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sábado, março 16, 2013

febre (iii) ou The Most Amazing Documentary Ever Made About Bees


one small (fahrenheit) degree for the bees, one giant one for the hornets.


 
todo o amazing documentário aqui   


(fascina-me a febre. o controlo da febre, o descontrolo da febre. e a extensão deste processo a todos os outros processos de sobrevivência do organismo.

repare-se como as abelhas fazem subir a temperatura do seu corpo para neutralizar um agente infeccioso. no caso delas, externo ao corpo, mas interno à colmeia. no nosso caso, de forma semelhante, primeiro externo, depois hospedeiro. em ambos, a subida da temperatura, se não gradualmente controlada, pode ser fatal.

ora, o corpo sabe o que faz, supostamente. o corpo reage e sobe a temperatura ao ponto de matar o inimigo. mas, numa lógica evolutiva dos mecanismos de sobrevivência, o que é que o faz perder o controlo e permitir que ele se mate a si mesmo?)
   
           

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Mʋham̑ad alBúoazízí


quando o copo está cheio, basta uma gota.


(fala-se nos suícidios, nos homens que saltam das pontes, nas mulheres que adormecem afogadas em alcóol e comprimidos, das crianças que saltam aos rios. e eu penso, Como, como têm eles coragem para tanto? não têm medo da dor?, do arrependimento posterior?, não se lembram dos pais ou de uma qualquer figura de vinculação?, não vislumbram eles a luz, para um dia, por mais suja que seja? esquecem eles que querem viver? Que estado de alienação é esse em que se perde o receio?, que desespero é esse que nos cega e nos deixa apenas um caminho?
atemorizam-me os suicídios. desde sempre. não porque os acho ilógicos, irracionais e desmedidos. mas porque a mente é uma e todos vamos enchendo o copo. porque o corpo com a mente que sai todo o santo dia para a rua vender as frutas e os legumes é o mesmo que um dia chega ao posto da gasolina, e se imola. porque somos todos normais. até ao dia em que não o somos. e é essa possibilidade de metamorfose comum que me incomoda.)


domingo, novembro 22, 2009

se venceres o instante


Quando te sentas à noite na beirinha da cama e
olhas o mundo curtinho em redor, tão curtinho
quanto o teu campo de visão e
a linha do horizonte que te escapa.

quando vês as luzes do teu quarto as luzes no teu quarto

e sabes tanta vida lá fora.
quando pensas em ti ali, só,
e o silêncio,
só.

(ou então um mundo a abarrotar de emoções)

e então o coração bate
- tu escutas demasiado o coração -

ou o coração bate antes e depois sentas-te na beirinha da cama
e pensas.
e então ouves, mais e mais
e o coração bate mais forte, mais e mais.

quando tu pensas sentes e pensas e sentes
quando tudo é um ciclo.

quando perdes a noção da realidade
e só pensas o corpo, a sentir a sentir a sentir.

quando os pulmões arfam
e tu arfas
e o mundo é tão pequenino quanto a tua mente contraída,
sufocada
pelo peso dos instantes.

quando o mundo é tão grande quanto os teus medos.
pesado

quando tu inspiras
expiras inspiras expiras
cada vez mais rápido, e rápido, mais e mais

e tu pensas

e sentes o pânico a correr-te pelas veias, como agulhas finas, como
formigas atrevidas que te beliscam a carne, quando

sentes a cabeça à roda, e as luzes te encadeiam, e achas que vais enlouquecer,
que a lucidez acaba ali para ti.

e o pânico preenche-te os poros,
e o medo abarrota-te o peito.

e tu pensas.

quando o desespero te atola
e te preenche,
inunda

quando pensas que não interessa quantas vezes sobrevives, que
há-de sempre voltar esse instante
em que tudo bate mais depressa do que aquilo que tu consegues acompanhar,

quando o desespero te enfarta
o peito e a consciência e

já nada importa quando
tudo pesa

Eu sento-me contigo à beirinha dessa tua cama,
imagina-me a sentar-me contigo à beirinha dessa tua cama,
e digo-te ao ouvido

Não te atrevas a desistir.

(e depois abraço-te, muito. e agarro-te a esta vida.)


segunda-feira, novembro 16, 2009

"Se em alternativa se atira." (*)


sento-me à beira da pequenina pequenininha mesa de café. peço uma torrada e um galão. lá fora o sol espreita pela baixa depois da chuva. há um jornal sobre a mesa. há os restos ainda não recolhidos de pequeno-almoço. há uma chávena com espuma de leite seco. um pratito com migalhas. uma colher alta e um garfo. uma faca de comer bolo. uma faca. e se eu agora pegasse na faca e a espetasse no meu ventre?

imagino o depois. o sangue, os gritos, as fugas. se. empurro para lá. abro o jornal e leio. está uma belíssima manhã.




(*) João Condinho, projecto Se numa noite de inverno um viajante, Exposição em Coimbra-B, 7 a 14 Novembro 2009

sexta-feira, setembro 26, 2008

Elefantes

          
Eu se estivesse na sala de um exame
ou a percorrer os corredores da minha escola
ou a passar na rua

E viesse um sujeito direito a mim
de arma empunhada na mão

morria.

Mas morria antes. Antes que a bala fosse disparada, antes que a bala me atingisse.
Morria da antecipação, morria do sentimento de transgressão

porque Master Wayne I told you so
porque It's the good advice that you just can't take
porque devia ter ficado em casa
(à espera que o prédio desabasse
ou que a bilha de gás explodisse)
aninhadinha na minha cama
à espera.

À espera de morrer depois.

(o recorte de Jornal que a Susana me deu dizia que o rapazinho de 22 anos tinha bilhetes no quarto onde exprimia o seu ódio pelas «pessoas e pela raça humana». Compreendo. Podemos escapar de todos os que nos rodeiam, trancarmo-nos no nosso quarto e ficar na solidão. Mas, ainda que tentando ignorar, estamos ininterruptamente presentes para conseguirmos escapar de nós mesmos.)
       
    
         

terça-feira, janeiro 29, 2008

Lost in translation

A sala encheu para te ver morrer. Preto no branco.
Só na tua cabeça nada era assim tão simples.
Faz-me pensar o que nos faz dar o salto final.

O mundo é definitivamente um lugar estranho. E o amor.
Mas como pode alguém desistir aos 23?

Um passo de gigante para os outros, um pequeno para ti.

Recomeça…Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.*

Mas tu não podes. Ponto.
Pena.
Porque eras só um rapaz, um rapaz chamado Ian.

(*Sísifo, Miguel Torga)