segunda-feira, março 03, 2008

Mea Culpa


I
Eu gosto dele. É estranho. Gosto. Ainda que seja estranho. Por ser estranho. Ele ser estranho. Não o resto (até porque tive sempre a tendência para me identificar com os rejeitados,

e sei porquê.)

I-I
I like him. He’s weird. Weeeeird. Weird weird weird. Weirdo.
(gosto de alongar o uso das palavras até que se tornem estranhas. Será que se abusarmos do uso das pessoas elas também acabam por se tornar estranhas?)

II
Ele é estranho.
Mas não gosto dele. Não por ser estranho, mas por ser de um estranho estranho, de um estranho que não gosto.
Por isso, não gosto. Dele. Não do estranho.
Do estranho gosto.
Não gosto é dele. E do seu Estranho.

Ponto.

(Tornou-se estranho?)

As muitas faces do Tau.

Nas muitas voltas da vida, apercebi-me que anda para aí a circular com alguma frequência a articular palavra formada com as letrinhas T A U, nesta ordem precisa. Daí, pensei que deveria talvez fazer um resumo das utilizações (não extensivo talvez, mas suficiente).
E, tau!, saiu-me isto:

(1) (não necessariamente com maior grau de importância…) o tau-tau que se dá no rabinho dos meninos, e das meninas, seja porque razão for…
(2) o Tau empregue como remate descodificador e extremamente esclarecedor para uma frase anterior suficientemente agressiva mas que poderia ter ficado na penumbra, e numa ambiguidade incerta, se não fosse articulada de rompante a tal palavrinha multifacetada e nada ambígua, pois claro…
(3) (a parte mais séria…) a proteína tau, implicada na doença de Alzheimer (investiguem…)
(4) um coeficiente qualquer que os engenheiros usam para ter desculpa para terem que fazer muitos cálculos e medirem temperaturas na casa de pessoas nas quais nunca entrariam caso não fosse esse coeficiente.

(confesso que quando originalmente me apeteceu fazer isto… pareceu ter mais piada…
mas, agora, depois de o escrever, confesso que me apercebi… que ainda não ganhei o tal juízo… Tau?)

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Can you read my mind?


  
por razão nenhuma
eu deixaria
de poder dançar isto.

por razão nenhuma
eu deixaria de poder saltar
alienada
dentro do escuro do meu quarto
com um candeeiro de rua a entrar-me pelo espaço adentro
ou só um esguicho de luz do candeeiro
e um chapéu de chuva aberto por cima da cabeça
ou que fosse um resto de chapéu com abelhinhas penduradas.

por razão nenhuma,
é que por razão nenhuma.

deixem-me
ainda que por momentos
ser meia louca

ou (e) louca por inteiro.

(já bastam os dias
em que ninguém nos lê a mente
e todos somos somente o que parecemos.)
     
     
   

terça-feira, fevereiro 19, 2008

(Quase) Tudo sobre a minha mãe



















         


(só para 'pega-monstros' experientes.)

       

Muros (I)




(A Wall
Outside my window
Inside my soul.)

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Ser afim de ti

'Cause I don't shine if you don't shine. (The Killers)

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

O que é que estão aí a fazer parados

a olhar? perguntou ela ingénua dos seus lábiozinhos rosados como quem não percebe homens a olhar para paredes e janelas e jornais do outro lado do passeio com as mãos nos bolsos.

- À espera. (Ou terão dito 'Nada'?)

(À espera? Da vida talvez. Erro comum.)

terça-feira, fevereiro 12, 2008

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Reminiscências


 













foto: mifares

 

Quando Ela Passa (Fernando Pessoa, Maio 1902)

Quando eu me sento à janela
P'los vidros qu'a neve embaça
Vejo a doce imagem d'ela
Quando passa... passa.... passa...

N'esta escuridão tristonha
Duma travessa sombria
Quando aparece risonha
Brilha mais qu'a luz do dia.

Quando está noite ceifada
E contemplo imagem sua
Que rompe a treva fechada
Como um reflexo da lua,

Penso ver o seu semblante
Com funda melancolia
Qu'o lábio embriagante
Não conheceu a alegria

E vejo curvado à dor
Todo o seu primeiro encanto
Comunica-mo o palor
As faces, aos olhos pranto.

Todos os dias passava
Por aquela estreita rua
E o palor que m'aterrava
Cada vez mais s'acentua

Um dia já não passou
O outro também já não
A sua ausência cavou
Ferida no meu coração

Na manhã do outro dia
Com o olhar amortecido
Fúnebre cortejo via
E o coração dolorido

Lançou-me em pesar profundo
Lançou-me a mágoa seu véu:
Menos um ser n'este mundo
E mais um anjo no céu.

Depois o carro funério
Esse carro d'amargura
Entrou lá no cemitério
Eis ali a sepultura:

Epitáfio.

Cristãos! Aqui jaz no pó da sepultura
Uma jovem filha da melancolia
O seu viver foi repleto d'amargura
Seu rir foi pranto, dor sua alegria.

Quando eu me sento à janela
P'los vidros qu'a neve embaça
Julgo ver imagem dela
Que já não passa... não passa.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Francisco Anselmo de Barros


Putrefactos.
Todos os homens que não sabem o que é morrer por uma causa.

Sólidos de Catalan


Tinha 14 anos quando me perdi. O pensamento concreto de até então deu o salto e tornou-se (i)lógico, com todos os caminhos em aberto. E fiquei eu no meio das escolhas
e dos escolhos
de tudo o resto que ficou, simplíssimo, para trás.
Catorze anos de um mundo certo, pensando que havia uma idade para tudo. Depois, caí, e percebi
Que a idade não interessa,
que somos bichos eternos
em luta com as escolhas.

Que as escolhas podem ser mal feitas?
Podem, mas que só aprendemos assim – julgamos as próximas, com as anteriores.
E se aprendemos mal, julgaremos mal (óbvio…).

Que o homem não é naturalmente bom sr. Rosseau, nem sequer naturalmente. Que é uma mistela de tanta coisa que anda por aí, e que tentar compreendê-lo e aplicar-lhe uma equação certa que o desvende é estourar a cabeça em mil pedacinhos loucos e estridentes.

Que é tudo uma incerteza
um conjunto de escolhas disparatado
aleatório,
irresoluto,
como quem joga num euromilhões sem sorteio.
Como quem ganha sem saber
E depois morre.

(tanta coisa que fica por saber…)

Que a velhice virá um dia,
E a sabedoria com ela.

Que não sei se a sabedoria chegará com ela, sem ela, se chegará seja com quem for.

Que não há sabedoria –
Há uma e excessivas formas de ver a vida
(e depois há os conformistas e os inconformistas
e todos os outros nos intervalos infinitesimais
que as aceitam ou não.
Ou que decidem ficar no meio e nos meios, porque não há um mas vários
porque nunca há nada que seja uno e simples!)

Que a matemática é um sonho e não bate certo com nada.

(que quanto mais penso
mais esfolo o sossego, mais estripo o equilíbrio.)

Que só a Ceifeira é feliz quando canta.
Mas que os 14 anos dela não a devem ter atirado ao chão...
       
     
 

terça-feira, janeiro 29, 2008

Lost in translation

A sala encheu para te ver morrer. Preto no branco.
Só na tua cabeça nada era assim tão simples.
Faz-me pensar o que nos faz dar o salto final.

O mundo é definitivamente um lugar estranho. E o amor.
Mas como pode alguém desistir aos 23?

Um passo de gigante para os outros, um pequeno para ti.

Recomeça…Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.*

Mas tu não podes. Ponto.
Pena.
Porque eras só um rapaz, um rapaz chamado Ian.

(*Sísifo, Miguel Torga)


        

segunda-feira, janeiro 28, 2008

We should all be hard candies


I - Quando os frutos caiem.

Se amadurecer significa deixar de ver o mundo de forma bonita e iluminada
e sentir na pele o estalo rude da terra dura,
então devo estar no bom caminho
para um dia poder dizer que, enfim,
apodreci…

II - Loja das Grosserias.

Da próxima vez que te vir entrar na loja de guloseimas com o teu vestido de cetim azul e com esses teus sapatinhos de verniz vermelho, e te vir mostrar esse sorriso cândido de menina
- dessa próxima vez que te vir sonhar –
vou-te agarrar na face suave e nos cabelos doirados
e dizer-te aos ouvidos num rasgão:
que esse Senhor simpático que te mostra os doces como se te os oferecesse apenas,
que esse Senhor que te pede as horas e a quem tu as dás, agradecida,
que esse Senhor maduro e pai de meninas como tu,
é vendedor.
E que esses doces que te estende,
na sua sabedoria refinada,
são doces ressequidos, amargurados e degustados;
E que, afinal, o que esse senhor oferece não são os doces
mas os murros no estômago que ficam no final.

III - Porcos

Enojam-me os senhores que
levam na algibeira descontraída a cartilha do saber muito
e tudo,
e que,
depois,
confundem meninas com Meninas.
        
    
    

Permissão para ser normal

    
Uma das partes irónicas e desanimantes do mundo
é que chegamos ao ponto de ter que justificar
- como quem desespera se não mostrar o contrário -
o facto de vermos o mundo bonito.

E termos que bater o pé e dizer
Não, Não, Juro! O mundo não é nada bonito, Eu não o vejo assim!
Eu sou como todos os outros
Que o vêem feio e decepcionante.
         
           

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Permission to Speak Freely (II)


Não vejo muros cor-de-rosa. São muito cinzentos, juro.

Mas meti os óculos coloridos em pequena, e
ficaram-me tão cravados na carne… que
quando os vou para tirar,
dói-me arrancar esse pedaço de mim.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Receita para 2008

(escrevi este texto há uns aninhos, mas achei que era uma boa mensagem de Ano Novo, em jeito de mensagem de Natal do Primeiro-Ministro, ainda que sem Armani nem nariz de Pinóquio…).

Numa época que chamamos de crise, muitas vezes deparamo-nos com a facilidade de apontar o dedo e dizer Não fizeste isto, Não fizeste aquilo. Sempre o que o outro não fez e devia ter feito. E encontramos nessa expiação da culpa alguma libertação do próprio peso (in)consciente que carregamos também. [aqui está o clichêzinho sempre actual… e agora o complemento:]. Porque isso de andarmos mal não É (só) culpa do Governo! – cada um deve governar-se também [o “bom” do trocadilho…]. E já que (des)culpas há muitas, preocupemo-nos também em achar soluções… cada um de nós.
Foi nesta procura que me deparei com indícios de soluções do dia-a-dia nas palavras de um “médico” de que urge Portugal [mas este não é um médico qualquer… é um médico sábio!] – um que receita sopinha quente em vez do medicamento mata-bicho. Conta-nos então Cândido Ferreira (25 Agosto 2005, Campeão das Províncias) um episódio acerca de uma família que a ele recorreu. E como me parece que essa família somos todos nós [Portugueses sobretudo…], atentemos no que nos diz a receita:
“Foi então que fui cravado para uma nova consulta: ‘O Sr. Dr. que é político é que nos podia aconselhar [sem comentários…]
, o que é que a nossa família pode fazer para melhor resistir à crise?’ (…) Manifestando o casal sábia intenção em educar a prole e garantir património, recordo os três remédios que, improvisado ‘médico de família’, entendi prescrever a esses meus doentes:
1º: produzam mais e melhor que os outros;
2º: não guardem para amanhã o que podem fazer hoje; e
3º: não gastem hoje o que não sabem se ganham amanhã.
É que a Europa não é tão burra quanto parece e, qualquer dia, anda por aí a pedir os juros de tanto disparate.”


(Bons conselhos não? Então mãos à obra! ;) )

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Cinzenta

        
Andam por aí umas criaturinhas que se intitulam pomposamente de Descrentes. Fazem questão de marcar que não acreditam em nada que tenha no nome Sociedade, Justiça, Saúde, ou Governo. Ou simplesmente, qualquer coisa que ultrapasse o centímetro em volta da pelezinha amarelada e retesada que já não sorri de inocência há muito tempo. Então deprimem, descrentes do futuro, e enfrascam-se em ajuntamentos de álcool e medicação. Ou então não deprimem, mas enfrascam-se na mesma em ajuntamentos de álcool e medicação. E então deprimem. Enfim. A sociedade ocidentalizada como fonte de descrença e como meio de falecimento precoce.

Andam por aí esses descrentes. Descrentes do mundo, descrentes da sociedade, descrentes dos outros. Por isso, contam consigo mesmos, com a sua vontade própria, e com os troquitos que desviam aos sistemas comuns e ocidentalizados. Pois estes descrentes vão-se safando, porque contam com o seu individualismo e amor-próprio, e isto basta-lhes para seguir em frente. Mas depois há os outros. E os outros têm que se lhe diga. Não crêem no mundo, mas também o mundo que se lixe, é injusto e blá blá buah…. Não crêem na sociedade, que por si própria cria a injustiça. Não crêem no governo nem nas políticas, porque sabem que continua a ser parte da mesma merda. Não crêem nos outros, porque são uns egoístas e apenas vêem o que lhes interessa. Mas – e agora-algo-verdadeiramente-diferente – também não acreditam em si próprios.

E é assim que estes seres, a que chamamos de intimamente descrentes, vêem o mundo como o espaço e palco para escorregar, ouvindo de fundo a gargalhada afiada. Têm a audição apurada para qualquer crítica, e as mãos prontas para pegar na inchada e cavar bem fundo em presença de qualquer elogio. Ou então para ficar de mãos a abanar, porque o elogio decerto não era para eles, e também há sempre a sorte pelo meio. Estes seres sofrem por antecipação o que nunca era para chegar, mas que fazem por ir buscar e arrastar até onde se encontram. Estes seres não se cansam de se destruir e enganar a si próprios, até que seja demasiado tarde para um resgate possível. Estes seres escondem-se dentro de si próprios e tentam esquecer que o mundo lá fora também é palco para as suas vitórias. Porque estes seres não vêem as vitórias – tudo é e continuará a ser imperfeito. Estes seres não têm salvação, porque se recusam a salvar-se a si mesmos.

E é por isso que nós, os permanentemente insatisfeitos, estamos condenados ao fracasso. E à solidão.

 
(13.12.2007 21:59)

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Bragança


“Quando decidimos a estrutura, decidimos a luz. Nos edifícios antigos as colunas eram uma expressão de luz, sem luz, luz, sem luz, luz, sem luz, percebe?” (Louis Kahn, 1901-1974)

Columba dançava.

Sobre as pedras negras e sujas da calçada, a luta não havia sido ainda consumida. Eram as asas estendidas a bater contra o chão, numa dança mole e desatinada – os últimos suspiros do vento no teu peito, quem sabe…
(Mole o teu corpo. Mole a tarde dourada, e o sol que escorria no horizonte. Moles as minhas entranhas a pensarem nas tuas, por certo atropeladas. Amolecidas.)

Não vi sangue nem tripas. Só o teu corpo amachucado num último arrastar. Num rodopio decrescente e finito. Pensei – Crua a luta em que sabemos já o fim, mas batemo-nos ainda desenfreadamente para morrer a tentar. Feroz o término não anunciado que espera nas esquinas mais douradas e nos voos mais livres. Bruta a mão alheia que manda mais que tu na tua própria vida. Como facas ao pescoço ou comida para servir quente, fria. Como as noites em branco das mães, e as manhãs pretas quando os filhos morrem primeiro. Quando a morte antecipa o tempo e apaga os voos.

Cruéis os finais sem Razão.

Mas devaneiam ainda as pombas sobre a calçada escura. Inconscientes da dança, correm o risco afinal. E quando caiem, cinzentas e esfaceladas, dançam até que a exaustão as consuma e as torne em pedras, negras e duras.
26Set07, 11Dez07

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Diz-me

Diz-me que tudo vai ficar bem. Que o mundo é como o imaginámos e tudo será certo quanto a chuva no Inverno e o sol no Verão.

Diz-me que o dia é para viver e a noite para sonhar, e que quando morremos a vida foi vivida e a noite sonhada.

Diz-me que é só da minha cabeça, e que estes bichos que me aparecem são pesadelos de menina assustada. Pesadelos sem tempo nem lugar – porque a noite é para sonhar e a vida para viver.

Diz-me que as coisas são simples, e que não há que pensar. E que quando escolhemos, escolhemos certo.

Diz-me que a paz chega quando somos livres, e que as angústias desaparecem quando fazemos o que sentimos. Quando sentimos o que fazemos.

Diz-me que o céu é azul e que apenas se encarniça ao final da tarde. Diz-me que morrerei de velha e que os filhos virão quando eu os quiser ter.

Diz-me que as coisas são como as queremos, e que aquilo que queremos é claro como um dia de sol, transparente como a água de um ribeiro.

Diz-me que quando crescemos, ainda vemos o mundo através dos olhos de um menino. E que mesmo que mintamos aos outros, nunca mentimos a nós próprios.

Diz-me que as dúvidas não existem – que são apenas bichos que inventamos. Porque a vida é simples e o caminho é só um.

Diz-me que não sou eu que escolho o caminho. Que temos um destino e não o pudemos mudar.

Diz-me que esse destino que me foi dado estava quebrado à partida. E que eu não o posso consertar.

Diz-me que a culpa é de Deus que nos espera na esquina. Ou do Diabo que se esconde por entre campos de Açucenas. Diz que não é nossa nem minha. Ou apenas que não é minha…

Diz-me que sou eu que tenho medo de tudo e de nada. Que sou eu que penso e invento. Que sou eu que complico, mas que afinal não é nada.

Diz-me o que quer que seja, mas sossega-me o espírito.

Pois se nada é certo neste mundo, como viver feliz sem ter a certeza de nada?

19.07.07; 30.09.07; 04.12.07