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terça-feira, abril 10, 2012

reminiscências (ii)

           
faz-se uma coisa há coisa de cinco anos. recebe-se um punhado de números e letras para agora e para também mais tarde recordar. pedem-se-nos as preferências para referência, aquelas que mudam com as modas e os cortes de cabelo, aquelas que mudam com a idade e com as medidas de tempo. pedem-se-nos as preferências e ficam, os punhados e as preferências, juntinhos. usa-se esse punhado de números e letras um punhado de vezes para fazer certas e determinadas coisas. certo, certíssimo. deixa-se de usar esse punhado de números e letras um punhado de vezes porque se deixaram de fazer certas e determinadas coisas. correctíssimo. passam-se cinco anos. há novas certas e determinadas coisas para fazer. há o punhado de números e letras para reutilizar. mas quem raio se lembra do punhado de números e letras? ou sequer de onde se o guardou? tudo bem, má memória. certo, certíssimo. má organização dos dados pessoais. correctíssimo. há a opção de recuperação. oba. vamos lá recuperar o alfanumérico então. insira a sua música preferida de há 5 anos. como? i said insira a sua música preferida da altura.


([suspiro]. não sei se percebo as pessoas. mas, definitivamente, acho que elas não percebem o carácter volátil da memória, o carácter efémero da preferência, nem muito menos o carácter eterno da mudança.)
         
        

sexta-feira, outubro 21, 2011

viagens (ii).

gosto de pensar que quando voltamos, voltamos diferentes. é assim nas grandes viagens. e até nas pequeninas. naquelas em que embarcamos todos os dias.


(mas também gosto de esperar que a diferença não resida em nós-sem-tantos-bichinhos e nós-com-bichinhos-a-mais.)










sexta-feira, junho 24, 2011

quando uma borboleta bate as asas


caem os homens.
por causa da queda, acorrem outros, que os socorrem e amparam. por causa dos que os socorrem e amparam, o mundo muda o seu movimento: até então de uma forma, agora, depois da queda, de outra.

cai a menina. até então com movimento independente, passa a fazer depender o seu movimento do dos outros, que assim mudam o deles também. e, com eles, mudam os pontos em que os movimentos do mundo e os movimentos dos outros e o seu se interseccionam:
vêm buscar a menina, vêm deixar a menina; levam a menina, trazem a menina. se fosse antes, a menina faria as suas estradas, e os outros fariam os seus caminhos. agora, as estradas e os caminhos cruzam-se e fundem-se, até que se descruzem outra vez. mas, pelo caminho, as estradas dos outros cruzam-se onde, se fosse antes, jamais se cruzariam. porque o processo mudou.

por exemplo, antes, a menina iria até à montanha. agora, a montanha tem que vir até si para a levar de volta a casa. a menina vai, e a menina fica. e fica também dependente da disponibilidade da montanha para a trazer de volta. portanto a menina fica, operando com o seu vagar, organizando a volta a passo lento. se fosse antes, tudo seria feito num ápice. agora, demora este e aquele e o outro minuto.
também a montanha se reorganiza agora de outro modo (ou exagerou apenas o seu comportamento habitual): é preciso levar isto e aquilo e aqueloutro, porque o movimento da menina mudou. e os tempos do movimento da menina mudaram. e as possibilidades de movimento da menina também. tudo tem que ser de outro modo, claro, mais simples, mais fácil. tipo refeição multi-vitamínica sopa e prato num só. o que, para não demorar mais tempo à menina, demora, por um processo simples de compensação, mais tempo à montanha.
depois das idas, das voltas, de arrumar isto, arranjar aquilo, de fazer passar o tempo, aquele tempo, aquele exacto tempo, a montanha pode enfim regressar com a menina. a menina apruma-se, demora mais tempo que o habitual, e no instante x, entra no regaço da montanha.
acomoda-se, fecha a porta e rolam as rodas. fazem-se ao caminho. devagar, tudo no seu tempo. cruzam-se as curvas, esta, aquela, aqueloutra. se não fossem as quedas, a menina teria ido já. antes. ou teria apenas ido depois. pensa. mas foi agora. cruza a curva, aquela curva, naquele exacto momento. segue a estrada. outra curva, aquela. naquele instante, aquele pedaço de estrada. aparece o coelho. zás.


(custa-me pensar que vivemos no completo desconhecimento de a que ponto o que fazemos agora mudará radicalmente o depois. que não controlamos nada, porque não sabemos nada. e que, não sabendo nada - por onde ir, por onde contornar - o que virá a acontecer é inevitável.)

sábado, junho 18, 2011

milk





as coisas não mudam a sua natureza quando crescemos. apenas
ganham outro sabor.



segunda-feira, junho 06, 2011

já a respeito das cadeiras,

e ainda nas voltas com a Fátima, o Pedro Passos Coelho solta com toda a coloquialidade que não suporta as cadeiras de alguns programas da TV, onde fica enterrado e pouco à vontade: "mas ainda não ninguém percebeu que aquilo é tão desconfortável?".

calculo que a cadeira de Primeiro-Ministro, apesar de apelativa, também não seja muito confortável. mas das duas uma: ou não nos sentamos, ou aguentamos e moldamos o rabinho.

(ninguém se devia sentar numa cadeira onde não se sente confortável. mas passando por cima das comodidades, porque nem tudo é uma questão de conforto, ninguém se devia queixar de uma cadeira onde quer sentar o rabinho. a não ser que a queira mudar para melhor.)


quarta-feira, abril 27, 2011

[indeterminado]




Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quere.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ância distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...


(melhor perdido no nevoeiro que
encharcado no lodo da perdição.

do nevoeiro escapa-se com cautela,

mas do lodo dificilmente escapamos
sem a garganta imersa e
a mente suja.

sejam as flores a bandeira. efémeras sim, perecíveis é um facto
mas
constantemente renováveis.)