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terça-feira, novembro 26, 2013

warriors, fighters, wrestlers. tu.





Today you were far away
What could I say


I was far away.


You just walked away
and I just watched you


What could I say

Tonight you just close your eyes
and I just watch you
slip away...



(it was a hell of a fight.
now you rest kid'o.)

     

terça-feira, julho 27, 2010

expressões caseiras (i)


o meu pai:
- fulano era um papagaio, era um papagaio!
eu, curiosa com o sentido das coisas:
- hem? um papagaio?! mas o que é que isso quer dizer?
o meu pai, seguro que estava já tudo dito:
- olha, porque falava... falava aereamente!



(pois.)


domingo, fevereiro 07, 2010

crescer


Estou sentada à mesa do café. Passam na vitrina, para quem vê de dentro, 3 homens e uma mulher. Observo um dos homens e a mulher. Não consigo deixar de pensar se serão um casal. Entra toda a família no café. Há crianças, afinal, também. Sentam-se mesmo ao meu lado, com duas velhas senhoras e um casal amigo. Juntam-se mesas, trocam-se as novas. As meninas sentam-se ao lado da mulher. Ela fala delas com cuidados desvelados. Ela não gosta de usar óculos, mas o médico diz que tem um olho preguiçoso. A menina ri e balbucia qualquer coisa. Reparo na mulher. É bonita. Tem o cabelo esticado e a maquilhagem cuidada. Noto nas olheiras das noites brancas. Pergunto-me se já foi egoísta. Se foi uma jovem embirrenta e cheia de manias. Se mudou quando se tornou mãe. Pergunto-me quantas vezes mudou de vida. Quantas meninas, adolescentes e mulheres já foi? Quantas vontades, quantas incertezas. Pergunto-me se já se encontrou, ou quantas vezes vai ainda mudar.

(quantas vezes podemos mudar, se o tempo corre. pergunto-me se nos encontraremos um dia, tu e eu, cá dentro. quanto tempo até lá, quantos erros. pergunto-me quando será, ou se virá, o dia em que já não desejo mudar.)


terça-feira, setembro 22, 2009

AVC (II)


Durante muitos anos, a minha avó andou a cultivar-me memórias. primeiro, por meio de estórias contadas com ligeireza deixava-nos, a mim e à minha irmã, a sonhar com personagens fantásticas deste mundo e do outro. depois, quando já éramos grandinhas o suficiente para ouvir outras histórias, fazia-nos chegar ao ouvido, por entre muito riso e algum gozo, as traquinices da nossa mãe quando era pequena. e, mesmo repetindo uma e outra vez os pequeninos episódios, parecia não gastar as recordações.

nos últimos anos, entregue já aos cuidados dos filhos e com poucas histórias ou vontade para as contar, não se esquecia ainda assim de, por entre os beijinhos da despedida, nos entregar carradas de 'mimória, muita mimória!' que pudéssemos precisar para os estudos. e eu, enternecida com a atenção, lá vinha cambaleante com aquilo nos braços, crente que era capaz de me fazer falta, se não ainda hoje, um dia talvez.

desconfio é que a minha avó andou a dar coisa a mais. e que, ao dar tanta tanta 'mimória', acabou por ficar sem ela.

É uma querida a minha avó. pena é eu agora ter baús cheios de memória(s) e não poder partilhá-la(s) com ela.

quarta-feira, setembro 02, 2009

AVC


Há muitos muitos anos, nas terras da Babilónia, todos os homens se entendiam. Mas devido a uma certa insatisfação humana, estes homens decidiram que afinal não queriam [só] a terra, queriam também o céu. Então, descontente com o facto de ter sido esquecido, Deus castigou os povos. E criou as línguas.

Subitamente, os homens passaram a falar sem que se pudessem entender. Cada palavra passou a ser interpretada de acordo, não com o que realmente era dito por quem a proferia mas, com a intenção do descodificador.

(Isto é, se o Liedson cai na área e grita Penalty!, o significado depende: (a) se o juiz é da mesma equipa - penalty significa Justiça!, e há que ser feita; (b) se o juiz é da equipa adversária - penalty significa Estou a gozar com vocês e vou-me safar!, e há que penalizar o Liedson gozão; ou (c) se o juiz veste de amarelo-e-preto, aí, o significado de Penalty! depende dos acordos antes do jogo.)

Adiante. Os povos fecharam-se sobre si. E nacionalizaram-se. Falavam com os da sua língua, desentendiam a língua alheia. Ou pior ainda, entendiam-na como queriam. Uma palavra podia dar azo a uma Peleja, ou ao início de uma Pacífica cooperação. E, assim, as palavras deixaram de valer por si, para passaram a ser somente o espírito que por elas passa*.

Avó, eu sou a i., filha da r., sou sua neta. Ela sorri, esticando as peles já velhinhas e amarrotadas. Diz-me Sim, todos cantamos, e Nosso Senhor fica contente. Isto quando ainda dizia. Agora murmura palavras indecifráveis Mu ru gu ru interminavelmente. Ou acena que sim, é pois é, vamos. Sorri de vez em quando, inesperadamente. Dá até sinais subjectivos de me reconhecer enquanto estica a mãozinha para umas palmaditas afáveis. Mas já não sei, nunca sei na ausência dos sinais linguísticos precisos, na ausência de um nome proferido, não sei se sabe mesmo quem eu sou.

(isto da comunicação é um problema. até quando todos parecemos falar a mesma língua, ouvir as mesmas palavras, ver as mesmas imagens, tudo reside na descodificação da mensagem. Avó, sou eu. Não vê a minha face, não me reconhece pelo tom de voz, não ouve as minhas palavras? tudo reside na descodificação da mensagem. uns, acarinhados pela vida, interpretam benevolamente. outros, deixam simplesmente de escutar. tudo depende do aparelho que construímos para descodificar. mas agora
entender como se constrói tal aparelho, detalhar os factores, prever o caos – isso já implica descodificar a vida. e, apesar até de muito estudo científico, voltamos ao mesmo, lá está, - cada um tem a sua interpretação.)


* Ferreira, V., 1994, Aparição.


terça-feira, janeiro 27, 2009

Se


a minha avó maria estivesse viva, fazia hoje 100 anos.

(eu, se tivesse nascido em 1909 [a 27 de Janeiro], também fazia hoje 100 anos.)


segunda-feira, janeiro 12, 2009

Ciscos


Quando eu era pequena ouvia vezes sem conta a minha avó, mãe do meu pai, ler a história da santa Teresinha. Da história em si pouco me lembro, mas lembro-me dos pormenores, de como o livro era pequeno e fino, e como a capa era castanha e dura. De como tinha palavras, muitas, que a minha avó desfiava com cuidado, lendo o livro de uma ponta à outra. Começava na capa, com o título, e logo prosseguia para os pormenores técnicos, como a morada da editora, o número de edição, a data e o local de impressão. De como só então lia a história, sem esquecer uma palavra, mas também sem esquecer um sinal de pontuação. Sim, a vírgula, o ponto, os dois pontos, os pontos de exclamação e de interrogação, o travessão. Tudo era lido.

O meu pai seguiu-lhe os passos e, quem sabe, o modo de vida. O outro dia, enquanto fazíamos o percurso até ao almoço de Natal, enquanto a minha irmã e a minha prima discutiam lá atrás os filmes, as novidades e a vida, o meu pai, imune a todas aquelas palavras, insistia em descrever o percurso. Ora aqui 60 Km, eu vou a 70Km, tenho que reduzir. Lau, e é extensa Lau, 60 Km é a velocidade máxima. Terminou Lau. E assim por diante em pormenores que já não me cabem na cabeça, couberam, mas deram lugar a outros.

(quando as coisas são muitas, para ressalvar o importante, algumas têm que se deixar para trás.)

Sorri. Pensei para mim, deve-me estar no sangue também. Eu também gosto de escarafunchar as coisas para as descrever depois no meu auto especial, assegurando que não sejam esquecidas: o Auto das Queixas de Vida. Sim, adoro queixar-me. E sou óptima nisso. Só que eu não me queixo das coisas reais, não!, isso seria bárbaro e sem graça. Não, a piada está em poder inventar. E ora aqui está uma-coisa-em-que-decidi-inovar – eu não me limito a ler os sinais nem as placas, não, eu gosto de acrescentar coisas! (e de retirar outras à socapa, mu-ah-ah-ah). Pego nas coisas, selecciono as coisas bonitas e, pumba, deito-as na forma do esquecimento. E pronto, quando já frias e suficientemente amolgadas, junto-as à minha caixinha de sonhos partidos. E ninguém as tira de lá, nem mesmo eu. Então, enumero e conto tudo o que resta. E só depois – só depois! – faço o Auto e arrumo por temas: Tema n.º 1, a vida é demasiado complexa, Tema n.º 2, quero ser outra-coisa-qualquer, Tema n.º3, a vida não vale a pena. Vale! Não vale. Vale, vale! Trampa!...

(trampa sim trampa! é ano novo oh menina! pelo menos nesta altura devíamos conseguir ver as coisas mais bonitas, ainda que as mais pequenas, estender-lhes o dedito e trazê-las até à nossa atenção. e escolhê-las para (re)lembrar. porque se muita coisa cabe cá dentro, nem tudo cabe cá dentro. devíamos escolher as coisas que valem a pena ficar. o Irving Berlin escreveu uma vez, If you worry and you can't sleep count your blessings instead of sheep. And you’ll fall asleep counting your blessings.)

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Hereditariedade


Anteontem à noite, ainda que por instantes, quebrei um bocadinho do mundo da minha avó.

Eu explico. Nos seus 94 anos de vida, a minha avó já não tem vida social. Para além da pouca mobilidade, já pouco vê (digamos que ainda reconhece os netos mas que a taxa de erro ronda os 5%... e se lhe perguntarem se o que tem no prato é peixe ou batatas, aproxima-se dos 90%). Ora, quem pouco ou nada vê refugia-se no que ouve, e se o volume for criteriosamente ajustado (i.e. no máximo!) é quase impossível não ouvir. Aparece então, para preencher o vazio dos dias e o lugar no céu, a sessão do terço, religiosamente acompanhado na famosíssima RR (também conhecida por Rádio Renascença) todos os dias às 18.30. E se por acaso passa o relato da bola ai o relato da bola! Fica desconsolada mas não usa palavrões pois a minha avó sabe palavras esquisitas mas não diz palavras feias. Ora,

o dia tem 24h e os 30 minutos de terço é coisa pouca para quem já não tem muito que fazer senão dormir, esperar pela hora das refeições e circular de tempos a tempos para cumprir calendário(s). Ora, acontece que

por volta da hora de jantar, enquanto se aquece debaixo das mantinhas no sofá e vê com pesar a minha mãe subir e descer 2 lanços de escada para lhe trazer a sopa, anuncia-se no grande ecrã (não tão grande que seja visível para os pequeninos olhos da minha avó) o magnífico, único, e portador da boa disposição, senhor Carlos Malato. Ora,

a minha avó, perdida nos êxtases da audição e na voz sonora daquele senhor, lá acaba por prestar atenção às perguntas. E visto que até sabe palavras esquisitas lá acerta volta e meia nas respostas e, pronto, ganha afecto ao senhor. Então, nas noites em que apareço, solta-me ansiosa a confissão

- daqui a pouco vem A Herança!

Não é que eu esteja por-dentro-destas-coisas, mas na outra noite achei por bem esclarecê-la. E actualizá-la. Afinal, ainda que seja Natal, as verdades têm que se fazer saber.

- oh vó? Sabe aquele programa do Malato? Aquele programa que a avó gosta! A avó não sabe mas aquilo já não é A Herança.
- Não?
- Não vó, isso era dantes, agora já não há disso. Agora, as pessoas não recebem o que merecem ou mesmo o que é justo [mas não que a herança de facto garanta isso…]. Não. Agora as pessoas manipulam para receber, fazem Jogo Duplo.
- Ai é?
- É, vó…

(o que ela não sabe é que dantes também era assim, mas que nem sempre os olhos vêem e nem sempre os ouvidos ouvem o profundo-sentido-das-coisas.)

Doeu-me. Mas lá ficou com a ideia. Claro que eu sei que não há-de durar muito e que hoje à noite, por volta da hora do jantar, quando as vozes do ecrã anunciarem o Malato abençoado, a minha avó vai meter os ouvidos à escuta e dizer à minha mãe que

- lá vem A Herança!

E que hei-de eu fazer? Talvez esperar que esta forma “simples” de ver o mundo, esta forma que escuta para logo depois obliterar as partes-feias-da-existência, me seja passada de alguma forma em herança pelos mistérios duplos da hereditariedade.

quinta-feira, julho 03, 2008

Berço






















(Bairro da Graça, Lisboa, Natal 2006)


Lisboa dos lisboetas
Lisboa dos deslocados

Lisboa dos portugueses
Lisboa dos emigrantes

Lisboa dos residentes
Lisboa dos turistas

Lisboa dos bairristas
Lisboa dos betinhos

Lisboa dos fadistas
Lisboa dos rappers

Lisboa dos pastéis
Lisboa da fast food

Lisboa das ruas estreitas
Lisboa das ruas largas

Lisboa dos olhares curiosos
Lisboa dos indiferentes

Lisboa dos que vêm de fora
Lisboa dos que vão de dentro.

(pergunto-me como podemos sentir falta de algo
que não chegámos a conhecer?)

quinta-feira, junho 19, 2008

Pirâmide das necessidades.

Sou um homem de negócios. Faço negócios. Sempre fiz negócios. Sempre fui um homem de negócios. Desde o tempo em que trocava laranjas por rebuçados, apontamentos por ténis novos, bolas de futebol por nomes de raparigas. Hoje troco serviços por lucros. Por segurança. Por conforto. Para no final do dia chegar a casa e dizer “Querida, cheguei a casa”. E receber nos lábios o beijo enternecido e nas pernas os abraços fortes dos bracitos exaustos de um dia de brincadeiras.

Cheguei ao topo da montanha. Quando saí do trabalho, cansado e exaurido de tentar convencer o mundo, de lhe mostrar que os meus serviços são os melhores, que sem eles não vale a pena progredir neste negócio, Quando cheguei a casa, ansioso pelo beijo e pelos abraços, Quando abri a porta, quando entrei… encontrei o silêncio. Querida, cheguei! Silêncio. Meninos! Calado o espaço.

Não sei se é de mim, mas quando se está no topo da montanha, não se vêem as pedrinhas pequenas cá em baixo, esquecem-se as tortuosidades do caminho. O momento é aquele. O resto não existe. A minha mulher estava deitada. Caída pelo chão. Afastados, os pequenitos, e os seus bracitos frouxos e ensanguentados. Sempre achei que percebia tudo acerca de trocas. Até hoje. Troco a minha vida, agora, por um pedaço de paz. Bang.