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sábado, junho 18, 2011

milk





as coisas não mudam a sua natureza quando crescemos. apenas
ganham outro sabor.



segunda-feira, janeiro 31, 2011

flanquear de alto


domingo à tarde no parque atolado de gentes, um menino chora chora chora, vá-se lá perceber o porquê. pode ser do sol que brilha demais, ou da areia molhada e engraçada para calcar, pode ser do frio que mal se sente, ou ainda da brincadeira interrompida. pode nem ser nada, mas ele chora e fá-lo desalmadamente, enquanto estende um a um os pézinhos minúsculos num equilíbrio sofredor.

diz-lhe a avó com um tom pachorrento:
- anda cá bébé, anda cá, vem chorar para o carro que está mais quentinho.


(ele que chore, aquilo a mim calou-me.)


quarta-feira, maio 20, 2009

Portas


I





















ando a bater à porta dos sonhos, e a pedir num desassossego que me deixem entrar.
- está aberta, entra!
hm.
agora que posso, agora que tenho a permissão para,
será que quero?

(irrita-me, sim irrita-me. confesso que me irrita, e Pro-Fun-Da-Men-Te!, o facto de ter-que questionar tudo. quem me vir assim, abananada pela vida, até diz que o meu problema é não saber o que quero. hm. pois.)

         
    

terça-feira, outubro 28, 2008

Pai Natal


Pensei na possibilidade. Não. Nem pensar. Não não não. O meu triciclo desapareceu, ora essa. Alguém o levou, um alguém distante de quem nunca saberei o nome. Um alguém com um menino que precisava mais dele do que eu. Foi isso. Claro que foi. Não poderia ter sido outra coisa. Pois não?...

Foi exactamente enquanto alongava os músculos naquele passeio em frente às Águas, enquanto olhava para a parede com estruturas metálicas para agrilhoar bicicletas, enquanto pensava que também eu podia ter uma bicicleta, guardada no prédio, mas que precisaria de algo para a prender, ou então podia deixá-la lá sem a prender, não não podia, porque poderiam levá-la, como daquela vez. Daquela vez, há uns 20 anos atrás, em que o meu triciclo desapareceu. Do vão das escadas onde foi deixado, já nem sei por meio de que ardiloso acordo. Foi exactamente aí, naquele instante, que se fez uma luz.

Não, espera lá!, o meu triciclo não foi levado. O meu triciclo não desapareceu. Nem teve mão de um alguém distante com boas intenções e esperança de um sorriso. Não. O meu triciclo, o meu veículo de criação de voltas perfeitamente circulares e intermináveis ao quintal, o meu lindo e adorado triciclo(!) foi mandado embora, afastado, numa obscura artimanha… pelos meus próprios pais. Como não percebi antes? Como não vi que tinha sido feito desaparecer, aniquilado, por ter três pernas e ser um comodismo. Por não ter duas e ser então propício a desequilíbrios e quedas e queixos ensanguentados. Por já não ser próprio para a etapa seguinte. Por ser um meio de empate e retenção na etapa anterior. Que se lixem as etapas! O meu triciclo foi mandado fora, posto num recanto frio e obscuro, e deixado assim triste à minha espera, simplesmente, por ter uma perna a mais! Só que eu, naquele dia, não vi isso. Pequenita, esperançosa de que a vida não leva as coisas que não lhe pertencem, que não leva antes do tempo, que não quebra os sonhos dos meninos, deixei-me convencer. E no dia seguinte, já confrontada com a ausência, o meu triciclo, posto naquele vão de prédio, tinha desaparecido. Só isso. Naquele dia eu acreditei no que eles me quiseram dizer, e no que eu quis ouvir. Só porque assim tinha sido imprevisto, impossível de se saber, impossível de se evitar. Porque, assim, era uma estória mais bonita.

(vou ser muito sincera. tenho 24 anos e - isto é uma desgraça de se dizer mas - por vezes, demasiadas vezes, parece que ainda acredito no Pai Natal. acordem-me para a vida por favor!)

segunda-feira, junho 23, 2008

Sem volta.


















That's not the beginning of the end
That's the return to yourself
The return to innocence
(The Return to Innocence, Enigma)

(Eu também gostava de voltar a mim mesma
e a essa inocência
de ser só eu, sem o resto.
Sem tudo o que se vai acoplando, E a estripa.
          
Mas os inocentes são mortos cedo. Porque são imaculados.
É o preço de não sofrerem a consciência do mundo. É assim a inocência – tem um tempo
e, depois,
morre. De uma forma, ou de outra.)


      

quarta-feira, abril 23, 2008

Retrato de Família

   
A minha mãe já não me telefona há três dias. Acho que finalmente se está a tornar independente.
(eu já lhe tinha dito que há uma idade para tudo. eu é que pelo contrário parece que estou a regredir. - mãe? que se passa? porque não me telefonas?... :x)
       
  
      

quarta-feira, março 05, 2008

(apetece-me dar um murro, pode ser no antónio.)

        
Rebelde. Ser rebelde. Acho que o desejo me veio da irmã que sempre foi contra tudo e todos. Então quis ser também. Passei por cima do cordeirinho – apesar de continuar a sê-lo para sempre – e enfaixei os cabelos em dois totós que percorri com elásticos de diferentes cores; cortei o cabelo curtinho e deixei a madeixa comprida que entrancei. Comprei o casaco de cabedal e as botas pretas e pesadas – que me magoavam imenso os tornozelos, mas Quero lá saber, não há alma que não se vença, também não há-de haver botas inflexíveis nem tornozelos incontornáveis!
Quis ir contra tudo, contra deus até. Então mudei-me para a malfadada terra, que os corvos deixaram ao abandono, e vesti-me de preto para fazer o luto de tudo o que ficou para trás. Vesti luvas esburacadas, saias por cima de calças e fiquei enfim a Saia-calça, com muito orgulho meu. No meio – e bem emaranhado, como quem quer ser tudo e não é senão uma amálgama de identidades – pintei as unhas, uma de cada cor, deixei-as crescer, e fiz recortes nelas. Meti as meias debaixo do joelho e os dois totós. Fiquei a Pipi, Pipi das Meias Altas. A menina instável, como me descreveu ele, aquela fachada de gente. Pois era, pois fui (pois sou). Desde esse tempo. Até ao dia em que me cansei de tudo. As cores esbateram, as calças prevaleceram. E eu continuei em frente. Até ao dia em que me cansar de tudo. Acho que nunca consegui. Ser rebelde. Entrei numa certa harmonia com as coisas, e não há como escapar-lhe.
Mas não gosto. Nunca gostei.

(reparo agora que tenho os punhos ensanguentados…)
   
   
        

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Sólidos de Catalan


Tinha 14 anos quando me perdi. O pensamento concreto de até então deu o salto e tornou-se (i)lógico, com todos os caminhos em aberto. E fiquei eu no meio das escolhas
e dos escolhos
de tudo o resto que ficou, simplíssimo, para trás.
Catorze anos de um mundo certo, pensando que havia uma idade para tudo. Depois, caí, e percebi
Que a idade não interessa,
que somos bichos eternos
em luta com as escolhas.

Que as escolhas podem ser mal feitas?
Podem, mas que só aprendemos assim – julgamos as próximas, com as anteriores.
E se aprendemos mal, julgaremos mal (óbvio…).

Que o homem não é naturalmente bom sr. Rosseau, nem sequer naturalmente. Que é uma mistela de tanta coisa que anda por aí, e que tentar compreendê-lo e aplicar-lhe uma equação certa que o desvende é estourar a cabeça em mil pedacinhos loucos e estridentes.

Que é tudo uma incerteza
um conjunto de escolhas disparatado
aleatório,
irresoluto,
como quem joga num euromilhões sem sorteio.
Como quem ganha sem saber
E depois morre.

(tanta coisa que fica por saber…)

Que a velhice virá um dia,
E a sabedoria com ela.

Que não sei se a sabedoria chegará com ela, sem ela, se chegará seja com quem for.

Que não há sabedoria –
Há uma e excessivas formas de ver a vida
(e depois há os conformistas e os inconformistas
e todos os outros nos intervalos infinitesimais
que as aceitam ou não.
Ou que decidem ficar no meio e nos meios, porque não há um mas vários
porque nunca há nada que seja uno e simples!)

Que a matemática é um sonho e não bate certo com nada.

(que quanto mais penso
mais esfolo o sossego, mais estripo o equilíbrio.)

Que só a Ceifeira é feliz quando canta.
Mas que os 14 anos dela não a devem ter atirado ao chão...