essa!). E, afinal, tem um nome isto. Diz o Antoine Bechara**: “it’s like drug addiction. Addicts can articulate very well the consequences of their behaviour. But fail to act accordingly. That’s because a brain problem. (…) Damage to ventromedial area causes a disconnect between what you know and what you do”.

Assim, [even that these patients] “knew intellectually what was wrong (…) that knowledge was not enough to change the way they played the game.

(tramado isto. e não lhe vejo solução. é que, afinal, nós até sabemos. o pior é o resto.)


*Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
**citações retiradas de Gladwel, M. (2005). Blink. New York: Back Bay Books. pp. 61.


quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Unidade de Cuidados Intensivos


Todos temos problemas. Problemazitos, chamemos-lhes assim. E é um facto. Mas, por mais inócuos que sejam, damos-lhe sempre uma importância desmedida. Afinal, são os nossos problemas, não importa o tamanho, são sempre pedras-no-sapato.

No entanto, devido ao facto de levarmos relativamente bem a vidinha, acredito que passamos grande parte do tempo a pensar que (ou sem pensar que) desgraças-DESGRAÇAS só acontecem aos outros. Depois, avessamente, quando nos calha na vez e se nos estilhaça o mundo, desesperamos. E bradamos, Porquê-a-mim-?. É que, a partir daquele momento, o mundo deixa de ser ultrapassável. E porquê? Porque relativamente aos outros-que-nos-rodeiam, parecemos estar piores.

(falácia do contexto. na faixa de Gaza é relativamente normal aparecer um bombista suicida.)

Então, passamos a acreditar que desgraças-DESGRAÇAS, só nos acontecem a nós. Mas, por acaso, por simples acaso, infelizmente não.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Sérgio


Foi na 1ª classe, com cinco tenrinhos anos de vida, que me apaixonei pela primeira vez. Para além do nome, lembro-me de meia-dúzia de pormenores. Ele tinha o cabelo liso, escuro, que se parecia com um repuxo de espinhos insubmissos; a pele era branca como leite frio; usava uns óculozitos desengonçados e, digamos que para a sua idade, tinha um crescimento de massa corporal acima da média. Se o quero, nostálgica, mostrar a alguém, aparece-me na foto com uma camisola de malha verde-mar-alface e uma postura de ya-meu-vou-fazer-o-pino. Para além disto, sei que andámos uma vez à porrada e que lhe deitei os óculos ao chão.

Não sei, não me ocorre o instante do meu-deus-tenho-um-fraquinho-por-ele. E, na falta de experiência, duvido que soubesse o que isso era. Também não me lembro de perceber porquê ele. Sei sim que corava infinitamente, que as palavras tropeçavam e que eu, entorpecida, bloqueava sempre que falávamos. E isto só acontecia duas vezes: quando nos ofendíamos mutuamente ou quando nos entusiasmávamos acerca do tema único, os desenhos-animados com que ambos delirávamos.

(abstenho-me de comentar, acho que isto diz muito acerca do amor. ou-coisa-que-o-valha.)

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Causas para a (des)graça dos povos (III)


O outro dia a m. e a v. vieram uma teoria que diz que rirmo-nos de situações estúpidas serve de aviso-para-os-outros de que alguém caiu, mas que não se magoou.

(aqui está uma situação em que um sorriso pan-american seria bem mais discreto e apropriado que uma sonora gargalhada.)

Ora, isto do “aviso para os outros de que alguém caiu, mas que não se magoou” é, sinceramente, uma trampa. Eu quando me rio da queda aparatosa de alguém não fico à espera para ver se se magoou ou não: primeiro, e instantaneamente, rio-me aparatosamente também; depois, passo a desgraçadíssima vergonha de ter que me enfiar num buraco para fugir a um ou outro olhar matador que me esfola a insensibilidade.

(de facto, sempre achei isto um problema. é terrível, eu não sou insensível. porque é que o pareço?)

Nem sei de onde vem esta ideia de pensar-antes-de-agir-impulsivamente. Acaso alguém pensa racionalmente antes de tirar a mão de uma superfície a escaldar? Não: agir impulsivamente é-a-resposta adaptativa aos atrasos burocráticos da racionalidade! E nem se pensa se houve ou não alguém que se magoou – ora essa!, é o meu corpinho que se queima. Assim, e prosseguindo no raciocínio, se sou eu-e-este-instante que estamos em questão, rir-me agora também não me diz que no futuro os papéis se poderão inverter. Claro que não: nós nunca iremos cair, os outros é que caem.

(enfim, isto de sermos animais na essência também é uma trampa.)

Só que a vida, marota, também prega rasteira, e dia virá em que eu espetarei o meu incólume queixinho no chão. Aí, ainda que o meu kit de sobrevivência não me permita antecipar, alguém se rirá da minha desgraça. Se o riso dele foi fruto de genes impulsivos? isso é que já não sei. É que se algumas coisas já vêm connosco, outras aprendem-se. E por melhores que sejam os genes, e os impulsos, na falta de melhores exemplos, aprende-se com o que se vê em volta.

(em suma, rir às gargalhadas da desgraça dos outros também é uma desgraça mundial.)

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Causas para a desgraça dos povos (II)


Hoje de manhã tive uma aparição. Negríssima. Uma criatura medonha, grande vermelha e barriguda, caminhava lenta e segurando com rédea curta um pequeno cachorro saltitante. Quando passei pelos dois, ouvi o dono numa voz arrastada e trombonesca: Anda cá, cão. Estremeci. Conjuntamente, tive uma visão do inferno. Quantas criaturas inocentes não são colocadas, atreladas, nas mãos despóticas de bestas?

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Causas para a desgraça dos povos (I)


Atropelando a variabilidade, existem dois tipos de sorrisos: o genuíno "duchenne" e o alternativo, profissional ou-como-lhe-queiram-chamar, "pan American" (o nome não deixa de ser curioso). Ora, acontece que o primeiro segue as vias da extinção enquanto o segundo prolifera a olhos vistos.

(existe uma altura em que devemos questionar as coisas. uns, ocorre-lhes a ideia com a chegada da maturidade - ou será que a maturidade chega apenas depois da ideia? -, outros torram a cabeça aos pais na idade dos porquês. não sei se eu ainda estou na idade dos porquês ou se algum dia atingirei a maturidade, mas)

Porquê?

Ora, acontece que hoje em dia existem coisas maravilhosas, várias coisas maravilhosas até, entre as quais as chamadas máquinas fotográficas (não me posso estender nas outras coisas maravilhosas, mas). Ora, acontece que essas máquinas só captam o instante (de duração variável, mas) e

(a nossa vida também só capta o instante, o resto esfuma-se no tempo, mas)

é esse instante que tende a permanecer no tempo para as gerações vindouras. Ora acontece que por acaso agora nem interessam as gerações vindouras – não são meus amigos do hi5. ponto. – o que interessa é o aqui e o agora, esse maravilhoso instante captado pela objectiva. Ora acontece que essa lente até é demasiado objectiva, porque só vê o que parece e não se mete com interpretações (há sempre a questão da luz, mas). Ora acontece que a-grande-maioria-de-nós (eu até nem me importava de ser anormal, o pior é que não sou) acha que o que deve passar para a eternidade dos momentos presentes são os momentos de felicidade extasiada.

Porquê?

As teorias evolutivas dizem que parecermos-felizes aumenta a probabilidade de encontrarmos um macho ou uma fêmea que nos considere atraentes o suficiente ao ponto de podermos carregar os seus genes.

(inevitavelmente, a reprodução da espécie)

E isto até faria sentido se percebêssemos o princípio subjacente da saúde mental. E da maior probabilidade de sobrevivência. Mas, o que me preocupa nem é a essência, é a aparência. Pensando que a-grande-maioria-de-nós anda numa de Vá, tira [a foto] rápido que já estou cansada de sorrir! não sei até que ponto esta aparência feliz traduz verdadeira e estável sanidade mental. Ou, pior que isso, verdadeira e estável malinha de valores morais que valham a pena fecundar.

(a mim preocupa-me mais que o injector de genes seja um insensível de sorriso empalhado que um depressivo sincero.)

E inquieta-me que ande para aí demasiada gente a vender o produto, imersa num sorriso americano profissional e que, afinal, tenha é os genes encharcados em anti-depressivos, ou muito-pior-que-isso, em valores-de-superfície que enganem a objectiva dos que sobre eles disparam – aqueles que, depois de seduzidos pela aparência, irão construir as gerações vindouras.

(inevitavelmente, a reprodução da espécie.)

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Catástrofes naturais, chamam-lhes eles.
















(Rock In Rio, Lisboa, Junho 2008)


As baratas são uma praga
a malária uma devastação
a cólera uma epidemia
a SIDA uma desgraça…

e nós?

(algures no tempo, enquanto assistia esmagada contra o próximo às serenatas coimbrãs, surgiu-me pela primeira vez esta questão. assim, visto-parcialmente-de-fora, compreendo que o planeta nos queira erradicar.)

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Na Baixa, hoje


O homem encontra a mulher e pergunta ao menino:
- então pá, 'tás bom ou quê?
O menino, ainda a mastigar o pão da manhã, responde num aceno meio envergonhado:
- hm hm...
Só que o homem volta:
- então, mas gostas de ser bom ou não?

(penso que nos andamos a esquecer de perguntar o essencial às nossas crianças.)

terça-feira, janeiro 27, 2009

Se


a minha avó maria estivesse viva, fazia hoje 100 anos.

(eu, se tivesse nascido em 1909 [a 27 de Janeiro], também fazia hoje 100 anos.)


Sublimação (I)
















(Toümai. Lagameças, Fevereiro 2008)


pior que a observação externa,
são os olhos aguçados que nos rasgam a pele
e nos olham detrás dos olhos.

(se eu te sentir a vasculhar cá-dentro
a remexer nas minhas coisas só minhas,
e sentir que me desvendas,


devo fingir que não vi?)


quarta-feira, janeiro 21, 2009

Dreams


















Sonhei
que havia panteras na minha rua
pintadas de um cinzento columbino, ou de um rosa-fúchsia,
e que falavam

sonhei
que o céu era amarelo
e o sol de um profundo azul

que vivíamos de noite e
sonhávamos de dia

que não havia dia
como o conhecemos.

sonhei
que as árvores caíam do céu
e que o mar nevava quente
como as peles sob o agosto europeu.

que não havia europa, nem sequer ruas,
que era tudo mar, só mar
sobre o qual voávamos
sem tecto nem fundo,

que éramos livres.

que os meninos só não governavam o mundo porque
vivíamos em anarquia
e que, de resto, também não havia moscas.

que dormíamos embrulhados em nuvens
sonhando com o dia definitivo em que iríamos para a terra, mãe
última de todas as coisas.

Sonhei.

com um mundo ao contrário
mas

it was just my imagination.


   

sexta-feira, janeiro 16, 2009

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Rebentos


I



















Ergue-se o seio materno
sobre o talhe arredondado

e logo perguntam os homens
curiosos
acerca desse tesouro
que carregas.

(sonham, murmuram. questionam a existência,
apenas)

Então tu, serena,
calas os tormentos aos homens
e, num canto suave,
embalas o ventre alvo num doce murmúrio
de mãe.

(sossegam-se os espíritos nessa esperança)

É que dentro, aninhado e ainda dormindo,
há Todo Um Mundo afinal.


(um tributo à minha soeur Diana, a deusa de uma Luna muito bonita nascida às 10.33 a.m. do dia 3 de Dezembro de 2008, com 48 cm, 2.715 Kg, e um incógnito futuro pela frente.)


quarta-feira, janeiro 14, 2009

Fat Man and litlle boy*



Yuppie Oppie Oppie Oh!


(ca-buuuuuuuuuuuuuuum.)

(depois, silêncio.)



Fica a frase do filme:

I'm not a scientist anymore. I'm a goddamn functionary.(Julius Robert Oppenheimer "Oppie")



* Litlle boy and Fat man são os nomes das bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945. Foram talvez também as outras duas bombas, Doctor Oppenheimer e General Graves, que levaram até ao fim a sua construção.


(filme: Fat Man and Little Boy, Roland Joffé, EUA, 1989; ontem, no TAGV.)

terça-feira, janeiro 13, 2009

Batata quente


(Ou Simplesmente, o paradoxo da atenção.)

Nós, os tímidos, queremo-la.
Mas,
quando a temos, não sabemos o que fazer com ela.

O’.’O

(é nestas alturas que os muros dão jeito: para nos enfiarmos lá atrás. funcionam mais ou menos como um buraco daqueles buracos quentinhos que quando damos conta já se encerraram sobre nós… :x )

Atirá-la para outro? Náaaaaaaa. Acho mesmo que o segredo é deixá-la queimar nas mãos (mas difícil). Cedo ou mais tarde, vamos ver que a estranheza passa.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Ciscos


Quando eu era pequena ouvia vezes sem conta a minha avó, mãe do meu pai, ler a história da santa Teresinha. Da história em si pouco me lembro, mas lembro-me dos pormenores, de como o livro era pequeno e fino, e como a capa era castanha e dura. De como tinha palavras, muitas, que a minha avó desfiava com cuidado, lendo o livro de uma ponta à outra. Começava na capa, com o título, e logo prosseguia para os pormenores técnicos, como a morada da editora, o número de edição, a data e o local de impressão. De como só então lia a história, sem esquecer uma palavra, mas também sem esquecer um sinal de pontuação. Sim, a vírgula, o ponto, os dois pontos, os pontos de exclamação e de interrogação, o travessão. Tudo era lido.

O meu pai seguiu-lhe os passos e, quem sabe, o modo de vida. O outro dia, enquanto fazíamos o percurso até ao almoço de Natal, enquanto a minha irmã e a minha prima discutiam lá atrás os filmes, as novidades e a vida, o meu pai, imune a todas aquelas palavras, insistia em descrever o percurso. Ora aqui 60 Km, eu vou a 70Km, tenho que reduzir. Lau, e é extensa Lau, 60 Km é a velocidade máxima. Terminou Lau. E assim por diante em pormenores que já não me cabem na cabeça, couberam, mas deram lugar a outros.

(quando as coisas são muitas, para ressalvar o importante, algumas têm que se deixar para trás.)

Sorri. Pensei para mim, deve-me estar no sangue também. Eu também gosto de escarafunchar as coisas para as descrever depois no meu auto especial, assegurando que não sejam esquecidas: o Auto das Queixas de Vida. Sim, adoro queixar-me. E sou óptima nisso. Só que eu não me queixo das coisas reais, não!, isso seria bárbaro e sem graça. Não, a piada está em poder inventar. E ora aqui está uma-coisa-em-que-decidi-inovar – eu não me limito a ler os sinais nem as placas, não, eu gosto de acrescentar coisas! (e de retirar outras à socapa, mu-ah-ah-ah). Pego nas coisas, selecciono as coisas bonitas e, pumba, deito-as na forma do esquecimento. E pronto, quando já frias e suficientemente amolgadas, junto-as à minha caixinha de sonhos partidos. E ninguém as tira de lá, nem mesmo eu. Então, enumero e conto tudo o que resta. E só depois – só depois! – faço o Auto e arrumo por temas: Tema n.º 1, a vida é demasiado complexa, Tema n.º 2, quero ser outra-coisa-qualquer, Tema n.º3, a vida não vale a pena. Vale! Não vale. Vale, vale! Trampa!...

(trampa sim trampa! é ano novo oh menina! pelo menos nesta altura devíamos conseguir ver as coisas mais bonitas, ainda que as mais pequenas, estender-lhes o dedito e trazê-las até à nossa atenção. e escolhê-las para (re)lembrar. porque se muita coisa cabe cá dentro, nem tudo cabe cá dentro. devíamos escolher as coisas que valem a pena ficar. o Irving Berlin escreveu uma vez, If you worry and you can't sleep count your blessings instead of sheep. And you’ll fall asleep counting your blessings.)

quarta-feira, janeiro 07, 2009

O Brian


Há muito muito tempo, nasceu nas terras da Palestina um rapazinho chamado Brian. É a ele que dedico o post de hoje. Mal sabia o pobre Brian naquela manjedoura de palha que, depois de morrer na cruz por um tremendo engano, os homens morrem hoje estupidamente naquele local por outro tremendo engano...

(não resisti. tive mesmo que transcrever este episódio remomorativo dos 2008 anos de existência dos Reis Magos, Wise Man, afinal. digam-me que não é hoje, foi ontem. alguém me explica o que interessa um dia a mais ou a menos do dia institucionalizado se ninguém sabe bem quando aconteceu? [e não entrando noutras questões...])

Enfim:

Three camels are silhouetted against the bright stars of the
moonless sky, moving slowly along the horizon. A star leads
them towards Bethlehem. (...) They approach a stable, (...) and enter to find a typical manger scene, with a baby in a rough crib of straw and patient animals standing around. The mother nods by the side of the child. (...) She is a ratbag.

Mandy: Who are you?
Wise Man 1: We are three wise men.
Wise Man 2: We are astrologers. We have come from the East.
Mandy: Is this some kind of joke?
Wise Man 1: We wish to praise the infant.
Wise Man 2: We must pay homage to him.
Mandy: Homage!! You're all drunk you are. It's disgusting.
Out, out!
Wise Man 3: No, no.
Mandy: Coming bursting in here first thing in the morning
with some tale about Oriental fortune tellers...
get out!
Wise Man 1: No. No we must see him.
Mandy: Go and praise someone else's brat, go on.
Wise Man 2: We were led by a star.
Mandy: Led by a bottle, more like. Get out!
Wise Man 2: We must see him. We have brought presents.
Mandy: Out!
Wise Man 1: Gold, frankincense, myrrh.

(her attitude changes immediately)

Mandy: Well, why didn't you say so? He's over here...Sorry
this place is a bit of a mess. What is myrrh, anyway?
Wise Man 3: It is a valuable balm.
Mandy: A balm, what are you giving him a balm for? It might
bite him.
Wise Man 3: What?
Mandy: It's a dangerous animal. Quick, throw it in the trough.
Wise Man 3: No it isn't.
Mandy: Yes it is.
Wise Man 3: No, no, it is an ointment.
Mandy: An ointment?
Wise Man 3: Look.
Mandy: (sampling the ointment with a grubby finger)
Oh. There is an animal called a balm or did I dream it?
You astrologers, eh? Well, what's he then?
Wise Man 2: H'm?
Mandy: What star sign is he?
Wise Man 2: Capricorn.
Mandy: Capricorn, eh, what are they like?
Wise Man 2: He is the son of God, our Messiah.
Wise Man 1: King of the Jews.
Mandy: And that's Capricorn, is it?
Wise Man 3: No, no, that's just him.
Mandy: Oh, I was going to say, otherwise there'd be a lot of
them.


(Life of Brian, Monthy Python, 1979)

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Depois da mensagem


de Natal do Primeiro-ministro e da mensagem de Ano Novo do Presidente-da-República pouco fica sempre por dizer.

(certo?...)

Portanto, Feliz Ano Novo!, Bom Ano!, e portem-se bem! (que é para ver se depois têm um Feliz Natal 2009.)