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domingo, março 18, 2012

este josé luís, este josé luís...


"Somos todos iguais na fragilidade com que percebemos que temos um corpo e ilusões. As ambições que demorámos anos a acreditar que alcançávamos, a pouco e pouco, a pouco e pouco, não são nada quando vistas de uma perspectiva apenas ligeiramente diferente. Daqui, de onde estou, tudo me parece muito diferente da maneira como esse tudo é visto daí, de onde estás. Depois, há os olhos que estão ainda mais longe dos teus e dos meus. Para esses olhos, esse tudo é nada. Ou esse tudo é ainda mais tudo. Ou esse tudo é mil coisas vezes mil coisas que nos são impossíveis de compreender, apreender, porque só temos uma única vida.
— Porquê, pai?
— Não sei. Mas creio que é assim. Só temos uma única vida. E foi-nos dado um corpo sem respostas. E, para nos defendermos dessa indefinição, transformámos as certezas que construímos na nossa própria biologia. Fomos e somos capazes de acreditar que a nossa existência dependia delas e que não seríamos capazes de continuar sem elas. Aquilo em que queremos acreditar corre no nosso sangue, é o nosso sangue. Mas, em consciência absoluta, não podemos ter a certeza de nada. Nem de nada de nada, nem de nada de nada de nada. Assim, repetido até nos sentirmos ridículos. E sentimo-nos ridículos muitas vezes e, em cada uma delas, a única razão desse ridículo é não conseguirmos expulsar da nossa biologia, do nosso sangue, dos nossos órgãos, essas certezas injustificadas, ou justificadas por palavras sempre incompletas. Mas é bom que seja assim. Porque podemos continuar e, enquanto continuamos, continuamos. Estamos vivos. Ou acreditamos que estamos vivos, o que é, talvez, a mesma coisa.
— Porquê, pai?
— Porque o amor, filho."*


*Não podemos ter a certeza de nada, José Luís Peixoto, in 'Abraço'
                                                 
              

domingo, fevereiro 05, 2012

negação


there are no such thing as complex people. or complicated people. or people unable to take decisions.

there are, instead, people who do not follow their gut [feeling].
  
                

quinta-feira, abril 28, 2011

paciências (ii)


quem tudo quer, tudo perde. não diria tudo, mas pelo menos parte. ou tem que perder. ou não tem que, mas deve. porque não irá desfrutar o que tem plenamente. quão mais fácil seria, na dúvida, meter tudo no saco e levar para casa. e, na dúvida ainda de por onde começar, manter tudo no saco e saber que temos aquilo, que temos tudo para ser felizes.

mas não, dão-nos simplesmente a hipótese de que fazer escolhas: se queremos o cornetto de morango, o magnum caramelo ou o perna de pau. ou o epá, porque oh menina de momento é o que temos. e sendo o único hesitamos. esperamos, não esperamos. hesitamos enquanto o gelado derrete e se encaminha para o fim da validade.
podemos sim, escolhê-los a todos, quando os há, mas o provável é que a experiência de prazer imaginada se transforme numa tremenda dor de barriga com consequências de dia seguinte. isto quando os podemos escolher a todos, como se pudéssemos estar em todo o lado, ter e viver tudo, tudo ao mesmo tempo.

(não somos omnipotentes,
não somos omipresentes.

no máximo, somos omnívoros. e ainda assim
quando queremos muito
temos que comer a peça à vez.)


quarta-feira, janeiro 19, 2011

menstruação


vou ao homeopata. [sim, fuuuui.] senta-me num aparelhómetro complicado aos meus olhos. espreita-me a irís adentro. a rezar que vê nela tanto quanto eu vejo com ela, deve encontrar universos imensos. tantos que por fim arrisca:
"está menstruada?"
"não."
"então deve estar a vir-lhe."
"penso que não. acabou há coisa de uma semana e tal."
"pois." [leia-se, "pois, ou isso."]

(o ciclo são 28 dias. estar a duas semana de ter acabado, ou a duas semanas de começar vai dar praticamente no mesmo. ora pois.)


vou à ginecologista. espreita-me o útero com o olho cinzento. está entumescido. muito.
"a menstruação deves estar vir-lhe."
"hm... deve ainda faltar uma semana, talvez."
"mas está próxima. da forma como está, já passou a 2a fase."
"hm..."

(o útero rasga-se no dia seguinte.)


(o que é que eu quero tirar disto? sei lá. talvez que há muitas formas de ver o mundo. e que, depois, há os reforços - positivos ou em falta, os que vemos e os que deixamos escapar, os que nos aparecem evidentes e aqueles que vemos porque queremos ver. e são talvez esses reforços, que vindo como consequência, nos encorajam um caminho a seguir. ocasionais e casuais, vão desbastando um caminho e, inevitavelmente, esbatendo outros que não nos deram motivos para voltar a passar por lá.)


sábado, outubro 02, 2010

(entre-tantos)

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o j., sugestionado pelo site menos boring do século, diz que a melhor forma de tomar decisões é mandar a moeda ao ar.
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eu, enquanto ela subia e dava cambalhotas inimagináveis no ar, enquanto ela rodopiava lá encima,
.
lembrei-me de ti.
.
.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

O princípio da incerteza



peguei na janela do tempo e espreitei o futuro. vi-me lá, junta e com filhos no colo. pensei nisto.
voltei a espreitar. agora era eu apenas. e tinha um rebento lindo. pensei nisto.
vi outra vez. viajava, até ao fim dos meus dias. voltei a pensar.
outra. estava bem. o resto, tudo incerto.


(quando tomamos consciência das coisas acabamos por mudá-las.)


sexta-feira, maio 22, 2009

Eleições (ganha o mote mais fatalista)


os mms, movimento mérito e sociedade, afirmam veementemente que "se nada fizermos nada acontece". parei. arregalei os olhos e pensei: serei eu capaz de parar este mundo? depois, surpreendida pelas buzinadelas, desci novamente à terra e acabei de atravessar a passadeira. balelas é o que é. e passo a desconstruir:
(a) primeiro, 'se' 'nada fizermos': difícil de definir 'nada'. mas ainda mais difícil é definir 'fazer nada'. se eu me sentar numa mesa de café e ficar a olhar para o 'nada', a pensar que estou a 'fazer nada', ainda assim estou sentado à mesa do café. e o mesmo acontece se ficar eternamente trancado na casa de banho, ou de molho na cama. feliz ou infelizmente, o simples facto de existir implica fazer algo, nem que seja atravancar.
(c) depois, 'nada acontece': hm. nada acontece?!?! mas em que mundo vive esta gente? se os acontecimentos espacio-temporais estivessem à minha espera para acontecerem, estaria já eu velha e caquética, para não dizer completamente chupada, e plenamente aborrecida por ter de andar a acompanhar o mundo há biliões de anos. não, oh senhores, quer façamos ou não, as coisas 'acontecem'. se eu me sentar no café e 'nada fizer', daí a algumas horinhas terei a senhora a dizer-me que está na hora de fechar, a desejar-me a boa noite e a tentar, contida e educadamente, pôr-me dali para fora. se eu 'nada continuar a fazer', logo logo darei azo à perda da paciência e serei a chatice da noite, o porquê de se chamar a polícia, e a estória do dia seguinte que, por certo, mudará a vida de imensa gente. e ficar na cama, por portas e travessas, vai dar ao mesmo. porquê? porque 'nada acontecer' não é uma perspectiva viável num mundo em que o relógio não pára. nem muito menos espera por aqueles que decidem parar.

(as pessoas, na procura desesperada de motes para encher a alma e a motivação às gentes, acabam por soltar frases vazias, plenas de 'nada'. como assim 'nada acontece'??? se 'nada fizermos' o que é provável é que as coisas 'não aconteçam' da forma como queríamos que acontecessem. mas, e se fizermos??? a política, e nao só, está cheia de exemplos de gente que decide, em vez de 'fazer nada', 'fazer asneira'. e de facto, infelizmente, 'algo' acontece.)

quinta-feira, maio 21, 2009

Portas


II

caminhamos. montamos a tenda. progredimos. construímos a casa. deixamos entrar. organizamos o espaço. aborrecemo-nos. saímos. voltamos a entrar. expulsamos. reorganizamos o espaço. uma, outra e outra vez. de tempos a tempos. todos os dias. que raio? olhamos para trás. sentimos a rajada na face. percebemos enfim.

(unfinished business são como portas abertas por onde entra o vento. e não há maneira de arrumar a casa. portanto, das duas uma: ou calamos o vento, ou fechamos a porta.)

 

quarta-feira, maio 20, 2009

Portas


I





















ando a bater à porta dos sonhos, e a pedir num desassossego que me deixem entrar.
- está aberta, entra!
hm.
agora que posso, agora que tenho a permissão para,
será que quero?

(irrita-me, sim irrita-me. confesso que me irrita, e Pro-Fun-Da-Men-Te!, o facto de ter-que questionar tudo. quem me vir assim, abananada pela vida, até diz que o meu problema é não saber o que quero. hm. pois.)