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domingo, abril 01, 2012

Suu Kyi


desconfio de mulheres que põem em causa o seu bem-estar pessoal por amor a uma causa. olho-as de soslaio, desconfiada, interrogativa, curiosa. não posso deixar de lhes tentar imaginar as entranhas: de que fibra serão feitas? percorro-lhes as feições e os movimentos. percorro-lhes as palavras e os silêncios. percorro-lhes os jeitos e as acções. sempre à procura de respostas. de que fibra serão feitas? não sei. desconfio das suas intenções egoístas, das suas vontades mesquinhas, dos seus interesses menores. não creio que os tenham. creio que são incapazes de fazerem da sua existência uma existência simples, individualizada, minada por interesses regulares e padronizados. que mulheres assim são bem capazes de meter a família em segundo plano, e a vontade de calçar o sapato da moda em nonagésimo terceiro. porque, enfim, desconfio que mulheres destas serão capazes de tudo, menos de egoísmos. que serão capazes de deixar morrer distante o homem que amam sem lhe dar um último beijo, só porque receiam ver morrer o amor primeiro. capazes de viver apartadas dos filhos que lhe nasceram do corpo, só porque amam também os dos outros. capazes de viver aprisionadas, só porque têm uma mente livre.

só porque amam um povo. uma pátria. e uma democracia: a verdadeira.


(enfim dada um pouco de voz a quem tem gritado silenciosamente há pelo menos 20 anos.)

           

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Mʋham̑ad alBúoazízí


quando o copo está cheio, basta uma gota.


(fala-se nos suícidios, nos homens que saltam das pontes, nas mulheres que adormecem afogadas em alcóol e comprimidos, das crianças que saltam aos rios. e eu penso, Como, como têm eles coragem para tanto? não têm medo da dor?, do arrependimento posterior?, não se lembram dos pais ou de uma qualquer figura de vinculação?, não vislumbram eles a luz, para um dia, por mais suja que seja? esquecem eles que querem viver? Que estado de alienação é esse em que se perde o receio?, que desespero é esse que nos cega e nos deixa apenas um caminho?
atemorizam-me os suicídios. desde sempre. não porque os acho ilógicos, irracionais e desmedidos. mas porque a mente é uma e todos vamos enchendo o copo. porque o corpo com a mente que sai todo o santo dia para a rua vender as frutas e os legumes é o mesmo que um dia chega ao posto da gasolina, e se imola. porque somos todos normais. até ao dia em que não o somos. e é essa possibilidade de metamorfose comum que me incomoda.)


terça-feira, junho 16, 2009

O Quadrado da Lógica (II)


se não escorregarem na banana. reduz-se: a probabilidade de darem um tombo. reduz-se: a probabilidade de ameaçarem a integridade óssea. então reduz-se: a recorrência a serviços de radiologia. então reduz-se: o número de radiografias feitas. então reduz-se. o número de radiografias em casa. então reduz-se: a quantidade de radiografias oferecidas para reciclagem. então reduz-se: a quantidade de prata extraída. então reduz-se: a quantidade de prata à venda nos mercados internacionais. então reduzem-se: os fundos para projectos de desenvolvimento humano.

(quando virem uma casca, coragem: prego a fundo, escorreguem na banana.)

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Francisco Anselmo de Barros


Putrefactos.
Todos os homens que não sabem o que é morrer por uma causa.