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quarta-feira, abril 20, 2011

etiquetas na pele


"na 5a feira vai almoçar com o filho epiléptico."

ouvido isto, tratei de tecer o resto da história:

na 6a feira janta com o primo bipolar em fase maníaca. e depois há festa!
no sábado vai às compras com a tia diabética e, de seguida,
janta com a amiga deprimida que se divorciou recentemente do marido celíaco. não há festa.
não ousando escapar, toma ela própria o comprimido, é uma drogada.

no domingo almoça em família, com o outro filho, hiperactivo, a miúda obesa, e o marido desempregado (que é o mesmo que dizer, futuro alcoólico identificado ou futuro deprimido). o filho epiléptico não almoça aqui.

na 2a, depois de sair do trabalho, faz o jantar para os filhos e vai ver a mãe demente. por coincidência, na mesma casa, está também o pai normal. quê, normal?! não tem sequer uma patologiazinha com que o possamos definir? uma amigdalite recidivante, uma renite alérgica, uma hipertrofiazinha prostática incipiente? sei lá, qualquer coisa muito única, nada repetível e comum, que possa ser incluída na etiqueta descritiva? uma carecazinha à vista, uma fugazinha aos impostos, uma batidelazita no carro da frente? prooonto, está bem. o pai normal. mas um tremendo anormal, caramba.

sábado, maio 22, 2010

Se (2)

  
há o motorista de autocarro com os olhos escorridos atrás dos óculos escuros. há o pendura que entra no autocarro, que conhece o motorista e por isso lhe leva a viagem de borla. já viu o que era eu agora ir a pé até lá abaixo sob este calor, era uma crueldade!. há o rabo de cavalo loiro-a-caminhar-para-o-grisalho, sujo e desleixadamente preso. há a magreza extrema. há os dentes, um ou outro, a enfeitar a caverna que se abre num sorriso. há a conversa que, com muita pena minha, tive que deixar a meio.

motorista:
- olhe, eu, comecei o dia primeiro que você!
pendura:
- então, pois claro que sim. levantou-se primeiro que eu! agora, já viu, se eu me tenho levantado antes de você, tinha eu começado o dia primeiro!

   
          

domingo, março 28, 2010

as normas dos (a)normais



m.: acho que ela é estranha.
eu: ela? estranha?! mas estranha como?
m.: oh pá, estranha. sei lá!
eu: mas estranha, estranha porquê?!
m.: sei lá... acho-a banal.



(adoro as tuas 'pancas')

quinta-feira, novembro 05, 2009

inimputabilidade


'ela é doida!' 'matou o filho' 'saltou da janela' 'cortou os pulsos' 'entupiu-se em fármacos' 'e tinha uma carreira brilhante' 'eu nem dei por nada, ela parecia tão feliz!' 'já viste o que ele fez à namorada?' 'regou-a com gasolina e pegou-lhe fogo' 'parece um tresloucado, não diz coisa com coisa' 'ele é estranho' 'e a mania das limpezas?!' 'teve uma crise de ansiedade só porque lhe disseram que não?' 'passou-se' 'que parvoíce, ter medo de um animal tão pequenino!' 'matou os pais' 'esmurrou a senhora da caixa' 'pegou nos filhos e um a um afogou-os na banheira'.

prometeu-lhes que baixava os impostos, e mentiu.

(não sei o que é que é pior - e lamento meter isso em questão - se a barbaridade cometida quando se perde o fio à meada, se a judiaria quando se está pleno de si. de qualquer modo, as coisas são muito relativas.)