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quinta-feira, fevereiro 25, 2010

(as)simetria


olho-os nos olhos. são velhos. passam por mim arrastando-se pelas ruas. olham-me também. vêem-me através da lente baça, e triste. olham-me por fora, cá para dentro. e rebuscam. é um olhar pesado, enorme, que me abraça o corpo. e aperta.

confundem-me, os velhos. aqueles velhos. pergunto-me o que é que eles (me) vêem. como é que eles (me) vêem. lançam olhares calados ao vento, e eu oiço-lhes os sussurros. pedem-me que os espreite por baixo das peles, que lhes veja os verdes anos. ainda. que lhes rasgues as vestes coçadas e os veja homens. (de quando?) mas eu sou menina. e vejo-os velhos. apenas. quero guardar a sabedoria de ver-para-além-das-aparências para os anos vindouros. para quando for velha. de olhar nos olhos e abrir a porta.

mas agora não.

eles olham-me, ainda. perfuram-me. querem-me a juventude. (qual?) amedontram-me, os velhos. aqueles velhos. sentem os últimos grãos na ampulheta e olham-me desesperadamente como se me sugassem a vida. tenho medo de ser como eles. de me tornar como eles.

e a pouco e pouco, nesse medo, sinto-me definhar também. mantenho a cara da menina, e o corpo jovem. mas e o resto? arrasto-me com eles pelas ruas, enquanto me pergunto

quando eles olham para mim, afinal vêem quem?


sexta-feira, fevereiro 27, 2009

A importância de ser Verónica


A avó do r. já foi Verónica. Uma das melhores!, palavras dela na boca dele. A avó da j. também já foi Verónica, e a mãe dela também. Todos os anos, no dia de Passos, junta-se a multidão para ver a Paixão. Chegou a vez da j., ela própria, ser Verónica. E foi. Mas desafinou. Ui!, bichanaram as antigas Verónicas. 1000 e quantas pessoas, centenas de ex-Verónicas a assistirem, e ela desafina-me pá!

Imagino a cena. Cristo a morrer com a cruz às costas, as mulheres choram, gritam, berram – tudo corre como planeado. Cristo a cair esparramado no chão, ferido e cansado. O suor, o sangue, gotejam-lhe pela face. Do meio desta massa de lamentos irrompe a Verónica, que acorre com o lencinho branco entre as mãos. A multidão continua em delírio, aos berros. A Verónica prostra-se perante o Homem, limpa-lhe o rosto e, depois, muito esperadamente, canta. A multidão, até então completamente alucinada, detém-se. Ui! quem é esta? ai! desafinou. e bem! que vergonha. no meu tempo isto não era assim, ai não era não. e quando eu fui Verónica? ui!

Cristo ergueu-se já. Prossegue com a cruz às costas. Deixa um rasto de sangue, sobre o arrastar pesado da cruz, até ao Calvário. Mas tem o rosto mais limpo.

(há coisas que me transcendem. a importância de se ser-Verónica não é uma delas: transpuséssemos todos o pranto e limpássemos o rosto a quem carrega uma cruz. mas, já a importância de não-se-desafinar quando desesperamos e vemos morrer aos poucos e injustamente alguém que amamos, ultrapassa-me, ui!, e bem.)