"The range of what we think and do is limited by what we fail to notice. And because we fail to notice that we fail to notice there is little we can do to change until we notice how failing to notice shapes our thoughts and deeds." (Ronald D. Laing)
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quinta-feira, janeiro 13, 2011
sexta-feira, fevereiro 27, 2009
A importância de ser Verónica
A avó do r. já foi Verónica. Uma das melhores!, palavras dela na boca dele. A avó da j. também já foi Verónica, e a mãe dela também. Todos os anos, no dia de Passos, junta-se a multidão para ver a Paixão. Chegou a vez da j., ela própria, ser Verónica. E foi. Mas desafinou. Ui!, bichanaram as antigas Verónicas. 1000 e quantas pessoas, centenas de ex-Verónicas a assistirem, e ela desafina-me pá!
Imagino a cena. Cristo a morrer com a cruz às costas, as mulheres choram, gritam, berram – tudo corre como planeado. Cristo a cair esparramado no chão, ferido e cansado. O suor, o sangue, gotejam-lhe pela face. Do meio desta massa de lamentos irrompe a Verónica, que acorre com o lencinho branco entre as mãos. A multidão continua em delírio, aos berros. A Verónica prostra-se perante o Homem, limpa-lhe o rosto e, depois, muito esperadamente, canta. A multidão, até então completamente alucinada, detém-se. Ui! quem é esta? ai! desafinou. e bem! que vergonha. no meu tempo isto não era assim, ai não era não. e quando eu fui Verónica? ui!
Cristo ergueu-se já. Prossegue com a cruz às costas. Deixa um rasto de sangue, sobre o arrastar pesado da cruz, até ao Calvário. Mas tem o rosto mais limpo.
(há coisas que me transcendem. a importância de se ser-Verónica não é uma delas: transpuséssemos todos o pranto e limpássemos o rosto a quem carrega uma cruz. mas, já a importância de não-se-desafinar quando desesperamos e vemos morrer aos poucos e injustamente alguém que amamos, ultrapassa-me, ui!, e bem.)
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