"The range of what we think and do is limited by what we fail to notice. And because we fail to notice that we fail to notice there is little we can do to change until we notice how failing to notice shapes our thoughts and deeds." (Ronald D. Laing)
«Tem muitas virtudes como os olhos grandes e as longas pestanas, como as vacas.»
(Keshab Shrestha ao El País, acerca da candidata escolhida para kumari, isto é, reencarnação da deusa Durga. Este é um dos 32 critérios físicos que as candidatas devem possuir. Na lista figuram também ter peito de leão, coxas de veado, pescoço como uma concha, e voz suave e clara como a de um pato [suave? o pato? ok.]. Parece-me a mim, na minha profunda ignorância acerca destes assuntos, que estão à procura de uma Quimera.)
(fonte: Visão, n.º 233, semana de 16 a 22 Outubro, 2008)
I hope that one day Hilfiger out that with that hair and with that size of legs this was not the best picture to promote his expensive essentials things.
Combien de temps... Combien de temps encore Des années, des jours, des heures, combien ? Quand j'y pense, mon coeur bat si fort... Mon pays c'est la vie. Combien de temps... Combien ?
Je l'aime tant, le temps qui reste... Je veux rire, courir, pleurer, parler, Et voir, et croire Et boire, danser, Crier, manger, nager, bondir, désobéir J'ai pas fini, j'ai pas fini Voler, chanter, parti, repartir Souffrir, aimer Je l'aime tant le temps qui reste
Je ne sais plus où je suis né, ni quand Je sais qu'il n'y a pas longtemps... Et que mon pays c'est la vie Je sais aussi que mon père disait : Le temps c'est comme ton pain... Gardes-en pour demain...
J'ai encore du pain Encore du temps, mais combien ? Je veux jouer encore... Je veux rire des montagnes de rires, Je veux pleurer des torrents de larmes, Je veux boire des bateaux entiers de vin De Bordeaux et d'Italie Et danser, crier, voler, nager dans tous les océans J'ai pas fini, j'ai pas fini Je veux chanter Je veux parler jusqu'à la fin de ma voix... Je l'aime tant le temps qui reste...
Combien de temps... Combien de temps encore ? Des années, des jours, des heures, combien ? Je veux des histoires, des voyages... J'ai tant de gens à voir, tant d'images.. Des enfants, des femmes, des grands hommes, Des petits hommes, des marrants, des tristes, Des très intelligents et des cons, C'est drôle, les cons ça repose, C'est comme le feuillage au milieu des roses...
Combien de temps... Combien de temps encore ? Des années, des jours, des heures, combien ? Je m'en fous mon amour... Quand l'orchestre s'arrêtera, je danserai encore... Quand les avions ne voleront plus, je volerai tout seul... Quand le temps s'arrêtera.. Je t'aimerai encore Je ne sais pas où, je ne sais pas comment... Mais je t'aimerai encore... D'accord ?
(Serge Reggiani, Le temps qui reste (récit); o poema surge recitado no final do filme Deux jours à tuer, de Jean Becker [França, 2007, 85`, M/12]. lancinante. tal como esta vida a que nos deixamos prender.)
(às vezes, quando não tenho nada para fazer, e mesmo quando tenho, também me apetecia eu e tu deitadinhos, a pensar-em-nada, sobre um napron com que cobríamos a natureza-das-coisas.)
A Baixa de Coimbra pela manhã, para quem passa no Mercado e apanha ocasionalmente o autocarro para a zona do Hospital, é uma amálgama de movimentos pendulares – casa-mercado, casa-trabalho, casa-hospital, para mais tarde ser mercado-casa, trabalho-casa, hospital-(com sorte)-casa.
Sim, a Baixa àquela hora da manhã não tem nada de novo. Só movimento e rotina. Ninguém olha para os cartazes que mudam, ou para as sombras que desaparecem. Ninguém repara se a rua foi limpa ou se a fonte brota água. (Reparam sim que a menina da frente tem a saia muito curta, e que a senhora do lado tem um amarelo aberrante. O resto não. Há o almoço para fazer e já são 9 horas!) Talvez por isso, naquela manhã notei curiosamente a convergência súbita que se originava na esquina dos Correios. Amotinara-se ali um bando de mulheres oriundas das manhãs do Mercado. Paradas junto à esquina, nos seus 60 anos enérgicos, olhavam escancaradamente para a caixa de electricidade suja e amolgada. Que se passa? Pensei eu, Será Um rato gordo com as tripas de fora? Um regurgitamento ainda fresco de vomitado? O amarelo da senhora do lado respingado de excrementos de pomba? Serão ainda, deixadas por um qualquer estudante bêbado, fezes abismais? Ou seria simplesmente, Um mendigo descoberto? Não. Nada disto. Sozinhas, no imenso fundo branco encharcado em cola de parede, ressaltavam pretas mas reluzentes as letras da palavra
Ex cur são. Uma Ex [pausa] cur [pausa] são! (e logo ao lado, Festa!)
Onde? Quando? querem saber! Lêem rapidamente o cartaz tentando escapar ao apelo da palavra provocante; discutem avidamente o conteúdo. E percebem ligeirinhas que, de facto, nem interessa. Fossem comunistas não fossem, era Uma excursão!
UMA Ex cur são! (e uma Festa!)
Fantástico. Confesso que me arrebata este fascínio dos 60 anos (perdoem-me a redução a esta faixa etária) pelas viagens atribuladas dentro de um autocarro. A malta da terra, as curvas apertadas, o Ai José! Ai Maria!, os sacos a abarrotar e a rebolar de sandes anafadas. O pão-de-ló para a sobremesa, ou a torta DanCake do mini-mercado da Josefa. O garrafão de vinho caseiro religiosamente amparado entre os tornozelos cheiinhos. A toalha rendilhada e bem dobrada para ser deitada na mesa de piquenique. Os peitos farfalhudos de pêlos sobre os quais reluz juntamente com o suor um grossito fio de ouro. As boinas impecavelmente direitas. A saia bem bonita pelo joelho, a camisa de domingo aos folhos, Ou de seda. O tamanco moderno, Ou o sapatinho que comprei ali nas Modas da Rita. Os brincos pendentes que rasgam a orelha. O cabelo a cheirar a laca, com mais caracóis do que as couves que ficaram, naquele dia, daquela vez, a crescer na horta do mercado (a época faz mudar as aparências e as coisas de sítio, mas não lhes muda a Natureza).
Fascina-me. Esta geração, agora já terceirinha, que não se volta a repetir. Esta geração que define que os primeiros 100 anos se passem a trabalhar para o futuro, mas que permite que, a partir dos 50, se acrescente a vontade da escapadinha, dada ocasionalmente, em dias parecidos com o domingo. Fascina-me.
É que neste convívio salubre – traduzido no êxtase da Excursão – manifesta-se mais uma etapa da vida. Havia a idade dos porquês, a idade do armário, e a idade de apanhar os caracóis das couves (a época faz mudar os nomes das coisas e as manifestações, mas não lhes muda a Natureza). Agora, algures depois dos Renault 5 e das carrinhas Peugeot 504 Break, há também a idade do autocarro (leia-se, da Excursão! e da festa!).
ou a percorrer os corredores da minha escola
ou a passar na rua
E viesse um sujeito direito a mim
de arma empunhada na mão
morria.
Mas morria antes. Antes que a bala fosse disparada, antes que a bala me atingisse.
Morria da antecipação, morria do sentimento de transgressão
porque Master Wayne I told you so
porque It's the good advice that you just can't take
porque devia ter ficado em casa
(à espera que o prédio desabasse
ou que a bilha de gás explodisse)
aninhadinha na minha cama
à espera.
À espera de morrer depois.
(o recorte de Jornal que a Susana me deu dizia que o rapazinho de 22 anos tinha bilhetes no quarto onde exprimia o seu ódio pelas «pessoas e pela raça humana». Compreendo. Podemos escapar de todos os que nos rodeiam, trancarmo-nos no nosso quarto e ficar na solidão. Mas, ainda que tentando ignorar, estamos ininterruptamente presentes para conseguirmos escapar de nós mesmos.)
Se, por um lado, vivemos numa sociedade demasiado egocêntrica, por outro, temos a mania de andar a lamber botas para subir de degrau. Mas pior que ter que as lamber, é suplicar para lhes passar a língua encima. Porque só assim, pensamos nós, o outro vai reparar que há qualquer coisa a fazer comichão lá em baixo. E só assim, pensamos in-cre-du-la-men-te nós, perante o desconforto da dádiva, iremos receber.
(Não sei, não me parece que isto seja tão claro visto de dentro, ou de baixo, do sítio onde se cheiram as botas, mas sinto o meu estômago (es)pasmado quando presencio este dar-com-ela-fisgada – torna-se indecente.
sim, indecente. este Please subtil. este Let me please you ardiloso.)
E o pior é que quem se oferece, ainda que tenha a consciência do desconforto que gera, da obrigação que provoca, não percebe o reverso da medalha. É que Ouvir peganhento o elogio – incómodo, A risadinha amarela – insuportável, A gargalhadinha fininha a rebentar – despropositada – e sentir Lambeeer, com aquela língua enrolada de trejeitos de um british accent, as botas já insuportavelmente lambidas por tantos outros, gera um desdém imperturbável por parte de quem se sente obrigado a gratificar. Porque o outro iça mas sem vontade – Oh você aí, ice lá este que já me chateia. Porque o outro compra sem gostar.
E acabamos por nós próprios definir como queremos subir os degraus – içados por uma corda podre. E acabamos por, nós próprios, nos colocar no lugar que merecemos – o lugar da fruta incipiente à espera da primeira oportunidade para ser deitada fora.
O semáforo ficou verde, e o senhor parou. Estancou o carro, de mãos no volante, e esperou. Os de trás apitaram, com a razão, pensaram eles, Olha-me este parolo a parar no verde!
mas,
parolos são eles que não percebem que este homem pára nos verdes e avança nos vermelhos. Parolos são eles que não sabem e, pior que isso, não querem saber o porquê do senhor parar nos verdes e avançar nos vermelhos. Parolos são eles que fazem as coisas pela ordem, e seguem as cores quando atam os sapatos e abotoam as calças, quando fazem ofícios ou orçamentos de estado, quando discutem leis e apregoam morais. No fundo, quando seguem as cores para julgar o outro ou para barrar manteiga na torrada da manhã.
Pa-ro-los. Porque se enfileiram atrás das regras, e as seguem num jogo cego de Rei Manda. Porque as seguem mesmo quando já nem sabem quem manda. Porque perderam o sentido das coisas. Porque nem questionam o sentido das coisas. (Que mania de avançar nos verdes e parar nos vermelhos.)
por isso,
fascinam-me estas pessoas que param nos verdes. Porque certamente avançam nos vermelhos e geram o caos. Ou esperam o azul sem estranhar a demora [tudo é uma imensa descoberta] e, depois, geram o caos. Que vêem o mundo ao contrário, de pernas para o ar. Ou sem ser ao contrário, que o vêem do avesso. Ou sem ser do avesso, como uma infinidade de peças de puzzle totipotentes. Que esticam as regras, e as encolhem e amarfanham depois, só para que possam caber no frasquinho que lhes reservaram. Ou que não reservaram e que arranjaram ali. Agora. O frasquinho pelo qual passam e ao qual deitam a língua de fora só pelo gozo de as ver contorcidas e miseráveis, desesperadas.
por isso,
fascinam-me. Quando pegam nas rotinas e as olham de baixo a cima, e então percebem que não têm sentido ou que o seu sentido seria maior se fossem sanitor ou nitorsa ou ainda tarnios.
(mas, depois desta consciência, amarfanham-se e preenchem os espacinhos ocos e até os não-ocos da minha cabeça os porquês de também eu avançar nos verdes e parar nos vermelhos. Afinal, parola sou eu.)
[conteúdo potencialmente capaz de provocar reacções nas vísceras.]
Nas minhas últimas incursões à Urgência há coisas que me ficam. Coisas. Coisas que nem são o sumo da ida à Urgência. Não são. Porque o que me fica destas incursões não é a procura do alívio dos sintomas, ou o próprio alívio dos sintomas; não é a segurança de ter alguém sábio a aliviar-me os sintomas, a procurar-me as origens, a curar-me os males. Também não é o facto de encontrar auxiliares exaustas e carrancudas ou médicos inatingíveis. Não é o cheiro e as peles amarelas. Não é o desespero humano nem os limites que se ultrapassam. Nem é o cansaço da espera nem sequer o cansaço da luta.
O que me fica das Urgências são os momentos em que eu entro triunfante
pela sala de espera adentro
cheia de pessoas a olhar para as moscas. Isso e a olhar umas para as outras, e a ouvir o que umas dizem para as outras
porque estão cansadas, cansadas daquela espera. Isso e cansadas da vida, e então reparam e olham escancaradamente o momento
em que eu (re)entro triunfante nessa sala, num esforço de equilíbrio e jeito para não perturbar o líquido amarelo no copo de plástico branco a baloiçar a baloiçar a baloiçar.
[as minhas faces vão Boom]
Isso, e o momento em que a médica dócil e simpática sai do gabinete e entra
pela sala de espera adentro
cheia de pessoas a olhar para as moscas. Isso e a olhar umas para as outras, e a ouvir o que umas dizem para as outras
porque estão cansadas, cansadas daquela espera. Isso e cansadas da vida, e então reparam e ouvem escancaradamente o momento
em que a médica se dirige a mim com um copo de plástico branco e diz Depois faz para aqui está bem?
[as minhas faces vão Boom]
(confesso que não percebo porque é que as minhas faces vão Boom. receber o copo, utilizar o copo, retornar com o copo no contexto de uma Urgência é perfeitamente normal.)
Isso e também a senhora do guichet no piso das Colheitas que me fala do Procedimento. Já sabe o procedimento? Não. Lava-se, deixa correr um pouquinho e depois faz para aqui [aponta para os frasquinhos apropriados], sim? (Como é?) Lavo-me? Sim, no bidé. A casa de banho está preparada para isso.
(bidé. na casa de banho de um hospital público. ora aqui está uma coisa que eu confesso que não vou perceber.)
P.S.: Mas eu não me queixo. Nãaaao. Eu simplesmente relembro. E, depois de relembrado e remoído, penso com as faces enrubescidas que o que me fica nem sequer é o sumo da ida à Urgência. Ou o próprio palco da Urgência. Que não é o facto de encontrar auxiliares exaustas mas dedicadas ou médicos reticentes com o peso da responsabilidade. Que nem são as histórias que se vêem, nem as lições simples que nos estalam na face. Que não é a humanidade amachucada por um cansaço de espera, e por um cansaço de luta.
Que o que me fica como urgente para relembrar é tão-somente o que faz as minhas faces ir Boom, e o meu ego(centrismo) atadinho quando expõe a parte ridícula da intimidade.
(custa-me esta indiferença. porque não mede o tamanho das nossas sensações, dos nossos afectos, das nossas dependências. não mede o tamanho dos medos, das ambições - do desejo de termos sempre mais que um momento. sim, custa-me. porque não mede os sonhos, não mede os planos, e o quanto nos vemos incompletos para completar. porque não mede o amor dos outros e as consequências da privação. porque não mede a justiça nem a injustiça. e procede absurda e inconsciente. ao acaso. e não repara na ironia.
indiferente.
e, por isso, custa-me. porque não mede o tamanho do apego que ganhamos à vida.)
Combinações. 24 x 24. Imensos os cubinhos que se movem numa ordem rígida e perfeita. Até que tudo volte ao início. À perfeição*. Para que se possa desmoronar em seguida e repetir o ciclo.
(o desespero humano de não conseguir perceber o que não tem um sentido.)
Vou para casa. Não sei quando foi o início, nem se quer se algum dia tive o início, mas sinto os cubinhos na minha cabeça, a mover a mover a mover. Seguem movimentos ritmados; vão-se dispondo e caminhando no sentido da ideia primeira, única, perfeita. As palavras encaixam-se, constroem-se, combinam-se. E atingem: Tenho que escrever, Já. Mas o instante passou. Vagarosos e impassíveis, retomam o ciclo. Vejo as ideias desmontarem-se (desmoronarem-se) a pouco e pouco. Esqueço as palavras. Já não sei como voltar.
Ideias. Palavras. Como cubos. Montam-se, atingem o momento em que a eclosão madura do fruto é possível, e voltam a desmontar-se.
(o desespero de se ter o momento na mão e de o deixar escapar, irreversivelmente.)
*A “perfeição” é, em si mesma, um conceito inatingível. Mas, ainda que sabendo as nossas limitações, procuramos sempre a proximidade do Horizonte.
Tenho o frigorífico cheio de tomates. No meu prato é possível reparar nos resquícios de conduto afogados no imenso desabamento vermelho. Proteínas e: tomate cru, tomate cozido, tomate recheado, refogado de tomate, tomate au chef, tomate au garçon, doce de tomate, etc. Tomate au hasard. (eu até fazia isto tudo, se passasse o dia entregue à questão dos tomates. como não passo, segue o tomate cru.)
A mãe natureza é de facto generosa. O problema é que antes do tomate veio a alface. E toca de passar uma época a comer alface. Até se gastar o sabor e ser já tudo uma amálgama de folhas verdes em pedaços. O problema também é que antes da alface veio o alho francês. E antes do tal veio o outro, e assim por diante.
E agora, quando passar o tempo do tomate, virá o tempo da abóbora, depois da couve portuguesa, o tempo dos grelos de couve, o tempo dos nabos, dos grelos de nabo, dos grelos de couve, do feijão verde.
E em todas estas épocas eu me imagino sentada à mesa, numa figura triste e desconsolada, a mastigar interminavelmente um poço de legumes de época.
E confesso que, aparte a sua generosidade, me saturam estes desequilíbrios da mãe natureza.
(a Susana diz que não são desequilíbrios: que a mãe natureza é que não vive à nossa custa. Que faz é o que lhe dá jeito, a ela. Hm. Prooooonto, reformuuulo. Confesso que me satura esta indiferença da mãe natureza.)
I A velha olhou o Horizonte. Em frente, as luzes iam-se acendendo e as famílias reuniam-se em torno de conversas animadas. Fechou a janela. Os estores sujos afiguraram-se mais pretos. Sentou-se na cama, fechou os olhos e lembrou. Outros tempos, dizia ela, Outros tempos.
Percorreu o caminho comprido. Há quatro dias que se encerrara em casa para trabalhar. E soube-lhe bem. Estava para continuar. Mas os amigos insistiram. Tens que sair, vai fazer-te bem. Vamos àquele bar, anda. Foi. Quando chegou tinha o lugar à espera. As conversas, os festejos, os copos. Subitamente, Tanta gente ali. Quem são estas pessoas. Tanto barulho. Só.
Tinha 27 anos. O corpo inerte, em coma há 18 anos, não parecia fazer conta dos cuidados. Todos os dias enfermeiros, médicos e auxiliares passavam por aquele quarto. Todos os dias os pais entravam e falavam com ela. Pegavam-lhe na mão e sonhavam. Mas o mundo mudara à sua volta. E, inconsciente dessa mudança, inconsciente já de si mesma, permaneceu a menina que antes fora.
II Há tantas pessoas sozinhas. Se as pessoas sozinhas se juntassem todas deixava de haver pessoas sozinhas.
(deixava?)
(à noite no escuro do meu quarto oiço o meu coração no silêncio bater batER BATER e penso Se eu morresse agora morria sozinha Sem ninguém saber.
[“(…) Dão-se os lábios, dão-se os braços dão-se os olhos, dão-se os dedos, bocetas de mil segredos dão-se em pasmados compassos; dão-se as noites, e dão-se os dias, dão-se aflitivas esmolas, abrem-se e dão-se as corollas breves das carnes macias; dão-se os nervos, dá-se a vida, dá-se o sangue gota a gota, como uma braçada rota dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto que no silêncio concreto, este oferecer-se de dentro num esgotamento completo, este ser-se sem disfarce, virgem de mal e de bem, este dar-se, este entregar-se, descobrir-se, e desflorar-se, é nosso de mais ninguém.”
António Gedeão, Poema do Homem Só, 27 Dezembro 1956, publicado em Teatro do Mundo, 1958.]
Económicas, chama-lhes a Susana. E são: borrifam-se abundantemente com o Mata-Spray e, ainda assim, duram, duram, duram, duram...
(eu sei que devia meter o pé encima e pronto. mas a sensação do meu sapatinho naquelas costas arqueadas, naquele corpo cheio de patas, naquela minúscula cabeça com antenas, naquela criatura crocante e inteligente, também dura, dura, dura, dura...)
Sei de cor que os pacotes de açúcar têm entre 7 a9 gramas de açúcar. Sei também que, no ritual diário, são abertos e esvaziados para adocicar o que é amargo. Que os ditos pacotes ficam então mais leves, e passam a esvoaçar, levados nos ventos da Baixa. Que se deixam cair ao chão, minúsculos e espalmados. Que se deixam cair ao chão rodeados de montras apelativas. Que ninguém olha para o chão quando as montras mostram peças em saldos. Que é preciso o acaso mas que, por vezes, tendo muitos e muitos metros quadrados, metemos o pé onde não devemos.
Penso que as pessoas também vêm por vezes como pacotes. Anunciam 7 a 9 gramas de açúcar no interior, o suficiente para adocicarem o amargo do resto, e quando se vai a ver estão ocas. Tão ocas, que entre os aproximadamente 6.684.100.000 humanos que existem, acabamos a pensar Bolas, tinha logo que escorregar neste! Mas, depois, podemos sempre pensar que se sobrevivemos não é tão mau quanto isso.
Aliás, entre o instante de meter o pé, ter a sensação de algo escorregadio e olhar para o chão, confesso que receei. Mas depois, Ufa, pensei, Ao menos não pisei um poio.
Direitos humanos. Tenho um saco de questões acerca destes direitos: de onde vêm? onde surgem? a quem se aplicam? devemos impô-los como verdade absoluta? são o estado último das coisas? é para onde evoluímos – para uma liberdade individual?
Disseram-me que não é uma questão de impor. Que forçar as coisas não funciona – as coisas revoltam-se e acabam por seguir outras direcções, direcções que só empatam e atrasam o caminho último. Que é preciso respeitar os tempos de evolução de cada nação. Que todos caminhamos para lá. Que acabamos por lá chegar. Que os direitos humanos, os direitos atribuídos aos seres humanos e que lhes permitem o livre arbítrio, que a emergência desses direitos irá acontecer mais cedo ou mais tarde em todas as nações.
(deve ser como a ideia de deus. o nosso cérebro caminha em determinadas direcções e não há como fugir-lhe. estranha liberdade esta, a liberdade programada.)
Penso nisto. Em como as pessoas começam. E se tornam agrestes. Egoístas. Em como as pessoas acabam por apaziguar ao longo da vida. Em como as pessoas têm diferentes tempos para achar esta paz e esse respeito pelo próximo. Em como uns lá chegam mais cedo. Em como outros só quando o fim de tudo se aproxima a galope. Em como outros já vão tarde, e outros nem fazem planos de chegar.
Sim, disseram-me que não devemos impor, que os oprimidos serão livres um dia, quando as nações, uma por uma evoluírem o suficiente. Quando as outras nações chegarem ao ponto em que nós, ocidentais, nos encontramos. Que elas lá chegarão nesse dia.
(calculo que esse dia seja numa medida de tempo indefinido, claro. afinal, também atribuímos o direito às diferenças individuais – onde deve estar incluída as diferenças na velocidade de evolução.)
Pena é que, enquanto uns chegam e outros não a esta meta que concebemos, muitos inocentes morram pelo meio sem sentir no peito o que é isso de ter direito à liberdade.
(P.S.: eu muito sinceramente ainda não encontrei resposta finita para as perguntas do início. mas o Karl Popper escreveu uma vez que, para permitir a tolerância, tínhamos que ser intolerantes numa só coisa: para com a intolerância.)
Se pensar de dentro, de dentro das coisas, das coisas como eu Parece-me que a minha vida se passou num dia.
Não sei, mas da infância tenho algumas lembranças semelhantes ao raiar de uma luz, ao nascer dos sonhos.
Da adolescência um sol a pique de se ficar encandeado e pensar que se vê tudo E afinal não se vê é nada.
Da adultez nem tenho memórias, que isto o tempo corre e exige E acabamos por, nas mudanças, perder pedaços que não voltamos a recuperar.
De agora (será velhice?) é um cansaço das coisas, Querer o tempo e saber que se extingue e que não volta.
A noite vai escura e parece-me que não há a luz no fundo do túnel, que ainda faltam umas 7 horas para o novo dia, e eu nem sei se depois de dormir volto a acordar.
Na descida, andei a pisar ouro. Não sabia que havia ouro na Couraça. Erro meu, porque todos os dias ao final da tarde, quando o sol se vai deitando de mansinho, as pedras cinzentas encerram-se e metem as couraças de ouro para dormir.
(é incrível como as coisas mais pequeninas da vida nos despertam, por vezes, o maior sorriso do dia.)
Decorei-te a frase de intervenção, a aparição súbita. Decorei-te o cabelo ligeiramente encaracolado, os fios brancos de quando a quando, os dentes finos e os olhos arregalados. Decorei-te os gritos e a voz arrancada de um fundo sem fundo. Decorei-te esse desespero de querer ser o que não está em nós. De fugir daquilo que nos está no sangue. Encontrámo-nos no meio de uma sucessão desordenada de instantes, e falámos como se nos conhecêssemos desde sempre. Trocámos ideias, ultrapassámos os limites. E depois, saciados da quebra da rotina, seguimos com a nossa vida.
Talvez todos queiramos encontrar um louco. Alguém que nos arranque do que vivemos todos os dias. Que nos acorde. Por instantes. Para quando formos para o café termos uma história para contar. O que não queremos depois é ter que viver com ele. É um brinquedo de meia-hora que só queremos se, quando começar a chatear, o pudermos pôr de lado.
(aparte de ser rebelde, acho que uma parte de mim – a que não se preocupa com as aparências, a que compensa essa parte – uma parte de mim sempre quis ser louca. mas essas coisas não se forçam. já vêm nos genes. e se tentarmos ser loucos, acabamos por nos tornar ridículos.)
Marco o número. Para tal e tal marque isto. Para tal e outro marque aquilo. Marco isto. Se quer tal e coiso marque x. Se quer tal e aqueloutro marque y. Marco y. Para condições marque bu. Para confirmar marque pu. Marco pu. De certeza que quer tal e aqueloutro? Marque s para confirmar. Marque t para cancelar. Marco s. Lamentamos. Só pode mudar no dia que não é hoje.
acho. mas ser-se louco é tão bonito. (tenho tal admiração por esta mulher, que calculo quer ela me acharia ridícula se soubesse que o chego a confessar.)
Saiem-me as tripas pelos olhos. Morro que não aguento. Que arda e sofra, Odeio-o Espero que morra.
(Levar as coisas ao extremo é como repetir a mesma palavra vezes sem conta até que soe estranha e nova e desconhecida. As coisas assim tornam-se patéticas e vãs, inúteis. É por isso que as devíamos pegar pela mão, ou mesmo agarrá-las pelo braço, e levá-las até esse ponto longínquo – consumá-las num grito despropositado. Nem que seja apenas para percebermos depois que onde queremos ficar é lá atrás. Ou se calhar até um pouco mais à frente…)
That's not the beginning of the end That's the return to yourself The return to innocence
(The Return to Innocence, Enigma)
(Eu também gostava de voltar a mim mesma
e a essa inocência
de ser só eu, sem o resto. Sem tudo o que se vai acoplando, E a estripa.
Mas os inocentes são mortos cedo. Porque são imaculados. É o preço de não sofrerem a consciência do mundo. É assim a inocência – tem um tempo e, depois,
Sou tremendamente defensora que o mundo é transformável, que as situações são alteráveis, que a nossa percepção das coisas é moldável. Daí, que tudo seja modificável! Por essa razão, não há lugar para determinismos, nem para contas feitas a priori com resultados direitinhos e bonitinhos. Não. Tudo na natureza nos surpreende. Mas estamos tão enviesados pelo larga-cai, que falamos de milagres quando não conseguimos compreender o que correu mal.
Se olharmos melhor, vemos que tudo é transformável, tudo é alterável, tudo é moldável. Tudo é incerto e modificável! Tudo é modificável!
(fui à casa-de-banho num instante, fazer o que tinha que ser feito. meti a mão à roldana do papel e… ups! acabou.)
Sou um homem de negócios. Faço negócios. Sempre fiz negócios. Sempre fui um homem de negócios. Desde o tempo em que trocava laranjas por rebuçados, apontamentos por ténis novos, bolas de futebol por nomes de raparigas. Hoje troco serviços por lucros. Por segurança. Por conforto. Para no final do dia chegar a casa e dizer “Querida, cheguei a casa”. E receber nos lábios o beijo enternecido e nas pernas os abraços fortes dos bracitos exaustos de um dia de brincadeiras. Cheguei ao topo da montanha. Quando saí do trabalho, cansado e exaurido de tentar convencer o mundo, de lhe mostrar que os meus serviços são os melhores, que sem eles não vale a pena progredir neste negócio, Quando cheguei a casa, ansioso pelo beijo e pelos abraços, Quando abri a porta, quando entrei… encontrei o silêncio. Querida, cheguei! Silêncio. Meninos! Calado o espaço.
Não sei se é de mim, mas quando se está no topo da montanha, não se vêem as pedrinhas pequenas cá em baixo, esquecem-se as tortuosidades do caminho. O momento é aquele. O resto não existe. A minha mulher estava deitada. Caída pelo chão. Afastados, os pequenitos, e os seus bracitos frouxos e ensanguentados. Sempre achei que percebia tudo acerca de trocas. Até hoje. Troco a minha vida, agora, por um pedaço de paz. Bang.
Penso que me ando a tornar muito cocó. A minha última mania (pelo menos, está mais evidenciada) é criticar tudo e todos, ser pouco tolerante e achar que consigo ver por detrás das coisas. Que a mim já não me enganam! Que é preciso estar sempre atento e desconfiado, porque se não espreita o diabo espreita o vizinho do lado que é um oportunista.
Mudando radicalmente de assunto. O meu lado emotivo diz-me para vibrar com os golos, o lado racional (o mesmo que não me deixou gritar e saltar quando consegui a bolsa, o mesmo que me estancou a reacção efusiva quando entrei no curso que queria e no sítio onde queria, o mesmo que não me deixa dar gargalhadas sonoras em filmes básicos, o mesmo que me faz ponderar sobre alguma aparente graça do destino, o mesmo que me faz parecer adulta quando o nome que eu dou a isso é velhice precoce.), este lado racional diz-me que é tudo uma cangalhada e que o que vale a pena é desesperarmos com este país (e com este mundo!) que nos devora sorrateiramente.
(Devo dizer que estou um bocadinho farta desta luta entre titãs. Sinto-me cada vez mais esfrangalhada.)
Deixar que os golos me preencham. Pensar que é tudo um engodo. Eu até acho que agora consigo ver por detrás das coisas! Devo dizer que, geralmente, o meu lado racional controla o jogo. E acaba por ganhar. Quem perde sou eu.
Ainda me lembro quando a minha tia me veio com a história dos cães abandonados à sorte naqueles caminhos sós, dos cães que abocanhavam as pessoas, das pessoas que tiveram que enfrentar os bichos. Lembro-me de ouvir que eram caminhos perigosos, que havia homens à espreita, que eram incertos para uma menina sozinha os fazer. Os caminhos tornaram-se então longos e inquietantes. E as petalazinhas brancas dentes arregalados.
Ainda me lembro quando as ruas de Coimbra eram as ruas de uma cidade pequena, livre de perigos e sobressaltos. Os caminhos da noite eram desertos, e não havia grande receio que o não fossem. Depois, o chinfrim no ouvido que assaltavam aqui e ali, que violavam acolá. Que as meninas sozinhas eram um chamariz para as tentações dos homens. As ruas de Coimbra passaram a fazer-se à pressa. Sem o prazer da luz dourada a bater no pensamento.
É este o poder da sugestão: minhocas na cabeça. E é isto que nos lentifica a vida.
(a minha mãe também encontrava lesmas nas couves. metia-lhes sal encima e lá as deixava a contorcerem-se até se lhes desaparecer a existência. e era assim que devia ser com estas minhocas.)
Este filme tem tanto de fantasia como de realidade. E é isso que o torna tão bonito.
(quando tudo-o-que-temos-cá-dentro é mais forte. porque não se apagam amores: aprende-se é a viver sem eles. e mais díficil que isso, só aprender a viver com eles.)
(música: The Polyphonic Spree, Light and day; filme: Eternal sunshine of the spotless mind, Michel Gondry, 2004)
Não sei se é pelo olhar comprometido que as pessoas me deitam, ou se por algum resquício de sentido estético em mim, mas sinto que ando na fase de me vestir descombinada. Acredito que seja algo crónico recidivante, consoante o equilíbrio que tenho entre a roupa no roupeiro e na máquina de lavar. Mas também tenho a esperança que seja mais que isso. De facto, julgo começar a gostar.
(imaginar os roxos e os amarelos, os tecidos felpudos com os lisos, as riscas com o floreado, faz-me pensar que o mundo tem uma carrada de possibilidades para além das mais normais.)
E desponta em mim algum prazer em ver esses olhares atravessados. Faz-me sentir louca. Faz-me sentir na pele o que sempre senti nas entranhas.
Quando ando sozinha pela Baixa e o caminho se estende mais longo do que a minha coragem
Quando subo pelo caminho mais curto e percorro as ruas estreitas e escuras
Quando me aproximo da esquina E não sei o que me espera
Quando vejo pessoas E não sei quem são
O que me assusta O que me faz tremer O que faz bater o meu coração Arfar os meus pulmões Sentir o sangue engasgado no cérebro E o torpor na mente
Não é que me tirem os valores Os anéis E levem a carteira Não é que me queiram o dinheiro O leitor de músicas O casaco Os brincos Ou o relógio.
O que me arrepia e faz recear essas viagens É que me queiram a mim.
(não é o dinheiro, nem o poder político, nem as férias nas Filipinas. Não são as malas Louis Vitton, nem os ténis da Nike, nem as calças da Levi’s. O que me assusta, e que este filme captou tão bem, é o prazer na destruição do homem, qualquer homem. Na destruição da vida, seja ela qual for. O gosto em ver uma existência contorcer-se em dor, na súplica, para então se esvair numa poça onde se perde.)
Não tenho muito por onde pegar, nesta vida de todos os dias. Por isso, às vezes, quando percorro o caminho para casa, quando vejo novamente o que vi ontem e antes de ontem quando já ando sem olhar quando já olho sem ver,
também a mim me apetece dar a volta pelo caminho mais comprido, pelo caminho diferente.
Faz-me falta o desconhecido faz-me falta tudo o que não sei nem imagino faz-me falta saber que tudo é estranho e diverso, e que outros olham e vêem distinto o que eu olho também.
Mas acima de tudo sinto falta de olhar eu também e ver estranho e distinto E, depois de o ver, sentir e querer e gostar de estar em casa.
(mas este medo que me prende. esta preguiça que me arrasta. esta rotina que me atraiçoa.)
Quero sair. Quero fazer o caminho, percorrer os caminhos, perder os caminhos. Quero embrenhar-me no mundo
Quero ir, e só então, cansada e descansada, Voltar.
Quero ir, para então, enfim, bradar sedenta a esta terra: -Casa, o quanto eu te ansiei.
(às vezes, muitas vezes, devíamos pegar no medo da mudança, içá-lo com jeito e cuidado, e arrumá-lo numa caixinha perfumada onde ele não se cansasse de estar.)
os meninos coitadinhos queixam-se a torto e a direito a direito e a torto para cima e para baixo para a direita e para a esquerda para a esquerda e para lado nenhum que chega a cansar vê-los queixarem-se tanto.
os meninos coitadinhos precisam de se desculpar que o mundo é uma merda (isso) já todos sabemos mas os coitadinhos gostam de repetir.
os coitadinhos lastimam as suas pernas pesadas que não os deixam voar.
os coitadinhos enojam os que lutam todos os dias apesar de tudo o que vem contra e não se queixam
meninos coitadinhos fraquinhos galos-zinhos arrepiam em pele de galinha os que conseguem sem a queixa na ponta da língua.
meninos coitadinhos apregoam o dito mas morrem sem viverem morrem sem perceberem queé em nós que é tudo.
(p.s.1: faz-me pensar porque te compreendo tão bem…)
(p.s.2: mas ainda que compreenda o que faças, cisma-me na mente a razão porque o chegas a fazer…)
A minha mãe já não me telefona há três dias. Acho que finalmente se está a tornar independente.
(eu já lhe tinha dito que há uma idade para tudo. eu é que pelo contrário parece que estou a regredir. - mãe? que se passa? porque não me telefonas?... :x)
Não sei se é sonho, se realidade, Se uma mistura de sonho e vida, Aquela terra de suavidade Que na ilha extrema do sul se olvida. É a que ansiamos. Ali, ali A vida é jovem e o amor sorri.
Talvez palmares inexistentes, Áleas longínquas sem poder ser. Sombra ou sossego dêem aos crentes De que essa terra se pode ter. Felizes, nós? Ah, talvez, talvez, Naquela terra, daquela vez.
Mas já sonhada se desvirtua, Só de pensá-la cansou pensar, Sob os palmares, à luz da lua, Sente-se o frio de haver luar. Ah, nessa terra também, também O mal não cessa, não dura o bem.
Não é com ilhas do fim do mundo, Nem com palmares de sonho ou não, Que cura a alma seu mal profundo, Que o bem nos entra no coração. É em nós que é tudo. É ali, ali, Que a vida é jovem e o amor sorri.
Fernando Pessoa
(assim nasceu a morada do meu blog: porque sou entranhadamente existencialista.
ressalve-se que não tiro o mérito ao acaso, mas acredito piamente que, de uma forma ou de outra, é sempre possível dar-lhe a volta.)
Anda para aí um dito a arranhar-se pelas paredes que até escandaliza o Homem. Dizem que as mulheres são gente. Gente? Que ideia radical é essa?! Gente de gentinha? Radical é se fossem pessoas!
Tenho andado a pensar na vida. Nas coisinhas da vida. Nas coisinhas minúsculas. Nas coisas do nosso tamanho. Neste mundo. Nas pessoas. No mundo que as pessoas construíram. Nas mesquinharias. Nos nadas. Nos nadas e nas tardes de chuva. Na luz cinzenta por entre a janela de uma casa vazia. Na velha dessa casa vazia. Nos filhos dessa velha que viveram numa casa cheia que agora é vazia. No abandono dessa velha. Nos anos que passam. Em tudo o que se deixa para trás. Nos sonhos que tínhamos. Nos sonhos que já não temos. Nos sonhos que decidimos apagar, à medida que a nossa sombra cresce. No que víamos e já não vemos. No que não víamos e passamos a ver. Na ilusão. Na desilusão. No sentido da vida. No sentido desta vida. No tempo. Nos velhos. Nos velhos doidos. Nos velhos que nos olham. No que os velhos vêem. Nos novos que já foram. Nos novos que foram como nós. No que nós ainda não vemos. Nas rugas e na celulite. No que vemos dos outros. No que vemos nos outros. Nas relações. No que nos liga aos outros. No que queremos dos outros. No que eles querem de nós. Nos medos. No sentido desta vida. No que vale a pena. No que não vale. No dinheiro. Na Política. No Pinóquio. Nas políticas. Na batalha naval dos crescidos. No poder. Nas pressões. Nas verdades que se escondem. Nas verdades que nunca saberemos. Nas verdades que não existem. Nas mentiras que nos vendem. Nas mentiras em que escolhemos acreditar. No fardo desta vida. Na morte. Na fé. Nas crianças. Nas crianças degoladas com os olhos postos no sonho. Nos adultos engravatados, e razoavelmente vivos. Nas crianças adultas. Nos adultos embirrentos e chatos. Nos adultos cruéis. Nas mãozitas endurecidas pelo peso de uma arma. No olhar das crianças. Nas crianças sem olhar. Na fragilidade da vida. No azar. No destino. No imprevisto. Na injustiça. Na ironia da vida. Nas coincidências. No acaso. No que insistimos em querer dar nome. No que não tem nome, nem sequer existência. No que queremos explicar. No que não tem explicação. No homem e na sua natureza. Na essência do homem. Neste jogo em que entramos nem sei bem quando. Neste jogo de aparências. Neste jogo nojento. Em pulsos cortados. Em medos. No resto. No que vale a pena. Nos laços que nos amarram aqui. Nos laços que temos e que, nem assim, nos permitem ficar. Na eterna ironia da vida. Em faces no chão e o vento na face. No fim. Enfim, na vida. Triste, mesquinha, pesada e injusta. O que vale é que é curta, muito curta.
(A minha mãe diz: ainda bem que há o outro, senão – credo! – isto seria uma injustiça. Fico a pensar que para suportarmos esta vida apenas precisamos de uma boa, muito boa mentira.)
Ontem ia esbarrando com o Diogo Infante à entrada da Farmácia. O Diogo Infante? Aqui? De braços cruzados, olhou para mim com um sorriso tal que se me rosaram as faces. Mas depois segui em frente. E nem parei para olhar a senhora da porta ao lado, não fosse também ela ser de cartão.
Rebelde. Ser rebelde. Acho que o desejo me veio da irmã que sempre foi contra tudo e todos. Então quis ser também. Passei por cima do cordeirinho – apesar de continuar a sê-lo para sempre – e enfaixei os cabelos em dois totós que percorri com elásticos de diferentes cores; cortei o cabelo curtinho e deixei a madeixa comprida que entrancei. Comprei o casaco de cabedal e as botas pretas e pesadas – que me magoavam imenso os tornozelos, mas Quero lá saber, não há alma que não se vença, também não há-de haver botas inflexíveis nem tornozelos incontornáveis!
Quis ir contra tudo, contra deus até. Então mudei-me para a malfadada terra, que os corvos deixaram ao abandono, e vesti-me de preto para fazer o luto de tudo o que ficou para trás. Vesti luvas esburacadas, saias por cima de calças e fiquei enfim a Saia-calça, com muito orgulho meu. No meio – e bem emaranhado, como quem quer ser tudo e não é senão uma amálgama de identidades – pintei as unhas, uma de cada cor, deixei-as crescer, e fiz recortes nelas. Meti as meias debaixo do joelho e os dois totós. Fiquei a Pipi, Pipi das Meias Altas. A menina instável, como me descreveu ele, aquela fachada de gente. Pois era, pois fui (pois sou). Desde esse tempo. Até ao dia em que me cansei de tudo. As cores esbateram, as calças prevaleceram. E eu continuei em frente. Até ao dia em que me cansar de tudo. Acho que nunca consegui. Ser rebelde. Entrei numa certa harmonia com as coisas, e não há como escapar-lhe.
Mas não gosto. Nunca gostei.
(reparo agora que tenho os punhos ensanguentados…)
I Eu gosto dele. É estranho. Gosto. Ainda que seja estranho. Por ser estranho. Ele ser estranho. Não o resto (até porque tive sempre a tendência para me identificar com os rejeitados,
e sei porquê.)
I-I I like him. He’s weird. Weeeeird. Weird weird weird. Weirdo. (gosto de alongar o uso das palavras até que se tornem estranhas. Será que se abusarmos do uso das pessoas elas também acabam por se tornar estranhas?)
II Ele é estranho. Mas não gosto dele. Não por ser estranho, mas por ser de um estranho estranho, de um estranho que não gosto. Por isso, não gosto. Dele. Não do estranho. Do estranho gosto. Não gosto é dele. E do seu Estranho.
Nas muitas voltas da vida, apercebi-me que anda para aí a circular com alguma frequência a articular palavra formada com as letrinhas T A U, nesta ordem precisa. Daí, pensei que deveria talvez fazer um resumo das utilizações (não extensivo talvez, mas suficiente). E, tau!, saiu-me isto:
(1) (não necessariamente com maior grau de importância…) o tau-tau que se dá no rabinho dos meninos, e das meninas, seja porque razão for… (2) o Tau empregue como remate descodificador e extremamente esclarecedor para uma frase anterior suficientemente agressiva mas que poderia ter ficado na penumbra, e numa ambiguidade incerta, se não fosse articulada de rompante a tal palavrinha multifacetada e nada ambígua, pois claro… (3) (a parte mais séria…) a proteína tau, implicada na doença de Alzheimer (investiguem…) (4) um coeficiente qualquer que os engenheiros usam para ter desculpa para terem que fazer muitos cálculos e medirem temperaturas na casa de pessoas nas quais nunca entrariam caso não fosse esse coeficiente.
(confesso que quando originalmente me apeteceu fazer isto… pareceu ter mais piada… mas, agora, depois de o escrever, confesso que me apercebi… que ainda não ganhei o tal juízo… Tau?)