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quinta-feira, janeiro 05, 2012

usar o pé, ir a pedantes, esticar o pernil para o dobrar de seguida, exercitar a pernoca vírgula o pé vírgula e o resto.

          
ele
- queres boleia?
eu
- não, obrigada, prefiro ir a pé.
ele
- mas eu dou-te boleia!
eu
- está bem, mas eu prefiro ir a pé.
ele
- mas eu estou de carro e posso dar-te boleia.
eu
- está bem, agradeço, mas eu gosto de andar e prefiro ir a pé.
ele
- fogo, tu és chata!

...


(das duas uma: ou as pessoas não nos ouvem, o que não parece ser o caso, ou as pessoas não nos compreendem mesmo quando nos ouvem. a minha parca experiência de vida inclina-me pesadamente sobre esta última hipótese. e tenho pena. mais valia que não nos ouvissem e treinássemos somente o acto de audição. já treinar o de compreensão parece ser bem mais tramado.)
         
               

segunda-feira, janeiro 03, 2011

'o que a gente é e o que a gente chega a ser'.


primeiro habituou-nos a ela. à destreza, ao quanto-queres desdobrável em mãe irmã tia avó bisavó e devota de nosso senhor jesus cristo. habituou-nos às mãos grossas e calejadas que secaram o queijo, estiraram as filhozes, bateram o pão-de-ló sequinho e dourado, as mesmas que durante anos lavaram paninhos, alimentaram 8 bocas saídas do ventre, estriparam a terra, esfolaram animais, e desfiaram candidamente as contas do terço, aninhando-se depois sobre o colo numa quietude de alma.

(aquelas mãos que te vi brancas)

habituou-nos à ligeireza, aos caminhos ao terço por amor a cristo, aos caminhos à Terra e à outra terra e onde fosse que tivesse que ser - o que veio da vida foi para aceitar e amanhar.

(aquele corpinho que te vi mirrado)

depois a vida pregou a rasteira e abrandou-lhe o passo. continuaram as mãozinhas ágeis e a carinha risonha enquadrada na trança de cabelo enrodilhado e longo, mas não tão longo quanto a estrada percorrida e os 96 invernos.

(aquelas madeixas que te vi de cinza)

depois cortou a trança, e foi como se cortasse o passado. continuaram os olhos pequeninos felizes de pouco, a notinha pelo natal, pelos anos e mais quando fosse e o coração achasse. continuaram as palavras e o hábito das histórias com que encheu os serões e as nossas cabecitas de mimória muita mimória de outros tempos e costumes.

depois foram as histórias. uma a uma foram sendo apagadas, perdida as páginas, esquecidas, no percorrer das coisas, enquanto as perninhas outrora altas se entorpeciam com o anoitecer.

depois foi-se a mimória toda, e deixou de nos conhecer. e foi-se quem ela era também. foi-se o sorriso e o olhar, num vácuo interrompido apenas por beijinhos de graça vá-se lá compreender os desígnios do criador e o porquê das coisas. ficou-lhe o mundo lá dentro, e nós cá fora sem lhe chegar.

(se eu pudesse ver o que tu vias, aí e quando encerraste os olhos)

depois foi-se a presença. tinha sono, muito sono. isso, dormir só e sonhar quem sabe. pois pois é. foi-se a força e a vontade. e, por fim, num último sopro, a vida.




(julgo que as pessoas, se chegarem a percorrer a velhice, se vão afastando devagarinho. deixando isto, deixando aquilo, uma coisa de cada vez. talvez para não custar tanto, a nós e a eles. o ser humano habitua-se, que remédio tem senão habituar-se, vê-los descer os degraus um a um, com vagar e paciência. e,
se assim fosse sempre, o mundo seria tão mais justo e a vida também: um degrau de cada vez, até chegar ao último. mas o último, por rápido ou mais devagar que chegue, é sempre demasiado grande.)


segunda-feira, dezembro 13, 2010

mudar de vida

I
"já sei lidar com máquinas, agora quero aprender a lidar com pessoas." (g.n.)

II
"olhe, estou farto de pessoas! agora interesso-me é pelos animais." (i.d. II)




(dê lá por onde der, o mal é talvez passarmos demasiado tempo na mesma coisa.)


quarta-feira, abril 22, 2009

O pior cego

 
Ela apoia o queixo no pulso enquanto leva aos lábios a pequena chávena de café. Depois, numa rotina de 90 minutos, pousa-a e, inevitavelmente, desfia o vazio em pensamentos.

Na TV passa o futebol. Ele, impreterivelmente, entra no jogo. Leva, de tempos a tempos, a cerveja ao goto e solta, de tempos a tempos, palavras imperceptíveis. Ela olha, imagina que sejam para ela, não são. Ele agarra o copo, sustém-se, estrebucha e, súbito!, prescinde temporariamente das imagens. Ela olha. Ele vira-se e rosna algo ao empregado – quer outra cerveja afinal. Depois, pulando o olhar dela, torna a dissipar-se dentro do ecrã.

São os 90 minutos, fora os descontos, o jogo termina. Ele levanta-se, vai pagar. Ela, enfadada, ergue os olhos e arrisca num tom amorfo: Vamos? Ele acena que sim, consente. Ela, de pernas dormentes mas habituada a ficar no banco, levanta-se com vagar, pega na mala, e sai.


(enfim. num mundo em que o tempo não sobra, pergunto-me onde vamos encontrar ‘coragem’ para aguentar estes fretes.)
       

 

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Closer



There are some truths that we should not know
so there are some truths that we should not ask

so there are some truths that we should not tell.




(truths? what truths? as verdades
demasiado perto desfocam.)



quarta-feira, novembro 19, 2008

Unser täglich brot (Nosso pão quotidiano)


Andamos a produzir em massa
desprovidos já de sensações.

Presos na rotina da necessidade,
estendemos o braço,
erguemos a tesoura
e, zás, cortamos o pulso às coisas.





















































































Morrem os outros Mas nós
tornámo-nos já indiferentes à passagem dos corpos.

Morrem os outros. e porque razão?

razão? não. só para, no final, estendermos o braço,
e termos o mundo à mão.

(quando estamos tão imbuídos dela, como o ar que se respira, pergunto-me como poderemos nós quebrar esta rotina?)

segunda-feira, maio 19, 2008

Silêncio


















É esta a corda que vos amarra as gargantas?

(De fundo
ouve-se o silêncio.

Ou é tão somente a angústia
de no fundo não se querer gritar?...)