terça-feira, dezembro 27, 2011

caixinhas de música

    
penso que nós somos mais ou menos assim. pomo-nos a correr e a saltar e a dançar assim que nos dão corda. mas à medida que o tempo passa, o entusiasmo vai diminuindo, a energia baixando, e a dança ficando mais lenta. e para voltar a dançar, precisamos mesmo que nos dêem corda outra vez (se o estado do manípulo ainda o permitir). 
então saltamos corremos e dançamos, como se não houvesse depois. até que... pac!, subitamente paramos. que se passou? batem-nos no peito numa tentativa de reanimação, abanam-nos a tentar avivar o sangue nas veias. nada! oh vá lá. então plaf!, plim plim plam plim tlim plim tlam plim, voltamos à dança! 
ufa, afinal estávamos só encravados...

(impossível saber quando vamos parar. por isso, concentremo-nos na dança.

BOM ANO! :) )

       

terça-feira, dezembro 13, 2011

Os estados de espírito, em versão Sobre Rodas.


       
9. deixei-me aqui a um canto, e remeti-me aos blues.


(Jodhpur, India)
       
       
(começo a crer, muito sinceramente, que as bicicletas traduzem com bastante fidelidade muita coisa da vida. isso e tudo aquilo que observamos com suficiente paciência e imaginação. ou então que simplesmente apareça.)
        
        

terça-feira, novembro 29, 2011

"Porque o único sentido oculto das cousas É elas não terem sentido oculto nenhum." (i)

                             


Rambo III (1988), Peter MacDonald.



         
           
(o complexo - a sério mesmo - é resistir a ver o que não se vê, e deixar aparecer o que está à vista.)
         
                   

segunda-feira, novembro 28, 2011

justificações (I)

   
a porta abre-se. a senhora, até então mastigando suavemente uma qualquer patanha industralizada e amarfanhando na mão o respectivo invólucro, recorre a um movimento veloz para arremessar com pontaria o pacote já vazio para o exterior do autocarro.

os meus olhos arregalam-se enquanto, sob o tremendo efeito pop-out, sigo o trajecto do movimento braço a estender-se, invólucro arremessado, movimento braço em repouso. depois, passando esse efeito e começando outro, também o meu olhar se remete ao descanso. a senhora repara que eu reparei. faço por não olhar. a senhora não resiste. tem a formar-se na garganta, já quase a engasgar com o tamanho do novelo que se criou, uma justificação.

- pois... eles dantes tinham, mas agora já não põem caixotes do lixo nos autocarros. não se devia mas... também não dá jeito nenhum andar com aquilo na mão...

- pois..., remeto eu com um olhar fugitivo. na verdade, existem certas partículas da língua portuguesa que substituem silêncios incómodos face a justificações questionáveis mas não questionadas.

          
(se uma pessoa for a ver bem, são realmente incríveis as justificações que arranjamos para aquilo que fazemos. e até mesmo para aquilo que acabamos por não fazer.)
  
            

quarta-feira, novembro 23, 2011

mimos

        
andam os dois na fisioterapia, talvez pela já avançada idade. ela, de estatura baixa, anafadinha, mas bem maquilhada e penteada. ele, alto mas sereno, discreto e humilde. olha-nos com um sorriso escondido, curioso, mas cansado, enquanto vagarosamente muda de posto por entre as máquinas e ferramentas de exercício.

- então homem? toca a acabar isso!, solta ela despachada enquanto sai de uma sessão de gabinete. ele levanta-se, enferrujado e sem pio, ainda que não tenha acabado o exercício.
ela, visivelmente extenuada, e sem aguentar as coxas roliças, senta-se arfante enquanto empunha a bomba da asma:
- ai eu não consigo, tens que ir buscar o carro...

(mas este senhor ainda conduz?, penso eu...)

ele balbucia qualquer coisa de fininho, sempre muito submisso, e acede.
- fazes marcha a trás e apanhas-me aqui à porta.

está bem. ele diz-nos boa-noite num sorriso sumido e segue. a senhora relaxa, olha para nós com as faces rosadas e contentes, e encolhe os ombros. penso que vê em nós empatia. pois. eu imagino. imagino o ar gasto, abatido, mas conformado com que ele deve fazer o curto caminho até ao carro. e encolho os ombros também.



(por trás de uma mulher resoluta, segura e despachada, costuma haver um homem que lhe faz as vontades.)
         
        

domingo, novembro 20, 2011

humano

       
ajustas o micro, dás as últimas afinações na guitarra e soltas o primeiro acorde. a sala, até então em burburinho, sustêm a respiração e estanca no peito o coração. tudo te olha, a ti a à tua guitarra, à forma como a dedilhas gentilmente, como se fosse a pele de uma mulher.
há um ou outro que sussurra ainda, que dá risadinhas finas, outros que se deixam embalar adomecendo. mas, homem ou mulher, apaziguado ou revoltado, todos acabam por te seguir a música embevecidos. e nem que apenas um esboçasse um breve sorriso nos lábios, faria valer a pena essa dança cuidadosa em que enleias os dedos, e o mundo.
       
(há esperança para nós?)
        
          

who are you?

  
      
ao contrário de ninguém, e até muito mais que alguém, acho que somos muitos.
às vezes, até, demasiados.       
           
        
             



quarta-feira, novembro 16, 2011

figuras com estilo (ii)

                                



















(segundo placard da linha. mas haveria mais? não sei. o que eu sei é que, depois de ler duas coisas destas, até me apetece seguir criteriosamente as regras de trânsito.)
           
           
            

segunda-feira, novembro 14, 2011

figuras com estilo (i)

                  
 
(hajam políticas assim. mas a sério.)
       
               
        

quinta-feira, novembro 10, 2011

há de tudo (ii).

           
ele
- like it?
eu
- no, thank you.
ele
- what are you looking for?
eu
- no thank you, i don't want to buy.
ele, sem desistir,
- we have everything, everything is possible!
        
          
(como se chega ao sab kuch milega na Índia. do nada. ou do que quer que seja. e talvez seja por isso que funciona.)
 
         

quarta-feira, novembro 09, 2011

há de tudo.


ele
- want to buy?
eu, desprendendo o olhar de uma peça,
- no thank you.
ele
- how much?
eu
- i don't want it. i'm looking for something...
ele, já eu a afastar-me,
- which kind of something?


(mesmo para indefinidos.)
     
   

sexta-feira, outubro 21, 2011

viagens (ii).

gosto de pensar que quando voltamos, voltamos diferentes. é assim nas grandes viagens. e até nas pequeninas. naquelas em que embarcamos todos os dias.


(mas também gosto de esperar que a diferença não resida em nós-sem-tantos-bichinhos e nós-com-bichinhos-a-mais.)










quarta-feira, outubro 05, 2011

brainycapped (I)

estive a pensar e acho que a idade ideal para se ter filhos é quando ainda se tem saúde mental. por essa altura, ainda existe função cerebral suficiente para se conseguir deixar de olhar para o umbigo e reparar que existem outras pessoas que coabitam connosco. e que poderão existir seres de menores dimensões e faculdades a necessitar de uma mãozinha para sobreviverem. mais, por essas alturas, há ainda a vontade de se criarem seres melhores, bem adaptados ao mundo e que a ele não sucumbam. e, claro, há também ainda a esperança de que tudo isso é possível.

depois disso, lamenta-se, mas a auto-centração destrói qualquer paciência para dar conta do outro. ou para que haja de facto outro. e, quando por acaso for notada a presença do outro, destrói também a paciência de lhe estender um dedito que seja - gasta-se demasiada energia, e uma pessoa já está cansada. cansadíssima aliás. portanto, a haver outro, que seja sem problemas. e se os tiver, paciência, you've got your problems i've got mine. de qualquer forma, para quê andar a criar mais pessoas, e a dar-se a trabalhos quando, perdida já a saúde mental do próprio, é óbvio que mais tarde ou mais cedo as crianças se tornarão adultos e perderão também a sua. e não a perdendo é porque têm truques, os truques dos espertos, dos pérfidos, senhores neste mundo, e que ludibriam o resto, os fracos de espírito. ou de mente. e que assim não vale a pena.


(tenho para mim que quando se perde a saúde mental irreversivelmente, o corpo seca. e se não seca devia secar. que a natureza sabe o que faz mas nem sempre. e há demasiados seres desamparados neste mundo.)

        

domingo, outubro 02, 2011

consequências da não aprendizagem compreensiva da função da filinha indiana na escola primária.

    

mas a sério? não podem ser dois? vá lá, dois. três é demais, sim, claro, pois... mas dois entravam tão bem! vamos coladinhos coladinhos que nem se nota! já viu o tempo que se poupava na fila das 9? era logo para metade! não? oh vá láaaaaaaaaa. olhe para o meu beicinho descaído. eu tenho dois filhos e uma mulher. e um ou outro primo, vá... oh vá láaa. pleeeeeeeeease! não ainda? mas não mesmo? então amaldiçoada-seja-a-tua-mãe-e-o-teu-pai-e-a-tua-geração,-que-tenhas-doenças-e-nunca-saúde-e-por-belzebu-que-arreganhes-os-dentes-e-nunca-durmas-descansado-e-te-borres-nas-calças-e-que-morras-de-sofrimento-depois-de-veres-todos-os-teus-a-morrer! e ora toma.

 
(este tipo de avisos suscita sempre em mim muita imaginação. pensar no que os desencadeia. nos acontecimentos que ali já tomaram lugar. ah! em toda a maravilha e peculariedade do comportamento humano! ...)
           
         
            

terça-feira, setembro 27, 2011

'get him up. let him live.'


(ver a partir minuto 5:02. não ver se quiserem ver o filme por inteiro.)


Alexandria: Why are you making everyone die?
Roy Walker: Because... everything dies.
Alexandria: Don't kill him.
Roy Walker: There's nothing left for him.
Alexandria: I don't want you to die. Roy. Don't kill him. Let him live. Let him live. Don't kill him. Roy?*





(somos nós o nosso próprio destino. podemos culpar o outro, e o azar, mas isso não muda a nossa responsabilidade. todos temos um secret hell. mas é a vontade. é a vontade.

You should be scaring me
But don't I only scare myself?**)





* The Fall, Tarsem Singh, 2006.
** dEUS, Secret hell, Worst Case Scenario, 1994.
         

segunda-feira, setembro 19, 2011

Dreams (II)




e se caírmos. 
  
nos mundos ao contrário,
não importa se me deixares cair.
       
          
       

quinta-feira, setembro 08, 2011

Do Comunismo (visto às cegas)

       
a primeira primeira vez. quando é bonita. tomara que todas as vezes fossem como a primeira vez quando é bonita. tão bonitas ou mais. quando se descobre pela primeira primeiríssima vez aquilo que nos vai fazer querer respirar, viver o dia por inteiro e dormir só para se poder viver outra vez amanhã. aquilo que nos vai encher o peito. aquilo de que afinal somos feitos e só ainda não o sabíamos.
é tão bonita a paixão pela causa, principalmente quando se torna essa paixão tão natural como  conversar com um amigo, ou dançar quando se está feliz. quando a paixão torna a luta tão essencial como matar a sede. 
é tão bonito ter-se a fé num ideal. e acreditar que esse ideal é possível, e que só pode ser assim, possível. que não há outra maneira. quando se têm mais certezas que dúvidas. que a luta é o caminho. que o caminho é luta, mas por cansados que fiquemos hoje, que seja de lutarmos!, e que amanhã cá estaremos e não estaremos sós. que os camaradas se unem, e a força está na união. que amanhã cá estaremos. que o amanhã virá, e virá melhor. mesmo que não venha. que virá um dia. se não para nós, para outros então. porque haverá sempre luta enquanto houver espaço para a mudança, e a mudança para melhor.

Até amanhã, camaradas!, diz o Manuel Tiago. e eles respondem-lhe certamente, Até amanhã camarada!. e é esta fé neste amanhã - que começa hoje com a luta! - que é tão admirável.


   
(se sou comunista? não. ser comunista é agir em direcção ao ideal colectivo, o qual eles sabem muito bem qual é. eu, vá, também tenho um ideal. também sou idealista. mas fico por aí. e com pena. pois tomara ao meu ideal ser tão concreto quanto o deles.)
             
   

Do Comunismo

        
I - o primeiro contacto

II - a descoberta do símbolo
III - o caminho para se ser livre




IV - a união faz a força

V - o preço da ousadia


VI - o valor do colectivo



* fotos tiradas na Festa do Avante 2011







           
              
           

terça-feira, setembro 06, 2011

o estatuto do foro psicológico

              
Transbordam as nádegas dos assentos revestidos. sob as cochas apertadas nas saias pelo joelho, assentam as mãos gretadas e morenas. os peitos arfam, bicudos, por baixo das blusas de seda, e nas carteiras guardam-se certamente os comprimidos para as diabetes e para a hipertensão. Falam entre si as senhoras, na viagem da camioneta:

- opois no sábado sentiu-se mal.
- mas ele é epiléptico?
- não. deu-lhe um ataque de ansiedade. e no sábado teve que ir ao médico.

- ah, não sabia. mas ele há médico disso? da ansiedade?



(há pois. mas chiu, ninguém sabe, é segredo. é um bicho. um bicho que não se conhece bem. que não se percebe. isto do coração a saltar por motivos que não os intrínsecos ao coração. isto de tremermos sem termos a Parkinson. isto de nos esquecermos desprovidos do Alzheimer. de andarmos tristes sem motivo aparente. nervosos, quando as provas já passaram. cansados, sem trabalhar. sem sono, quando queremos tanto dormir.

mas prepare-se, querida senhora, habitue-se a ouvir destas, que isto só vai aumentar.)