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segunda-feira, junho 06, 2011

beijinhos sem ou com compromisso?

depois de um dia de cansaço, das voltas com a Fátima Campos Ferreira, de se ter sentado com o rabinho na relva, desconfortável, e de se ter queixado das cadeiras dos programas de conversas na TV, o Pedro Passos Coelho não se quis deitar sem ir dar um beijo à mãe. foi bonito.
o pai, quando ele foi eleito para o cargo de secretário-geral do PSD, foi dar-lhe um beijo de parabéns e pediu-lhe uma coisa, apenas uma: "Vê lá se não desiludes a tua mãe".

não sei que planos tem a mãe do Pedro para o Pedro, mas espero bem que passem por bons planos para o país.

eu, se pudesse, tinha-lhe dito na altura outra coisa: a tua mãe?! oh Pedrinho, vê lá é se não te desiludes a ti próprio.

bem, mas não conhecendo a peça, hoje, dado o beijinho da introdução, diria antes: vê se não mentes aos portugueses, sim?!


(porque isso de [não] desiludir é complicado. basta que [não] haja ilusão.)


quinta-feira, março 03, 2011

toca no ponto, e torces a peça.


comprei um frigorífico. vocês ainda não sabem a história do frigorífico? eu vou-lhes contar.
comprei um frigorífico num outlet. o que equivale a dizer que vinha com defeito. e que eu o aceitei assim, com defeito. e que paguei por ele, com defeito. pois, amolgadela aqui, amolgadela ali, enfim, aceitável para o preço. o que eu não contava é que ao pagar um serviço de entregas, e ao ser executado o serviço de entregas, a lista de defeitos aumentasse. portanto, o produto saiu da loja com umas amolgadelas, e chegou cá a casa com um pé torcido e partido. claro que uma pessoa nunca vê o essencial no acto da recepção caseira, nunca vê os defeitos escondidos quando se apaixona e consegue enfim ter o objecto amado entre os bracinhos esperançosos e desesperados. com a convivência, a saudação, o abrir de portas, a conversa, é que uma pessoa vai também abrindo os olhos e lá percebe: ora bolas, afinal é coxo.

15 dias não passados, ainda há espaço para a reclamação. ou muda agora ou curvinha com ele! e começa a odisseia da reclamação. telefono aos pais, descartam, não têm culpa do pé, foi pelos caminhos da vida que o torceu decerto. quero lá saber! vocês são a origem, e ele já vinha com defeitos da origem. não me venham com coisas, paguei-vos a peça, comprei-vo-la com alguns defeitos. agora, pelo caminho chegar com outros, oh meus amigos, isso é que não pode ser: tem que mudar, haja paciência mas não lhe quero o pé assim.

o ideal seria mesmo desatarraxar o pé partido e colocar um novinho. ora que beleza. e reivindico, reivindico um pé novo! mas... se o encaixe já vem torto, que peça direita lhe encaixará?... baixo os braços a metade. estou a ver que, perante as dificuldades, os responsáveis pela peça se escaparão. de fininho, piarão que aceitei a peça, que me amanhe com ela. estão os braços encolhidos, mas os cabelos em pé! telefono, quero saber como é, responsabilizações, estou piursa. adivinho já, antecipo, sofro o desfecho trágico. e construo sobre a hipótese do desfecho trágico. engrandece-se-me a raiva, o coração a palpitar, o sangue a crepitar. telefono e desfio que aquele pézinho está tão aleijadão que nem muito amor e boa intenção o poderão reparar. que quero uma solução. "obrigada pelo seu contacto, pode aguardar?". aguardar? o quê?, a solução? que remédio! duas, três vezes, aguardar. enquanto pago eu ao impulso. estou com os nervos na ponta, já quase a saltar da franja. a temer o pior, estou mesmo para lhes saltar encima e pedir o livro de reclamações e exigir o dinheiro de volta do serviço de entrega e gritar-lhes e enchê-los de mim

quando,

muito lentamente, uma emocionalidade me começa a percorrer os bracitos trémulos, os cabelos eriçados, e a preencher os poros. algo positivo e bonito e afável. e condescendente! que se passa?! não!, por favor não, estou a amolecer??! não pode. quero estar enraivecida para andar ao soquete se for preciso. e se-andar-ao-soquete-se-for-preciso quero estar com os punhos duros para ganhar. quero ser implacável, não quero amolecer caramba!

estou em espera, ainda. e enfim apercebo-me: de fundo, enquanto eu imergia ingenuamente nos meus pensamentos ruminativos profundos, ficara a tocar, como que por acaso a preencher o silêncio, uma musiquinha profundamente lamechas e romântica e doce, e incitadora de condescendências!: "you were once, twice, three times a lady...".

(caramba para a Psicologia de Marketing Aplicada.)

sábado, fevereiro 26, 2011

deep inside


"Ondanks alles, geloof ik dat de mensen een goed hart hebben."
("Apesar de tudo, acredito que as pessoas têm bom coração"; Anne Frank, 15 Julho, 1944)


me too. but damn if you don't have to dig.


segunda-feira, fevereiro 14, 2011

'the grass is always greener on the other side' ou, em português de Portugal, 'a galinha do vizinho é bem melhor que a minha'.


a realidade dá-me um beijo. sinto-lhe os lábios suaves, ternos, molhados pela saliva e... eh pah, há aqui uma migalhita do pequeno-almoço. e, caramba, o eterno hálito do amanhecer! se fosse no sonho, o beijo seria perfeito. mas minha menina, hold your horses que estamos na realidade. o que no sonho é romance, na realidade é o punzinho que irrompe pelo meio. ah pois, que isto na realidade há sempre o pormenor-zito não necessariamente aprazível. o trelipatéu que não entra na imaginação da menina. e porque haveria de entrar?! é o sonho então pois!?, e o sonho quer-se como a peça comprada: sem defeitos.

por isso, quando a realidade enfastia, compra-se o sonho. ui!, o sonho é muito melhor, o sonho é sempre melhor. há pois o terrível defeito, proveniente talvez de uma dissonância cognitiva deficiente, de achar que nada do que temos é bom, porque nada é tão bom quanto o que queríamos ter.

e por isso sonhamos. e preferimos sonhar. e achamos que podemos viver o sonho, e que o sonho será obviamente como o sonhámos. claro, é sempre melhor viver na ilusão do que - PÁS! - chocá-la contra a realidade, e - PÁS! - ver que o sonho não existe, simplesmente porque é impraticável. porque
a ilusão não alimenta, pelo contrário, mantém a fome. porque a ilusão é o escape que não queremos deixar de ter. é a esperança de que podemos não ter o queremos (ou não querer o que temos...), mas que o que queremos existe, sim existe! e existe I-MA-CU-LA-DO.

é a nossa fuga para quando as coisas não são exactamente como queremos, ou achamos que deveriam ser. porque o nosso "deveriam ser" é demasiado saudávelzinho, e não admite falhas. o nosso sonho não quer aprender com a realidade, não quer aprender com os erros e os defeitos que parecem só manchar as coisas. porque o outro, o outro, seja ele quem for, é sempre maior e melhor, e percebe-nos melhor e seríamos muito mais felizes com ele. no sonho é assim! no sonho funciona! nem que, se virmos bem as coisas, na realidade ele nem seja como o sonhámos, na realidade ele nem tenha nada a ver connosco, na realidade ele nem seja o que precisamos, na realidade ele nem nos ofereça um futuro. Não interessa!, no sonho ele está lá! e eu quero ser feliz agora, que se lixe o futuro! que se lixe a realidade.


quando não aprendemos a amar o que temos. porque cansa. porque é real, e na realidade vemos as mesquinhices todas que no sonho não vemos, pois claro!, então se é o nosso sonho, porque o haveríamos de sonhar com defeitos?
oh tristes princesas entregues ao sonho de algo que não é. que soa bonito e perfeito nos cadernos e nas estórias, mas que nunca conta o dia-a-dia numa casa, com distâncias pelo meio, o dia-a-dia com um WC com algumas impurezas, a lavar a loiça, a ver o futebol, a cozinhar, o cansaço do trabalho, o dia que corre mal, a dor de cabeça, a impaciência, as pernas altas da vizinha, a tampa da sanita aberta, os pêlos púbicos pelo chão, nos lençóis, a falta de pão, as compras, as batidelas do carro, os problemas de última hora, o jantar da tua amiga que não me apetece ir, os cafés com os amigos, as noites na disco, eu quero dançar e tu estás cansado, tu queres beber mais um copo e eu quero ir dormir;
o hálito verde não fresco numa manhã tremida por um despertador e por uma vida real da qual também-mas-não-só faz parte o sofrimento, a dúvida e a insatisfação.

por isso, quando a realidade não acomoda o sonho, deixa-se a realidade e compra-se o sonho. e paga-se caro.
não há, de facto, nada de mal em sonhar. o problema é quando nos apegamos ao sonho e deixamos de viver a realidade. o problema é quando desistimos da realidade por um sonho que mantemos sonhado, o problema é quando desistimos de encontrar na realidade - no meio dos hálitos, dos punzinhos, das incompreensões do dia-a-dia - os lábios ternos que nos aconchegam e que, com uma imprecisãozinha ou outra, afinal até encaixam nos nossos.


sexta-feira, janeiro 21, 2011

'à mulher de César não lhe basta ser séria, tem de parecê-lo.'


a poucas horas da eleição presidencial, procuram-se os últimos podres que poderão ainda abalar opiniões. quem já tem a opinião formada, é perfeitamente capaz de tapar os olhos ao que não quer ver. mas para quem ainda não a tem e anda à procura de alternativas [e.g. de um d. Sebastião salvador debaixo das vestes dos candidatos] estes pequenas manchas de comportamento são bem capazes de criar desilusão.

candidatar-se a um cargo político é quase o mesmo que abrir a porta da casa e deixar que vasculhem sem fio de piedade os nossos pertences. e a nossa vida. e por certo que encontrarão: a embalagem do leite no balde azul para reciclar papel, o slip leopardo para homem em vez dos boxers, a meia branca no fundo da gaveta e, ai meu deus, os restos de bolacha tipo americana nos confins do sofá.

'quem nunca pecou que atire a primeira pedra'. uma ova, quem pecou que esconda bem, fora dos focos da vasculhice, e procure o pecado do outro, bem feio e imperdoável para o publicar ao mundo e incentivar a morte à pedrada.

se os políticos são sérios ou não, isso não interessa. porque conhecendo a natureza humana dificilmente o serão. mas que pelo menos o pareçam, caramba! que não tendo a qualidade da perfeição e a capacidade de dar o bom exemplo, que tenham outras. por exemplo, a capacidade de ocultar bem a fraude, a capacidade de fazer amigos que dão alibi, e por aí em diante. é que, quer dizer, cria uma pessoa uma imagem de pureza celestial e depois, pumba!, deixam uma fralda de fora e, zás!, deixam-nos incrédulos, desamparados, desiludidos, e com o beicinho a tremer.

sexta-feira, janeiro 14, 2011

fazer do negro humor


confesso que sempre achei mórbida a tendência imediata de fazer piadas sobre pessoas estraçalhadas e afins. que não haveria maior insensibilidade do que rirmos da desgraça dos outros. mas mudei de ideias. pior é sofrermos com essas desgraças que preenchem a TV, que mancham de sangue os jornais, que passam de boca em boca à nossa porta. pior é afundarmo-nos nelas, nas desgraças alheias com medo que nos toquem a nós um dia, pior é desiludirmo-nos com o ser humano e, depois, como consequência, com o mundo e a vida em geral.
rir das desgraças é até muito bom sinal. sinal que apesar de tudo o que acontece de horrível à volta, nós lhe damos a volta, rimo-nos um bom bocado, e continuamos. não temos outro remédio.


sábado, outubro 02, 2010

'o amor é o amor e depois?', o que adianta saber isso, do amor, eu amo-te, ou não se diz, é mais

fácil não dizer, dar só o beijo que cala as palavras, e as discussões, dar-se a mãozinha na rua, ou deixar-se a mãozinha ao relento, trocar só o olhar, eu dou-te o meu tu dás-me o teu, o beijinho no pescoço 'enrolado pelo chão', e depois depois passa o tempo e Zás, instala-se a rotina e achamos eh pah eu acho que não é isto E nos cansamos Até que desponta novamente um tremelique, um engasgar, um sonho iludido sem quotidiano. e Zás lá vamos nós outra vez, Enganados.


nos meus 14 anos revoltados, de resposta na ponta da língua, aguçada e seca, a minha mãe dizia-me, ao ver-me entre lágrimas, a chorar fininho por um amor que nem chegara a ser, que ficara por conquistar e que doía na ilusão,

tu ainda não sabes o que é o amor.


(tinha tanta razão. ainda não sabia. mas, pergunto, e quando é que eu vou saber?)

sexta-feira, setembro 17, 2010

finito infinito

         
passo na Baixa. na esquina da Câmara, um velho olha o futuro, apoiando na bengala gasta a mão encarquilhada. tem o olhar preso. a postura imóvel. olho para ele enquanto avanço. penso: apetecia-me perguntar-lhe o que vê. para o que dirige o olhar tão atentamente. se vale uma vida. queria tanto saber.

mas depois desiludia-me, com toda a certeza.

(prefiro tecer o sonho, colar-lhe as pontas. construí-lo em castelo e subir nele, percorrendo-o encantada. ficar lá. do que depois ter que o partir contra a realidade.)
       
       
    

terça-feira, julho 20, 2010

montras



servimo-nos aos outros enfeitados.


















                
mas ninguém sabe o que temos cá dentro.


            

quarta-feira, março 31, 2010

vislumbre



eram três da tarde quando o senhor marcelino a viu. eram três e um quando o sr. marcelino tombou.

ele. era um homem calvo, de meia idade, e bochechas pingadas. morava numa das ruas da baixa e desde a viuvez que se metia sozinho pelos cantos, cambaleando ao som do vinho. por estes dias ia circundando pelo parque, entregue às vozes soltas dos seus pensamentos.

ela. tinha a pele morena, lisa, e os olhos verdes de verdes vários. a luz batia-lhe de chapa, e descascava-lhe a beleza. tinha as formas cheinhas e arredondadas - pois quando o sr. marcelino, restabelecido da queda, correu desenfreadamente no seu encalço e se abraçou estampadamente nela, não se lhe tocavam as mãos.

ergueu-se, e ali ficou. e ali esteve ele. nos restantes dias, nas restantes noites. de olhos a sonhar, embalado sobre o fresco peito dela. as pessoas passavam e olhavam-nos. ele seguia-as com o olhar, rodopiava em torno dela e, fechando os olhos descansado, sorria. ele, nos braços fortes dela. ela, aconchegada no abraço dele. ele apertava-lhe o corpo contra o seu e dançavam. ela estendia os braços ao céu, e dançavam. os dois. ao vento. dançavam suavemente sob o luar de Janeiro, sob as chuvas de Abril, e o voo das folhas secas de Outubro. e, ao som do chilrear dos pássaros, dançavam os dois até adormecer.

(eram três da tarde, três, quando o sr. marcelino se apaixonou pela menina árvore.)


segunda-feira, junho 01, 2009

O melhor cego.






Just sitting here and trying to decipher / What's written in Braille upon my skin / On this skin. (Regina Spektor, Braille, 11:11)

(se te for difícil ver, encerra os olhos. depois, certo que a luz cega e que as cores iludem, escuta no tacto, nos gostos, nos cheiros. escuta, cá dentro, nas vísceras, as sensações.

porque o melhor cego é aquele que não quer ver - não, não quer. e, assim, desiludido já das coisas, este cego quer apenas e afinal
sentir.)

terça-feira, dezembro 02, 2008

Doce.














(Lagameças, Novembro de 2008)


Amarg(ur)a-me pensar que

os frutos maduros
caiem de árvores já secas.

(mas quando caiem
caiem belos e iluminados.)


Outros, verdes ainda,
Fica por lhes florir o sabor



quinta-feira, julho 24, 2008

Como escorreguei num pacote de açúcar


Sei de cor que os pacotes de açúcar têm entre 7 a 9 gramas de açúcar. Sei também que, no ritual diário, são abertos e esvaziados para adocicar o que é amargo. Que os ditos pacotes ficam então mais leves, e passam a esvoaçar, levados nos ventos da Baixa. Que se deixam cair ao chão, minúsculos e espalmados. Que se deixam cair ao chão rodeados de montras apelativas. Que ninguém olha para o chão quando as montras mostram peças em saldos. Que é preciso o acaso mas que, por vezes, tendo muitos e muitos metros quadrados, metemos o pé onde não devemos.

Penso que as pessoas também vêm por vezes como pacotes. Anunciam 7 a 9 gramas de açúcar no interior, o suficiente para adocicarem o amargo do resto, e quando se vai a ver estão ocas. Tão ocas, que entre os aproximadamente 6.684.100.000 humanos que existem, acabamos a pensar Bolas, tinha logo que escorregar neste! Mas, depois, podemos sempre pensar que se sobrevivemos não é tão mau quanto isso.
 
Aliás, entre o instante de meter o pé, ter a sensação de algo escorregadio e olhar para o chão, confesso que receei. Mas depois, Ufa, pensei, Ao menos não pisei um poio.

segunda-feira, junho 23, 2008

Sem volta.


















That's not the beginning of the end
That's the return to yourself
The return to innocence
(The Return to Innocence, Enigma)

(Eu também gostava de voltar a mim mesma
e a essa inocência
de ser só eu, sem o resto.
Sem tudo o que se vai acoplando, E a estripa.
          
Mas os inocentes são mortos cedo. Porque são imaculados.
É o preço de não sofrerem a consciência do mundo. É assim a inocência – tem um tempo
e, depois,
morre. De uma forma, ou de outra.)


      

quinta-feira, junho 19, 2008

Promessas

Quanto mais oiço falar deste mundo
Quanto mais oiço falar as pessoas deste mundo

Menos vontade tenho de viver nele
Mais vontade tenho de ir para outro lugar.

Para onde? Não sei.
Para o meu mundo talvez. (Para lado nenhum?)

“But I have promises to keep And miles to go before I can sleep.” (Robert Frost)

(Bolas!)

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Permission to Speak Freely (II)


Não vejo muros cor-de-rosa. São muito cinzentos, juro.

Mas meti os óculos coloridos em pequena, e
ficaram-me tão cravados na carne… que
quando os vou para tirar,
dói-me arrancar esse pedaço de mim.