quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Causas para a (des)graça dos povos (III)


O outro dia a m. e a v. vieram uma teoria que diz que rirmo-nos de situações estúpidas serve de aviso-para-os-outros de que alguém caiu, mas que não se magoou.

(aqui está uma situação em que um sorriso pan-american seria bem mais discreto e apropriado que uma sonora gargalhada.)

Ora, isto do “aviso para os outros de que alguém caiu, mas que não se magoou” é, sinceramente, uma trampa. Eu quando me rio da queda aparatosa de alguém não fico à espera para ver se se magoou ou não: primeiro, e instantaneamente, rio-me aparatosamente também; depois, passo a desgraçadíssima vergonha de ter que me enfiar num buraco para fugir a um ou outro olhar matador que me esfola a insensibilidade.

(de facto, sempre achei isto um problema. é terrível, eu não sou insensível. porque é que o pareço?)

Nem sei de onde vem esta ideia de pensar-antes-de-agir-impulsivamente. Acaso alguém pensa racionalmente antes de tirar a mão de uma superfície a escaldar? Não: agir impulsivamente é-a-resposta adaptativa aos atrasos burocráticos da racionalidade! E nem se pensa se houve ou não alguém que se magoou – ora essa!, é o meu corpinho que se queima. Assim, e prosseguindo no raciocínio, se sou eu-e-este-instante que estamos em questão, rir-me agora também não me diz que no futuro os papéis se poderão inverter. Claro que não: nós nunca iremos cair, os outros é que caem.

(enfim, isto de sermos animais na essência também é uma trampa.)

Só que a vida, marota, também prega rasteira, e dia virá em que eu espetarei o meu incólume queixinho no chão. Aí, ainda que o meu kit de sobrevivência não me permita antecipar, alguém se rirá da minha desgraça. Se o riso dele foi fruto de genes impulsivos? isso é que já não sei. É que se algumas coisas já vêm connosco, outras aprendem-se. E por melhores que sejam os genes, e os impulsos, na falta de melhores exemplos, aprende-se com o que se vê em volta.

(em suma, rir às gargalhadas da desgraça dos outros também é uma desgraça mundial.)

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Causas para a desgraça dos povos (II)


Hoje de manhã tive uma aparição. Negríssima. Uma criatura medonha, grande vermelha e barriguda, caminhava lenta e segurando com rédea curta um pequeno cachorro saltitante. Quando passei pelos dois, ouvi o dono numa voz arrastada e trombonesca: Anda cá, cão. Estremeci. Conjuntamente, tive uma visão do inferno. Quantas criaturas inocentes não são colocadas, atreladas, nas mãos despóticas de bestas?

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Causas para a desgraça dos povos (I)


Atropelando a variabilidade, existem dois tipos de sorrisos: o genuíno "duchenne" e o alternativo, profissional ou-como-lhe-queiram-chamar, "pan American" (o nome não deixa de ser curioso). Ora, acontece que o primeiro segue as vias da extinção enquanto o segundo prolifera a olhos vistos.

(existe uma altura em que devemos questionar as coisas. uns, ocorre-lhes a ideia com a chegada da maturidade - ou será que a maturidade chega apenas depois da ideia? -, outros torram a cabeça aos pais na idade dos porquês. não sei se eu ainda estou na idade dos porquês ou se algum dia atingirei a maturidade, mas)

Porquê?

Ora, acontece que hoje em dia existem coisas maravilhosas, várias coisas maravilhosas até, entre as quais as chamadas máquinas fotográficas (não me posso estender nas outras coisas maravilhosas, mas). Ora, acontece que essas máquinas só captam o instante (de duração variável, mas) e

(a nossa vida também só capta o instante, o resto esfuma-se no tempo, mas)

é esse instante que tende a permanecer no tempo para as gerações vindouras. Ora acontece que por acaso agora nem interessam as gerações vindouras – não são meus amigos do hi5. ponto. – o que interessa é o aqui e o agora, esse maravilhoso instante captado pela objectiva. Ora acontece que essa lente até é demasiado objectiva, porque só vê o que parece e não se mete com interpretações (há sempre a questão da luz, mas). Ora acontece que a-grande-maioria-de-nós (eu até nem me importava de ser anormal, o pior é que não sou) acha que o que deve passar para a eternidade dos momentos presentes são os momentos de felicidade extasiada.

Porquê?

As teorias evolutivas dizem que parecermos-felizes aumenta a probabilidade de encontrarmos um macho ou uma fêmea que nos considere atraentes o suficiente ao ponto de podermos carregar os seus genes.

(inevitavelmente, a reprodução da espécie)

E isto até faria sentido se percebêssemos o princípio subjacente da saúde mental. E da maior probabilidade de sobrevivência. Mas, o que me preocupa nem é a essência, é a aparência. Pensando que a-grande-maioria-de-nós anda numa de Vá, tira [a foto] rápido que já estou cansada de sorrir! não sei até que ponto esta aparência feliz traduz verdadeira e estável sanidade mental. Ou, pior que isso, verdadeira e estável malinha de valores morais que valham a pena fecundar.

(a mim preocupa-me mais que o injector de genes seja um insensível de sorriso empalhado que um depressivo sincero.)

E inquieta-me que ande para aí demasiada gente a vender o produto, imersa num sorriso americano profissional e que, afinal, tenha é os genes encharcados em anti-depressivos, ou muito-pior-que-isso, em valores-de-superfície que enganem a objectiva dos que sobre eles disparam – aqueles que, depois de seduzidos pela aparência, irão construir as gerações vindouras.

(inevitavelmente, a reprodução da espécie.)

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Catástrofes naturais, chamam-lhes eles.
















(Rock In Rio, Lisboa, Junho 2008)


As baratas são uma praga
a malária uma devastação
a cólera uma epidemia
a SIDA uma desgraça…

e nós?

(algures no tempo, enquanto assistia esmagada contra o próximo às serenatas coimbrãs, surgiu-me pela primeira vez esta questão. assim, visto-parcialmente-de-fora, compreendo que o planeta nos queira erradicar.)

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Na Baixa, hoje


O homem encontra a mulher e pergunta ao menino:
- então pá, 'tás bom ou quê?
O menino, ainda a mastigar o pão da manhã, responde num aceno meio envergonhado:
- hm hm...
Só que o homem volta:
- então, mas gostas de ser bom ou não?

(penso que nos andamos a esquecer de perguntar o essencial às nossas crianças.)

terça-feira, janeiro 27, 2009

Se


a minha avó maria estivesse viva, fazia hoje 100 anos.

(eu, se tivesse nascido em 1909 [a 27 de Janeiro], também fazia hoje 100 anos.)


Sublimação (I)
















(Toümai. Lagameças, Fevereiro 2008)


pior que a observação externa,
são os olhos aguçados que nos rasgam a pele
e nos olham detrás dos olhos.

(se eu te sentir a vasculhar cá-dentro
a remexer nas minhas coisas só minhas,
e sentir que me desvendas,


devo fingir que não vi?)


quarta-feira, janeiro 21, 2009

Dreams


















Sonhei
que havia panteras na minha rua
pintadas de um cinzento columbino, ou de um rosa-fúchsia,
e que falavam

sonhei
que o céu era amarelo
e o sol de um profundo azul

que vivíamos de noite e
sonhávamos de dia

que não havia dia
como o conhecemos.

sonhei
que as árvores caíam do céu
e que o mar nevava quente
como as peles sob o agosto europeu.

que não havia europa, nem sequer ruas,
que era tudo mar, só mar
sobre o qual voávamos
sem tecto nem fundo,

que éramos livres.

que os meninos só não governavam o mundo porque
vivíamos em anarquia
e que, de resto, também não havia moscas.

que dormíamos embrulhados em nuvens
sonhando com o dia definitivo em que iríamos para a terra, mãe
última de todas as coisas.

Sonhei.

com um mundo ao contrário
mas

it was just my imagination.


   

sexta-feira, janeiro 16, 2009

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Rebentos


I



















Ergue-se o seio materno
sobre o talhe arredondado

e logo perguntam os homens
curiosos
acerca desse tesouro
que carregas.

(sonham, murmuram. questionam a existência,
apenas)

Então tu, serena,
calas os tormentos aos homens
e, num canto suave,
embalas o ventre alvo num doce murmúrio
de mãe.

(sossegam-se os espíritos nessa esperança)

É que dentro, aninhado e ainda dormindo,
há Todo Um Mundo afinal.


(um tributo à minha soeur Diana, a deusa de uma Luna muito bonita nascida às 10.33 a.m. do dia 3 de Dezembro de 2008, com 48 cm, 2.715 Kg, e um incógnito futuro pela frente.)


quarta-feira, janeiro 14, 2009

Fat Man and litlle boy*



Yuppie Oppie Oppie Oh!


(ca-buuuuuuuuuuuuuuum.)

(depois, silêncio.)



Fica a frase do filme:

I'm not a scientist anymore. I'm a goddamn functionary.(Julius Robert Oppenheimer "Oppie")



* Litlle boy and Fat man são os nomes das bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945. Foram talvez também as outras duas bombas, Doctor Oppenheimer e General Graves, que levaram até ao fim a sua construção.


(filme: Fat Man and Little Boy, Roland Joffé, EUA, 1989; ontem, no TAGV.)

terça-feira, janeiro 13, 2009

Batata quente


(Ou Simplesmente, o paradoxo da atenção.)

Nós, os tímidos, queremo-la.
Mas,
quando a temos, não sabemos o que fazer com ela.

O’.’O

(é nestas alturas que os muros dão jeito: para nos enfiarmos lá atrás. funcionam mais ou menos como um buraco daqueles buracos quentinhos que quando damos conta já se encerraram sobre nós… :x )

Atirá-la para outro? Náaaaaaaa. Acho mesmo que o segredo é deixá-la queimar nas mãos (mas difícil). Cedo ou mais tarde, vamos ver que a estranheza passa.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Ciscos


Quando eu era pequena ouvia vezes sem conta a minha avó, mãe do meu pai, ler a história da santa Teresinha. Da história em si pouco me lembro, mas lembro-me dos pormenores, de como o livro era pequeno e fino, e como a capa era castanha e dura. De como tinha palavras, muitas, que a minha avó desfiava com cuidado, lendo o livro de uma ponta à outra. Começava na capa, com o título, e logo prosseguia para os pormenores técnicos, como a morada da editora, o número de edição, a data e o local de impressão. De como só então lia a história, sem esquecer uma palavra, mas também sem esquecer um sinal de pontuação. Sim, a vírgula, o ponto, os dois pontos, os pontos de exclamação e de interrogação, o travessão. Tudo era lido.

O meu pai seguiu-lhe os passos e, quem sabe, o modo de vida. O outro dia, enquanto fazíamos o percurso até ao almoço de Natal, enquanto a minha irmã e a minha prima discutiam lá atrás os filmes, as novidades e a vida, o meu pai, imune a todas aquelas palavras, insistia em descrever o percurso. Ora aqui 60 Km, eu vou a 70Km, tenho que reduzir. Lau, e é extensa Lau, 60 Km é a velocidade máxima. Terminou Lau. E assim por diante em pormenores que já não me cabem na cabeça, couberam, mas deram lugar a outros.

(quando as coisas são muitas, para ressalvar o importante, algumas têm que se deixar para trás.)

Sorri. Pensei para mim, deve-me estar no sangue também. Eu também gosto de escarafunchar as coisas para as descrever depois no meu auto especial, assegurando que não sejam esquecidas: o Auto das Queixas de Vida. Sim, adoro queixar-me. E sou óptima nisso. Só que eu não me queixo das coisas reais, não!, isso seria bárbaro e sem graça. Não, a piada está em poder inventar. E ora aqui está uma-coisa-em-que-decidi-inovar – eu não me limito a ler os sinais nem as placas, não, eu gosto de acrescentar coisas! (e de retirar outras à socapa, mu-ah-ah-ah). Pego nas coisas, selecciono as coisas bonitas e, pumba, deito-as na forma do esquecimento. E pronto, quando já frias e suficientemente amolgadas, junto-as à minha caixinha de sonhos partidos. E ninguém as tira de lá, nem mesmo eu. Então, enumero e conto tudo o que resta. E só depois – só depois! – faço o Auto e arrumo por temas: Tema n.º 1, a vida é demasiado complexa, Tema n.º 2, quero ser outra-coisa-qualquer, Tema n.º3, a vida não vale a pena. Vale! Não vale. Vale, vale! Trampa!...

(trampa sim trampa! é ano novo oh menina! pelo menos nesta altura devíamos conseguir ver as coisas mais bonitas, ainda que as mais pequenas, estender-lhes o dedito e trazê-las até à nossa atenção. e escolhê-las para (re)lembrar. porque se muita coisa cabe cá dentro, nem tudo cabe cá dentro. devíamos escolher as coisas que valem a pena ficar. o Irving Berlin escreveu uma vez, If you worry and you can't sleep count your blessings instead of sheep. And you’ll fall asleep counting your blessings.)

quarta-feira, janeiro 07, 2009

O Brian


Há muito muito tempo, nasceu nas terras da Palestina um rapazinho chamado Brian. É a ele que dedico o post de hoje. Mal sabia o pobre Brian naquela manjedoura de palha que, depois de morrer na cruz por um tremendo engano, os homens morrem hoje estupidamente naquele local por outro tremendo engano...

(não resisti. tive mesmo que transcrever este episódio remomorativo dos 2008 anos de existência dos Reis Magos, Wise Man, afinal. digam-me que não é hoje, foi ontem. alguém me explica o que interessa um dia a mais ou a menos do dia institucionalizado se ninguém sabe bem quando aconteceu? [e não entrando noutras questões...])

Enfim:

Three camels are silhouetted against the bright stars of the
moonless sky, moving slowly along the horizon. A star leads
them towards Bethlehem. (...) They approach a stable, (...) and enter to find a typical manger scene, with a baby in a rough crib of straw and patient animals standing around. The mother nods by the side of the child. (...) She is a ratbag.

Mandy: Who are you?
Wise Man 1: We are three wise men.
Wise Man 2: We are astrologers. We have come from the East.
Mandy: Is this some kind of joke?
Wise Man 1: We wish to praise the infant.
Wise Man 2: We must pay homage to him.
Mandy: Homage!! You're all drunk you are. It's disgusting.
Out, out!
Wise Man 3: No, no.
Mandy: Coming bursting in here first thing in the morning
with some tale about Oriental fortune tellers...
get out!
Wise Man 1: No. No we must see him.
Mandy: Go and praise someone else's brat, go on.
Wise Man 2: We were led by a star.
Mandy: Led by a bottle, more like. Get out!
Wise Man 2: We must see him. We have brought presents.
Mandy: Out!
Wise Man 1: Gold, frankincense, myrrh.

(her attitude changes immediately)

Mandy: Well, why didn't you say so? He's over here...Sorry
this place is a bit of a mess. What is myrrh, anyway?
Wise Man 3: It is a valuable balm.
Mandy: A balm, what are you giving him a balm for? It might
bite him.
Wise Man 3: What?
Mandy: It's a dangerous animal. Quick, throw it in the trough.
Wise Man 3: No it isn't.
Mandy: Yes it is.
Wise Man 3: No, no, it is an ointment.
Mandy: An ointment?
Wise Man 3: Look.
Mandy: (sampling the ointment with a grubby finger)
Oh. There is an animal called a balm or did I dream it?
You astrologers, eh? Well, what's he then?
Wise Man 2: H'm?
Mandy: What star sign is he?
Wise Man 2: Capricorn.
Mandy: Capricorn, eh, what are they like?
Wise Man 2: He is the son of God, our Messiah.
Wise Man 1: King of the Jews.
Mandy: And that's Capricorn, is it?
Wise Man 3: No, no, that's just him.
Mandy: Oh, I was going to say, otherwise there'd be a lot of
them.


(Life of Brian, Monthy Python, 1979)

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Depois da mensagem


de Natal do Primeiro-ministro e da mensagem de Ano Novo do Presidente-da-República pouco fica sempre por dizer.

(certo?...)

Portanto, Feliz Ano Novo!, Bom Ano!, e portem-se bem! (que é para ver se depois têm um Feliz Natal 2009.)

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Hereditariedade


Anteontem à noite, ainda que por instantes, quebrei um bocadinho do mundo da minha avó.

Eu explico. Nos seus 94 anos de vida, a minha avó já não tem vida social. Para além da pouca mobilidade, já pouco vê (digamos que ainda reconhece os netos mas que a taxa de erro ronda os 5%... e se lhe perguntarem se o que tem no prato é peixe ou batatas, aproxima-se dos 90%). Ora, quem pouco ou nada vê refugia-se no que ouve, e se o volume for criteriosamente ajustado (i.e. no máximo!) é quase impossível não ouvir. Aparece então, para preencher o vazio dos dias e o lugar no céu, a sessão do terço, religiosamente acompanhado na famosíssima RR (também conhecida por Rádio Renascença) todos os dias às 18.30. E se por acaso passa o relato da bola ai o relato da bola! Fica desconsolada mas não usa palavrões pois a minha avó sabe palavras esquisitas mas não diz palavras feias. Ora,

o dia tem 24h e os 30 minutos de terço é coisa pouca para quem já não tem muito que fazer senão dormir, esperar pela hora das refeições e circular de tempos a tempos para cumprir calendário(s). Ora, acontece que

por volta da hora de jantar, enquanto se aquece debaixo das mantinhas no sofá e vê com pesar a minha mãe subir e descer 2 lanços de escada para lhe trazer a sopa, anuncia-se no grande ecrã (não tão grande que seja visível para os pequeninos olhos da minha avó) o magnífico, único, e portador da boa disposição, senhor Carlos Malato. Ora,

a minha avó, perdida nos êxtases da audição e na voz sonora daquele senhor, lá acaba por prestar atenção às perguntas. E visto que até sabe palavras esquisitas lá acerta volta e meia nas respostas e, pronto, ganha afecto ao senhor. Então, nas noites em que apareço, solta-me ansiosa a confissão

- daqui a pouco vem A Herança!

Não é que eu esteja por-dentro-destas-coisas, mas na outra noite achei por bem esclarecê-la. E actualizá-la. Afinal, ainda que seja Natal, as verdades têm que se fazer saber.

- oh vó? Sabe aquele programa do Malato? Aquele programa que a avó gosta! A avó não sabe mas aquilo já não é A Herança.
- Não?
- Não vó, isso era dantes, agora já não há disso. Agora, as pessoas não recebem o que merecem ou mesmo o que é justo [mas não que a herança de facto garanta isso…]. Não. Agora as pessoas manipulam para receber, fazem Jogo Duplo.
- Ai é?
- É, vó…

(o que ela não sabe é que dantes também era assim, mas que nem sempre os olhos vêem e nem sempre os ouvidos ouvem o profundo-sentido-das-coisas.)

Doeu-me. Mas lá ficou com a ideia. Claro que eu sei que não há-de durar muito e que hoje à noite, por volta da hora do jantar, quando as vozes do ecrã anunciarem o Malato abençoado, a minha avó vai meter os ouvidos à escuta e dizer à minha mãe que

- lá vem A Herança!

E que hei-de eu fazer? Talvez esperar que esta forma “simples” de ver o mundo, esta forma que escuta para logo depois obliterar as partes-feias-da-existência, me seja passada de alguma forma em herança pelos mistérios duplos da hereditariedade.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Closer



There are some truths that we should not know
so there are some truths that we should not ask

so there are some truths that we should not tell.




(truths? what truths? as verdades
demasiado perto desfocam.)



quarta-feira, dezembro 10, 2008

Infinito além














(Luz, Dezembro 2008)


«O que mais há na terra, é paisagem.»*
E ainda bem.

(* José Saramago, 1980, Levantado do Chão, encandeado pelo Alentejo)


sexta-feira, dezembro 05, 2008

Irrefreável


Temos as coisas à nossa frente e, impulso irresistível, tratamos logo de as compor, de as arranjar, de as meter na ordem. Como se as coisas tivessem ordem e não fossem somente um punhado de contínuos, sem qualquer direcção ou sentido.

Vejamos: acontece-nos a maior coisa, a coisa mais injusta, a coisa mais incerta. E, zás, Não percebo, tem que haver aqui qualquer coisa, Isto tem que ter uma razão, uma explicação plausível. Então, pegamos nas coisas, arrumamos as coisas, damos números e nova ordem às coisas. Damos um sentido às coisas. Mas esquecemos que essa não é a ordem natural das coisas, que as coisas não têm fado, nem sequer um sentido.

Que são um punhado de coisas, só isso. Que a minha verdade não é mais verdade que a tua só porque a tua segue uma lógica e a minha vive em anarquia. Não. À verdade não interessa a lógica, a verdade não precisa de ser válida.


(Confrontei o meu pai, intimei a minha mãe. Exijo saber! – o que foi que aconteceu ao meu triciclo! O triciclo? Qual triciclo? Ah, O triciclo. Não sei. Não o deixámos lá na escada? Alguém o levou, nunca se soube quem. Quero saber a verdade! Foram vocês que o fizeram desaparecer! Nóoos? Não filha… Senti-me ridícula. Uma teoria tão boa, assim deitada pelo chão. Segundos de lucidez assim desperdiçados pela parte-desconhecida-das-coisas, Bolas.)


Mas o pior disto tudo ainda está para vir. E o pior é que, na procura desesperada de um sentido-para-a-existência, acabamos por perceber que as coisas-para-acontecerem também não precisam de ser verdade – que se dane a verdade! quem sabe a verdade? ninguém. e ainda assim tudo existe e é. – Não. As coisas-para-acontecerem basta-lhes chocarem umas com as outras.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Doce.














(Lagameças, Novembro de 2008)


Amarg(ur)a-me pensar que

os frutos maduros
caiem de árvores já secas.

(mas quando caiem
caiem belos e iluminados.)


Outros, verdes ainda,
Fica por lhes florir o sabor