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terça-feira, outubro 01, 2013

virar o disco e não tocar o mesmo

        
"I don't understand why Europeans and South Americans can take more sophistication. Why is it that Americans need to hear their happiness major and their tragedy minor, and as jazzy as they can handle is a seventh chord? Are they not experiencing complex emotions?" (Joni Mitchell)


sofisticados? nós? a sério?! porque tenho a mesma questão: mas não há condescendência com a complexidade? não há pensamento independentemente dos lados de uma barricada?! 

ui, parece que há: ao invés de serem os "independentes" a moldarem-se à forma da caixa dos partidos, passam os partidos a apoiar os independentes. a sério?! não pode. basicamente, é pegar no disco e tocá-lo ao contrário (que é o mesmo que dizer: umas vezes corre bem, outras nem tanto).

não sei se é uma sofisticação, mas quero acreditar que é, pelo menos, uma inovação. quase quase como passar de procariontes a eucariontes! oba.

(evolução: nos aguardji!)
     
        
        

sábado, outubro 02, 2010

'o amor é o amor e depois?', o que adianta saber isso, do amor, eu amo-te, ou não se diz, é mais

fácil não dizer, dar só o beijo que cala as palavras, e as discussões, dar-se a mãozinha na rua, ou deixar-se a mãozinha ao relento, trocar só o olhar, eu dou-te o meu tu dás-me o teu, o beijinho no pescoço 'enrolado pelo chão', e depois depois passa o tempo e Zás, instala-se a rotina e achamos eh pah eu acho que não é isto E nos cansamos Até que desponta novamente um tremelique, um engasgar, um sonho iludido sem quotidiano. e Zás lá vamos nós outra vez, Enganados.


nos meus 14 anos revoltados, de resposta na ponta da língua, aguçada e seca, a minha mãe dizia-me, ao ver-me entre lágrimas, a chorar fininho por um amor que nem chegara a ser, que ficara por conquistar e que doía na ilusão,

tu ainda não sabes o que é o amor.


(tinha tanta razão. ainda não sabia. mas, pergunto, e quando é que eu vou saber?)

quarta-feira, março 17, 2010

as coisas num contexto.


primeiro foi o olhar. só depois veio o verbo.

cresce no regaço da mãe. cresce, cresce. mais e mais. a cada dia. sentem-se os dois, ao princípio, no silêncio. descobrem-se. percorrem as sensações, mesmo sem as saber. falam também. os dois durante meses. anos! aninham-se um no outro procurando conforto. o cheiro da mãe, o cheiro do filho. o toque. o contacto, corpo no corpo. o quente da pele. o filho cresce. o corpo da mãe. o corpo do filho. amam-se, mas há todo um mundo que os separa. e aos corpos também. cria-se a distância, o ver de fora. ao longe.

se tivessem sido só os dois, olhos colados, não veriam mais nada. não diriam mais nada. nem haveria mais nada. seria o sonho.

(o que custa é a falta da pele, do cheiro da pele. de tocar na pele, e de a percorrer. mas há a vida como pano de fundo.)


segunda-feira, março 08, 2010

busca do prazer

    
vi passar o tempo no meio dos dois sem que nenhum pestanejasse. sentados à mesa, aguardavam o momento do dia. ela deitava um olho discreto à televisão, ele fixava o vazio. ou a pele dela quando era jovem. ou quando ainda se amavam e tinham assunto à mesa. agora, escolhem o restaurante mais caro da cidade, pedem o prato mais gourmet da casa, e saboreiam-no. Está bom, não está? Óptimo. depois, nada. as coisas arrefecem. ela deita um olho discreto à janela, espreita lá fora. ou as memórias de quando se amavam e se olhavam nos olhos. ou quando ele pegava na mão dela e a saboreava fixamente. agora, ele vigia-a sem a olhar. mais nada. há ainda um bacalhau despedaçado para acompanhamento, mas os corações já vêm frios.
     
       

quarta-feira, abril 22, 2009

O pior cego

 
Ela apoia o queixo no pulso enquanto leva aos lábios a pequena chávena de café. Depois, numa rotina de 90 minutos, pousa-a e, inevitavelmente, desfia o vazio em pensamentos.

Na TV passa o futebol. Ele, impreterivelmente, entra no jogo. Leva, de tempos a tempos, a cerveja ao goto e solta, de tempos a tempos, palavras imperceptíveis. Ela olha, imagina que sejam para ela, não são. Ele agarra o copo, sustém-se, estrebucha e, súbito!, prescinde temporariamente das imagens. Ela olha. Ele vira-se e rosna algo ao empregado – quer outra cerveja afinal. Depois, pulando o olhar dela, torna a dissipar-se dentro do ecrã.

São os 90 minutos, fora os descontos, o jogo termina. Ele levanta-se, vai pagar. Ela, enfadada, ergue os olhos e arrisca num tom amorfo: Vamos? Ele acena que sim, consente. Ela, de pernas dormentes mas habituada a ficar no banco, levanta-se com vagar, pega na mala, e sai.


(enfim. num mundo em que o tempo não sobra, pergunto-me onde vamos encontrar ‘coragem’ para aguentar estes fretes.)
       

 

quarta-feira, outubro 01, 2008

Escapadinhas


A Baixa de Coimbra pela manhã, para quem passa no Mercado e apanha ocasionalmente o autocarro para a zona do Hospital, é uma amálgama de movimentos pendulares – casa-mercado, casa-trabalho, casa-hospital, para mais tarde ser mercado-casa, trabalho-casa, hospital-(com sorte)-casa.

Sim, a Baixa àquela hora da manhã não tem nada de novo. Só movimento e rotina. Ninguém olha para os cartazes que mudam, ou para as sombras que desaparecem. Ninguém repara se a rua foi limpa ou se a fonte brota água. (Reparam sim que a menina da frente tem a saia muito curta, e que a senhora do lado tem um amarelo aberrante. O resto não. Há o almoço para fazer e já são 9 horas!) Talvez por isso, naquela manhã notei curiosamente a convergência súbita que se originava na esquina dos Correios. Amotinara-se ali um bando de mulheres oriundas das manhãs do Mercado. Paradas junto à esquina, nos seus 60 anos enérgicos, olhavam escancaradamente para a caixa de electricidade suja e amolgada. Que se passa? Pensei eu, Será Um rato gordo com as tripas de fora? Um regurgitamento ainda fresco de vomitado? O amarelo da senhora do lado respingado de excrementos de pomba? Serão ainda, deixadas por um qualquer estudante bêbado, fezes abismais? Ou seria simplesmente, Um mendigo descoberto? Não. Nada disto. Sozinhas, no imenso fundo branco encharcado em cola de parede, ressaltavam pretas mas reluzentes as letras da palavra

Ex cur são. Uma Ex [pausa] cur [pausa] são! (e logo ao lado, Festa!)

Onde? Quando? querem saber! Lêem rapidamente o cartaz tentando escapar ao apelo da palavra provocante; discutem avidamente o conteúdo. E percebem ligeirinhas que, de facto, nem interessa. Fossem comunistas não fossem, era Uma excursão!

UMA Ex cur são! (e uma Festa!)

Fantástico. Confesso que me arrebata este fascínio dos 60 anos (perdoem-me a redução a esta faixa etária) pelas viagens atribuladas dentro de um autocarro. A malta da terra, as curvas apertadas, o Ai José! Ai Maria!, os sacos a abarrotar e a rebolar de sandes anafadas. O pão-de-ló para a sobremesa, ou a torta DanCake do mini-mercado da Josefa. O garrafão de vinho caseiro religiosamente amparado entre os tornozelos cheiinhos. A toalha rendilhada e bem dobrada para ser deitada na mesa de piquenique. Os peitos farfalhudos de pêlos sobre os quais reluz juntamente com o suor um grossito fio de ouro. As boinas impecavelmente direitas. A saia bem bonita pelo joelho, a camisa de domingo aos folhos, Ou de seda. O tamanco moderno, Ou o sapatinho que comprei ali nas Modas da Rita. Os brincos pendentes que rasgam a orelha. O cabelo a cheirar a laca, com mais caracóis do que as couves que ficaram, naquele dia, daquela vez, a crescer na horta do mercado (a época faz mudar as aparências e as coisas de sítio, mas não lhes muda a Natureza).

Fascina-me. Esta geração, agora já terceirinha, que não se volta a repetir. Esta geração que define que os primeiros 100 anos se passem a trabalhar para o futuro, mas que permite que, a partir dos 50, se acrescente a vontade da escapadinha, dada ocasionalmente, em dias parecidos com o domingo. Fascina-me.

É que neste convívio salubre – traduzido no êxtase da Excursão – manifesta-se mais uma etapa da vida. Havia a idade dos porquês, a idade do armário, e a idade de apanhar os caracóis das couves (a época faz mudar os nomes das coisas e as manifestações, mas não lhes muda a Natureza). Agora, algures depois dos Renault 5 e das carrinhas Peugeot 504 Break, há também a idade do autocarro (leia-se, da Excursão! e da festa!).