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sexta-feira, setembro 17, 2010

finito infinito

         
passo na Baixa. na esquina da Câmara, um velho olha o futuro, apoiando na bengala gasta a mão encarquilhada. tem o olhar preso. a postura imóvel. olho para ele enquanto avanço. penso: apetecia-me perguntar-lhe o que vê. para o que dirige o olhar tão atentamente. se vale uma vida. queria tanto saber.

mas depois desiludia-me, com toda a certeza.

(prefiro tecer o sonho, colar-lhe as pontas. construí-lo em castelo e subir nele, percorrendo-o encantada. ficar lá. do que depois ter que o partir contra a realidade.)
       
       
    

segunda-feira, março 08, 2010

busca do prazer

    
vi passar o tempo no meio dos dois sem que nenhum pestanejasse. sentados à mesa, aguardavam o momento do dia. ela deitava um olho discreto à televisão, ele fixava o vazio. ou a pele dela quando era jovem. ou quando ainda se amavam e tinham assunto à mesa. agora, escolhem o restaurante mais caro da cidade, pedem o prato mais gourmet da casa, e saboreiam-no. Está bom, não está? Óptimo. depois, nada. as coisas arrefecem. ela deita um olho discreto à janela, espreita lá fora. ou as memórias de quando se amavam e se olhavam nos olhos. ou quando ele pegava na mão dela e a saboreava fixamente. agora, ele vigia-a sem a olhar. mais nada. há ainda um bacalhau despedaçado para acompanhamento, mas os corações já vêm frios.
     
       

quinta-feira, outubro 15, 2009

chiu













não digas nada, não digas.
para quê?

o teu olhar é música para os meus ouvidos.



(cansam-me, às vezes, as palavras.)


quarta-feira, abril 01, 2009

«As palavras são pedras.»*
















(Chita. Rans, Junho 2008)


(dizem que os olhares não mentem. olhassemo-nos todos assim, para o fundo dos nossos fundos, para os fundos dos outros, e talvez nos entendêssemos muito melhor.

talvez.)


* Ferreira, V., 1994, Aparição.