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quarta-feira, fevereiro 23, 2011

deadlines

I

no primeiro dia do mês ela escreveu uma linha e fez tudo o resto.
no último dia do mês ela escreveu tudo o resto e fez apenas uma linha
da vida dela.

(há algo de interessante acerca dos prazos-limite.)


II

primeiro, considerou todos os pormenores a ter em atenção na obra-de-arte, todas as partes, todos os materiais, todos os jeitos particulares, tudo. es-mi-u-ça-di-nho.

passou um mês. data limite. ahhh! o quê, já??! cagou nos pormenores e incluiu apenas o essencial.

(viver passa muito por definir critérios. mas definir o que é essencial também passa muito por definir prazos-limite).


o gajo tinha tudo pá


tinha um MG, tinha uma casa na Quinta do Rombaial, era engenheiro, filho de médicos, neto de alfaiates, tinha casa em Albufeira, outra em Cascais, e outra na Figueira para os fins-de-semana da preguiça. tinha boas notas, era bom aluno, tinha mimo, dinheiro, status. enfim pá, tudo.

(se calhar não.)


segunda-feira, janeiro 24, 2011

como pode um só homem representar uma nação?


a minha tia é um amor. tem braços de ferro e força suficiente para mover montanhas. passa os dias de mãos na terra, a plantar os alhos e a ver dos kiwis e das alfaces, e a levantar-se cedo para ir levar a colheita ao mercado. e ri, muito, tanto que é um regalo vê-la a rir.
este domingo contáva-nos ela, a mim e ao meu amigo j., a sua lida da terra:

pois, andava lá eu com um cherrebeco a empapar a terra. sabe?
(o j. franze os olhos como quem tenta ver.)
é com uma foice de bizar, sabe?
(o j. faz um esgar de dor por não conseguir saber.)
é a como uma pedoa!
(não, não sabe. nem ele nem eu.)


(uma pessoa anda na escola, aprende a ler os textos do saber, e depois os livros da economia, aprende a escrever correcto e direito, com as palavras certas, sem enganar nos termos, aprende a falar e a comunicar com os dirigentes do mundo. fala direito e bonito, e faz boa figura na televisão.
mas passados tantos anos afastado das gentes das terras, que pode ele entender do que eles dizem e do que eles realmente querem saber?)


segunda-feira, setembro 06, 2010

who are you

       
ca'los c'ús. era assim que, na idade tenra, a minha irmã chamava o apresentador do 123. era o seu predilecto. estava na inocência de achar, ou de nem pensar, que um homem só deseja uma mulher para lhe dar beijinhos e ser mãe de filhos. que um homem só deseja uma criança como pai, ou como irmão mais velho, para a amar candidamente. nunca para encontrar na sua pele doce o que não encontra no companheira/o. nunca para encontrar nas suas entranhas algum prazer.

saiu esta 6aF no Público uma reportagem sobre o Parque Eduardo VII. falava-se dos cenários que se criam. da prostituição por prazer, por dinheiro. das fugas às rotinas. das rotinas alternativas. e das personagens. o sérgio é casado e a mulher "nem sonha que ele faz aquilo". ele vai buscá-la ao emprego, jantam, conversam e fazem amor. só depois, pela calada da noite, enquanto ela dorme, vai satisfazer os outros. ela não lhe conhece as faltas. as necessidades. desconhece-lhe a incompletude que o preenche e que, noite após noite, procura numa vida pouco bem vista aos olhos da sociedade convencional. estes familiares são outsiders. são gentes que vivem na incredulidade que estas coisas acontecem perto. o que ouvem são estórias que se contam, estórias de gentes doentes. mas, acima de tudo, de gentes distantes.

quando os noticiários anunciaram o escandâlo dos meninos da casa pia e dos seus intervenientes, descaiu-nos o queixo. caiu perante o povo, e caiu perante as famílias dos acusados. como se lida com isto? com um lado lunar que desconhecemos e que faz parte de quem amamos? é passível de ser amado? prefere-se acreditar e perdoar, ou é preferível negar e acreditar no que o parceiro nos assegura? de qualquer das formas, é preciso muito amor. ou muita "logística".

depois das sentenças lidas, passou-me pela cabeça a possibilidade de eles serem 'inocentes'. dessa ínfima possibilidade que tantas vezes escapa às mãos da justiça. da possibilidade de haver essa possibilidade. e ficou a dúvida. a germinar. mas absolvidos ou não um dia, o povo julgou o que ouviu. e foi inflexível. após a confiança traída, não há veredicto que lhes volte a caiar as vidas.

depois das sentenças lidas, ficam as mulheres dos réus. as famílias. pois ainda que declarada persistentemente a inocência, fica a pairar, como abutre incansável, a possibilidade de eles serem mesmo culpados.


(não há nada mais corrosivo do que a dúvida. quando a confiança é abalada, é ela que lhe destrói as bases.)
       

 

terça-feira, novembro 11, 2008

Abrázame



















(Festival dos Abrazos, Santiago de Compostela, Agosto 2008)



Eu também se pudesse andava por aí aos abraços a toda a gente. E contornava os seus limites com força desmedida.

mas, depois,
há a incontornável questão
do espaço pessoal.

e mais que isso,
o terminante motivo
da higiene.

(anda por aí muita gente desconfortável com a fraqueza última dos homens: o afecto.)

quinta-feira, junho 19, 2008

Pirâmide das necessidades.

Sou um homem de negócios. Faço negócios. Sempre fiz negócios. Sempre fui um homem de negócios. Desde o tempo em que trocava laranjas por rebuçados, apontamentos por ténis novos, bolas de futebol por nomes de raparigas. Hoje troco serviços por lucros. Por segurança. Por conforto. Para no final do dia chegar a casa e dizer “Querida, cheguei a casa”. E receber nos lábios o beijo enternecido e nas pernas os abraços fortes dos bracitos exaustos de um dia de brincadeiras.

Cheguei ao topo da montanha. Quando saí do trabalho, cansado e exaurido de tentar convencer o mundo, de lhe mostrar que os meus serviços são os melhores, que sem eles não vale a pena progredir neste negócio, Quando cheguei a casa, ansioso pelo beijo e pelos abraços, Quando abri a porta, quando entrei… encontrei o silêncio. Querida, cheguei! Silêncio. Meninos! Calado o espaço.

Não sei se é de mim, mas quando se está no topo da montanha, não se vêem as pedrinhas pequenas cá em baixo, esquecem-se as tortuosidades do caminho. O momento é aquele. O resto não existe. A minha mulher estava deitada. Caída pelo chão. Afastados, os pequenitos, e os seus bracitos frouxos e ensanguentados. Sempre achei que percebia tudo acerca de trocas. Até hoje. Troco a minha vida, agora, por um pedaço de paz. Bang.