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quarta-feira, outubro 21, 2009

a spot (II)


não sei se depois quereria o contrário, e é até provável que o quisesse, porque no depois costuma ser o contrário aquilo que se quer. o contrário do que se tem. mas

aparte-de-todas-as-outras-vezes em que apenas quero sentir, às vezes quem me dera não sentir. ou pelo menos não ter consciência disso. quem me dera andar, parar, e voltar a andar. sem pensar muito sobre isso. something like

hello stranger,
goodbye stranger.

(na falta de consciência, não há antes nem depois. não há sequer as amolgadelas do durante. só um instante demasiado rápido que já passou, e que esgotado se esfumou. e, recomeçado outro instante, ficámos nós, 'shining like brand new'.)


segunda-feira, outubro 12, 2009

noutro mundo talvez


pensar que neste tempo todo que acumulamos, que em todos estes anos que andamos por aqui tantas vezes à deriva, que nesses instantes todos que deixamos (es)correr, vazios, perdidos em horas que ficam por preencher de coisas que nos encheriam a vista, que nos dariam outro fôlego, Mas que não enchem, que não dão, porque esses instantes Passam apenas com o andar (in)finito de uns quaiquer ponteiros de um qualquer relógio.
pensar que nesse tempo, nesses anos, nesses instantes, nisso tudo junto e arremessado connosco um dia à terra, ao húmus, pensar que nunca conheceremos coisas belas, belíssimas, ou bonitas apenas, que até teríamos a oportunidade de saber se o acaso o permitisse, se as coisas tivessem etiquetas pelas quais as pudéssemos procurar. e não chegaríamos a essa terra que nos aguarda enquanto não as provássemos a todas.

pensar que essas coisas que nos encheriam a vista, e o peito, se as pudessemos ver e ouvir e saber-lhes o sabor, essas coisas que nos fariam falta se soubessemos como tudo mudaria depois de as sabermos Mas que assim não faltam e nada muda porque não as sabemos, Pensar nisso, em todos essas coisas belas que são agora ou que foram e permanecem, nessas coisas que se perdem, pensar nisso angustia. porque ficam por conhecer, ficam por tocar, ficam por sentir.

porque ficam por descobrir. e toda uma vida por mudar.

terça-feira, julho 21, 2009

instantâneo










(Porto, Portugal, 2009)


Enquanto estendo o pé em cada passo,
enquanto vislumbro a estação,
enquanto subo o degrau do comboio,
enquanto me sento e acomodo,
enquanto espreito pela janela,
enquanto vejo a cidade a mover,
enquanto páro na estação seguinte e depois na outra e na outra depois,
enquanto contemplo o homem sentado,
enquanto o vejo afastar-se, momento atrás de momento, sem rasto palpável, ou que possa aconchegar no colo, enquanto lhe tento reter a face, a expressão, pensando que talvez não o volte a ver jamais, e se me derretem na boca, como algodão doce, esses pensamentos fortuitos,
enquanto se dissipa também ela, a face, na marcha do comboio,

e se me passa, também, este dia pelas mãos, pelos olhos, em sons e gostos que só saberei depois,
aí, nesse(s) entretanto(s) prolongado(s), pergunto-me

para onde vão eles, esses instantes em que pedalamos à velocidade da luz?


(assim, visto de passagem, parece-me que gastamos a vida ou no passado ou no futuro. fazia-me falta às vezes abrir a janela do comboio e deitar borda fora Tudo o que não seja aquele instante. Mas.)

segunda-feira, junho 01, 2009

O melhor cego.






Just sitting here and trying to decipher / What's written in Braille upon my skin / On this skin. (Regina Spektor, Braille, 11:11)

(se te for difícil ver, encerra os olhos. depois, certo que a luz cega e que as cores iludem, escuta no tacto, nos gostos, nos cheiros. escuta, cá dentro, nas vísceras, as sensações.

porque o melhor cego é aquele que não quer ver - não, não quer. e, assim, desiludido já das coisas, este cego quer apenas e afinal
sentir.)

segunda-feira, setembro 01, 2008

Baratas

Económicas, chama-lhes a Susana.
E são: borrifam-se abundantemente com o Mata-Spray e, ainda assim,
duram, duram, duram, duram...

(eu sei que devia meter o pé encima e pronto.
mas a sensação do meu sapatinho naquelas costas arqueadas, naquele corpo cheio de patas, naquela minúscula cabeça com antenas, naquela criatura crocante e inteligente,
também dura, dura, dura, dura...)