Há muitos muitos anos, nas
terras da Babilónia, todos os homens se entendiam. Mas devido a uma certa insatisfação humana, estes homens decidiram que afinal não queriam [só] a terra, queriam
também o céu. Então, descontente com o facto de ter sido esquecido, Deus castigou os povos. E criou as línguas.
Subitamente, os homens passaram a falar sem que se pudessem entender. Cada palavra passou a ser interpretada de acordo, não com o que realmente era dito por quem a proferia mas, com a intenção do descodificador.
(Isto é, se o Liedson cai na área e grita
Penalty!, o significado depende: (a) se o juiz é da mesma equipa - penalty significa
Justiça!, e há que ser feita; (b) se o juiz é da equipa adversária - penalty significa
Estou a gozar com vocês e vou-me safar!, e há que penalizar o Liedson gozão; ou (c) se o juiz veste de amarelo-e-preto, aí, o significado de Penalty! depende dos acordos
antes do jogo.)
Adiante. Os povos fecharam-se sobre si. E nacionalizaram-se. Falavam com os da sua língua, desentendiam a língua alheia. Ou
pior ainda, entendiam-na como queriam. Uma palavra podia dar azo a uma Peleja, ou ao início de uma Pacífica cooperação. E, assim, as palavras deixaram de valer por si, para passaram a ser somente
o espírito que por elas passa*.
Avó, eu sou a i., filha da r., sou sua neta. Ela sorri, esticando as peles já velhinhas e amarrotadas. Diz-me
Sim, todos cantamos, e Nosso Senhor fica contente. Isto quando ainda
dizia. Agora murmura palavras indecifráveis
Mu ru gu ru interminavelmente. Ou acena que sim, é
pois é, vamos. Sorri de vez em quando, inesperadamente. Dá até sinais subjectivos de me reconhecer enquanto estica a mãozinha para umas palmaditas afáveis. Mas já não
sei, nunca sei na ausência dos sinais linguísticos precisos, na ausência de um nome proferido, não sei se sabe
mesmo quem eu sou.
(isto da comunicação
é um problema. até quando todos parecemos falar a mesma língua, ouvir as mesmas palavras, ver as mesmas imagens, tudo reside na descodificação da mensagem.
Avó, sou eu. Não vê a minha face, não me reconhece pelo tom de voz, não ouve as minhas palavras? tudo reside na descodificação da mensagem. uns, acarinhados pela vida, interpretam benevolamente. outros, deixam simplesmente de escutar. tudo depende do aparelho que construímos para descodificar. mas agora
entender como se constrói tal aparelho, detalhar os factores, prever o caos – isso já implica
descodificar a vida. e, apesar até de muito estudo científico, voltamos ao mesmo, lá está, -
cada um tem a sua interpretação.)
* Ferreira, V., 1994, Aparição.