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quinta-feira, abril 14, 2011

Hulk (III)

(cont.)

mas eis que, piff paff, uma última letrinha, perdida ainda da frase, encontra o caminho e, FLUSH FLASH, SPLASH, transvaza o copo! AAAAAAAAAAAAAAAAAHHH. uma onda forma-se na superfície, AAAAAAAAAAAAAAAAAHHH, uma onda cresce na superfície, AAAAAAAAAAAAAAAHHH, uma onda engole-me subitamente. sinto-me encharcada, metida num charco qualquer. sujo. suja. AAAAAAAAAAAAAAAHHH. ensopada. sinto-me a absorver, a engolir, a inchar.

então, em contacto com as minhas vestes, com a minha pele e com a minha mente, o líquido vítreo começa a tomar cor. incorre em reacções químicas diversas, o coração dispara a respiração acelera os músculos contraem-se e a garganta ferve. tudo isto no espaço de segundos, milésimas de segundo. PAMPUMPAMPUMPAMPUM.

a pele tinge-se, reveste-se, toma a cor da inveja, do nojo, da impaciência contida nas entranhas até não se aguentar mais. a língua contorse-se e acelera - tss-PÁS. as palavras aceleram tambem em chicotadas fortes de língua afiada. tss-PÁS. e então, cá vamos nós,
digo o que quero e o que não quero. o que me vai na mente consciente e o que me vai na outra, na subterrada, inacessível ao grande público (e, por vezes, inacessível até a mim). a que corre nas entrelinhas do que sabemos e do que achamos que sabemos

(ah se nós nos endendessemos plenamente)

e perco o controlo.

(continua)

quarta-feira, março 26, 2008

Ainda bem que há o outro.

        
Tenho andado a pensar na vida. Nas coisinhas da vida. Nas coisinhas minúsculas. Nas coisas do nosso tamanho. Neste mundo. Nas pessoas. No mundo que as pessoas construíram. Nas mesquinharias. Nos nadas. Nos nadas e nas tardes de chuva. Na luz cinzenta por entre a janela de uma casa vazia. Na velha dessa casa vazia. Nos filhos dessa velha que viveram numa casa cheia que agora é vazia. No abandono dessa velha. Nos anos que passam. Em tudo o que se deixa para trás. Nos sonhos que tínhamos. Nos sonhos que já não temos. Nos sonhos que decidimos apagar, à medida que a nossa sombra cresce. No que víamos e já não vemos. No que não víamos e passamos a ver. Na ilusão. Na desilusão. No sentido da vida. No sentido desta vida. No tempo. Nos velhos. Nos velhos doidos. Nos velhos que nos olham. No que os velhos vêem. Nos novos que já foram. Nos novos que foram como nós. No que nós ainda não vemos. Nas rugas e na celulite. No que vemos dos outros. No que vemos nos outros. Nas relações. No que nos liga aos outros. No que queremos dos outros. No que eles querem de nós. Nos medos. No sentido desta vida. No que vale a pena. No que não vale. No dinheiro. Na Política. No Pinóquio. Nas políticas. Na batalha naval dos crescidos. No poder. Nas pressões. Nas verdades que se escondem. Nas verdades que nunca saberemos. Nas verdades que não existem. Nas mentiras que nos vendem. Nas mentiras em que escolhemos acreditar. No fardo desta vida. Na morte. Na fé. Nas crianças. Nas crianças degoladas com os olhos postos no sonho. Nos adultos engravatados, e razoavelmente vivos. Nas crianças adultas. Nos adultos embirrentos e chatos. Nos adultos cruéis. Nas mãozitas endurecidas pelo peso de uma arma. No olhar das crianças. Nas crianças sem olhar. Na fragilidade da vida. No azar. No destino. No imprevisto. Na injustiça. Na ironia da vida. Nas coincidências. No acaso. No que insistimos em querer dar nome. No que não tem nome, nem sequer existência. No que queremos explicar. No que não tem explicação. No homem e na sua natureza. Na essência do homem. Neste jogo em que entramos nem sei bem quando. Neste jogo de aparências. Neste jogo nojento. Em pulsos cortados. Em medos. No resto. No que vale a pena. Nos laços que nos amarram aqui. Nos laços que temos e que, nem assim, nos permitem ficar. Na eterna ironia da vida. Em faces no chão e o vento na face. No fim. Enfim, na vida. Triste, mesquinha, pesada e injusta. O que vale é que é curta, muito curta.

(A minha mãe diz: ainda bem que há o outro, senão – credo! – isto seria uma injustiça. Fico a pensar que para suportarmos esta vida apenas precisamos de uma boa, muito boa mentira.)