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terça-feira, janeiro 04, 2011

boas formas de começar o ano





(entrar numa loja de produtos hortículas, ou espreitá-la apenas pela janela, é dar asas à exploração - dos alhos, das cabras, das abelhas, dos coelhos, das beterrabas para gado, das flores, do caracol. enfim, é ter a certeza que do novo ano lhe havemos de ver os frutos, caso o tempo sacana não estrague a colheita.)


segunda-feira, setembro 13, 2010

humor negro






















(Sabugal, Portugal, Agosto 2010)


(sempre me soube melhor trinchar a carne no prato depois de saber
que era daquela vaquinha super fofa da vizinha.)


quarta-feira, abril 01, 2009

«As palavras são pedras.»*
















(Chita. Rans, Junho 2008)


(dizem que os olhares não mentem. olhassemo-nos todos assim, para o fundo dos nossos fundos, para os fundos dos outros, e talvez nos entendêssemos muito melhor.

talvez.)


* Ferreira, V., 1994, Aparição.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Causas para a desgraça dos povos (II)


Hoje de manhã tive uma aparição. Negríssima. Uma criatura medonha, grande vermelha e barriguda, caminhava lenta e segurando com rédea curta um pequeno cachorro saltitante. Quando passei pelos dois, ouvi o dono numa voz arrastada e trombonesca: Anda cá, cão. Estremeci. Conjuntamente, tive uma visão do inferno. Quantas criaturas inocentes não são colocadas, atreladas, nas mãos despóticas de bestas?

sexta-feira, outubro 17, 2008

Como animais (se me permites)


«Tem muitas virtudes como os olhos grandes e as longas pestanas, como as vacas.»

(Keshab Shrestha ao El País, acerca da candidata escolhida para kumari, isto é, reencarnação da deusa Durga. Este é um dos 32 critérios físicos que as candidatas devem possuir. Na lista figuram também ter peito de leão, coxas de veado, pescoço como uma concha, e voz suave e clara como a de um pato [suave? o pato? ok.]. Parece-me a mim, na minha profunda ignorância acerca destes assuntos, que estão à procura de uma Quimera.)

(fonte: Visão, n.º 233, semana de 16 a 22 Outubro, 2008)

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Columba dançava.

Sobre as pedras negras e sujas da calçada, a luta não havia sido ainda consumida. Eram as asas estendidas a bater contra o chão, numa dança mole e desatinada – os últimos suspiros do vento no teu peito, quem sabe…
(Mole o teu corpo. Mole a tarde dourada, e o sol que escorria no horizonte. Moles as minhas entranhas a pensarem nas tuas, por certo atropeladas. Amolecidas.)

Não vi sangue nem tripas. Só o teu corpo amachucado num último arrastar. Num rodopio decrescente e finito. Pensei – Crua a luta em que sabemos já o fim, mas batemo-nos ainda desenfreadamente para morrer a tentar. Feroz o término não anunciado que espera nas esquinas mais douradas e nos voos mais livres. Bruta a mão alheia que manda mais que tu na tua própria vida. Como facas ao pescoço ou comida para servir quente, fria. Como as noites em branco das mães, e as manhãs pretas quando os filhos morrem primeiro. Quando a morte antecipa o tempo e apaga os voos.

Cruéis os finais sem Razão.

Mas devaneiam ainda as pombas sobre a calçada escura. Inconscientes da dança, correm o risco afinal. E quando caiem, cinzentas e esfaceladas, dançam até que a exaustão as consuma e as torne em pedras, negras e duras.
26Set07, 11Dez07