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quarta-feira, dezembro 18, 2013

tinha.

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo
.

(Miguel Torga)


agora voou.      
 

sexta-feira, maio 10, 2013

Cheshire cat (i)



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
(...)

hmm,

Eu olho-os com olhos lassos, (...)
E cruzo os braços, (...)


Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


isso!

but god damnit, man! you're not leaving me many chances.


segunda-feira, maio 02, 2011

o maior


E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


(uma salva bem dada ao mais incansável dos trabalhadores.)


quarta-feira, abril 27, 2011

[indeterminado]




Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quere.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ância distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...


(melhor perdido no nevoeiro que
encharcado no lodo da perdição.

do nevoeiro escapa-se com cautela,

mas do lodo dificilmente escapamos
sem a garganta imersa e
a mente suja.

sejam as flores a bandeira. efémeras sim, perecíveis é um facto
mas
constantemente renováveis.)


domingo, maio 23, 2010

debaixo do silêncio




(a todos os que desesperam quando se perdem no caminho.)



*Jacques Brel, 1966, Les désespérés


domingo, janeiro 17, 2010

http://www.imdb.com/title/tt0810784/


as histórias de amor valem a pena [acompanhar] para quem as vive. para quem está de fora - e não está disposto a vivê-las como se estivesse lá dentro - são um pretexto para dormir.

(ainda bem que existem as sinopses. mas, melhor que isso, são os filmes que vamos ver por acaso.)



quarta-feira, janeiro 21, 2009

Dreams


















Sonhei
que havia panteras na minha rua
pintadas de um cinzento columbino, ou de um rosa-fúchsia,
e que falavam

sonhei
que o céu era amarelo
e o sol de um profundo azul

que vivíamos de noite e
sonhávamos de dia

que não havia dia
como o conhecemos.

sonhei
que as árvores caíam do céu
e que o mar nevava quente
como as peles sob o agosto europeu.

que não havia europa, nem sequer ruas,
que era tudo mar, só mar
sobre o qual voávamos
sem tecto nem fundo,

que éramos livres.

que os meninos só não governavam o mundo porque
vivíamos em anarquia
e que, de resto, também não havia moscas.

que dormíamos embrulhados em nuvens
sonhando com o dia definitivo em que iríamos para a terra, mãe
última de todas as coisas.

Sonhei.

com um mundo ao contrário
mas

it was just my imagination.


   

terça-feira, outubro 14, 2008

Sugar a vida até ao tutano




Combien de temps...
Combien de temps encore
Des années, des jours, des heures, combien ?
Quand j'y pense, mon coeur bat si fort...
Mon pays c'est la vie.
Combien de temps...
Combien ?

Je l'aime tant, le temps qui reste...
Je veux rire, courir, pleurer, parler,
Et voir, et croire
Et boire, danser,
Crier, manger, nager, bondir, désobéir
J'ai pas fini, j'ai pas fini
Voler, chanter, parti, repartir
Souffrir, aimer
Je l'aime tant le temps qui reste

Je ne sais plus où je suis né, ni quand
Je sais qu'il n'y a pas longtemps...
Et que mon pays c'est la vie
Je sais aussi que mon père disait :
Le temps c'est comme ton pain...
Gardes-en pour demain...

J'ai encore du pain
Encore du temps, mais combien ?
Je veux jouer encore...
Je veux rire des montagnes de rires,
Je veux pleurer des torrents de larmes,
Je veux boire des bateaux entiers de vin
De Bordeaux et d'Italie
Et danser, crier, voler, nager dans tous les océans
J'ai pas fini, j'ai pas fini
Je veux chanter
Je veux parler jusqu'à la fin de ma voix...
Je l'aime tant le temps qui reste...

Combien de temps...
Combien de temps encore ?
Des années, des jours, des heures, combien ?
Je veux des histoires, des voyages...
J'ai tant de gens à voir, tant d'images..
Des enfants, des femmes, des grands hommes,
Des petits hommes, des marrants, des tristes,
Des très intelligents et des cons,
C'est drôle, les cons ça repose,
C'est comme le feuillage au milieu des roses...

Combien de temps...
Combien de temps encore ?
Des années, des jours, des heures, combien ?
Je m'en fous mon amour...
Quand l'orchestre s'arrêtera, je danserai encore...
Quand les avions ne voleront plus, je volerai tout seul...
Quand le temps s'arrêtera..
Je t'aimerai encore
Je ne sais pas où, je ne sais pas comment...
Mais je t'aimerai encore...
D'accord ?

(Serge Reggiani, Le temps qui reste (récit); o poema surge recitado no final do filme Deux jours à tuer, de Jean Becker [França, 2007, 85`, M/12]. lancinante. tal como esta vida a que nos deixamos prender.)

quarta-feira, setembro 17, 2008

sim, indiferença.

    
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar
E como hoje igualmente hão de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei
Haverá longos poentes sobre o mar
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.


(custa-me esta indiferença. porque não mede o tamanho das nossas sensações, dos nossos afectos, das nossas dependências. não mede o tamanho dos medos, das ambições - do desejo de termos sempre mais que um momento. sim, custa-me. porque não mede os sonhos, não mede os planos, e o quanto nos vemos incompletos para completar. porque não mede o amor dos outros e as consequências da privação. porque não mede a justiça nem a injustiça. e procede absurda e inconsciente. ao acaso. e não repara na ironia.

indiferente.

e, por isso, custa-me. porque não mede o tamanho do apego que ganhamos à vida.)



[poema: Sophia de Mello B. Andresen]
   
      

quarta-feira, setembro 03, 2008

Solidão (I)

Sorriu.
apertou-me a mão e disse
Está tudo bem.

senti-lhe o aperto do peito.
Está tudo bem.


[“(…) Dão-se os lábios, dão-se os braços dão-se os olhos, dão-se os dedos, bocetas de mil segredos dão-se em pasmados compassos; dão-se as noites, e dão-se os dias, dão-se aflitivas esmolas, abrem-se e dão-se as corollas breves das carnes macias; dão-se os nervos, dá-se a vida, dá-se o sangue gota a gota, como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto que no silêncio concreto, este oferecer-se de dentro num esgotamento completo, este ser-se sem disfarce, virgem de mal e de bem, este dar-se, este entregar-se, descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.”

António Gedeão, Poema do Homem Só, 27 Dezembro 1956, publicado em Teatro do Mundo, 1958.]

quinta-feira, junho 12, 2008

Viagens.


“ (…) e o meu desejo de ir embora pelo mundo…
… a vida é tão pouca
e o mundo é tão grande
que terra aonde eu passe não posso voltar. (…)”



(«Serenata» em «Poemas Completos», de Manuel da Fonseca)

segunda-feira, maio 12, 2008

Meninos coitadinhos.

    
os meninos coitadinhos
queixam-se a torto e a direito
a direito e a torto
para cima e para baixo
para a direita e para a esquerda
para a esquerda e para lado nenhum
que chega a cansar
vê-los queixarem-se tanto.
os meninos coitadinhos precisam de se desculpar
que o mundo é uma merda
(isso) já todos sabemos
mas os coitadinhos gostam de repetir.
os coitadinhos lastimam
as suas pernas pesadas
que não os deixam voar.
os coitadinhos enojam
os que lutam
todos os dias
apesar de tudo o que vem contra
e não se queixam
meninos coitadinhos
fraquinhos
galos-zinhos
arrepiam
em pele de galinha
os que conseguem
sem a queixa na ponta da língua.
meninos coitadinhos
apregoam o dito
mas
morrem
sem viverem
morrem
sem perceberem
que é em nós que é tudo.
   
(p.s.1: faz-me pensar porque te compreendo tão bem…)
(p.s.2: mas ainda que compreenda o que faças, cisma-me na mente a razão porque o chegas a fazer…)  
        
      

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Reminiscências


 













foto: mifares

 

Quando Ela Passa (Fernando Pessoa, Maio 1902)

Quando eu me sento à janela
P'los vidros qu'a neve embaça
Vejo a doce imagem d'ela
Quando passa... passa.... passa...

N'esta escuridão tristonha
Duma travessa sombria
Quando aparece risonha
Brilha mais qu'a luz do dia.

Quando está noite ceifada
E contemplo imagem sua
Que rompe a treva fechada
Como um reflexo da lua,

Penso ver o seu semblante
Com funda melancolia
Qu'o lábio embriagante
Não conheceu a alegria

E vejo curvado à dor
Todo o seu primeiro encanto
Comunica-mo o palor
As faces, aos olhos pranto.

Todos os dias passava
Por aquela estreita rua
E o palor que m'aterrava
Cada vez mais s'acentua

Um dia já não passou
O outro também já não
A sua ausência cavou
Ferida no meu coração

Na manhã do outro dia
Com o olhar amortecido
Fúnebre cortejo via
E o coração dolorido

Lançou-me em pesar profundo
Lançou-me a mágoa seu véu:
Menos um ser n'este mundo
E mais um anjo no céu.

Depois o carro funério
Esse carro d'amargura
Entrou lá no cemitério
Eis ali a sepultura:

Epitáfio.

Cristãos! Aqui jaz no pó da sepultura
Uma jovem filha da melancolia
O seu viver foi repleto d'amargura
Seu rir foi pranto, dor sua alegria.

Quando eu me sento à janela
P'los vidros qu'a neve embaça
Julgo ver imagem dela
Que já não passa... não passa.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Sólidos de Catalan


Tinha 14 anos quando me perdi. O pensamento concreto de até então deu o salto e tornou-se (i)lógico, com todos os caminhos em aberto. E fiquei eu no meio das escolhas
e dos escolhos
de tudo o resto que ficou, simplíssimo, para trás.
Catorze anos de um mundo certo, pensando que havia uma idade para tudo. Depois, caí, e percebi
Que a idade não interessa,
que somos bichos eternos
em luta com as escolhas.

Que as escolhas podem ser mal feitas?
Podem, mas que só aprendemos assim – julgamos as próximas, com as anteriores.
E se aprendemos mal, julgaremos mal (óbvio…).

Que o homem não é naturalmente bom sr. Rosseau, nem sequer naturalmente. Que é uma mistela de tanta coisa que anda por aí, e que tentar compreendê-lo e aplicar-lhe uma equação certa que o desvende é estourar a cabeça em mil pedacinhos loucos e estridentes.

Que é tudo uma incerteza
um conjunto de escolhas disparatado
aleatório,
irresoluto,
como quem joga num euromilhões sem sorteio.
Como quem ganha sem saber
E depois morre.

(tanta coisa que fica por saber…)

Que a velhice virá um dia,
E a sabedoria com ela.

Que não sei se a sabedoria chegará com ela, sem ela, se chegará seja com quem for.

Que não há sabedoria –
Há uma e excessivas formas de ver a vida
(e depois há os conformistas e os inconformistas
e todos os outros nos intervalos infinitesimais
que as aceitam ou não.
Ou que decidem ficar no meio e nos meios, porque não há um mas vários
porque nunca há nada que seja uno e simples!)

Que a matemática é um sonho e não bate certo com nada.

(que quanto mais penso
mais esfolo o sossego, mais estripo o equilíbrio.)

Que só a Ceifeira é feliz quando canta.
Mas que os 14 anos dela não a devem ter atirado ao chão...
       
     
 

terça-feira, janeiro 29, 2008

Lost in translation

A sala encheu para te ver morrer. Preto no branco.
Só na tua cabeça nada era assim tão simples.
Faz-me pensar o que nos faz dar o salto final.

O mundo é definitivamente um lugar estranho. E o amor.
Mas como pode alguém desistir aos 23?

Um passo de gigante para os outros, um pequeno para ti.

Recomeça…Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.*

Mas tu não podes. Ponto.
Pena.
Porque eras só um rapaz, um rapaz chamado Ian.

(*Sísifo, Miguel Torga)