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sexta-feira, maio 06, 2011

tangível


podemos não [poder] ser tudo aquilo que queríamos. mas sem dúvida que podemos [tentar] ser tudo aquilo que somos.


quinta-feira, abril 14, 2011

Hulk (IV)

(cont.)

grito piso corro e discorro em mil e um pensamentos de mil e uma palavras de letrinhas de palavras esganiçadas,

arranco arranho puxo pulo. desgrenho-me. a mim e à mente que se retrai na consciência do que disse. magoo. a mim, a ti, a nós, com as mazelas da reflexão que vem depois, sempre depois, no infinitésimo segundo posterior. e extenuados, retraí-mo-nos.
e paramos.

à volta os despojos. um mundo ao contrário assente no descontrolo dos relógios rítmicos. dos relógios com palavras certas para as ocasiões certas, para isto e para aquilo, certo, para o que deviam ter sido feitas, nas quantidades mínimas e máximas, exactas, que preenchem o copo. mas que nunca o deveriam fazer transbordar.

ficamos nós, se é que ainda somos nós, nós a exalar o fumo da destruição. valeu a pena? nem tudo vale a pena.
sim, de que vale tudo isto, de que vale? mudaste acaso tu? mudei acaso eu? mudámos nós o mundo à volta da forma como as nossas visões incompatíveis o queriam irreversivelmente mudar? talvez. talvez não. trocámos matéria, pelo menos, gerámos anticorpos. enxuvalhámos a barreira, talvez. talvez não.
não sei. não sei mesmo, a saber de saber certo não sei. a não ser que levo o teu copo sempre cheio, e nunca sei onde meter a gota que o vai fazer transbordar.


(quando nos enraivecemos tornamo-nos verdes e feios. mas
no fundo, pior que isso é sermos segurados pelas costuras.)


Hulk (III)

(cont.)

mas eis que, piff paff, uma última letrinha, perdida ainda da frase, encontra o caminho e, FLUSH FLASH, SPLASH, transvaza o copo! AAAAAAAAAAAAAAAAAHHH. uma onda forma-se na superfície, AAAAAAAAAAAAAAAAAHHH, uma onda cresce na superfície, AAAAAAAAAAAAAAAHHH, uma onda engole-me subitamente. sinto-me encharcada, metida num charco qualquer. sujo. suja. AAAAAAAAAAAAAAAHHH. ensopada. sinto-me a absorver, a engolir, a inchar.

então, em contacto com as minhas vestes, com a minha pele e com a minha mente, o líquido vítreo começa a tomar cor. incorre em reacções químicas diversas, o coração dispara a respiração acelera os músculos contraem-se e a garganta ferve. tudo isto no espaço de segundos, milésimas de segundo. PAMPUMPAMPUMPAMPUM.

a pele tinge-se, reveste-se, toma a cor da inveja, do nojo, da impaciência contida nas entranhas até não se aguentar mais. a língua contorse-se e acelera - tss-PÁS. as palavras aceleram tambem em chicotadas fortes de língua afiada. tss-PÁS. e então, cá vamos nós,
digo o que quero e o que não quero. o que me vai na mente consciente e o que me vai na outra, na subterrada, inacessível ao grande público (e, por vezes, inacessível até a mim). a que corre nas entrelinhas do que sabemos e do que achamos que sabemos

(ah se nós nos endendessemos plenamente)

e perco o controlo.

(continua)

quarta-feira, abril 13, 2011

Hulk (II)

(cont.)

encontro A que me conta docemente, vejo B a quem escapa o sorriso, foge-lhe na frente e vai de encontro a mim, ui!, pede-me desculpa, desculpado. devolvo o sorriso ao dono. passo por C que me é indiferente, e por D que admiro profundamente. nunca sei o que dizer de E. já para F tenho o maior copo do mundo.
mas vem G. oh, G. G prepara a palavra, retêm-na, embrulha-a e quando uma pessoa pensa que a palavra vem trabalhada, concluída, lança a pobre no alto, desprovida de sentido e de preparação, completamente desamparada. tento agarrá-la, mas escapa-se-me entre os dedos, e cai no chão sem cumprir a tarefa - permanecemos distantes, sem fio de ligação.

G... tenho para G um copo fino e semi-cheio. mas as suas palavras são tão pesadas, que o enchem rapidamente. mas oh. G não desiste. há nova actividade em G. G mastiga suavemente. G está a preparar um novo arremesso. e, ainda que o preveja, duvido sempre estar preparada para o aplacar. G prepara-se, mastiga e, zás!, cospe rapidamente a sopa de letras - VUM VUM VUM - as letrinhas inocentes enrolam-se pelo ar, esticam os membros tentando desesperadamente encontrar pontos de apoio. olho-as pelo ar, em câmara lenta, BA - DOM, BA - DOM, BA - DOM. as letrinhas, uma a uma, desconexadas, avançam no meu encalço - VIIM, VOOM, VAAM - e, paff, caiem direitinhas no copo prestes a extravazar.
mas a água retêm-se na borda, ufa, foi por pouco. porque a cabeça estava quente.

(continua)

terça-feira, julho 20, 2010

montras



servimo-nos aos outros enfeitados.


















                
mas ninguém sabe o que temos cá dentro.


            

terça-feira, outubro 21, 2008

Paciências

            
Tudo certinho
Tudo direitinho
Tudo engomadinho
Tudo aprumadinho
Tudo arrumadinho
Tudo limpinho
Tudo engraxadinho
Tudo combinadinho
Tudo sorrisinho
Tudo inho inho inho.
Tudinho!

Zás! Vem um tipo
e desmancha tudo.

Será possível que tudo permaneça
certinho direitinho sorrisinho?

(fascina-me o controlo da raiva. dá-me sempre a secreta esperança de ver alguém rebentar pelas costuras.)