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quarta-feira, julho 15, 2009

«E esta, hem?»


Experiência (II)

Nunca fui travessa na escola. Fui sim travessa com a(s) minha(s) avó(s). Com menos de uma década de vida já lhe tentávamos, eu e a minha irmã, passar a perna, convencidas que a esperteza infantil vai mais longe que a sabedoria centenária. Lembro-me que uma vez pegámos em pedaços de pastilha elástica, fizemos bolinhas pequenininas, e colámo-las em raminhos de Mimosa. Depois, com caras de inocência matreira, fomos vender com unhas e dentes aquele achado à minha avó i.. 'Olhe vó, olhe o que descobrimos!' ' Oh, então isso é Mimosa!' 'Não é não vó!, olhe lá, esta tem bolinhas brancas, e a Mimosa não tem!'. Pois sim, riu-se ela. E ficámos nós, com a matreirice a derreter-nos nas mãos.

(enfim, não é à toa que as mães nos mandam investir na sopa. mas acho engraçado, e muito!, que tantas vezes se olhe para os velhos como quem olha para crianças: demasiado crédulos. mas onde raio achamos nós que eles enfiaram os anos de vida?)

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Causas para a desgraça dos povos (I)


Atropelando a variabilidade, existem dois tipos de sorrisos: o genuíno "duchenne" e o alternativo, profissional ou-como-lhe-queiram-chamar, "pan American" (o nome não deixa de ser curioso). Ora, acontece que o primeiro segue as vias da extinção enquanto o segundo prolifera a olhos vistos.

(existe uma altura em que devemos questionar as coisas. uns, ocorre-lhes a ideia com a chegada da maturidade - ou será que a maturidade chega apenas depois da ideia? -, outros torram a cabeça aos pais na idade dos porquês. não sei se eu ainda estou na idade dos porquês ou se algum dia atingirei a maturidade, mas)

Porquê?

Ora, acontece que hoje em dia existem coisas maravilhosas, várias coisas maravilhosas até, entre as quais as chamadas máquinas fotográficas (não me posso estender nas outras coisas maravilhosas, mas). Ora, acontece que essas máquinas só captam o instante (de duração variável, mas) e

(a nossa vida também só capta o instante, o resto esfuma-se no tempo, mas)

é esse instante que tende a permanecer no tempo para as gerações vindouras. Ora acontece que por acaso agora nem interessam as gerações vindouras – não são meus amigos do hi5. ponto. – o que interessa é o aqui e o agora, esse maravilhoso instante captado pela objectiva. Ora acontece que essa lente até é demasiado objectiva, porque só vê o que parece e não se mete com interpretações (há sempre a questão da luz, mas). Ora acontece que a-grande-maioria-de-nós (eu até nem me importava de ser anormal, o pior é que não sou) acha que o que deve passar para a eternidade dos momentos presentes são os momentos de felicidade extasiada.

Porquê?

As teorias evolutivas dizem que parecermos-felizes aumenta a probabilidade de encontrarmos um macho ou uma fêmea que nos considere atraentes o suficiente ao ponto de podermos carregar os seus genes.

(inevitavelmente, a reprodução da espécie)

E isto até faria sentido se percebêssemos o princípio subjacente da saúde mental. E da maior probabilidade de sobrevivência. Mas, o que me preocupa nem é a essência, é a aparência. Pensando que a-grande-maioria-de-nós anda numa de Vá, tira [a foto] rápido que já estou cansada de sorrir! não sei até que ponto esta aparência feliz traduz verdadeira e estável sanidade mental. Ou, pior que isso, verdadeira e estável malinha de valores morais que valham a pena fecundar.

(a mim preocupa-me mais que o injector de genes seja um insensível de sorriso empalhado que um depressivo sincero.)

E inquieta-me que ande para aí demasiada gente a vender o produto, imersa num sorriso americano profissional e que, afinal, tenha é os genes encharcados em anti-depressivos, ou muito-pior-que-isso, em valores-de-superfície que enganem a objectiva dos que sobre eles disparam – aqueles que, depois de seduzidos pela aparência, irão construir as gerações vindouras.

(inevitavelmente, a reprodução da espécie.)

terça-feira, janeiro 27, 2009

Se


a minha avó maria estivesse viva, fazia hoje 100 anos.

(eu, se tivesse nascido em 1909 [a 27 de Janeiro], também fazia hoje 100 anos.)


quarta-feira, outubro 01, 2008

Escapadinhas


A Baixa de Coimbra pela manhã, para quem passa no Mercado e apanha ocasionalmente o autocarro para a zona do Hospital, é uma amálgama de movimentos pendulares – casa-mercado, casa-trabalho, casa-hospital, para mais tarde ser mercado-casa, trabalho-casa, hospital-(com sorte)-casa.

Sim, a Baixa àquela hora da manhã não tem nada de novo. Só movimento e rotina. Ninguém olha para os cartazes que mudam, ou para as sombras que desaparecem. Ninguém repara se a rua foi limpa ou se a fonte brota água. (Reparam sim que a menina da frente tem a saia muito curta, e que a senhora do lado tem um amarelo aberrante. O resto não. Há o almoço para fazer e já são 9 horas!) Talvez por isso, naquela manhã notei curiosamente a convergência súbita que se originava na esquina dos Correios. Amotinara-se ali um bando de mulheres oriundas das manhãs do Mercado. Paradas junto à esquina, nos seus 60 anos enérgicos, olhavam escancaradamente para a caixa de electricidade suja e amolgada. Que se passa? Pensei eu, Será Um rato gordo com as tripas de fora? Um regurgitamento ainda fresco de vomitado? O amarelo da senhora do lado respingado de excrementos de pomba? Serão ainda, deixadas por um qualquer estudante bêbado, fezes abismais? Ou seria simplesmente, Um mendigo descoberto? Não. Nada disto. Sozinhas, no imenso fundo branco encharcado em cola de parede, ressaltavam pretas mas reluzentes as letras da palavra

Ex cur são. Uma Ex [pausa] cur [pausa] são! (e logo ao lado, Festa!)

Onde? Quando? querem saber! Lêem rapidamente o cartaz tentando escapar ao apelo da palavra provocante; discutem avidamente o conteúdo. E percebem ligeirinhas que, de facto, nem interessa. Fossem comunistas não fossem, era Uma excursão!

UMA Ex cur são! (e uma Festa!)

Fantástico. Confesso que me arrebata este fascínio dos 60 anos (perdoem-me a redução a esta faixa etária) pelas viagens atribuladas dentro de um autocarro. A malta da terra, as curvas apertadas, o Ai José! Ai Maria!, os sacos a abarrotar e a rebolar de sandes anafadas. O pão-de-ló para a sobremesa, ou a torta DanCake do mini-mercado da Josefa. O garrafão de vinho caseiro religiosamente amparado entre os tornozelos cheiinhos. A toalha rendilhada e bem dobrada para ser deitada na mesa de piquenique. Os peitos farfalhudos de pêlos sobre os quais reluz juntamente com o suor um grossito fio de ouro. As boinas impecavelmente direitas. A saia bem bonita pelo joelho, a camisa de domingo aos folhos, Ou de seda. O tamanco moderno, Ou o sapatinho que comprei ali nas Modas da Rita. Os brincos pendentes que rasgam a orelha. O cabelo a cheirar a laca, com mais caracóis do que as couves que ficaram, naquele dia, daquela vez, a crescer na horta do mercado (a época faz mudar as aparências e as coisas de sítio, mas não lhes muda a Natureza).

Fascina-me. Esta geração, agora já terceirinha, que não se volta a repetir. Esta geração que define que os primeiros 100 anos se passem a trabalhar para o futuro, mas que permite que, a partir dos 50, se acrescente a vontade da escapadinha, dada ocasionalmente, em dias parecidos com o domingo. Fascina-me.

É que neste convívio salubre – traduzido no êxtase da Excursão – manifesta-se mais uma etapa da vida. Havia a idade dos porquês, a idade do armário, e a idade de apanhar os caracóis das couves (a época faz mudar os nomes das coisas e as manifestações, mas não lhes muda a Natureza). Agora, algures depois dos Renault 5 e das carrinhas Peugeot 504 Break, há também a idade do autocarro (leia-se, da Excursão! e da festa!).