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quarta-feira, março 31, 2010

vislumbre



eram três da tarde quando o senhor marcelino a viu. eram três e um quando o sr. marcelino tombou.

ele. era um homem calvo, de meia idade, e bochechas pingadas. morava numa das ruas da baixa e desde a viuvez que se metia sozinho pelos cantos, cambaleando ao som do vinho. por estes dias ia circundando pelo parque, entregue às vozes soltas dos seus pensamentos.

ela. tinha a pele morena, lisa, e os olhos verdes de verdes vários. a luz batia-lhe de chapa, e descascava-lhe a beleza. tinha as formas cheinhas e arredondadas - pois quando o sr. marcelino, restabelecido da queda, correu desenfreadamente no seu encalço e se abraçou estampadamente nela, não se lhe tocavam as mãos.

ergueu-se, e ali ficou. e ali esteve ele. nos restantes dias, nas restantes noites. de olhos a sonhar, embalado sobre o fresco peito dela. as pessoas passavam e olhavam-nos. ele seguia-as com o olhar, rodopiava em torno dela e, fechando os olhos descansado, sorria. ele, nos braços fortes dela. ela, aconchegada no abraço dele. ele apertava-lhe o corpo contra o seu e dançavam. ela estendia os braços ao céu, e dançavam. os dois. ao vento. dançavam suavemente sob o luar de Janeiro, sob as chuvas de Abril, e o voo das folhas secas de Outubro. e, ao som do chilrear dos pássaros, dançavam os dois até adormecer.

(eram três da tarde, três, quando o sr. marcelino se apaixonou pela menina árvore.)


segunda-feira, janeiro 28, 2008

We should all be hard candies


I - Quando os frutos caiem.

Se amadurecer significa deixar de ver o mundo de forma bonita e iluminada
e sentir na pele o estalo rude da terra dura,
então devo estar no bom caminho
para um dia poder dizer que, enfim,
apodreci…

II - Loja das Grosserias.

Da próxima vez que te vir entrar na loja de guloseimas com o teu vestido de cetim azul e com esses teus sapatinhos de verniz vermelho, e te vir mostrar esse sorriso cândido de menina
- dessa próxima vez que te vir sonhar –
vou-te agarrar na face suave e nos cabelos doirados
e dizer-te aos ouvidos num rasgão:
que esse Senhor simpático que te mostra os doces como se te os oferecesse apenas,
que esse Senhor que te pede as horas e a quem tu as dás, agradecida,
que esse Senhor maduro e pai de meninas como tu,
é vendedor.
E que esses doces que te estende,
na sua sabedoria refinada,
são doces ressequidos, amargurados e degustados;
E que, afinal, o que esse senhor oferece não são os doces
mas os murros no estômago que ficam no final.

III - Porcos

Enojam-me os senhores que
levam na algibeira descontraída a cartilha do saber muito
e tudo,
e que,
depois,
confundem meninas com Meninas.