Tenho o frigorífico cheio de tomates. No meu prato é possível reparar nos resquícios de conduto afogados no imenso desabamento vermelho. Proteínas e: tomate cru, tomate cozido, tomate recheado, refogado de tomate, tomate au chef, tomate au garçon, doce de tomate, etc. Tomate au hasard. (eu até fazia isto tudo, se passasse o dia entregue à questão dos tomates. como não passo, segue o tomate cru.)
A mãe natureza é de facto generosa. O problema é que antes do tomate veio a alface. E toca de passar uma época a comer alface. Até se gastar o sabor e ser já tudo uma amálgama de folhas verdes em pedaços. O problema também é que antes da alface veio o alho francês. E antes do tal veio o outro, e assim por diante.
E agora, quando passar o tempo do tomate, virá o tempo da abóbora, depois da couve portuguesa, o tempo dos grelos de couve, o tempo dos nabos, dos grelos de nabo, dos grelos de couve, do feijão verde.
E em todas estas épocas eu me imagino sentada à mesa, numa figura triste e desconsolada, a mastigar interminavelmente um poço de legumes de época.
E confesso que, aparte a sua generosidade, me saturam estes desequilíbrios da mãe natureza.
(a Susana diz que não são desequilíbrios: que a mãe natureza é que não vive à nossa custa. Que faz é o que lhe dá jeito, a ela. Hm. Prooooonto, reformuuulo. Confesso que me satura esta indiferença da mãe natureza.)