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terça-feira, março 12, 2013

Barbara


há muito pouco que possa dizer tanto quanto duas golfadas de respiração
 
   

    
a preto.

             

  

sexta-feira, maio 06, 2011

Epidural


O senhor doutor diz que eu faço parte de uma franja. Não sei o que quis dizer, mas deve ter a ver com o crianço que vai nascer. Disse-lhe que queria tudo ao natural, e ele disse-me que eu devia tomar epidural, eu disse que não queria cá drogas, que queria sentir o meu filho a sair-me das entranhas. Mas

«Para Luís Mendes da Graça*, a ideia ‘romântica’ do parto sofrido tem que passar à história. ‘Estamos no século XXI e não podemos aceitar que os procedimentos médicos sejam comparáveis a países de Terceiro Mundo.’ Há, no entanto, ‘algumas franjas da população que ainda oferecem resistência à epidural. Mas, para o especialista, trata-se de ‘uma esmagadora minoria que ainda pretende ter uma falsa visão poética e bucólica da vida’, porque, na globalidade, a preferência das mulheres recai sobre a epidural.» **

Não percebo. Eu não tenho nada contra a epidural, não, nem tenho. Longe disso: as grávidas têm o direito de optar. Do mesmo modo, à partida, também não tenho nada contra este senhor. No entanto, não consigo evitar ter algo contra opiniões como esta, que catalogam como ainda retardadas as pessoas que preferem fazer o parto sem anestesia. E continuo. Tenho sim contra opiniões que reivindicam uma visão-da-vida verdadeira e que catalogam como falsa o que não lhes fica por baixo da saia. ou da batina.

Mas, de qualquer modo, confesso que nem percebi bem a questão. Isto é, se a visão da vida é falsa porque é (a) bucólica e poética – e não devia; ou se (b) isto de insistir em sentir as dores do parto é a visão bucólica e poética falsa, pois existe a visão bucólica e poética verdadeira. De qualquer das formas, suscita-me reacções viscerais. É que se existe uma Verdadeira, por favoooor, elucidem-me acerca do caminho, para que também eu possa ver!

Mas até calculo que esta visão Verdadeira da vida venha por meio de anestesia. Parece que, depois dela, o mundo muda aos nossos olhos. (de facto, o David também andou nas anestesias e realmente experimentou outra visão da vida. agora, se verdadeira ou falsa, realmente, transcende-me.)

Eu, no meu desconhecimento das coisas, prefiro experimentar primeiro, em vez de me converter logo à maioria por meio de conformismo. E, no seguimento desta ideia, aviso que nem vou ser radical. Não. Hei-de ter um parto SEM anestesia e, depois, outro parto COM anestesia, e nem tem que ser por esta ordem. Só então, já devidamente esclarecida, decidirei como quero ter a nova palete de filhos.

Mas talvez o problema desta minoria nem seja (b) a visão-da-vida bucólica e poética falsa. Não, talvez a falsidade desta visão da vida - que faz recusar a anestesia - passe mesmo por ser demasiado romântica. Lamento. É que, novamente, não percebi. É assim tão mau ter uma visão romântica das coisas? É assim tão mau querer sentir as coisas até ao seu limite?

Não sei, se é falsa ou se é verdadeira. Nem, muito sinceramente, me interessa tal dicotomização. Porque, na minha singela opinião de possível-futura-parturiente-em-situação-de-gozar-de-liberdade-e-vontade-própria, não vejo que melhor visão se pode ter da vida se não uma que é bucólica e poética.


(de vez em quando, canso-me de ser morna. mas prometo que um-dia-destes tentarei voltar à harmonia - com a natureza, com as pessoas, e com o mundo. enfim, à harmonia com o universo – e com estas opiniões.)


[*director do departamento de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
** fonte: Jornal do Centro de Saúde, Ano 5, nº 49, Fevereiro 2009]

quinta-feira, abril 28, 2011

paciências (ii)


quem tudo quer, tudo perde. não diria tudo, mas pelo menos parte. ou tem que perder. ou não tem que, mas deve. porque não irá desfrutar o que tem plenamente. quão mais fácil seria, na dúvida, meter tudo no saco e levar para casa. e, na dúvida ainda de por onde começar, manter tudo no saco e saber que temos aquilo, que temos tudo para ser felizes.

mas não, dão-nos simplesmente a hipótese de que fazer escolhas: se queremos o cornetto de morango, o magnum caramelo ou o perna de pau. ou o epá, porque oh menina de momento é o que temos. e sendo o único hesitamos. esperamos, não esperamos. hesitamos enquanto o gelado derrete e se encaminha para o fim da validade.
podemos sim, escolhê-los a todos, quando os há, mas o provável é que a experiência de prazer imaginada se transforme numa tremenda dor de barriga com consequências de dia seguinte. isto quando os podemos escolher a todos, como se pudéssemos estar em todo o lado, ter e viver tudo, tudo ao mesmo tempo.

(não somos omnipotentes,
não somos omipresentes.

no máximo, somos omnívoros. e ainda assim
quando queremos muito
temos que comer a peça à vez.)


domingo, maio 02, 2010

se a minha mente fosse um saco de papel
























(ainda bem que aquele que ganha "o campeonato" nem sempre é o mais óbvio. é aquele que eu alimento mais. aparte isso, talvez isto explique porque é que eu ando com umas tremendas e canhotas dores de peito.)


quarta-feira, dezembro 16, 2009

life is a state of mind


















beware of the territory in which you choose to live.



sexta-feira, setembro 18, 2009

Achas que sim? é melhor não...


Dos meus tempos de liceu, lembro-me de uma vez a minha amiga a. vir uma vez com a conversa Ah Vamos pôr este armário à frente da porta da professora para quando ela tentar sair não conseguir! Apesar da minha falta de arrebatamento perante tal proposta, ela entusiamou-se de tal forma com aquilo que chegou, inclusive, a tentar arrastar o armário. Mas eu, numa empatia que nem sei de onde me vem (hm. empatia mesmo?), pûs-me a imaginar a professora com o seu ar angelical de quem tem 20 e tal anitos e está em início de carreira (hm.), a apanhar uma desilusão tremenda quando visse aquele mono atravessado na porta a impedir-lhe um final de dia em plena rotina.

Oh a.! coitada! já viste? Não vamos nada fazer isso. E, pronto, não fizemos (a a. sempre escutou os meus conselhos sensatos, apesar de raras vezes os seguir). E, pronto, assim se foi por água abaixo aquele plano genial. Mas hoje, à distância, relembro e penso: Oh que borrega! Então vejamos:

Um professor, naqueles tempos, tinha uma vida perfeitamente razoável (digo eu que nunca fui professora) a não ser que fosse director de uma turma-somatório de, digamos, alunos não suficientemente bons para estarem numa turma 'normal' (digo eu que também nunca o fui. professor de uma turma assim, quero dizer. nem assim nem de qualquer outra. não sou nem fui professora. ponto!). Ora, aparte a nossa turma de Inglês III com 3 alunos, a nossa professorinha estagiária devia ter um horário cheio de furos por onde extravasava, muito provavelmente, tédio até mais não. Assim, e isto baseia-se muito em suposições, não devia ter grandes inovações e excitações (relacionadas com a vida escolar, pelo menos).

Chegava à escola, dava as aulinhas, no máximo queixava-se dos programas extensíssimos, aplicava os testes, corrigia os testes, avaliava os desempenhos, chumbava se tivesse que ser, e sem ter que perder tempo a preencher burocracias para justificar o chumbo. Enfim, tinha uma vida ordenada e rotineira. Ou seja, enfadonha. Se eu, nas minhas questionáveis virtudes moralistas, não me tivesse insurgido naquele dia, tinha-lhe muito provavelmete mudado (radicalmente?) a vida. Pois! Então vejamos:

encurralada entre quatro paredes, a dar de face com as costas de um armário... que faria ela? Desenrascar-se, ora pois! Ou então não, e telefonava mas era ao Senhor Director... Mas, seguindo as probabilidades, e acreditando na melhor das hipóteses, seguiria a 1ª hipótese (claro!) Mas como? Ela própria conta, anos mais tarde, aos seus netinhos:

Uma vez, meteram-me um armário à frente da porta da sala de aula, e eu, de saia, tive que escapar pela janela da sala, com quase 2 metros, sobre uma montanha de miúdos que jogavam cá fora à bola. Riram-se à brava da situação e, inclusive, gozaram bastante comigo. Mas depois, ficaram até bastante surpreendidos com as minhas capacidades de fuga! E fui aplaudida em massa! E ganhei o prémio no jornalinho da escola como a Personagem do Século daquela escola! E nuuuunca maaaais fui esquecida naquela escola!

Ou seja, teríamos transformado a professora em heroína. Fantástico! Mas... e eu e a minha amiga a.? Bem... teríamos sido talvez, com grandes probabilidades até, transformadas nas imbecis da fita. E entrado também no jornalinho da escola mas, com grandes probabilidades até, na secção das Orelhas de burro. Enfim, que dizer?, ainda bem que se perdeu o momento.

(há sempre uma forma de justificar da melhor forma o que não se fez e, se calhar, até se devia ter feito.)