"The range of what we think and do is limited by what we fail to notice. And because we fail to notice that we fail to notice there is little we can do to change until we notice how failing to notice shapes our thoughts and deeds." (Ronald D. Laing)
quarta-feira, junho 11, 2014
quarta-feira, outubro 02, 2013
domingo, junho 16, 2013
em delírio
mas, pronto, eventualmente chega.)
quinta-feira, abril 25, 2013
conquista
- Eu disse-lhes: «já estou farto. soltem-me, se não mato alguém e mato-me em seguida...».
Depois disso, puseram-me em liberdade.
- E o Teo Manzin? escreve versos?
- Escreve. Não posso compreender - disse ele, abanando a cabeça. - ele é um canário ou quê? puseram-no na gaiola e ele canta.
quinta-feira, abril 04, 2013
sábado, fevereiro 25, 2012
terna é a noite
aliás, podemos nós destruir outra pessoa, ou só ela se destrói no limite a que se permite a si própria chegar? sei lá.
há um limite para o amor que se deve sentir? um limite até onde ele nos deve levar? um limite para o quão fundo podemos chegar a afundar-nos nele?
e o cansaço? há um limite para o cansaço, ou poderemos sempre recomeçar?
não acho que haja um limite. real. há o imaginado talvez. o nosso. o que nos permitimos. o que nos cansou. e fez desistir. mas não tem que existir. tem?
um limite para os nosso receios, para os nossos erros?, que nunca o foram quando os fizemos, só quando olhamos para trás e pensamos já diferente. mas talvez já pensássemos diferente na altura.
há um limite para as coisas, ou podemos viver sem o alcançar, escapando-lhe às fronteiras apenas imaginadas mas sempre distantes?
se há um limite, como saber quando o ultrapassámos? se a escuridão da noite não nos deixa ver, enquanto nos fecha os olhos ternamente...
(nada se perde. nada se cria. tudo se transforma. ou, quem sabe, apenas se transfere...)
segunda-feira, abril 04, 2011
the thin [but deep] red line
" (...) e ocorreu-me que não há diferença entre os homens, de raça ou de inteligência, tão marcada e profunda como a que separa os enfermos dos saudáveis. (...)" *
mas enquanto passamos a barreira, é tudo tão inaudível e indefinido.
terça-feira, junho 22, 2010
domingo, novembro 15, 2009
quinta-feira, novembro 05, 2009
quarta-feira, setembro 02, 2009
AVC
Há muitos muitos anos, nas terras da Babilónia, todos os homens se entendiam. Mas devido a uma certa insatisfação humana, estes homens decidiram que afinal não queriam [só] a terra, queriam também o céu. Então, descontente com o facto de ter sido esquecido, Deus castigou os povos. E criou as línguas.
Subitamente, os homens passaram a falar sem que se pudessem entender. Cada palavra passou a ser interpretada de acordo, não com o que realmente era dito por quem a proferia mas, com a intenção do descodificador.
(Isto é, se o Liedson cai na área e grita Penalty!, o significado depende: (a) se o juiz é da mesma equipa - penalty significa Justiça!, e há que ser feita; (b) se o juiz é da equipa adversária - penalty significa Estou a gozar com vocês e vou-me safar!, e há que penalizar o Liedson gozão; ou (c) se o juiz veste de amarelo-e-preto, aí, o significado de Penalty! depende dos acordos antes do jogo.)
Adiante. Os povos fecharam-se sobre si. E nacionalizaram-se. Falavam com os da sua língua, desentendiam a língua alheia. Ou pior ainda, entendiam-na como queriam. Uma palavra podia dar azo a uma Peleja, ou ao início de uma Pacífica cooperação. E, assim, as palavras deixaram de valer por si, para passaram a ser somente o espírito que por elas passa*.
Avó, eu sou a i., filha da r., sou sua neta. Ela sorri, esticando as peles já velhinhas e amarrotadas. Diz-me Sim, todos cantamos, e Nosso Senhor fica contente. Isto quando ainda dizia. Agora murmura palavras indecifráveis Mu ru gu ru interminavelmente. Ou acena que sim, é pois é, vamos. Sorri de vez em quando, inesperadamente. Dá até sinais subjectivos de me reconhecer enquanto estica a mãozinha para umas palmaditas afáveis. Mas já não sei, nunca sei na ausência dos sinais linguísticos precisos, na ausência de um nome proferido, não sei se sabe mesmo quem eu sou.
(isto da comunicação é um problema. até quando todos parecemos falar a mesma língua, ouvir as mesmas palavras, ver as mesmas imagens, tudo reside na descodificação da mensagem. Avó, sou eu. Não vê a minha face, não me reconhece pelo tom de voz, não ouve as minhas palavras? tudo reside na descodificação da mensagem. uns, acarinhados pela vida, interpretam benevolamente. outros, deixam simplesmente de escutar. tudo depende do aparelho que construímos para descodificar. mas agora
entender como se constrói tal aparelho, detalhar os factores, prever o caos – isso já implica descodificar a vida. e, apesar até de muito estudo científico, voltamos ao mesmo, lá está, - cada um tem a sua interpretação.)
* Ferreira, V., 1994, Aparição.
quinta-feira, agosto 27, 2009
Sapho
- I don't love you anymore.
Dan:
- Since when?
Alice:
- Now, just now.*
(creio eu que haja pouca coisa tão forte e, ao mesmo tempo, tão frágil
quanto o amor.)
*diálogo do filme Closer, 2004, de Mike Nichols.
quarta-feira, abril 01, 2009
segunda-feira, janeiro 12, 2009
Ciscos
Quando eu era pequena ouvia vezes sem conta a minha avó, mãe do meu pai, ler a história da santa Teresinha. Da história em si pouco me lembro, mas lembro-me dos pormenores, de como o livro era pequeno e fino, e como a capa era castanha e dura. De como tinha palavras, muitas, que a minha avó desfiava com cuidado, lendo o livro de uma ponta à outra. Começava na capa, com o título, e logo prosseguia para os pormenores técnicos, como a morada da editora, o número de edição, a data e o local de impressão. De como só então lia a história, sem esquecer uma palavra, mas também sem esquecer um sinal de pontuação. Sim, a vírgula, o ponto, os dois pontos, os pontos de exclamação e de interrogação, o travessão. Tudo era lido.
O meu pai seguiu-lhe os passos e, quem sabe, o modo de vida. O outro dia, enquanto fazíamos o percurso até ao almoço de Natal, enquanto a minha irmã e a minha prima discutiam lá atrás os filmes, as novidades e a vida, o meu pai, imune a todas aquelas palavras, insistia em descrever o percurso. Ora aqui 60 Km, eu vou a 70Km, tenho que reduzir. Lau, e é extensa Lau, 60 Km é a velocidade máxima. Terminou Lau. E assim por diante em pormenores que já não me cabem na cabeça, couberam, mas deram lugar a outros.
(quando as coisas são muitas, para ressalvar o importante, algumas têm que se deixar para trás.)
Sorri. Pensei para mim, deve-me estar no sangue também. Eu também gosto de escarafunchar as coisas para as descrever depois no meu auto especial, assegurando que não sejam esquecidas: o Auto das Queixas de Vida. Sim, adoro queixar-me. E sou óptima nisso. Só que eu não me queixo das coisas reais, não!, isso seria bárbaro e sem graça. Não, a piada está em poder inventar. E ora aqui está uma-coisa-em-que-decidi-inovar – eu não me limito a ler os sinais nem as placas, não, eu gosto de acrescentar coisas! (e de retirar outras à socapa, mu-ah-ah-ah). Pego nas coisas, selecciono as coisas bonitas e, pumba, deito-as na forma do esquecimento. E pronto, quando já frias e suficientemente amolgadas, junto-as à minha caixinha de sonhos partidos. E ninguém as tira de lá, nem mesmo eu. Então, enumero e conto tudo o que resta. E só depois – só depois! – faço o Auto e arrumo por temas: Tema n.º 1, a vida é demasiado complexa, Tema n.º 2, quero ser outra-coisa-qualquer, Tema n.º3, a vida não vale a pena. Vale! Não vale. Vale, vale! Trampa!...
(trampa sim trampa! é ano novo oh menina! pelo menos nesta altura devíamos conseguir ver as coisas mais bonitas, ainda que as mais pequenas, estender-lhes o dedito e trazê-las até à nossa atenção. e escolhê-las para (re)lembrar. porque se muita coisa cabe cá dentro, nem tudo cabe cá dentro. devíamos escolher as coisas que valem a pena ficar. o Irving Berlin escreveu uma vez, If you worry and you can't sleep count your blessings instead of sheep. And you’ll fall asleep counting your blessings.)
quarta-feira, dezembro 10, 2008
Infinito além
«O que mais há na terra, é paisagem.»*
E ainda bem.
(* José Saramago, 1980, Levantado do Chão, encandeado pelo Alentejo)
quarta-feira, outubro 22, 2008
O mundo depois da Susana
A Susana insiste. Aliás, não desiste da minha doutrinação. Apanha sorrateiramente os meus momentos de descanso e, zás, lê. O mundo depois de Copérnico. Senta-se no chão da cozinha e, enquanto eu termino o jantar (e também já depois de eu ter terminado…), percorre o texto, em voz alta...
- “…temos o sensualismo desenvolvido pelos filósofos franceses.” E esclarece, para minha educação, Sensualismo no sentido de sensorial.
- Não não, desculpa lá! sensual vem de senso! (depois de uns looooongos minutos a ouvir frases que não retenho, preciso de quebrar a monotonia)
- Bem!…, continua, “…filósofos franceses. Condillac, por exemplo.”
- Cadillac, a marca de carros??
- Deixas-me acabar? “O monstro de Frankenstein é a versão, em carne e osso, da psicologia sensualista. O despertar gradual para os sentidos (…) levará o monstro, em poucos meses, a ler os clássicos. Vemo-lo com as Vidas de Plutarco, o Paraíso Perdido de Milton…”
Interrompo:
- O Nilton? O nosso Nilton?! Escreveu um clássico??!
- (suspiro)…
(gosto tanto de arremessar às pessoas a minha ignorância. o que a sana não sabe é que, depois do desespero dela perante estes arremessos, ganho sempre uma desculpa para que ela desista das suas leituras enciclopédicas.)
(eu exagero. ela sabe que eu brinco. desespera pelas interrupções, sim, mas não desiste… [bolas!])
quarta-feira, junho 25, 2008
Bexiguinha e o Point-less da existência das coisas.
Pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra pedra.
segunda-feira, outubro 01, 2007
Instruções para ler um Livro de Julio Cortázar.
Abrir o Livro e pousá-lo no rebordo da mesa mais perto de nós. Segurar com uma mão ambas as páginas que, por forças desconhecidas da Natureza, tentam encerrar só consigo as palavras mágicas. Prestar atenção a todo o barulho em volta e no quão difícil seria fazer uma leitura descansada, se porventura nos apetecesse ler um livro no meio de um café da Baixa.
Então, desligar de tudo o resto, pois a História falará por si: “Há anos que trabalho na Unesco (…) e ainda conservo (…) uma notável capacidade de abstracção.”
VER & LER Júlio Cortázar (1973). Histórias de famas e de cronópios. Editorial Estampa.



