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sexta-feira, junho 14, 2013

uma vez ou outra quando o autocarro passa na paragem do hospital

       
há algo de extremamente romântico, comovedor e, de certa forma, abrupto, em ver um homem - de escalpe luzidio, barriga a saltar da calça, em robe de seda e chinelo de flanela - a apanhar flores com a maior candura no meio dos canteiros da portaria.


(é de fazer crer que não há limites para o pudor humano. oba!)


         

domingo, outubro 02, 2011

consequências da não aprendizagem compreensiva da função da filinha indiana na escola primária.

    

mas a sério? não podem ser dois? vá lá, dois. três é demais, sim, claro, pois... mas dois entravam tão bem! vamos coladinhos coladinhos que nem se nota! já viu o tempo que se poupava na fila das 9? era logo para metade! não? oh vá láaaaaaaaaa. olhe para o meu beicinho descaído. eu tenho dois filhos e uma mulher. e um ou outro primo, vá... oh vá láaa. pleeeeeeeeease! não ainda? mas não mesmo? então amaldiçoada-seja-a-tua-mãe-e-o-teu-pai-e-a-tua-geração,-que-tenhas-doenças-e-nunca-saúde-e-por-belzebu-que-arreganhes-os-dentes-e-nunca-durmas-descansado-e-te-borres-nas-calças-e-que-morras-de-sofrimento-depois-de-veres-todos-os-teus-a-morrer! e ora toma.

 
(este tipo de avisos suscita sempre em mim muita imaginação. pensar no que os desencadeia. nos acontecimentos que ali já tomaram lugar. ah! em toda a maravilha e peculariedade do comportamento humano! ...)
           
         
            

sexta-feira, março 18, 2011

Penafiel - Porto, serviço urbano


sentei-me. tirei o caderno. abri o caderno. pousei o caderno. (nunca apetece ler nas viagens relativamente curtas de comboio). olhei para fora. olhei para dentro. olhei em volta. vi.

ela, larga e de braços rechonchudamente cruzados sobre si, atravanca o banco. tem os cabelos cinza escuro brilhantemente puxados para trás num pequenino rabo de cavalo. ao lado, ele, o presumível filho, senta-se descaído no banco. puto dos seus trinta, tem nas mãos um leitor de música e na cabeça um boné de pala. ela mostra impaciência, inquieta-se, rumina pensamentos, lançando-lhe olhares furtivos como quem verifica acções. ele, de fones nos ouvidos, rígido que nem pedra, ignora.

ela olha para ele, desanima, remexe os pensamentos e escolhe o que mais a incomoda. ele não ouve, ela repete, queixa-se do som daqueles malditos fones. desespera. ele dá enfim sinais de vida. mexe no mp3 (ou coisa que o valha), deve baixar o som. ela repete. fala da prenda do primo. de quando lhe a deveriam dar. ele, ainda sem sinais de vida inteligente, não responde. mas lança, alguns segundos depois, a sua opinião de adulto a caminho da adolescência: 'oh! então quando foi os meus anos eu também abri antes!'. ela ouve. risposta. desanima. não se entendem. depois,

silêncio.

de rompante, com brados carregados de pronúncia-do-norte,

ele, grave, explodindo gafanhotos, mas sem mexer um cabelo:
- faltam 8!
ela, estrebuchando e num misto de 'surpresa' e 'lá-vem-mais-do-mesmo':
- 8? 8 quê?
ele, como que constatando o óbvio:
- paragens!
ela, no tom mais desesperado que lhe conheci:
- ai balha-me deus! então mas tu estás agora a contar paragens?!
ele, gafanhotando de orgulho (mas ainda sem mexer um cabelo):
- de vez em quando conto!

(devia ser, não sou. adepta de todo e qualquer transporte público. frequento por necessidade, por desespero de causa. prefiro o pé. prefereria também o carro próprio, símbolo de independência. pronto, de comodismo. não tenho. não uso. uso o comboio. gosto do comboio. simpatizo com o comboio. só não suporto autocarros. frequento por pressa, por preguiça. e, repetidamente, arrependo-me. sempre. mas então, dentro, encharcada nos bafos quentes da manhã, no cheiro ao ácido dos dentes, nos suores das corridas breves, na água dos guarda-chuvas; depois de longos períodos de espera na paragem, de longos períodos de espera na estação; depois das impaciências, dos apertos para entrar, dos empurrões para sair, aperece-me sempre um marmanjo que me rende a viagem. e pergunto-me - respasto-me até a pensar que! - se andasse sempre pelo meu pé em viagens solitárias, ou enfiada dentro de um carro, como seria possível contemplar tão longa e ricamente estes presentes do quotidiano?)


[Julho, 2009]

sábado, maio 22, 2010

Se (2)

  
há o motorista de autocarro com os olhos escorridos atrás dos óculos escuros. há o pendura que entra no autocarro, que conhece o motorista e por isso lhe leva a viagem de borla. já viu o que era eu agora ir a pé até lá abaixo sob este calor, era uma crueldade!. há o rabo de cavalo loiro-a-caminhar-para-o-grisalho, sujo e desleixadamente preso. há a magreza extrema. há os dentes, um ou outro, a enfeitar a caverna que se abre num sorriso. há a conversa que, com muita pena minha, tive que deixar a meio.

motorista:
- olhe, eu, comecei o dia primeiro que você!
pendura:
- então, pois claro que sim. levantou-se primeiro que eu! agora, já viu, se eu me tenho levantado antes de você, tinha eu começado o dia primeiro!