Atropelando a variabilidade, existem
dois tipos de sorrisos: o genuíno "duchenne" e o alternativo, profissional ou-como-lhe-queiram-chamar, "pan American" (o nome não deixa de ser curioso). Ora, acontece que o primeiro segue as vias da extinção enquanto o segundo prolifera a olhos vistos.
(existe uma altura em que devemos questionar as coisas. uns, ocorre-lhes a ideia com a chegada da maturidade - ou será que a maturidade chega apenas depois da ideia? -, outros torram a cabeça aos pais
já na idade dos porquês. não sei se eu
ainda estou na idade dos porquês
ou se algum dia atingirei a maturidade, mas)
Porquê?
Ora, acontece que hoje em dia existem coisas maravilhosas, várias coisas maravilhosas até, entre as quais as chamadas máquinas fotográficas (não me posso estender nas outras coisas maravilhosas, mas). Ora, acontece que essas máquinas só captam o instante (de duração variável, mas) e
(a nossa vida
também só capta o instante, o resto esfuma-se no tempo, mas)
é esse instante que tende a permanecer no tempo para as gerações vindouras. Ora acontece que por acaso
agora nem interessam as gerações vindouras –
não são meus amigos do hi5. ponto. – o que interessa é o aqui e o agora, esse maravilhoso instante captado pela objectiva. Ora acontece que essa lente até é
demasiado objectiva, porque só vê o que parece e não se mete com interpretações (há sempre a questão da luz, mas). Ora acontece que a-grande-maioria-de-nós (eu até nem me importava de ser anormal, o
pior é que não sou) acha que o que deve passar para a eternidade dos momentos presentes são os momentos de felicidade
extasiada.
Porquê?
As teorias evolutivas dizem que parecermos-felizes aumenta a probabilidade de encontrarmos um macho ou uma fêmea que nos considere atraentes o suficiente ao ponto de
podermos carregar os seus genes.
(inevitavelmente, a reprodução da espécie)
E isto até faria sentido se percebêssemos o princípio subjacente da saúde mental. E da maior probabilidade de sobrevivência. Mas, o que me preocupa nem é a essência, é a aparência. Pensando que a-grande-maioria-de-nós anda numa de
Vá, tira [a foto]
rápido que já estou cansada de sorrir! não sei até que ponto esta aparência feliz traduz
verdadeira e estável sanidade mental. Ou, pior que isso, verdadeira e estável malinha de valores morais que valham a pena fecundar.
(a mim preocupa-me mais que o injector de genes seja um insensível de sorriso empalhado que um depressivo
sincero.)
E inquieta-me que ande para aí demasiada gente a
vender o produto, imersa num sorriso americano
profissional e que, afinal, tenha é os genes encharcados em anti-depressivos, ou muito-pior-que-isso, em valores-de-superfície que
enganem a objectiva dos que sobre eles disparam – aqueles que, depois de seduzidos pela aparência, irão construir as gerações vindouras.
(inevitavelmente, a reprodução da espécie.)