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quinta-feira, maio 17, 2012

muros


- i love you Kevin.
- nhe nhe nhe nhe nha.



(esta mania de estabelecermos barreiras no afecto. de não querermos mostar que apesar de toda a mágoa e desconfiança que se instala, se ama, ainda. esta mania de perpetuar o ciclo. e de nos tornarmos ridículos.

era amar o outro até ele se render. pregar-lhe com cada estalada de afecto que ele se cansava de combater à defesa. mas para isto era preciso ter a sanidade de ver... e o nosso cérebro prefere render-se ao orgulho cegamente.)
    

quinta-feira, abril 14, 2011

Hulk (IV)

(cont.)

grito piso corro e discorro em mil e um pensamentos de mil e uma palavras de letrinhas de palavras esganiçadas,

arranco arranho puxo pulo. desgrenho-me. a mim e à mente que se retrai na consciência do que disse. magoo. a mim, a ti, a nós, com as mazelas da reflexão que vem depois, sempre depois, no infinitésimo segundo posterior. e extenuados, retraí-mo-nos.
e paramos.

à volta os despojos. um mundo ao contrário assente no descontrolo dos relógios rítmicos. dos relógios com palavras certas para as ocasiões certas, para isto e para aquilo, certo, para o que deviam ter sido feitas, nas quantidades mínimas e máximas, exactas, que preenchem o copo. mas que nunca o deveriam fazer transbordar.

ficamos nós, se é que ainda somos nós, nós a exalar o fumo da destruição. valeu a pena? nem tudo vale a pena.
sim, de que vale tudo isto, de que vale? mudaste acaso tu? mudei acaso eu? mudámos nós o mundo à volta da forma como as nossas visões incompatíveis o queriam irreversivelmente mudar? talvez. talvez não. trocámos matéria, pelo menos, gerámos anticorpos. enxuvalhámos a barreira, talvez. talvez não.
não sei. não sei mesmo, a saber de saber certo não sei. a não ser que levo o teu copo sempre cheio, e nunca sei onde meter a gota que o vai fazer transbordar.


(quando nos enraivecemos tornamo-nos verdes e feios. mas
no fundo, pior que isso é sermos segurados pelas costuras.)


Hulk (III)

(cont.)

mas eis que, piff paff, uma última letrinha, perdida ainda da frase, encontra o caminho e, FLUSH FLASH, SPLASH, transvaza o copo! AAAAAAAAAAAAAAAAAHHH. uma onda forma-se na superfície, AAAAAAAAAAAAAAAAAHHH, uma onda cresce na superfície, AAAAAAAAAAAAAAAHHH, uma onda engole-me subitamente. sinto-me encharcada, metida num charco qualquer. sujo. suja. AAAAAAAAAAAAAAAHHH. ensopada. sinto-me a absorver, a engolir, a inchar.

então, em contacto com as minhas vestes, com a minha pele e com a minha mente, o líquido vítreo começa a tomar cor. incorre em reacções químicas diversas, o coração dispara a respiração acelera os músculos contraem-se e a garganta ferve. tudo isto no espaço de segundos, milésimas de segundo. PAMPUMPAMPUMPAMPUM.

a pele tinge-se, reveste-se, toma a cor da inveja, do nojo, da impaciência contida nas entranhas até não se aguentar mais. a língua contorse-se e acelera - tss-PÁS. as palavras aceleram tambem em chicotadas fortes de língua afiada. tss-PÁS. e então, cá vamos nós,
digo o que quero e o que não quero. o que me vai na mente consciente e o que me vai na outra, na subterrada, inacessível ao grande público (e, por vezes, inacessível até a mim). a que corre nas entrelinhas do que sabemos e do que achamos que sabemos

(ah se nós nos endendessemos plenamente)

e perco o controlo.

(continua)

terça-feira, março 29, 2011

Adão e Eva


De há uns anos para cá que reparo neste facto. A resistência das pessoas em mudar de estado. Óbvio, dir-me-ão alguns: poupança de energia. De facto, e num exemplo muito concreto, tendemos a manter os guarda-chuvas abertos quando pára de chover. E isto é uma poupança de energia, certo? Pois. Fechar o guarda-chuva implica inovação, mantê-lo aberto só implica rotina. E um braço erguido com músculos contraídos na continuidade de um tempo. Poupança de energia? (Bah…).

Parece-me que este facto reúne não só fragmentos de inércia, ou de preguiça, mas também outro tipo de evidência: de facto, muitas vezes só damos conta que parou de chover quando olhamos para o sujeito ligeirinho que nos ultrapassa. E o que tem este sujeitinho de especial? É que este sujeitinho passeia-se de guarda-chuva a balançar no braço (i.e. fechado). Nesse momento, e nesse exacto momento, damos conta que:

- Oh, parou de chover! Oh, ele já fechou o chapéu! Oh, e eu não!

(dito por outras palavras, a consciência do próprio através da consciência do outro. Ou seja, o que acontece é uma actualização da revelação do jardim do Éden: - Oh, estás nu! Ah! E eu também! – simplesmente, agora, numa situação de desigualdade: Ah, e eu não!)

E o que acontece a partir daqui? Isso é outra questão. É que a comparação com o outro tem muito que se lhe diga. De facto, quando vemos um sujeitinho a passear de chapéu a balançar, fechado, percebemos que (a) o outro tem o chapéu fechado, e (b) nós temo-lo aberto, que (c) ou ele é parvo, (d) ou nós estamos desactualizados. Cedo nos apercebemos que, afinal, (e) parou mesmo de chover e que (f) o outro está já melhor adaptado à situação. Logo, inevitavelmente, (g) sentimo-nos ridículos.

E o que fazemos quando nos sentimos assim, (g) ridículos e (d) desactualizados? O outro dia, num cenário de chuva-molha-parvos, vi passar por mim pessoal-do-chapéu-já-fechado. Confronto traz consciência, consciência traz decisão – fechei o chapéu. Num ápice, passa por mim um inerte-ainda-com-o-chapéu-aberto. Olhou-me, catrapiscou-me o chapéu-já-fechado, e prosseguiu. Sem fechar o chapéu.

Pasmei. Não pode ser, isto vai contra a hipótese! E até poderia não ser, e poderá não ser assim mas, então, sorrateiro, depois de passar por mim e de passar a dar as suas costas às minhas, eis que o senhor fecha o chapéu [tive que espreitar... ...]. Hmmmm!


(parece-me a mim que há todo um enigma em torno desta questão de fechar ou manter-aberto o chapéu. e a olhar para as coisas, a tentar vê-las, isto é acaba por ser uma revisão de vida: uns andam toda a vida de chapéu aberto, debaixo dele, cegos por ele, sem notar que estão desactualizados. Outros insistem em fechar o chapéu, Chova não chova, é sempre ridículo e eu aguento nevões. E molham-se. Outros, fecham, abrem, tornam a fechar, e não necessariamente em consonância com a queda da chuva. Outros ainda abrem-porque-o-outro-abriu – fazem porque o outro fez, avançam porque o outro avançou - mas, cegos pelo orgulho, insistem em manter-se na sua, em não remediar o feito, em não fechar o chapéu, embutidos numa vergonha essa sim, ridícula - só para não terem que admitir que outro, afinal, está agora melhor adaptado – leia-se, um pouco mais correcto - que nós. E é esta parte da natureza humana que me angustia: quando não nos permitimos o arrependimento só porque não queremos vergar o orgulho. Porque não é o conhecimento de que estamos nus que nos afasta do Éden, pelo contrário, é a recusa em admitirmos que o estamos.)


[Agosto, 2008]