sentei-me. tirei o caderno. abri o caderno. pousei o caderno. (nunca apetece ler nas viagens relativamente curtas de comboio). olhei para fora. olhei para dentro. olhei em volta. vi.
ela, larga e de braços rechonchudamente cruzados sobre si, atravanca o banco. tem os cabelos cinza escuro brilhantemente puxados para trás num pequenino rabo de cavalo. ao lado, ele, o presumível filho, senta-se descaído no banco. puto dos seus trinta, tem nas mãos um leitor de música e na cabeça um boné de pala. ela mostra impaciência, inquieta-se, rumina pensamentos, lançando-lhe olhares furtivos como quem verifica acções. ele, de fones nos ouvidos, rígido que nem pedra, ignora.
ela olha para ele, desanima, remexe os pensamentos e escolhe o que mais a incomoda. ele não ouve, ela repete, queixa-se do som daqueles malditos fones. desespera. ele dá
enfim sinais de vida. mexe no mp3 (ou coisa que o valha), deve baixar o som. ela repete. fala da prenda do primo. de quando lhe a deveriam dar. ele, ainda sem sinais de vida inteligente, não responde. mas lança, alguns segundos depois, a sua opinião de adulto a caminho da adolescência: '
oh! então quando foi os meus anos eu também abri antes!'. ela ouve. risposta. desanima. não se entendem. depois,
silêncio.
de rompante, com brados carregados de pronúncia-do-norte,
ele, grave, explodindo gafanhotos, mas sem mexer um cabelo:
-
faltam 8!
ela, estrebuchando e num misto de 'surpresa' e 'lá-vem-mais-do-mesmo':
-
8? 8 quê?
ele, como que constatando o óbvio:
-
paragens!
ela, no tom mais desesperado que lhe conheci:
-
ai balha-me deus! então mas tu estás agora a contar paragens?!
ele, gafanhotando de orgulho (mas ainda sem mexer um cabelo):
-
de vez em quando conto!
(devia ser, não sou. adepta de todo e qualquer transporte público. frequento por necessidade, por desespero de causa. prefiro o pé. prefereria também o carro próprio, símbolo de independência. pronto, de comodismo. não tenho. não uso. uso o comboio. gosto do comboio. simpatizo com o comboio. só não suporto autocarros. frequento por pressa, por preguiça. e, repetidamente, arrependo-me. sempre. mas então, dentro, encharcada nos bafos quentes da manhã, no cheiro ao ácido dos dentes, nos suores das corridas breves, na água dos guarda-chuvas; depois de longos períodos de espera na paragem, de longos períodos de espera na estação; depois das impaciências, dos apertos para entrar, dos empurrões para sair, aperece-me sempre um marmanjo que me rende a viagem. e pergunto-me - respasto-me até a pensar que! - se andasse sempre pelo meu pé em viagens solitárias, ou enfiada dentro de um carro, como seria possível contemplar tão
longa e ricamente estes presentes do quotidiano?)
[Julho, 2009]