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sexta-feira, setembro 26, 2008

Please let me please you.


Se, por um lado, vivemos numa sociedade demasiado egocêntrica, por outro, temos a mania de andar a lamber botas para subir de degrau. Mas pior que ter que as lamber, é suplicar para lhes passar a língua encima. Porque só assim, pensamos nós, o outro vai reparar que há qualquer coisa a fazer comichão lá em baixo. E só assim, pensamos in-cre-du-la-men-te nós, perante o desconforto da dádiva, iremos receber.

(Não sei, não me parece que isto seja tão claro visto de dentro, ou de baixo, do sítio onde se cheiram as botas, mas sinto o meu estômago (es)pasmado quando presencio este dar-com-ela-fisgada – torna-se indecente.

sim, indecente. este Please subtil. este Let me please you ardiloso.)

E o pior é que quem se oferece, ainda que tenha a consciência do desconforto que gera, da obrigação que provoca, não percebe o reverso da medalha. É que Ouvir peganhento o elogio – incómodo, A risadinha amarela – insuportável, A gargalhadinha fininha a rebentar – despropositada – e sentir Lambeeer, com aquela língua enrolada de trejeitos de um british accent, as botas já insuportavelmente lambidas por tantos outros, gera um desdém imperturbável por parte de quem se sente obrigado a gratificar. Porque o outro iça mas sem vontade – Oh você aí, ice lá este que já me chateia. Porque o outro compra sem gostar.

E acabamos por nós próprios definir como queremos subir os degraus – içados por uma corda podre. E acabamos por, nós próprios, nos colocar no lugar que merecemos – o lugar da fruta incipiente à espera da primeira oportunidade para ser deitada fora.

quinta-feira, setembro 25, 2008

Sinais


O semáforo ficou verde, e o senhor parou. Estancou o carro, de mãos no volante, e esperou. Os de trás apitaram, com a razão, pensaram eles, Olha-me este parolo a parar no verde!

mas,

parolos são eles que não percebem que este homem pára nos verdes e avança nos vermelhos. Parolos são eles que não sabem e, pior que isso, não querem saber o porquê do senhor parar nos verdes e avançar nos vermelhos. Parolos são eles que fazem as coisas pela ordem, e seguem as cores quando atam os sapatos e abotoam as calças, quando fazem ofícios ou orçamentos de estado, quando discutem leis e apregoam morais. No fundo, quando seguem as cores para julgar o outro ou para barrar manteiga na torrada da manhã.

Pa-ro-los. Porque se enfileiram atrás das regras, e as seguem num jogo cego de Rei Manda. Porque as seguem mesmo quando já nem sabem quem manda. Porque perderam o sentido das coisas. Porque nem questionam o sentido das coisas. (Que mania de avançar nos verdes e parar nos vermelhos.)

por isso,

fascinam-me estas pessoas que param nos verdes. Porque certamente avançam nos vermelhos e geram o caos. Ou esperam o azul sem estranhar a demora [tudo é uma imensa descoberta] e, depois, geram o caos.
Que vêem o mundo ao contrário, de pernas para o ar. Ou sem ser ao contrário, que o vêem do avesso. Ou sem ser do avesso, como uma infinidade de peças de puzzle totipotentes.
Que esticam as regras, e as encolhem e amarfanham depois, só para que possam caber no frasquinho que lhes reservaram. Ou que não reservaram e que arranjaram ali. Agora. O frasquinho pelo qual passam e ao qual deitam a língua de fora só pelo gozo de as ver contorcidas e miseráveis, desesperadas.

por isso,

fascinam-me. Quando pegam nas rotinas e as olham de baixo a cima, e então percebem que não têm sentido ou que o seu sentido seria maior se fossem sanitor ou nitorsa ou ainda tarnios.

(mas, depois desta consciência, amarfanham-se e preenchem os espacinhos ocos e até os não-ocos da minha cabeça os porquês de também eu avançar nos verdes e parar nos vermelhos. Afinal, parola sou eu.)