um gajo quando acorda às 7h20 da manhã, mete a mão ao despertador ainda com os olhos semi-cerrados, dá meia volta na cama, quando vira a cara na almofada, enterra a cara na almofada, olha para o lado, tem a companheira, ergue-se sobre si e salta da cama, quando percorre o corredor a cambalear, quando espreita o quarto das filhas, dormem, quando se enfia no wc, toma o duche debaixo das pingas quentes, fecha os olhos, trauteia baixinho, demora-se, as pingas quentes, relembra uma música que gostaria de compôr, as pingas quentes, fecha a torneira, sai, seca-se, quando volta para o quarto, olha a mulher, sorri a qualquer coisa que ela diz, quando pega nas calças, desiquilibra-se enquanto as veste, vai à janela para ver o tempo, escolhe a camisa, quando se olha ao espelho e ajeita o cabelo, a mulher pergunta-lhe, ele responde, quando sai do quarto, vai à cozinha, ela chega, há leite aberto?, quando faz o café, 2 colheres cheias na chávena da terceira porta do armário, quando tira as fatias de pão e as põe na torradeira, quando retira com cuidado aquela migalha a queimar na resistência, quando pega nas torradas, e lhes barra demoradamente a manteiga, quando as leva à boca, a pensar noutra coisa qualquer, quando pega na loiça e a põe para lavar, quando percorre novamente o corredor, procura a mulher no duche, combina superficialmente como será mais logo, quando volta à cozinha para buscar o pullover que ficou na cadeira, estanca o olhar na taça das nozes, deita-lhes a mão, chega uma à boca e pensa que faz bem ao cérebro, ou nem pensa e apenas lhe sente o sabor, quando pega nas chaves do carro e na máquina fotográfica, não imagina nunca que vai morrer às 15h04.
"The range of what we think and do is limited by what we fail to notice. And because we fail to notice that we fail to notice there is little we can do to change until we notice how failing to notice shapes our thoughts and deeds." (Ronald D. Laing)
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domingo, maio 13, 2012
Bernardo. e todos os outros.
(para onde vão as coisas, tudo aquilo que recolhemos durante anos,
tudo aquilo que desenhámos na pele, que aprendemos, que construímos na mente,
todo o conhecimento, todas as ideias, tudo o que vimos, que eu vi!, todas as interpretações,
para onde vão?
para onde vão as coisas que somos, que vivemos, todas as memórias,
para onde vão caramba
quando terminamos?)
quinta-feira, maio 19, 2011
it (ii)
estar no meio das gentes, sentada, a vê-las passar. sentada, quieta, enquanto apoio a mão no queixo, e as vejo passar. contemplá-las. a elas, aos seus movimentos, ao seu movimento. pendular. vão e voltam. andam às voltas. ou não. em movimento rectílineo com travão. vão, não voltam.
vê-las passar. habituar-me a vê-las passar. observá-las enquanto passam. porque não as poderei observar depois, quando já passaram, manter isso em mente, quando já passaram e não voltam. prender-me nisso, nos movimentos, na forma como olham, como andam, como se relacionam. na forma como se ignoram. como me ignoram. enquanto eu, sentada, com os fones nos ouvidos, as vejo, as observo, as contemplo a passar.
enquanto os corpos se movem e dançam ao som de uma música que nem sabem, que não ouvem. e eu vê-las nesse ritmo, a moverem-se neste ritmo, desfasadas ou não, que lhe dançam o ritmo sem o saberem, sem saberem o ritmo a que vão, nem quando acaba o ritmo, nem quando acaba a música. sem saberem quando acaba o movimento. não sabem.
não sabem se velozes se deslocam, demais para o ritmo da dança, se devagar. não sabem. ninguém sabe. nem eu, por mais que os observe. nem eu, sob que danças se movem, sob que ritmos, o que as faz mover e passar. nem eu, que as observo. impossível aprender as regras dos seus movimentos.
por isso, observo. só.
e enquanto as vejo, passa-me na mente que quando as pessoas se movem, num centro comercial ou onde for, se movem sem destino. que até podem achar que o têm, mas que o caminho é tanto e as montras tão apetecíveis. e ou o tempo o têm contado, ou o tempo é para sempre infinito. até que cesse a música.
que quando as pessoas se movem, num centro comercial ou onde for, circulam à medida do espaço que lhes é dado. que os objectivos de destino se perdem tantas vezes. que tantas vezes perdem o rumo. perdemos o rumo.
estar no meio das gentes, sentada, a ouvir música, a ouvir a minha música, desfasada talvez de todas as outras, e contemplar os movimentos, os ritmos, as velocidades, os relacionamentos. contemplar a vida e a matéria. a luz. ter os fones nos ouvidos e ver as coisas assim, a esse ritmo, ao meu ritmo. ver as coisas e não poder tirar nada, rigorosamente nada, dessa observação.
quarta-feira, fevereiro 16, 2011
falência multiorgânica
dizem que vem por acaso, que escolhe sem dedo.
que pode ser qualquer um.
gera-se o PÂNICO. eu? eu? eu?
uma ova.
ela vem para atacar os fracos.
são sempre esses que sofrem os males.
(cuidemos das nossas fragilidades. são elas que nos lixam.)
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velhice precoce
sexta-feira, outubro 08, 2010
because life is a ever ending story.
- All right, Xayide. I will make my last wish. I wish...
for you to have a heart!*
for you to have a heart!*
(sabia muito bem ele a importância de ter um.)
(*Bastian Bux; George Miller, The Neverending Story II: The Next Chapter, 1990)
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